20/05/21

Fringe benefits




Os fringe benefits (benefícios sociais, acção social complementar ou benefícios adicionais) (1) são um subsistema de apoio social das organizações que visa complementar necessidades permanentes ou de emergência ou, ainda, uma  regalia dos seus trabalhadores.

São muitas vezes uma maneira de complementar, em espécie ou com subsídios, os salários dos trabalhadores (remuneração indirecta). (2)

Têm como objectivos fundamentais:

- esbater as diferenças salariais dos trabalhadores, na medida em que todos têm acesso aos serviços e prestações sociais concedidas.

- motivar para o trabalho  e  manter a motivação na organização.

- contribuir para a estabilidade familiar dado que os apoios se verificam em relação a pessoas mais frágeis, crianças, idosos, famílias com carência económica.

- proteger as franjas menos remuneradas e mais carenciadas dos profissionais da organização.

- diferenciar e prestigiar a organização e servir de atractividade no recrutamento de pessoal e manter a  continuidade dos trabalhadores na  empresa.

- contribuir para o bem-estar dos trabalhadores através de actividades culturais,  desportivas, de férias e lazer...


Os benefícios sociais existem em praticamente todas as empresas e organizações (3), privadas ou estatais, como instrumento da gestão para melhorar o desempenho e a motivação e dessa forma aumentar a produtividade.

O estado   é a maior organização empresarial do país. Como tal criou serviços de acção social complementar para os trabalhadores nos vários ministérios governamentais.

Os actuais serviços sociais da administração pública (SSAP) são o resultado da fusão de vários de serviços sociais de vários ministérios, como os serviços sociais da presidência do conselho de ministros, do ministério da saúde, da educação ....  

 

Também nas empresas privadas foram criados benefícios sociais como seguros de saúde, actividades de animação sócio-cultural e desportiva como os CCD (Centros de cultura e desporto), para além de serviços públicos de acção social complementar como o Inatel, as pousadas de juventude ...  

Muitos destes serviços sociais são também responsáveis pela assistência na saúde como os SAMS dos bancários ou os serviços sociais da CGD, das forças armadas, forças de segurança, de muitas empresas...

 

A responsável do governo para a Modernização do Estado e da Administração Pública, Alexandra Leitão, foi pouco sensata ao querer criar uma residência para alunos do ensino superior, em Lisboa.  Certamente a ministra podia fazê-lo, se se entendesse que este apoio correspondia a uma necessidade dos beneficiários. E corresponde. Porém não teve em conta o timing, a situação real das necessidades de todas as famílias portuguesas com  alunos que têm de se deslocar para estudarem na universidade, numa área em que há imensas carências de residências para estudantes. Por outro lado, nesta área há alternativas para esta necessidade como o subsídio de estudos.

Claro que por tudo isto, a governante foi contestada e nem se esperava outra coisa. Pena é que a contestação seja aproveitada para atacar os chamados privilégios dos funcionários  públicos...

 

Apesar do que disse sobre a necessidade e importância dos  benefícios sociais, que os justificam, são, de facto, um privilégio. Mas é da sua natureza  serem um privilégio.

Assim, há que ser claro. Ou eles existem nas organizações como contributo para a melhoria da qualidade de vida dos seus trabalhadores e com vantagens para as organizações ou, então, imponham limites ao seu âmbito de actuação ou, finalmente, acabem com eles mas assumam essa responsabilidade pelas consequências daí resultantes. *

 

Até para a semana.

 

 

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(1) Idalberto Chiavenato, Administração de recursos humanos, vol. 3, Ed. Atlas, 1985, cap. 2 - Planos de benefícios sociais, pags 100-112.


(2) Normalmente estes serviços são sustentados com verbas do orçamento do estado mas também são comparticipados  pelos beneficiários. Aliás nenhum serviço deve ser gratuito  (I. Chiavenato, pag. 110).


(3) Os benefícios sociais têm história recente (I. Chiavenato, pag. 101) mas as organizações desde sempre tiveram este assistencialismo que dependia da vontade dos empresários: habitação económica, creches para os filhos dos trabalhadores, transporte para as fábricas... Basta ver os extraordinários exemplos de Alfredo da Silva ou de Rui Nabeiro. Em entrevista recente, Rui Nabeiro disse que gostava de ver o sorriso dos trabalhadores e, por isso, os apoiava na saúde (odontologia). Obviamente que este paternalismo assistencialista ou este Plano de Benefícios socais da Delta cafés significa também benefícios para a empresa. 

* Nota - Tenho uma visão muito positiva dos fringe benefits. Fui e sou beneficiário de alguns serviços sociais. Trabalhei como técnico superior (psicólogo) nos Serviços Sociais da Presidência do Conselho de Ministros (SSPCM) de 1987 a 1991. 









15/05/21

A nova censura

Estátua da liberdade - Paris



A liberdade de expressão é um assunto extremamente sensível que deve ser tratado com todo o cuidado.
“No dia 8 de Maio de 2021, foi promulgada (1) pelo Presidente da República aCarta de Direitos Humanos na Era Digital que estabelece um novo Direito: a “protecção contra a desinformação”. Trata-se de uma proposta do PS e do PAN. (2)
Quando se trata de controlar a informação, a tentação do poder é grande e agora foi encontrado um pretexto, a internet, a informação via internet.

Na semana em que um secretário de estado (3) classifica o programa da RTP1, 6ª às nove, como “estrume”, justifica-se ainda mais a preocupação. 
O poder tem sempre a tentação de calar as vozes discordantes. Para a húbris o poder é mais forte quando controla a comunicação social. 

Uma das mais importantes “conquistas” do 25 de Abril foi a liberdade e a liberdade de expressão sem a qual não existe aquela. O direito à informação livre é uma visão positiva do funcionamento social mas o que esta legislação vem trazer é uma visão negativa, restritiva, sem critérios... Misturar isto com direitos humanos é, realmente, a primeira desinformação.

O diploma tem aspectos positivos (4) mas outros são perigosos para a democracia como o conceito de desinformação e a forma de a controlar.
Por desinformação entendem “toda a narrativa comprovadamente falsa ou enganadora criada, apresentada e divulgada para obter vantagens económicas ou para enganar deliberadamente o público, e que seja suscetível de causar um prejuízo público, nomeadamente ameaça aos processos políticos democráticos, aos processos de elaboração de políticas públicas e a bens públicos.”
Estas narrativas falsas são, entre outras, referentes à “saúde, meio ambiente ou segurança”. Ou seja, a todas as narrativas.

E quem vai controlar estas narrativas é a ERC, Entidade reguladora para a comunicação social, porque “Todos têm o direito de apresentar e ver apreciadas pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social queixas contra as entidades que pratiquem os atos previstos no presente artigo... “ (nº 5, artº 6)
Além disso, “O Estado apoia a criação de estruturas de verificação de factos por órgãos de comunicação social devidamente registados e incentiva a atribuição de selos de qualidade por entidades fidedignas dotadas do estatuto de utilidade pública.” (nº 6, artº 6º)
Já tínhamos a comunicação social de referência e agora passará a haver “estruturas de verificação de factos por órgãos de comunicação social”, com selo de qualidade! 

Como se conjuga isto com a constituição? Não se conjuga porque a Constituição da República Portuguesa garante nos artigos 37º e 38º a Liberdade de Expressão e de Imprensa, não podendo ser limitados por “qualquer tipo ou forma de censura” e assegurando a “liberdade e a independência dos órgãos de comunicação social perante o poder político”.

Em conclusão: eu não quero este direito, obrigado! Chega-me a Constituição para definir o que é liberdade de expressão e os Tribunais para julgarem e decidirem quem comete infracções contra ela. 



Até para a semana.


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(1) Lamento que o Presidente Marcelo, por quem tenho todo o respeito como se pode verificar pelos textos deste blog, tenha promulgado esta lei sem qualquer reparo  à perigosidade que contém  para a liberdade de expressão.

(2) Aqui está a votação. Apesar do discurso de J. Cotrim Figueiredo não houve votos contra. 

(3) O Sr. João Galamba. Mas depois do primeiro ministro ter dito que Paulo Rangel, Poiares Maduro, Ricardo Baptista Leite, "lideram uma campanha internacional contra Portugal", de chamar a Rio, que se põe a jeito e por quem não tenho simpatia, "cata-vento" sem pontos cardeais, do Sr. Cabrita ter chamado partido "náufrago" ao CDS, de o primeiro ministro ter apelidado de "repugnante" aos países que chamam de "frugais"... o que se pode esperar?

(4) Aspectos positivos desta lei, por ex., herança digital, direito ao esquecimento, direitos autorais em contexto digital...









05/05/21

Manifestações violentas



As manifestações do 1º de Maio em Bruxelas, Paris e um pouco por todo o lado,  apesar do controle dos respectivos aparelhos político-sindicais dos partidos, acabam quase sempre na maior das confusões entre várias facções  e destas com as forças da ordem ...

Estas manifestações, em regimes democráticos, deviam ter um clima reivindicativo um clima de alegria, paz, confraternização entre todos os trabalhadores ... ao contrário são marcadas pela violência entre manifestantes, contra a propriedade privada mas também a pública, violência contra a polícia ...


Movimentos e grupos sociais velhos ou novos, radicais, mas com ideias feitas, dos velhos anarquistas aos novos grupos de “acção directa”, facciosos das novas formas de violência climática, populistas, patrulheiros da linguagem e dos costumes, dos hábitos alimentares, envolvem-se nesta intervenção violenta. 

Claro que há no meio desta gente pessoas bem intencionadas que se vêem envolvidas nesta gelatina  de ideias feitas, indisciplinada, sem regras, onde vale tudo, que se sente abrangida pela impunidade já que o poder, mesmo democrático, tem receio  de enfrentar estas ideias “taxativas”, como se dizia em Maio de 68: “é proibido proibir”.


José Ortega e Gasset, em 1930, há mais de 90 anos, fez a compreensão deste fenómeno e deu a resposta à questão. Escreve:

 .”.. creio que as inovações políticas dos mais recentes anos não significam outra coisa senão o império político das massas. A velha democracia vivia temperada por uma dose abundante de liberalismo e de entusiasmo pela lei. 

 ... Democracia e Lei, convivência legal, eram sinónimos. Hoje assistimos ao triunfo de uma hiperdemocracia em que a massa actua diretamente sem lei, por meio de pressões materiais, impondo suas aspirações e seus gostos. “

O cap. VIII  da Rebelião das massas * tem justamente o título: "Por que as massas intervêm em tudo, e por que só intervêm violentamente".

É assim porque o “homem médio” tem "ideias" taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo. Por isso perdeu o uso da audição. Só se ouve a si próprio e é cego e surdo para a opinião dos outros.

Estas “ideias" taxativas não significam exactamente cultura. Refere Gasset: “O que digo é que não há cultura onde não há normas a que se possa  recorrer. Não há cultura onde não há princípios de legalidade civil a que apelar. “...

“Quando faltam todas essas coisas, não há cultura; há, no sentido mais estrito da palavra, barbárie. E isto é, não tenhamos ilusões, o que começa a haver na Europa sob a progressiva rebelião das massas." (p.136-137)


Donde vem tudo isto?

Gasset refere: “aqueles grupos sindicalistas e realistas franceses por volta de 1900, inventores da maneira e da palavra "ação directa". (p. 139)

Estes grupos de "acção directa", de facto, estão em tudo, são violentes e não se pode questionar as “ideias” do homem-massa seja sobre o que for:  o clima, a história, o racismo, o colonialismo, a escravatura, as políticas, os comportamentos... 


Até para a semana.

 

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 * Há uma edição brasileira em formato digital - A rebelião das massas.










29/04/21

Amor e ódio


A RTP1 exibiu na última semana alguns filmes clássicos como Lawrence da Arábia, West side story - amor sem fronteiras, Green book – um guia para a vida, que me sugeriram haver entre eles um fio condutor: o amor em contraposição ao ódio que torna o amor impossível. 

A vida de Lawrence da Arábia (1) manifesta um personagem singular que se envolve na luta de árabes contra o império turco-otomano,  com a violência que sempre acompanha estas guerras pela supremacia entre povos.  

Em West side story - Amor sem fronteiras (2), o conflito entre jovens de Nova York,  de um gang de anglo-saxónicos  versus um gang de porto-riquenhos, mostra como o ódio de grupos diferentes torna impossível  o amor entre as pessoas e a felicidade algo sempre distante.

Em Green book – Um guia para a vida (3), somos confrontados com a ligação inesperada entre um pianista afro-americano de renome mundial,  músico clássico, com um italo-americano, o seu motorista, em que ambos  enfrentam os perigos de uma era de segregação racial, ligação que não é compreendida nem aceite  pela sociedade da altura (anos 60).  


Nestas três situações podemos constatar que o amor e o ódio  atingem  toda a sociedade: indivíduos, famílias, etnias, grupos... O conflito e o ódio não são nem mais nem menos do que uma mancha que se espalha igualmente por toda a sociedade e têm acompanhado toda a história da humanidade: West side story é a história de Anton e Maria, no séc. XX (1961), de Romeu e Julieta, no séc. XVI (1591), de Píramo e Tisbe, no sec. I AC.


Para os etologistas, amor e ódio são comportamentos etológicos fundamentais  inscritos na nossa natureza, inatos. Por isso, o ódio está em ambos os lados dos conflitos, sejam racistas, xenófobos, religiosos, políticos, desportivos, de discriminação social ou outra, violência familiar e doméstica,...

A  pergunta é então: por que não mudam os comportamentos das pessoas, ou seja, por que não se procuram outros caminhos igualmente etológicos como a ritualização e os comportamentos vinculativos ?

Mesmo quando há vencedores nestes conflitos, a prazo são todos perdedores, como em West side story, mas isso não é suficiente para inibir o ser humano a que o ódio  volte sempre a renascer das cinzas do último conflito...


A esperança de ultrapassar o ódio, apesar disso, é que também pode haver mudança, se os indivíduos forem vistos como  seres humanos e não como grupos diferentes, inferiores ou superiores. A esperança de que a vitória está na vinculação amorosa  entre  Anton e Maria, que  não conseguiram superar o ódio dos gangs, nem evitar uma batalha de rua, fatal, mas que coloca a interrogação: Para quê o ódio ?  

No nosso futuro, a nossa vida vai continuar a ter estes comportamentos etológicos: agressividade e amor. Quero acreditar que um dia, qualquer individuo será visto como ser humano e os vínculos amorosos terão um papel efectivo nas nossas relações.

 

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(1) O argumento do filme baseia-se na biografia de T. E. Lawrence (1888–1935) descrita no seu livro Sete Pilares da Sabedoria. Realização: David Lean (1962).

(2) West Side Story - Amor Sem Barreiras. Realização de Robert Wise. (1961).

(3) Green Book - Um guia para a vida. Realização de Peter Farrelly (2018).






23/04/21

Psicologia da corrupção 3


Por que é que jogo no euromilhões ? Se nunca me sai nada e a probabilidade de sair é praticamente nula porque insisto semanalmente em tentar a sorte grande ?

O que me move neste comportamento é sobretudo a crença de que o dinheiro,  resolveria os meus problemas e satisfaria a ambição de ter uma boa vida, com tudo o que isso implica. 

Para atingir estes fins há quem não queira esperar por esta "basuca" pessoal e prefira os atalhos. A política na sua versão menos nobre  é um dos atalhos que me pode dar o euromilhões.  

Tentar a sorte por estes caminhos ínvios parece ser cada vez mais frequente, tolerado e banalizado, encolhemos os ombros e sentenciamos: “são todos iguais”.

 

Porém, na corrupção não há apenas uma pessoa mas uma rede que envolve corruptores, corrompidos, cúmplices silenciosos ou activos onde todos são ganhadores ou pelo menos pensam que são.

O que se passou no processo “operação marquês” foi exactamente esta tolerância e cumplicidade de várias instituições, principalmente de um governo e de  um partido onde ninguém viu ou sabia de nada, ninguém disse nada, mas onde imperam compromissos, tácitos ou não, tanto mais fortes quanto o nível de recompensas que daí advêm.

E tudo isto feito com a tolerância de cidadãos que elegem democrática e repetidamente  estas pessoas ... 

 

Se pensarmos que  a corrupção não é um acontecimento recente, sempre existiu, e está entranhada nas democracias de forma sistémica, como compreender este comportamento? 

Podemos pensar a  corrupção a três níveis:  Individual, cultural e social.

Digamos que a cultura e a sociedade  proporcionam e facilitam a corrupção. A organização do estado, a organização das autarquias, facilitam estas circunstâncias, com a contratação directa de bens e serviços, o nepotismo, a criação de empresas municipais, a mistura estado-empresas como as PPP (1), aempresas e contas bancárias offshore. (2)

 

Porém, nem a cultura nem a organização social, são justificação suficiente para se entender este comportamento. O que parece ser essencial no desvio comportamental, na  desonestidade, na ambição excessiva do sucesso sem olhar a meios, está no indivíduo, no seu desenvolvimento psicológico, na aquisição de princípios éticos e morais que permitem tomar decisões íntegras sobre a verdade e a mentira.(3)

Então será que é possível quebrar estas redes de corrupção a partir de uma educação voltada para a  ética e assente na modelagem feita na família e nas instituições ? É certamente necessário aumentar os mecanismos de fiscalização e diminuir a sensação de impunidade dos acusados.(4) É necessário que as instituições do estado sejam independentes. Mas não chega mudar as leis (5). É 
necessária uma reflexão profunda sobre o silêncio, a tolerância e a banalização do mal, como escreveu Hannah Arendt. Estes desvios não se justificam por estarmos a obedecer a ordens, por fazermos parte de uma engrenagem de que não podemos sair. Podemos sempre dizer não, “não vou por aí”.


Até para a semana, com muita saúde.

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(1) Como aqui refiro, as PPP podem ser vantajosas para a organização do estado e da sociedade mas isso depende da forma como forem negociadas... 

(2) E também onshore. "O termo offshore vem dos tempos dos corsários que saqueavam os mares e depositavam a pilhagem offshore (fora da costa)" (Wikipédia)


(4) “Quando os corruptos começam a roubar, podem se sentir culpados, mas, então, se acostumam com isso e não se importam mais. Se não forem punidos, esse comportamento ficará cada vez mais normal”, Antoine Bechara. 
O neurocientista compara o cérebro do corrupto sistêmico, incluindo políticos desonestos, ao de um psicopata, cuja amígdala funciona de maneira diferente do restante da população. “O psicopata verdadeiro tem uma patologia real no córtex pré-frontal. Ele não se sente obrigado a seguir as regras”, diz Bechara. “A raiz do comportamento corrupto está na recompensa. Nós não agimos dessa forma porque conseguimos controlar nosso comportamento e, na minha opinião, fazemos esse controle por causa da punição. Se o corrupto não é condenado pela Justiça, não há razão para deixar de se comportar de maneira desonesta”, acredita. ("Como funciona o cérebro de uma pessoa corrupta")

(5) Como combater a corrupção quando o centro da corrupção são as instituições democráticas: parlamento, governo, autarquias, etc.? Talvez por isso seja tão difícil legislar sobre enriquecimento ilícito/injustificado, embora haja questões de constitucionalidade que devem ser salvaguardadas (Transparência e integridade). Se for desta vez que a lei passa, podemos esperar que não vai ser mais um daqueles procedimentos burocráticos que fazem parte do "lado A" da corrupção? (Eduardo Sá, "Os rezingões da vida").











21/04/21

Negação e crítica

Memorial do Holodomor em Kiev, Ucrânia


A negação é um mecanismo psicológico de defesa pelo qual o indivíduo, de forma inconsciente, não quer tomar conhecimento de algum desejo, fantasia, pensamento ou sentimento. 
Anna Freud estudou os vários mecanismos de defesa sendo a negação um mecanismo da mente imatura porque entra em conflito com a capacidade de aprender e lidar com a realidade. 
Quando a realidade é demasiado perturbadora, a negação é um recurso do EU que tem como função tornar possível aceitar a realidade. 
No entanto, a negação é importante na nossa vida psicológica, porque permite ajustamento à realidade, negando-a, nas mais diversas situações: em geral, ninguém se considera corrupto, abusador, criminoso. Da mesma forma, que começamos por negar uma doença grave, a morte de um ente querido...

Porém, também é um mecanismo que levanta por vezes controvérsia porque origina, facilmente, “teorias” dogmáticas que têm que ser aceites por todos, sem pestanejar e  quem mantenha uma posição crítica é classificado como estando "em negação".*
A negação, nos últimos tempos é usada por tudo e por nada, na política, na história, na ciência... O rótulo negacionista tem sido ligado ao clima, às posições fracturantes, às vacinas, à história dos países... 
Parece haver um negacionismo bom identificado com progresso, evolução, defendido pela chamada esquerda.
Alguns exemplos deste negacionismo bom:
- Negar as purgas, os assassinatos, a repressão, o culto de personalidade de Estaline;
- Negar o que se passou na revolução cultural de Mao-Tsé-Tung...
É por isso que 
- Rita Rato nunca ouviu falar do gulag;
- Bernardino Soares não admite que a Coreia do Norte seja uma ditadura;
- F. Louçã ignora o Holodomor, a grande fome na Ucrânia **;
- Muita gente ostenta garbosamente a t-shirt com a efígie de Che Guevara; 
- Maduro na Venezuela não é ditador;
- etc.
Serão negacionistas? 

Pois é. Pretendem que haja um negacionismo chique, encoberto e bom, entre o carneirismo e o modismo, que é apenas um método de suprimir outras perspectivas alternativas.
Negacionismo, é uma palavra importante para definir pensamentos e sentimentos que deve ser utilizada com propriedade e em relação a todas as situações. 

Muitas posições críticas são apresentadas como negacionismo. Mas ser crítico não é ser negacionista. É fundamental que exista contraditório e diversidade de pontos de vista, a humildade de não saber tudo mesmo quando se trata de ciência – o caso das vacinas para a covid -19 é um bom exemplo.

Não há crimes contra a humanidade não aceitáveis e outros mais ou menos aceitáveis e ignorados propositadamente.
Não há negacionismo chique e bom nem negacionismo erróneo e malvado.***
O negacionismo é sempre uma maneira de negar a realidade para escapar a uma verdade desconfortável.
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* O teste da refutabilidade, é a propriedade de uma asserção, ideia, hipótese ou teoria poder ser mostrada falsa. (Karl Popper)
**Ou o  papel de Trosky e do Exército vermelho na repressão de Cronstadt.
*** Na verdade a indústria do tabaco como a do açúcar nos EUA têm sido acusadas de terem o objetivo (não declarado) de semear dúvidas sobre os perigos para a saúde do tabaco e do açúcar.
Também são acusadas empresas petrolíferas de pagarem estudos desfavoráveis à tese das alterações climáticas...
Por outro lado, não se pode esquecer quem  financia os movimentos "do bem" como as campanhas das alterações climáticas antropogénicas, o negócio do carbono, as campanhas, um pouco por todo o lado, a do que "é verde é bom", o aproveitamento dos movimentos sociais por parte de Ongs, Fundações, especuladores, empresas internacionais ou nacionais... 
A manipulação, também chamada activismo, muitas vezes activismo violento, é o objectivo daquelas mas também destas  organizações, como refere o ex-presidente da Greenpeace, Patrick Moore "Moore observou como as empresas “verdes” parasitam os contribuintes através de regulamentos favoráveis e subsídios justificados pelas alegadas ameaças das “alterações climáticas”, enquanto desfrutam de protecção propagandística de toda a comunicação social."












Ouvir...

 


OUVI A VOSSA SOLENE MELODIA, TUBOS DE ÓRGÃO



                      Ouvi a vossa solene melodia, tubos de órgão, no passado domingo
                                     de manhã ao passar pela igreja,
                      Ventos de Outono, ao atravessar dos bosques, ao crepúsculo, ouvi os
                                     vossos longos suspiros prolongando-se lá no alto, tão tristes,
                      Ouvi o perfeito tenor italiano cantando na ópera, ouvi o soprano
                                      cantando no meio do quarteto;
                      Coração do meu amor! a ti também te ouvi murmurar baixinho
                                       através de um dos pulsos à volta da minha cabeça:
                      Ouvi o teu pulso, ontem à noite, quando tudo estava em silêncio,
                                       soar como pequenos sinos ao meu ouvido.


Walt Whitman, Folhas de erva, p.104

 

 

09/04/21

Uma viagem espacial




O melhor disto tudo é que, se quisermos,  podemos  viajar pelo espaço e pelo tempo. Faça chuva, faça sol, haja pandemia ou doenças, a vida é sonhar e imaginar um mundo onde a realidade é igual à fantasia. 
Assim, podemos fazer muitas coisas maravilhosas, ao mesmo tempo, como estar na terra, viajar no passado e no regresso ao futuro  e ao mesmo tempo viajar pelos mais divertidos  sítios do espaço.  
Qualquer tempo é bom para viajarmos sem tempo. No Natal ou no Verão podemos viajar por onde quisermos, sem frio e sem calor, no espaço e tempo em que só podemos ser felizes. Seja tempo antes da covid ou depois da covid, podemos viajar  pelas alegrias e tristezas que são tempo em que nos lembramos dos tempos antes de nós e fazemos o tempo de agora.

- Avô, brincas comigo ?
A nave espacial já estava preparada e pronta para descolar a qualquer momento.
A minha primeira dificuldade é entrar na nave porque as dobradiças dos joelhos já não funcionam com aquela elasticidade de outros tempos mas com jeito consegue-se um lugar  desde que sentado com as pernas "à chinês".

Para descolar, o comandante liga os botões e começa a contagem, que neste caso, não é decrescente. A nossa nave descola aos 10. Então vamos descolar: um dois três ... nove, dez.  Vrooooooomm!
E lá vai a caminho do espaço. Silêncio. Silêncio apenas interrompido pela turbulência que se faz sentir na nave, por vezes grande, tum, tum, toc, toc... e os asteróides são um perigo para a nevegação... 
- Vamos cair, vamos cair... 
No painel de bordo acendem  os botões vermelhos de perigo... 
- Cuidado! Cuidado!
- Já passou.
O comandante tem hoje um destino. Deixa cá ver a carta espacial. Indica Parque Jurássico e... Caraíbas...
No Parque podemos ver o raptor, o pterodathil, brontosaurus, tyrannosaurus...

E continuamos pelo espaço. De um dos lados da nave podemos ver pelas escotilhas a terra azul e do outro lado a lua cheia e branca.
A navegação corre bem apesar de alguns solavancos que a fazem tremer e, às vezes, parece que vai desfazer-se... Mas o perigo acaba por passar.
Porém, o problema maior é aterrar. O comandante da nave quer continuar no espaço e não há maneira de decidir que já é tempo de voltar à terra.







Inclusão 2


Símbolo de acessibilidade proposto pela ONU



ONU cria novo símbolo para acessibilidade | BLOG PLUS

Você já viu esse símbolo? Ele é o novo símbolo da ...


1. Felizmente, neste tempo que levo de vida, vi acontecer muitas mudanças inclusivas na sociedade: na escola, na segurança social, nas acessibilidades, nos comportamentos das pessoas. Participei em algumas dessas mudanças.

Então, desde há muito aprendi que a inclusão não é uma obra acabada mas um processo em construção a cada momento. 

A inclusão é uma atitude necessária da vida, como a liberdade, a democracia e a justiça. Faz parte de qualquer organização social democrática decente. 

 

Esta mudança social tem vindo a fazer-se com a evolução da inclusão concreta na educação com a metodologia "desenho universal de aprendizagem" (UDL),   no trabalho, na melhoria das acessibilidades, na linguagem que respeita as diferenças, não seja estigmatizante, adequada à vida das pessoas.

Esta mudança social diz respeito a todos. Sim, todos precisamos de inclusão e todos precisamos de linguagem inclusiva.


2. Sou do tempo em que a educação escolar era feita em escolas separadas para  rapazes e raparigas. Foi por isso que a coeducação teve importância na eliminação de muitos dos fenómenos que podiam dar vantagens a uns ou a outros.  Os mundos separados da educação, porém, eram compensados pela convivência extra escolar, nas famílias, nos jogos, no tempo de brincadeira que era todo o tempo em que não estávamos na escola. Qualquer défice que pudesse existir na educação formal seria ultrapassado na educação informal.

Ou seja, para quem tinha a ilusão de que a coeducação podia resolver o problema dos  estereótipos, do bullying, da violência doméstica ou outra, percebeu, como prova a realidade diária das nossas escolas, que  não é assim tão simples...

Muitos comportamentos têm a ver com o desenvolvimento psicológico como, por exemplo, quando raparigas e rapazes têm tendência a criar grupos do mesmo sexo. O contrário é que seria estranho.

 

3. Sou do tempo do livro único*, que podia ter aspectos vantajosos como o económico para o estado e para as famílias, mas muitas desvantagens. Hoje não teria grande sentido haver manuais escolares aprovados centralmente que divulgassem estereótipos, estatutos e papéis sexuais baseados na diferenciação sexual. 

Mas pelos vistos também este não é um factor que, isoladamente, vai resolver o problema do respeito pelas diferenças.


4. Sou do tempo em que havia no Ministério da Qualidade de vida, a Direcção de Serviços de Orientação de Consumos, o Gabinete do Consumidor, onde ficámos a perceber que o perigo vinha dessa "orientação" e do papel que a psicologia e em particular o condicionamento operante (A manipulação dos espíritos) tem nos nossos comportamentos. Tenho a agradecer a Ernesto Melo e Castro, ter alertado para isso. Tudo o que se podia fazer era estudar e apresentar dados objectivos sobre comportamentos de consumo e dar a possibilidade a cada um de pensar e tirar as suas conclusões. Foi assim que se tratou, por exemplo, o alcoolismo, o tabagismo, a publicidade, o consumo... com Beja Santos, Manuel Barão da Cunha. 

5. Sou do tempo em que na Direcção-geral da segurança social/acção social se procurava a integração e a inclusão das pessoas com deficiências e doenças mentais e criar respostas mais humanizadas para os diversos níveis etários, com base em critérios vindos das várias disciplinas que podiam favorecer aquela perspectiva: psicologia, pedagogia, geriatria, arquitectura... Passei grande parte da minha vida profissional a defender a inclusão educativa das pessoas com deficiência ou doença, ou dificuldades de aprendizagem, as necessidades educativas especiais. 
Na equipa de Maria Helena Cadete, participei no estudo e na criação de legislação que permitiu à pessoa com deficiência ter respostas organizadas, ou seja, legislação que lhes possibilitou essa inclusão desde as deficiências mais ligeiras às mais profundas, como a criação dos CAO (Centro de apoio ocupacional), ou em trabalhos sobre as acessibilidades e equipamentos para crianças com deficiências sensoriais e mentais. 
Todo este trabalho ficou bem evidenciado no Ano internacional das pessoas com deficiência, onde colaborei no estudo do apoio ao deficiente mental profundo.
Com Fernanda Infante, colaborei no estudo das famílias monoparentais (até então, a segurança social interessava-se principalmente com as designadas "mães solteiras") e no estudo de "Famílias reconstituídas" (antes nem designação havia para os casos de recasamentos em que havia filhos, etc.)...

6.  Sou do tempo em que a inclusão foi e é um trabalho diário nas escolas ainda mais após a Declaração de Salamanca (10 de Junho de 1994), sobre princípios, políticas e práticas na área das necessidades educativas especiais.

 

7. Faz sentido, por outro lado, que sejam introduzidas alterações na abordagem de assuntos que dizem respeito a essas diferenças, como acontece com as revisões do DSM (Manual de diagnóstico e estatística das perturbações mentais) como por exemplo  com a classificação das deficiências ou das "perturbações" mentais que para muita gente e em algumas traduções continuam a ser designadas como "transtornos" ou "distúrbios".

8. E tudo isto era e é positivo, inclusivo. As diferenças eram vistas como um enriquecimento, como espelho de nós próprios, como nossas, que cada um de nós é diferente de todos os outros mas a sua referência porque como dizia Amaral Dias "quanto mais me vejo menos me conheço", e em qualquer altura, com mais ou menos idade, faria parte de um dos grupos com esta ou aquela necessidade especial.

 

9.  Então é necessário trabalhar pela inclusão:

- para não continuarmos a construir casas e equipamentos sociais sem acessibilidades mesmo que a lei obrigue a fazê-lo;

- criar cidades para todas as pessoas, mais importante do que novos símbolos para acessibilidades;

-  mudar os métodos de ensino/aprendizagem dando oportunidades educativas aos alunos  de acordo com as necessidades de cada um;

- criar acessibilidades a nível do currículo; 

- utilizar a informática como instrumento importante no processo ensino/ prendizagem;

- Utilizar uma linguagem inclusiva o que não quer dizer neutra porque a inclusão não é neutra nem a linguagem é neutra. Nunca o foi nem será. E não será uma qualquer geringonça gramatical que tornará a linguagem neutra. 

A linguagem não é neutra, felizmente, e a inclusão é outra coisa.


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* Sobre os  manuais escolares e livro único.