10/10/13

A mãe natureza




A fragilidade da sociedade actual, politica, social e económica é sistémica e interdependente e deveria não só ser vista nessa perspectiva, mas também com novos formas de análise e instrumentos de trabalho.
A crise de 2008 veio mostrar essa fragilidade. Ninguém ou praticamente ninguém previu o que ia acontecer.
Os economistas, politólogos, politicos… não previram nada e pelos vistos continuam a não querer perceber o que se passou e a fazer os mesmos tipos de análises: esquerda/direita, democratas/republicanos, pobres/ricos, público/privado, austeridade/crescimento, finanças/economia, cortes/aumentos, privatizações/nacionalizações, progressistas/conservadores...

Na natureza a chuva voltou na semana passada, mas, nesta semana, aí está de novo o sol e temperaturas amenas. Uns são a favor outros contra a chuva. Há quem ache que devia chover mais tarde e outros que a chuva já devia ter vindo mais cedo. Por causa das vindimas, por causa da azeitona, por causa da fruta, por causa do calor…
Na Primavera, as previsões eram de que este ano não haveria Verão. Enganaram-se redondamente.
Felizmente, a decisão de chover ou não chover, não depende nem vai depender de seres humanos nem sequer vai depender do Tribunal Constitucional !

Em Lampedusa, na Itália, morrem centenas de imigrantes que procuravam na Europa os direitos humanos que não tinham nas suas terras.
Nos Estados Unidos, a sociedade entrou em shutdown não se sabe por quanto tempo. Apenas funcionam os serviços indispensáveis.
Algures na serra da Lousã um jovem casal, ele português ela irlandesa, que se tinham encontrado em Londres onde trabalhavam, resolveram deixar a agitação e o frenesim da grande metrópole para regressarem à mãe natureza, às serras, às quintas, onde ainda há vestígios das casas e das culturas deixadas pelos avós e bisavós. Querem seguir os princípios da mãe natureza e os ritmos naturais do desenvolvimento para os filhos 

A mãe natureza vai fazendo o seu trabalho. Os humanos poderiam ter mais sucesso se copiassem os seus ensinamentos.
Um desses ensinamentos é que a natureza é lenta. Tudo tem o seu tempo para crescer e se desenvolver. 
A natureza é redundante de modo a que quando um sistema falha outro poderá suprir o seu défice.
A especialização deve ter alternativas para o caso de essa especialização falhar.
A natureza não gosta de nada demasiado grande porque é feio e é frágil. Como costumamos dizer, “quanto maior é a nau maior é a tormenta.” Em vez disso, há uma competição patética pelo maior arranha-céus do mundo, pelo maior supermercado do mundo, pela maior qualquer coisa do mundo…
Por cá, também gostamos disso: mega é a palavra mais usada. Mas errada.
Na educação passamos a construir mega-agrupamentos e parques/centros escolares a 50 Km da casa dos pais, a aumentar as grandes metrópoles com a desertificação do interior ou do mundo rural.
A fusão de empresas, criando maiores empresas, dominantes no mercado, tornam a concorrência meramente virtual. Veja-se o que se passa com o sector energético, com as telecomunicações …

A crise de 2008 foi apenas mais um aviso de que é necessário seguir outros princípios. A menos que se queira cometer os mesmos erros e fragilizar ainda mais a natureza e a sociedade em vez de procurarmos torná-las mais robustas.

(Inspirado em N. Taleb)

09/10/13

Magia na diferença


Jamie Oliver, devido à dislexia, leu o primeiro livro aos 38 anos. Teve muitas dificuldades de aprendizagem e não completou nenhum curso regular.
É bem o exemplo de "não sei fazer isto mas sei fazer aquilo".
Jamie Oliver é responsável por muitos jovens terem começado a cozinhar, fazendo as suas próprias refeições de forma mais saudável.

A educação alimentar, dispersa no currículo de ciências, podia ter mais espaço nos projectos da escola e, certamente, com sucesso.  Esta é também uma forma de educação positiva.



“If we can get gardens growing, food education in the classroom and better school dinners; if we can teach communities to cook and give young unemployed people the skills to succeed, we've got a really powerful, inspirational catalyst for change, both now and for generations to come. We all have the opportunity to come together and do something that really makes a difference.” Jamie Oliver

08/10/13

"A house is not a home"



E uma casa não é um lar 
Quando não há ninguém lá para te abraçar,
E ninguém que te dê um beijo de boa noite.


Simplicidade e ternura. O que qualquer criança percebe nos pais, a necessidade que apenas implora um lar.
Depois do trabalho na escola, onde ouvi os estratagemas, chantagem, uso, para tirar vantagem um do outro... a serenidade de Burt Bacharach e Bill Evans.

(Versão Dusty Springfield/Burt Bacharach)


(10-4-2014)
Talvez esta versão...




07/10/13

+ artes - violência


Dia das expressões (2006) - Foto de Maria João 


As diversas expressões artísticas têm um papel fundamental no desenvolvimento das pessoas. Nas escolas, as sucessivas reformas curriculares têm vindo a desvalorizar as disciplinas de artes. A criatividade é desvalorizada, as outras formas de aprender não importam, as disciplinas estratégicas para um desenvolvimento harmonioso, como a actividade/motricidade/desporto, o vasto mundo das artes visuais, a música, são interessantes apenas para as evidências das actividades extra-curriculares.
Como todos sabemos e como costumo dizer aos professores e pais: quanto mais actividade menos hiperactividade.
Temos vindo a defender a importância das artes no currículo. Uma estratégia inteligente passa por dar relevo às diversas expressões artísticas e desportivas e não o contrário, como tem acontecido nas últimas reformas curriculares.
A redução da instabilidade tem tudo a ver  com a integração destas disciplinas no currículo, com mais horário e não com menos.
É errado substituir estas disciplinas por coisas do tipo área-escola ou áreas curriculares não disciplinares: área de projecto, formação cívica, estudo acompanhado, e agora oferta complementar  e apoio ao estudo...
Claro que há experiências positivas, claro que há experiências onde muitos desses tempos "tirados" às artes não vão para as disciplinas do costume... mas o contrário também é verdade.
Através do Profblog, esta é mais uma evidência (escola Orchard Gardens) da responsabilidade das artes na melhoria do comportamento dos alunos.


06/10/13

Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável



Em Dezembro de 2002, as Nações Unidas declaram o período de 2005 a 2014, como a Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável (DESD, 2005-2014), nomeando a UNESCO como líder da sua implementação.

 As linhas orientadoras do ME para a Educação para a cidadania prevê:

A Educação Ambiental/Desenvolvimento Sustentável, que pretende promover um processo de consciencialização ambiental, de promoção de valores, de mudança de atitudes e de comportamentos face ao ambiente, de forma a preparar os alunos para o exercício de uma cidadania consciente, dinâmica e informada face às problemáticas ambientais actuais. Neste contexto, é importante que os alunos aprendam a utilizar o conhecimento para interpretar e avaliar a realidade envolvente, para formular e debater argumentos, para sustentar posições e opções, capacidades fundamentais para a participação activa na tomada de decisões fundamentadas no mundo actual.

Há escolas, que é o caso da minha, que decidiram que a educação para a cidadania devia integrar a oferta complementar. Era bom que este assunto fosse dos conteúdos a desenvolver. Tudo depende do que se quiser fazer com esta oportunidade.

Sem dúvida, faz falta esta dimensão (educação ambiental/desenvolvimento sustentável) da educação cívica nos conteúdos dos programas de educação dos nossos alunos, se queremos cidadãos conscientes, hoje e no futuro.


Escola: exigência, rigor, mérito, excelência, igualdade





"A escola é o espaço de formação da cidadania republicana. É na escola que se concretiza, desde logo, o ideal republicano do sucesso pelo mérito e pelo trabalho.
A exigência e o rigor no ensino são, na sua essência, valores profundamente republicanos. O facilitismo na avaliação de alunos e docentes favorece o privilégio e acaba, de facto, por promover a desigualdade.
É num contexto de exigência que se distingue o mérito e o talento, que se recompensa o esforço e o empenho em saber mais. A defesa da qualidade do ensino, a busca da excelência e o reconhecimento do papel insubstituível dos professores correspondem a princípios essenciais de um civismo mais esclarecido, mais informado, mais amadurecido.
Numa República, a escola é o mais importante instrumento de mobilidade social. É através do saber e do conhecimento, avaliados objetivamente, que se combate a tendência para perpetuar desigualdades fundadas nas origens sociais de cada um. Se o ensino perder critérios de exigência e rigor, serão penalizados, em primeira linha, os alunos de mais baixos recursos, aqueles que só através da educação e do mérito podem progredir na sua vida escolar e, mais tarde, na sua atividade profissional.
No entanto, o saber e o conhecimento não podem ser encarados apenas como um meio de promoção social ou como um fator de empregabilidade. Se o mérito escolar promove, indiscutivelmente, o sucesso profissional, a sua importância vai muito para além de uma visão meramente instrumental do conhecimento, da ciência, da cultura.
Na verdade, a cultura tem um valor intrínseco enquanto forma de enriquecimento espiritual de cada um. Daí, em particular, a importância de valorizarmos o conhecimento da nossa História, de salvaguardarmos o património que herdámos do passado, de cumprirmos um dever de memória perante as gerações que nos precederam."

(Do Discurso do Presidente da República na Cerimónia de Comemoração dos 103 anos da Proclamação da República, Lisboa, 5 de Outubro de 2013)

03/10/13

Pensamento







Para que serve a gestão da administração pública ?



DILBERT. Tirada daqui


Os decisores políticos acham que a administração pública faz a bulha e a caramunha. É exactamente ao contrário. São os gestores públicos, que por um lado, acham a administração pública responsável pelo despesismo e logo pelo resgate. Ou seja, a administração pública tem que dar o maior contributo para pagar os seus comportamentos despesistas e, por outro lado, continuam a fazer a análise (queixar-se) de que há funcionários a mais e são pouco eficientes.

Mas os erros vão-se acumulando porque a legislação na administração pública continua a ser irracional, transformando-a numa manta de retalhos* e de que a pressão para reduzir custos é o motivo principal que conduz os programas de gestão desde o PRACE ao PREMAC (Plano de Redução e Melhoria da Administração Central). 

Um dos maiores erros dos gestores da administração pública foi terem terminado, praticamente, com as carreiras na administração. Isso fez-se à custa da indiferenciação: todos os trabalhadores passaram a ser assistentes operacionais, assistentes técnicos, técnicos superiores…

O segundo erro, o outsourcing veio tirar poder às direcções-gerais que passaram a ser mais executoras do que construtoras da definição de políticas sectoriais, com base em pareceres de equipas técnicas de elevada competência, ou, sequer, chamadas a intervir nessas decisões, tomadas pelos serviços contratados no exterior, como as grandes empresas consultoras...
Tal como deixaram de ser os reguladores dos sistemas de respostas económicas e sociais dado o recurso a entidades reguladoras que, no fundo, têm mais dificuldades em serem independentes do poder do estado e do poder das grandes empresas do que os próprios serviços do estado.

Outro erro, é a quase ausência de concursos de ingresso de pessoal para substituição de pessoal necessário a título permanente. Para dar um pequeno exemplo: o último concurso de ingresso para psicólogos na administração pública ocorreu em 1999.
Quanto aos concursos de acesso (mudança de posição/nível) também terminaram, praticamente, após o congelamento das remunerações e a exigência de quotas.

O quarto erro é não darem ouvidos aos sindicatos, pelo menos aos sindicatos mais ou menos independentes, como o sindicato dos quadros técnicos do estado. O dirigente Bettencourt Picanço, recentemente, dizia numa entrevista na TV: Para quê criar um quadro de mobilidade, ou seja, para quê criar uma bolsa de desempregados ? Quando há trabalhadores a mais num sector, o estado pode colocá-los onde fazem falta, não é necessário criar mais um serviço quando os serviços podem fazer a gestão dos seus recursos directamente...

O sexto erro é não se reformular radicalmente a avaliação de desempenho de forma a que o mérito possa ser valorizado de forma objectiva. Não deixa de ser paradoxal, para quem fala sistematicamente que a avaliação de desempenho serve para avaliar o mérito, que a revisão do diploma sobre a avaliação de desempenho vai acabar com a distinção por mérito e suas consequências. 

Outro erro é não tirar todas as ilações das medidas tomadas, como no caso das 40 horas de trabalho. 
Demos de barato as 40 horas, em nome da equidade. No entanto, era bom saber, se, em nome da equidade, também se aplica à administração pública a legislação relativa às condições de trabalho e se a administração pública vai ser inspeccionada pela inspecção do trabalho como acontece com as empresas privadas....
E o que acontece se a Autoridade para as Condições do Trabalho detectar irregularidades e ilegalidades ? Vai multar o Estado ?

Não interessa a lamúria mas será caso para perguntar: o que é que os decisores políticos e gestores públicos podem fazer pelo país ?

*Lei 12-A/2008,  Lei 59/2008, Lei 60/2005, Lei 52/2007,  Lei 118/2008 e Lei 3B/2010, Lei 53/2006, Lei 66-B/2007...

27/09/13

Descubra as diferenças



Sobre soutiens, podemos concordar que se trata de um soutien de génio ao 1:26. Mas qual nasceu primeiro: o de Lady Gaga, o da Vogue (Lara Stone) ou o de Tezenis ?










Sobre seios, anda por aí a "notícia" seguinte: 
A pesquisa aponta que olhar para seios durante dez minutos por dia pode prolongar a expectativa de vida dos homens em até cinco anos e equivale a 30 minutos diários de exercício aeróbico, de acordo com estudo alemão publicado no New England Journal of Medicine. 
Depois de comparar a saúde de 200 pacientes do sexo masculino, 100 dos quais instruídos para ver seios diariamente, a doutora Karen Weatherby, uma das especialistas e responsáveis pelo estudo, afirma que a excitação sexual faz o coração bombear e melhora a circulação sanguínea.
Quem não estaria interessado em melhorar a sua saúde ?
Porém, não vale a pena ter tão altas expectativas porque parece que não é bem assim. 

Agora, o que faz bem ao corpo e à mente é, certamente, o poema de Alexandre O'Neill: Sei os teus seios./Sei-os de cor.




26/09/13

Para além da doença




Florescer pode significar estar em flor mas também, em sentido figurado, prosperar, brilhar.
Florescer, prosperar, era o que devia estar a acontecer com cada um de nós.
No entanto, pelos dados de que dispomos não é bem assim: o consumo de antidepressivos tem vindo a aumentar em Portugal mais do que noutros países.
Nos primeiros oito meses do ano, os portugueses compraram em média, por dia, mais de 75 mil embalagens de antidepressivos, estabilizadores de humor, tranquilizantes, hipnóticos e sedativos. Trata-se de um aumento de 1,9% face ao mesmo período do 2012, revelam dados da consultora IMS Health
Também aqui  é referido que 
"de facto, há um acentuar dos problemas de saúde mental, normalmente muito associados ao desemprego...
"De acordo com o mesmo estudo, as dificuldades económicas, aliadas ao aumento das taxas moderadoras, estão a condicionar o acesso à saúde, sobretudo dos grupos mais vulneráveis, como os idosos, que estão a adiar as idas ao médico e ao dentista, bem como a atrasar a compra de óculos e até a espaçar a toma de medicamentos para cortar nos gastos." 
O que está a acontecer? Aparecem algumas explicações como, por exemplo, as do Relatório da Primavera do Observatório Nacional dos Sistemas de Saúde.

No entanto, parece haver uma contradição: ao mesmo tempo que há aumento da prescrição de medicamentos, refere-se o condicionamento do acesso à saúde e aos médicos.

No entanto, o problema é mais complexo e é necessário saber o que está em causa na nossa felicidade ou na nossa doença.
Seligman, depois de ter estudado a felicidade das pessoas adopta um conceito mais geral, no sentido do bem-estar. Para vivermos bem é preciso perseguirmos cinco objectivos: felicidade, empenhamento, relacionamentos, propósito e realizações.
É importante procurar aquilo que nos dá prazer e alegria (felicidade), mas também uma actividade de que se goste (empenhamento), no meio de pessoas positivas (relacionamentos) e dar um propósito à nossa vida, como por exemplo, dedicarmo-nos à família, a instituições solidárias. Quando conseguimos atingir os nossos objectivos e dar um sentido à nossa vida podemo-nos considerar realizados.
Não há apenas um factor mas vários a determinar o nosso bem-estar. A complexidade do ser humano é a da sua personalidade onde se cruzam todos esses factores. Alguns deles são mais marcantes na nossa personalidade do que outros. Por exemplo, às vezes, podemos tentar viver bem pelo nosso empenho num projecto, exactamente porque as circunstâncias da vida nos foram adversas. É por isso que a resiliência é uma estratégia importante para lidarmos com a adversidade e a perturbação de stress pós-traumático .

O uso de medicamentos antidepressivos é necessário em muitas situações. E não podemos prescindir deles. Mas é também bom saber que analisando toda a literatura sobre anti-depressivos, descobrimos que eles melhoram os sintomas, em média, em 60 a 65%. Com o placebo, a melhora é de 40 a 50%. Basicamente, os anti-depressivos são úteis, mas limitados. 

É por isso necessário trabalhar outras capacidades, ou seja, os objectivos referidos por Seligman: o empenhamento, os relacionamentos, um propósito para a nossa vida, etc…para acabar com os problemas de humor, ansiedade e depressão. É preciso trabalhar para estes objectivos para florescer, além de tratar a depressão.
Todos conseguimos florescer. Podemos estar deprimidos mas se essas condições atrapalham o nosso bem-estar, não anulam a possibilidade de florescer. 
Mais de 20 estudos mostraram que é possível ter emoções positivas e alguma perturbação mental.
Afinal florescer é como o que acontece na natureza: é necessário arrancar as ervas daninhas que junto das flores não vão impedir que elas cresçam.