23/01/15

"A mulher é o futuro do homem"



Louis Aragon escreveu que "o futuro do homem é a mulher" (que na canção de J. Ferrat passa a ser "a mulher é o futuro do homem").
A evolução dos direitos humanos no sec. XX , foi, a pouco e pouco, compreendendo os direitos da mulher, nos países que os aceitam, na teoria e na prática.  Apesar da globalização, não é assim em todo o lado. 
É difícil compreender, e ainda menos justificar,  a forma como algumas sociedades tratam as mulheres, como seres sem os mesmos direitos e até como seres humanos inferiores. Há meninas que colocam em risco a própria vida pelo facto de quererem frequentar ou frequentarem a escola.
Em alguns países, há normas incríveis a que as mulheres devem obedecer. Recentemente a comunicação social referia que não podem tirar fotografias (selfies) com jogadores…
Mas, a história da emancipação feminina mostra que as mulheres vão ocupando o lugar que é delas.
Nas empresas, na vida social e política não há repressão que sempre dure apesar dos momentos de refluxo como o que vivemos actualmente.
O acesso à educação e à cultura fará a mudança. Este processo aconteceu nos nossos países. Não é necessário recuarmos muito para encontrarmos a primeira mulher advogada, médica, a primeira vez em que as mulheres votaram…
Por incrível que pareça, as grandes mudanças estão em acontecimentos inesperados. Na Europa, a valsa de Viena teve um papel fundamental na vida das pessoas. Inicialmente pouco recomendada e mal vista, a valsa foi a primeira dança plebeia, de pares enlaçados, que se introduziu nos salões da realeza e da aristocracia, o que significou obviamente a sua aceitação generalizada.

A entrada da mulher na vida social tem o poder de mudar a história.
O movimento feminista organizado remonta ao século XIX quando as mulheres reivindicavam direitos jurídicos iguais aos homens (gestão do património, valorização do trabalho, direito à educação).
A história do feminismo tem 3 momentos. O primeiro, refere-se principalmente ao sufrágio feminino, movimento que ganhou força no século XIX e início do XX. 
Em 1918, as mulheres inglesas com mais de 30 anos obtinham finalmente o direito de voto. Só 10 anos mais tarde esse direito seria concedido a todas as inglesas com mais de 21 anos.
E Deus Criou a MulherO segundo momento refere-se às ideias e acções associadas com os movimentos de libertação feminina iniciados na década de 1960, que lutavam pela igualdade legal e social para as mulheres. 
Os anos 60 foram mais decisivos para a modificação dos comportamentos sociais da igualdade entre homens e mulheres do que décadas e décadas de luta de classes.
O terceiro momento seria uma continuação iniciada na década de 1990. Nós vivemos este período e sabemos a evolução nos comportamentos, na educação, na cultura,  em todas suas manifestações como a moda e instrumentos de informação e comunicação como a internet e as redes sociais.



Escrevia Aragon :
L'avenir de l'homme est la femme
Elle est la couleur de son âme
Elle est sa rumeur et son bruit
Et sans elle il n'est qu'un blasphème
Il n'est qu'un noyau sans le fruit
Sa bouche souffle un vent sauvage
Sa vie appartient aux ravages
Et sa propre main le détruit.

                        Louis Aragon - Le Fou d' Elsa.
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O futuro do homem é a mulher
É ela a cor da sua alma
Ela é o seu rumor e ruído
E sem ela, ele é apenas uma blasfémia
É apenas um núcleo sem o fruto
Sua boca sopra um vento selvagem
Sua vida pertence à devastação
E a própria mão o destrói.




15/01/15

Magia na diferença

Dança da Deusa dos mil braços

Do Youtube (10/06/2012): "Dançarinas do Grupo de Artes Performativas da Associação Chinesa de Pessoas com Deficiência (deficiêcia auditiva) exibem o seu número mais conhecido, a dança Qianshou Kuanyin, ou Bodhisattva de 1000 mãos." Coreógrafo Zhang Jigang.

Deusa da Misericórdia dos mil braços

14/01/15

O sonho europeu



Desde o sua criação, a União Europeia procura ser uma sociedade com mais humanidade. 
Apesar dos euroconvictos, dos eurocépticos, dos euromoderados, dos eurohipócritas, dos antieuropeus, … a Europa foi e é o sonho dos cidadãos dos vários países que aderiram aos princípios e valores que a europa representa e põe em prática: direitos civis e políticos, sociais e económicos, educativos e culturais, direitos do ambiente e protecção dos consumidores.
Com todas as dificuldades que hoje sentimos, ainda assim, a Europa é o local do mundo onde esses objectivos atingiram maior concretização...
A dignidade da pessoa humana é o direito fundamental que faz com que a Europa seja o lugar do sonho, porque é o lugar do humanismo e onde o ser humano se pode realizar. 
Como escrevia Jacques Delors: “Entre o colectivismo alienador e estéril de uns e o individualismo exuberante e socialmente insuportável de outros, a Europa democrática soube manter o equilíbrio num humanismo vivo que só a ela pertence.” (pag. 44)*

O sonho europeu foi em primeiro lugar dos próprios europeus que construíram a União Europeia e é o sonho daqueles que, aos milhares, correndo risco de vida, querem viver na Europa. 
O que leva tantas pessoas a correrem risco de vida para virem para a Europa, como mostram a tragédia de Lampedusa e outras, é o sonho de poder concretizar uma vida digna. 
Muitas críticas à Europa são justas. O papa Francisco “referiu por várias vezes a necessidade de reforçar a dignidade da pessoa humana, Francisco disse que um debate marcadamente técnico e económico corre o risco de reduzir o ser humano a uma "mera engrenagem dum mecanismo que o trata como se fosse um bem de consumo a ser utilizado". E que é descartado quando não é mais útil a esse sistema.”
Mas não se podem aceitar as atitudes e comportamentos dos que querem acabar com a liberdade e a liberdade de expressão. Ou que lhe querem impor limites. A liberdade não tem nem pode ter limites. Impor limites à liberdade de expressão é o primeiro passo para que não haja liberdade de expressão. Ou seja, os limites, numa democracia, são aqueles que existem na lei de um estado democrático. É à justiça, e apenas a ela, que cabe punir e reparar qualquer ofensa e não a qualquer individuo, grupo ou comunidade.
Podemos achar ofensivos, de mau gosto, provocadores, os cartoons do Charlie Hebdo ou de outras publicações sobre Maomé. Cabe à justiça resolver esse problema. Se não for assim quem vai definir os limites da liberdade de expressão: os políticos, os religiosos, os ateus, os consumidores ? 
No passo seguinte estamos a achar que a televisão não pode passar o filme “pato com laranja”, o Herman não pode fazer a rábula sobre “a última ceia de Cristo”, não podemos fazer o presépio, usar um crucifixo, as mulheres têm que voltar a vestir saias até aos tornozelos, como as nossas avós…
Querer impor limites à liberdade é abrir caminho a um terrível processo em que os fins justificam os meios e onde a justiça é feita pelas próprias mãos, como se viu em Paris na semana passada.
Liberdade, democracia e justiça são os três pilares de qualquer civilização.

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*Europa, uma Sociedade mais Humana - Texto de Georges de Kerchove d' Exaerde (1990)



08/01/15

Hoje apetece-me ouvir

Debussy, Berlioz, Satie, Ravel...Reggiani, Gréco, Aznavour, Hardy, Bécaud, Brassens, Piaf, Bardot...

Debussy - Clair de lune

Ravel - Bolero


06/01/15

O que parece não é


É com notícias destas (Lusa/Expresso) que se engana as pessoas. Nem a prova é de Crato, nem foi criada por ele. Infelizmente, não teve a visão para  acabar com ela ou para criar alternativas, como escrevi aqui ("os pais da prova").

Entretanto, o Conselho Directivo do IAVE vem exprimir o seu desacordo (TVI24): "Face à divulgação do documento, o Conselho Directivo assegura que o parecer “não foi solicitado pelo Conselho Directivo do IAVE, constituindo uma iniciativa do Conselho Científico sem enquadramento estatutário”.
Referindo que o Conselho Científico do IAVE “é um órgão consultivo independente”, o Conselho Directivo lembra que a competência daquele se centra “na avaliação específica de provas de avaliação produzidas pelo IAVE e não na apreciação de diplomas legais que determinam a sua realização”.


O Decreto-Lei n.º 102/2013, que reorganiza o GAVE, passando a designar-se IAVE, prevê as funções do Conselho Científico. A sua constituição consta do despacho n.º 11664/2013 (D.R. n.º 173, Série II de 2013-09-09)
O Parecer sobre a Prova de acesso à carreira docente - Prova de avaliação de conhecimentos e capacidades, de Novembro/2014, é assinado por 4 elementos. Não se sabe por quantos elementos foi aprovado (o CC é constituído por 32 elementos). 
O CC coloca em questão "este modelo de prova" porque essencialmente, independentemente de todas as críticas que se podem fazer ao parecer, há aspectos de convergência, desde logo que concorda com a existência da prova:
"Em consequência, concordamos com as finalidades gerais declaradas na PACD, posteriormente designada de Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC), que surgem inscritas no preâmbulo do Decreto Regulamentar n.º 7/2013 de 23 de Outubro do MEC.
A saber:
comprovar a existência de requisitos mínimos de conhecimentos e capacidades transversais à lecionacão de qualquer disciplina, área disciplinar ou nível de ensino, como a leitura e a escrita, o raciocínio lógico e crítico ou a resolução de problemas em domínios não disciplinares, bem como o domínio dos conhecimentos e capacidades específicos essenciais para a docência em cada grupo de recrutamento e nível de ensino.
[...] que a prova seja generalizada a todos os que pretendam candidatar-se ao exercício de funções docentes [...] com perspetivas de integração na carreira.
[...] valorizar a escola pública e a qualidade do ensino aí ministrado, cientes de que os conhecimentos e capacidades evidenciados pelos professores constituem uma variável decisiva na qualidade da aprendizagem dos alunos."
No entanto, basta ver estes títulos para se perceber  o aproveitamento feito: «prova de Crato chumbada», «FNE defende eliminação da prova», «Nogueira subscreve críticas a "prova absurda"»...


05/01/15

Hoje apetece-me ouvir

George Harrison -  "A resposta está no fim"
                                ...
                                The speech of flowers excels the flowers of speech
                                But what's often in your heart, is the hardest thing to reach
                                And life is one long mystery, my friend
                                So live on, live on, the answer's at the end
                                ...
 Talvez aqui.

26/12/14

Adeste fideles



Uma das músicas de Natal mais conhecidas no mundo, é, certamente, portuguesa.
Quanto ao seu autor, pode resumir-se assim o assunto:
"The author and Composer was King John IV of Portugal in 1645.
Erroneous and subsequently, it was spread as being composed by other authors.
Of course, these authors, having been born after the oldest manuscript of this work, can not be considered true authors, nor is there any expert who now defend it. This manuscript comes from the Royal Library of the Ducal Palace of Vila Viçosa (Portugal).
By the way, it was known in the english royal court at the time, as the "Portuguese Hymn" (Aida Magalhães).
"A autoria da melodia, jamais será conhecida com certeza. Mas não há dúvida de sua origem portuguesa."(J.J. Peralta).
Há vários milhares de versões, para todos os gostos, mas o original é nosso, e não de um tal John Wade.

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(24-1-2021) Ver também "Adeste Fideles: quem é o autor?",  Rui Vieira Nery,  Site Meloteca.

16/12/14

Dias mágicos



Há dias especiais na nossa vida. Um deles é o dia de Natal que celebra o nascimento de Cristo. Na realidade, o nascimento de Cristo foi em data desconhecida, mas a decisão corresponde ao solstício de Inverno dado que essa é a ligação entre a renovação da natureza com a renovação simbólica que Cristo veio trazer. 

O Natal como celebração festiva anual é para todos mas, especialmente para as crianças, é um acontecimento mágico em que todos os actos têm um significado simbólico: os presentes são como os presentes dos Reis Magos, as luzes da árvore de natal, a iluminação das ruas, a chama do madeiro, são o símbolo do Sol da nova vida; a mesa farta, pelo menos mais do que é habitual e a reunião familiar transmitem à criança as duas coisas fundamentais para o seu desenvolvimento: a alimentação e a segurança física e afectiva. A criança tem assegurado a protecção da família que lhe permite a vida e não ser abandonada.(Bruno Bettelheim) 
No Natal e nos dias festivos a criança torna-se centro das atenções de toda a família e comunidade.
A criança acredita nas figuras concretas do Natal, como o Pai Natal ou o Menino Jesus. Naturalmente, há-de chegar o tempo em que a criança percebe que não existem essas figuras concretas a oferecerem presentes, embora possa continuar a fingir que acredita. 
O pensamento mágico domina a criança durante os primeiros anos de vida. Entre os 2 e os 7 anos, para este tipo de pensamento, nada é impossível, podem existir centenas de pais natais, pode descer pela chaminé sem se queimar, ou pode transportar tantos presentes ou ainda que saiba exactamente qual o presente para cada criança... 

Claro que as épocas festivas se tornaram também épocas em que há o perigo de reduzir tudo aos bens materiais e ao consumo. 
Há quem veja apenas este lado negativo e assuma a atitude paternalista de indicar ou orientar os outros de como deve fazer. Consumistas são sempre os outros. 
Focamo-nos nesta abstracção de que estes dias só servem para consumir. 
Obviamente cada pessoa sabe como se deve orientar nas compras, nos dias festivos ou noutras circunstâncias, e, quando não sabe, estamos perante outro problema. 
Todos sabemos que não é principalmente o preço do presente que interessa mas o seu valor simbólico. Lembro-me da felicidade que sentíamos quando na manhã do dia de Natal íamos ver os presentes que os pais, pessoas normalmente pobres, podiam dar aos filhos e de que ninguém fazia questão com o valor das prendas. 
É o valor emocional que tem importância. Estes objectos são símbolos de felicidade que atenuam a nossa ansiedade, insegurança e que podem dar-nos confiança para enfrentarmos o futuro. 
 
É também por isso que os pais guardam "aquelas coisas" que os filhos oferecem quando vêm do jardim de infância e com todo o carinho do mundo nos dizem: “ fui eu que fiz para ti”. 
Ou como os namorados que oferecem objectos insignificantes um ao outro. 
É por isso que guardamos pedras de variadas formas e cores que os filhos nos oferecem em dias especiais quando frequentam o jardim de infância e que, para mim, são as minhas pedras preciosas. 

Desejo a todos um bom Natal, com muitos presentes, caros ou baratos, pouco importa, desde que oferecidos com o coração.


10/12/14

Direitos do homem


Faz hoje 66 anos que foi aprovada a Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Em 10 de Dezembro de 1948, depois da segunda guerra mundial que causou um sofrimento terrível e que tão mal tratou os direitos do homem, a Declaração foi adoptada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas (Resolução 217A (III) de 10 de Dezembro de 1948).
O dia 10 de Dezembro foi proclamado, em 1950, pela Organização das Nações Unidas, "Dia Internacional dos Direitos Humanos", com o objectivo de alertar os governantes de todo o mundo para o cumprimento da Declaração Universal e assegurar a aplicação dos seus princípios. 
A Declaração Universal dos Direitos do Homem, considera,essencialmente, que:
- a dignidade inerente a todos os membros da família humana e os seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo;
- o desconhecimento e o desprezo dos direitos do homem conduziram a actos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade
- é essencial a protecção dos direitos do homem através de um regime de direito, para que o homem não seja compelido, em supremo recurso, à revolta contra a tirania e a opressão;
- é essencial encorajar o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações.

Uma das dificuldades de aplicação é o relativismo cultural, ou seja, a ideia de que todas as acções são correctas ou incorrectas consoante a cultura e, por isso, que violar qualquer dos direitos consagrados na Declaração é eticamente permissível desde que seja permissível numa dada cultura
Para o relativismo cultural a Declaração dos Direitos do Homem, não exprime princípios éticos universais. 
Ora acontece que o relativismo cultural é incompatível com os direitos humanos universais, entre outras razões, porque há uma grande diferença entre respeitar costumes e tradições que que não têm relevância ética, como por exemplo, comportamentos sociais (casamento, vestuário...)  ou comportamentos sexuais, e respeitar costumes que têm relevância ética, como a escravatura, a discriminação das mulheres ou a violação de crianças. 

Os direitos humanos vão sendo cumpridos e também desrespeitados um pouco por todo o lado.
Não apenas em países com ditaduras e regimes totalitários mas também em países democráticos como o nosso.
Os direitos humanos não são cumpridos quando, em Portugal, se conta pelo número de 40 os homicídios domésticos 
Os direitos humanos não são cumpridos quando voltamos à barbárie, com a morte de pessoas inocentes em nome de fundamentalismos religiosos ou culturais.
Os direitos humanos não são cumpridos quando, nas prisões, se pratica a tortura de presos, mesmo quando um país é atacado de forma bárbara.

Portugal tem particular responsabilidade por ter sido eleito, em Outubro deste ano, para o Conselho de Direitos Humanos da ONU, para o biénio 2015/2017, com um número recorde de votos.
Na sua candidatura (road map de Lisboa), Portugal defendia o carácter individual, universal, inalienável e interdependente dos direitos humanos. Ou seja, era recusada uma abordagem relativista de ordem cultural e geográfica na aplicação dos direitos humanos.
Era então desejável que se começasse pela nossa própria casa a cultivar esses princípios consagrados na Declaração Universal dos Direitos do Homem.