01/10/14

"A música faz-nos melhores"


É o lema do Conservatório de Música de Cascais. E é a realidade.
1 de Outubro é o dia mundial da música. A data foi instituída em 1975 pelo International Music Council, uma instituição fundada em 1949 pela UNESCO, que agrega vários organismos e individualidades do mundo da música. 
A música interessa cada vez mais à ciência e à educação. Percebemos melhor as interacções entre música e cérebro e as implicações que elas podem ter nas emoções comportamentos, aprendizagens. Por isso a música é importante para a psicologia. 
Porque gostamos tanto de música, como funciona a criatividade ? Jonah Lehrer revela como funciona a criatividade. No caso de Bob Dylan que ele levou apenas 15 minutos para escrever I and I, enquanto o cantor e compositor Leonard Cohen tinha levado dois anos para escrever Hallelujah ... O génio não viria de nenhuma parte mas era relativo ao funcionamento cerebral. 
A música penetra no córtex auditivo e nela está implicado todo o nosso cérebro embora com funções distintas conforme as áreas.
O hemisfério esquerdo gera a percepção dos ritmos, a altura, a impressão de familiaridade e a identificação do obra ouvida.
O hemisfério direito tem um papel na percepção dos timbres e da melodia, a linha das notas altas e baixas criadas pela melodia. 
As áreas motoras têm um papel quando se toca um instrumento ou se canta, o hipocampo uma das estruturas da memória, activa-se quando se ouve uma parte de uma peça familiar e os circuitos rítmicos do cerebelo intervém nos tempos. Obviamente, o cérebro e a música são indissociáveis... 
É controverso se há diferenças funcionais cerebrais entre o cérebro de músicos e não músicos. A nível explicito os músicos tem estratégias de tratamento da música diferenciadas em relação aos não músicos mas o mesmo não acontece a nível implícito (automático). 
O que parece certo é que todos temos recursos cerebrais para processar a música. É que quando ouvimos as músicas preferidas trazem consigo emoções. Isto acontece porque esta actividade se traduz por um aumento da dopamina, neurotransmissor que tem um papel no reforço do prazer e da motivação. Este prazer acontece por antecipação e durante a audição da música. 

A música tem também particular importância no desenvolvimento da linguagem.  É por isso que são tão importantes as canções de embalar e que as mães cantem para os seus filhos. 
A música é uma modalidade de expressão e "pode-se estabelecer semelhanças entre a gramática e estrutura musical" (Marc Richelle). 
Por isso a psicologia interessa-se pela música em diversos campos: na recepção musical, na memória e percepção, nos processos cognitivos e motores, nos processos criativos e socioculturais. 
No entanto, contrasta, nas organizações de educação, com o desinteresse que se manifesta, fortemente, no início do ano lectivo, por disfuncionamentos que não têm justificação. Algumas escolas de artes, não apenas de música, ainda não iniciaram as suas actividades por falta de colocação de professores, entre outros problemas, como instalações degradadas, etc. 
A responsabilidade não será apenas do ministério uma vez que há escolas que funcionam sem estes constrangimentos anuais, onde equipas de gestão sabem, atempadamente, resolver os problemas. 
Mas, mais uma vez, se provou, este ano, que as artes são desinteressantes para os líderes do ME.
Há fundamento teórico e prático para desenvolver o campo das artes nos currículos. O que se passa com as turmas de música no ensino regular é bem a prova disso. Não será caso de constituir turmas onde a oferta fosse ainda de música mas também, por exemplo, de artes decorativas e performativas ? 
Está bem, eu sei, os actuais e anteriores  líderes da educação são... "mais bolos”, como diria o Herman. Mas já que não reorganizam a oferta educativa pelo menos mantenham o que está e resolvam esta instabilidade anual no domínio do ensino artístico.

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Baseado em "Pourquoi le cerveau aime la musique"  e "Pourquoi la musique intéresse les psychologues", le cercle psy, nº 7.



 



24/09/14

Alternativas à solidão

Depressão: doença para levar a sério



A comunicação social tem vindo a dar conhecimento de vários suicídios que, tanto quanto se sabe,  resultam de depressão. Ou então nós próprios conhecemos essas situações, na nossa própria família ou através dos nossos amigos.
De facto, a depressão é a grande ameaça à nossa vida.
A depressão muda a anatomia do nosso corpo. Uma situação de stress repetida, inclusive imaginada, muda ou pode mudar o volume do nosso cérebro, do hipocampo, em mais de 10%. 
Isso não ocorre por culpa da idade mas por causa da depressão que é uma doença que não se caracteriza por valores relacionados com a inteligência ou criatividade mas com a tristeza, uma profunda tristeza.

Segundo o Manual de Diagnóstico e Estatística (DSM IV), a depressão é uma perturbação que apresenta determinados critérios para diagnóstico  (pág. 356)
Mas, resumidamente, podemos dizer que a a depressão tem sintomas facilmente reconhecíveis: Tristeza, insónia, dificuldade para se concentrar, pouca vontade de fazer coisas e ideia suicidas.

Mas onde acaba a tristeza e começa a depressão ? Provavelmente, o melhor é consultar o médico, a fim de efectuar um diagnóstico porque a depressão é uma doença como qualquer outra: esta é a dura realidade.
Segundo Peter Kramer, parece que a depressão é 30 a 40 % genética e 60 % depende do meio.
Estudos recentes (ex.: Y. Sheline) informam-nos sobre alterações em determinadas áreas do cérebro como o hipocampo que tem um a função de regulação do stress e o stress está intimamente ligado a depressão.
Também o córtex prefrontal implicado nas emoções e nos processo cognitivos também está afectado. As células diminuindo a actividade deixam de funcionar correctamente.
A um cérebro deprimido sucede o mesmo que a uma pessoa deprimida: torna-se mais vulnerável aos factores externos.
Uma depressão também afecta outros órgãos: os ossos, o sangue e o sistema vascular ... é uma doença que afecta todos os órgão do corpo: é uma doença multissistémica.
O que parece acontecer na nossa sociedade é que há a ideia de que não é uma coisa grave e que a depressão afecta sobretudo o estado de ânimo ou que é um estado de ânimo. Ora, como se disse, é uma doença multissistémica e afecta diferentes órgãos e estruturas cerebrais. É uma doença para levar muito a sério.

Podemos perguntar se há outros processo químicos cerebrais que possam contrapor-se aos efeitos devastadores da depressão.
Peter Kramer refere que o amor salva muita gente da doença mental, o amor é uma forma de bem-estar para muita gente e é extremamente protector.
Às vezes, diz, vejo que alguns dos meus doentes se salvam porque adoptam um cão e se sentem verdadeiramente realizados com o início de uma relação com uma mascote, ou quando começam um romance com outra pessoa.
As relações afectivas podem ser, portanto, um factor positivo no tratamento da doença mas o contrário também é verdade e devemos estar atentos porque não suportamos muito bem um abandono e uma perda humilhante que causam stress e conduzem à depressão.

Mas, o amor pode, de facto, salvar da depressão.

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Nota 1: Este texto é baseado em E. Punset, El alma está en el Cerebro, cap. XV, "La gran amenaza: la depresión", pag. 377.
Nota 2: Sobre o assunto, em especial sobre a depressão infantil, ver aqui.

19/09/14

Um perdeu e outro ficou perdido


Reformar o Estado ? Seguro disse que o número de deputados devia ser reduzido? E poder escolher o seu deputado ? E apresentar um novo regime de incompatibilidades ? Disse. Pois é, agora é que já perdeu. Mas o outro ficou perdido: Reduzir deputados é "o epitáfio desta liderança".
Tudo pode ser reduzido: professores, enfermeiros, médicos, psicólogos, engenheiros... excepto deputados. Fazem todos, os 230, muita falta. Principalmente aqueles das últimas filas da bancada de que ninguém sabe o nome.

Felicidade












Nota: descontar as legendas em "português"  e relevar a felicidade.

17/09/14

Emagrecer o Estado




Monsanto, Lapa do lobo...


Tenho vindo a defender a continuação da actividade das escolas de pequena dimensão.
Infelizmente há uma visão diversa, errada, autoritária, relativamente a este assunto, e que pode ser tudo menos reformista.
Vale a pena dizer, novamente, que fechar escolas não pode entrar na perspectiva de reforma da administração.

A reorganização dos serviços do estado faz sentido, é necessária, apesar das mudanças que provoca na vida das pessoas e das deficiências com que são executadas. 
O encerramento dos governos civis, a reorganização de serviços de saúde, das freguesias, tribunais, etc. é uma tarefa difícil e, normalmente, há sempre resistência dos interessados. 

O encerramento de escolas é outra coisa. Embora tenha aspectos comuns como a desertificação, etc., nas escolas  há crianças muito pequenas, de 5/6 a 9/10 anos, que têm de fazer deslocações diárias, ao sol, à chuva, de vários quilómetros, longe dos pais o dia inteiro... 

Monsanto, Lapa do Lobo são dos últimos casos a virem na comunicação social. Oiçam os pais, que apenas estão interessados no bem-estar dos seus filhos.
Oiçam também os autarcas.
Pelo menos isso. Já que as crianças, infelizmente, são o que menos importa nestas histórias. 


Regresso à escola: a comunicação na educação

Inês, 7 anos

Todos os anos por esta altura, a escola parece que se reduz aos problemas corporativos. Este reducionismo mostra-nos uma escola dependente da má vontade e incompetência do ministro e da boa vontade e competência de alguns sindicatos. 
De facto entre ministério e organizações sindicais aposta-se neste desentendimento. Ocupa-se papel e tempo. Principalmente tempo de antena nos canais de televisão e esta é, provavelmente, a única vitória deste diferendo anual. 
Não esperemos que seja diferente nos próximos anos. Vai continuar a ser assim. E nós cá estaremos para ver isso mesmo, qualquer que seja o António mortinho de paixão pela educação ...
É claro que ambos têm responsabilidades pelas deficiências de organização do sistema, a começar pelo processo da colocação de professores. Não é estranho que este seja o único sector do estado em que todos os anos assistimos a estes complexos procedimentos e não há maneira de encontrar uma forma de recrutamento e selecção que evite esta confrangedora situação? Por mais complexos que fossem os problemas havia de haver respostas organizativas simples e transparentes que servissem melhor os interesses dos alunos e das famílias.

Mas não se pode confundir este reducionismo com o sistema. A maioria das escolas funciona bem, ao contrário do que querem fazer crer alguns sindicatos.
Ao contrário do que também se ouve por aí, a maioria dos alunos gosta de regressar à escola e gosta de estar na escola, como sempre foi, como no meu tempo, como no tempo dos meus filhos e dos meus netos.
Claro que o tempo e o modo contam, as novas tecnologias, as novas relações familiares, as novas situações sociais... Mas o que sempre é essencial, a relação professor-aluno, mantém-se como assunto central da sala de aula.
Por isso, era a comunicação interpessoal que acontece no processo pedagógico que devia estar no centro das discussões no “regresso à escola” .
Tanto o estatuto como os papéis de professores e alunos mudaram. É claro que o professor continua a ser o responsável pela transmissão do saber… Mas não é aceitável que o professor utilize as mesmas formas de comunicação na sala de aula, como noutros tempos, tais como as formas de comunicação implícita, paradoxal, etc.
Esta formas de comunicação são é prejudiciais a qualquer tipo de interacção pedagógica mas elas continuam a existir, há mesmo quem ache que as crianças não são nenhumas flores de estufa e que nada do que se diz às crianças tem importância.
Hoje as interacções na escola são diferentes do passado, a punição física por professores autoritários, praticamente desapareceu da sala de aula mas não desapareceu o sofrimento dos alunos. Não o que resulta do esforço, do trabalho do estudo, ou das contrariedades do processo de socialização mas de palavras ou frases assassinas que fazem a diferença para as aprendizagens e para o futuro.
Já ninguém (?) chama burro a um aluno na sala de aula, mas vão-se utilizando outras expressões: “é uma catástrofe”, “zero”, “medíocre”…
As palavras ganham outra força pelo facto de ser um professor a dizê-las: o que diz o professor é o veredicto de um especialista na matéria, a criança está a a desenvolver a sua personalidade, até aos 6 anos nós somos o nosso próprio ideal mas, a partir dos 6/7 anos, a avaliação escolar é mais forte, a criança é mais sensível a um juízo exterior
No caso dos adolescentes coincide com a fragilidade própria da idade no que respeita a aspectos físicos, psicológicos e sociais.
Avaliar o trabalho do aluno é uma coisa, avaliar a personalidade do aluno ou as suas competências, outra (ex.: "este trabalho de matemática vale zero" é diferente de dizer "és um zero a matemática").

Hélène Fresnel (Psychologies) escreve sobre alguns comportamentos dos professores na sala de aula. E apresenta os testemunhos de adultos para quem estas palavras os acompanharam ao longo da vida.
Peggy Pircher, (Le cercle psy) escreve o artigo "o seu filho nunca fará nada". O tema é, basicamente, o mesmo. Grave é ainda quando se atribui palavras ou frases deste tipo sem se saber exactamente o que se passa. É, por isso, importante haver um diagnóstico tão cedo quanto possível para proteger a criança e ao mesmo tempo poder ter apoio especializado. Este apoio, muitas vezes, "não acaba com as dificuldades mas sim com o sofrimento."

Felizmente o I , 15-9-2014, (ser professor em tempos de cólera), traz meia dúzia de casos de professores que têm orgulho na sua profissão, que se esforçam por ajudar os alunos, criam projectos e desenvolvem actividades para os alunos "irem mais além", mesmo quando se é professor " em tempos de cólera".

Estamos no início do ano lectivo e seria talvez importante tomar consciência das formas de comunicação desajustadas na sala de aula e... ter a coragem de mudar.




12/09/14

Sono e ritmos escolares


Entrevista de Catarina Fernandes Martins, Observador, aos psicólogos José Morgado e Cristina Valente sobre este assunto tão importante para a educação e aprendizagem.
Para N. Lobo Antunes: "O sono constitui uma parte fascinante do nosso quotidiano. Para começar, é nesse período que se consolidam as memórias do que vivemos durante o dia, pelo que não surpreende que crianças que dormem mal tenham mais dificuldade em aprender...", Se tiver à mão o "Mal-entendidos" poderá reler o capítulo 8 sobre as perturbações do sono."(pag. 219)