19/05/10

A regra mais cretina

               
A regra “saem dois entra um” na função pública que nos habituámos a ouvir e à qual já não reagimos ou que até alguns defendem, é uma das regras mais cretinas que alguma vez podia ter existido.
O longo braço do estado vai até às mais pequenas coisas da nossa vida e por isso deve sair de muitas actividades e muitos serviços podendo ser substituído por entidades privadas que não dependam do estado para poderem sobreviver.
Mas esta regra já começou a fazer sentir os seus efeitos nefastos e isto é só o princípio .
De repente, no sector de saúde, percebeu-se que iam sair cerca de 600 médicos e que não seria possível prescindir do seu serviço sob pena de haver prejuízo para os doentes.
Mesmo que fosse possível reduzir a função pública a metade ou a um terço, a regra não podia ser cega. Será realista imaginar que saem dois médicos e entra um, saem dois engenheiros e entra um, saem dois professores e entra um, saem dois polícias e entra um, etc…
Como é que na Saúde e na Educação podem reduzir para metade os trabalhadores existentes ?
Mas não há pessoal a mais? Se há, e isso não é líquido, o que há a fazer é cortar o que está a mais. Aí estamos de acordo. E o que está a mais nós sabemos o que é.
E também sabemos que no que está a mais não se mexe porque aí é necessário que continue a triunfar o longo braço do estado, para que o aparelho ideológico funcione de forma bem oleada.
Nos governos civis, nas empresas municipais, nas associações subsidio dependentes, no outsourcing, nos projectos encomendados, nas obras megalómanas, TGV, aeroporto, auto-estradas, polis, magalhães, parcerias publico-privadas, indemnizações compensatórias, novas oportunidades, actividades de enriquecimento, etc.
Mudou-se o estatuto dos funcionários públicos e o que se ganhou ou ganha com isso em termos de eficiência e eficácia ?
Já agora porque não passa a função pública a ter um estatuto privado abrindo, assim, o caminho para se aplicarem as regras privadas ao sector público ?
Porque não há uma inspecção de trabalho para a função pública?
Muito teria que fazer no controle dos horários de trabalho feito para além do estabelecido, as reuniões fora do horário, a disponibilidade, o desmantelamento, na prática, das carreiras, a ausência de concursos de acesso, o sistema de avaliação que não funciona…
A função pública é o bode expiatório sistemático da crise, do despesismo, do mau funcionamento do país.
Já se nota a desarticulação que vai surgindo nos serviços, a falta de continuidade no acompanhamento dos casos e dos projectos, a ausência de cultura de empresa ou de serviço, a falta de vínculos afectivos que vinham do trabalho colectivo, a sobrecarga do trabalho, o stress e o assédio laboral…
O caminho que se tem seguido é o da desestruturação do estado. Não é liberalismo, não. É bagunça. E este é um caminho sem futuro.
                   

14/05/10

RBI 25 anos de liberdade de expressão


A RBI está a comemorar os 25 anos de emissões. Vem por isso a propósito falar de liberdade de expressão.
Lembro-me de ter começado a minha intervenção nesta rádio há muito tempo, no programa “ Falar de Educação” com Isabel Moreira.
Depois veio o programa “Avenida Central – Encontros Informais”, com Graça Lourenço, com os seus diferentes formatos, e, finalmente, o programa de Opinião em que conto com a habitual paciência de Manuela Cardoso.
Já disse, certamente, muita coisa interessante e também, involuntariamente, alguns disparates.
Algumas crónicas fluíram facilmente para o papel e em outras foi difícil construir qualquer coisa de jeito, na folha em branco, que pudesse interessar aos ouvintes.
Aprendi que há um direito que não temos: que é o de dizer disparates que podem levar os outros a errar.
Por isso, tento não ser vulgar repetindo o que os outros dizem e que facilmente encontramos em qualquer livro ou enciclopédia.
Estou convicto de que as pessoas que me ouvem são inteligentes e por isso fujo da perspectiva de orientação que muitas vezes ouvimos aos especialistas, principalmente aos “especialistas especialmente especializados”.
A orientação é muitas vezes manipulação e tento fazer a desconstrução de algumas dessas manifestações manipuladoras do nosso quotidiano.
Trabalhei num serviço de orientação de consumos e entendemos que a orientação de consumos não podia ser outra forma de propaganda, de marketing ou de merchandising. Porque a publicidade é: “a verdade com que nos mentem”.
A mentira na comunicação era e é o inimigo. Já que aqui nunca tivemos outros inimigos.
A liberdade de expressão é uma das mais importantes garantias constitucionais. Ela é um dos pilares da democracia. Falar, escrever e expressar-se é um direito de todos.
É por isso que o gesto de um deputado que mais do que tudo aquilo que possa configurar, quando as perguntas são desagradáveis, resolve não responder àquilo que acha que é mentira mas pura e simplesmente decide eliminar a mensagem eliminando o seu suporte físico nos deixa entre o ridículo e a preocupação de sentirmos como a história vai deslizando progressivamente para o silenciador passado. Por enquanto, por cá, ainda não se elimina o mensageiro, cala-se ou compra-se para se calar.
Verdadeiramente simbólico para os tempos actuais.
Poucas coisas me aborrecem hoje. Mais crise menos crise, mais corte na reforma menos corte, mais promessa dos políticos, menos promessa, já sei que não cumprem o que prometem. Todos os políticos embora uns mais do que outros. Actualmente, por exemplo, chegou-se a um patamar com as promessas não cumpridas com as encenações propagandísticas, com o pessoal seleccionado em castings, com agências de eventos e de marketing, difícil de ultrapassar.
Mas há uma coisa em que de facto não devemos ceder: na questão da liberdade e da liberdade de expressão.
Aqui nesta rádio tem sido assim.



13/05/10

09/05/10

Violência na escola: não há respostas fáceis

O fenómeno da violência tem vindo a preocupar os cidadãos e em particular os educadores.
Esta preocupação tem desencadeado em Portugal como no estrangeiro atitudes de reacção excessiva provocando atitudes de autoritarismo ou de justificação absoluta.
Um dos perigos da reacção excessiva é o da histeria que tem acompanhado o fenómeno.
Somos particularmente sensíveis à violência que envolve crianças… Mas o perigo é o de agirmos antes de pensar e continuarmos a reagir ou reagir excessivamente, em vez de tentarmos prevenir as situações de violência.
Para James Garbarino, que escreveu sobre o problema o livro Lost Boys, a questão que se coloca é: existem maneiras de poder identificar alunos potencialmente violentos ?
Para Garbarino há 4 coisas a ter em conta:
1. tudo está dependente de uma série de factores: e não há maneira de saber o que para certos adolescentes pode canalizar a sua raiva ou frustração para actos violentos;
2. o risco é cumulativo. É a acumulação de factores de risco que leva ao comportamento violento do tipo “ a gota que faz transbordar a água do copo”;
3. os adolescentes conseguem lidar com uma série de riscos ambientais mas a sua resistência diminui em cada perigo adicional introduzido.
Garbarino fala de 5 factores que dificultam esta resistência ou resiliência:
a) irá ocorrer em 100% das pessoas que foram submetidas a abuso e negligência;
b) vivem nas áreas empobrecidas e mais violentas;
c) estão entre 13 e 15 anos de idade;
d) são do sexo masculino;
e) estão sujeitos a tratamento racista.
4. um vazio espiritual leva à sensação de não estar ligado a nada, de não ter limites para o comportamento e não ter reverência pela vida.
Temos crianças “órfãs” na escola parecendo que não fazem parte da comunidade: são crianças deixadas sozinhas pelos pais que trabalham, que já não estão ligadas à igreja, à escola… às instituições.
Com o acesso a armas, à violência dos vídeo jogos e da imagem visual…fica facilitado o caminho para a violência.
Podemos perguntar:
- Como podemos ter escolas seguras ?
- O que se passa hoje nas escolas de forma a fazê-las particularmente vulneráveis à violência ?
- O que podemos dizer aos nossos filhos sobre o assunto ?
Não há respostas fáceis.
Um seguro escolar é aquele em que a comunidade está envolvida com estudantes não intimidados.
O que se passa é que não tem havido sintonia dos professores entre si, entre pais e professores…
Quais são os limites da segurança da escola ? Dizer que a escola é responsável e ignorar o que se passa na rua ou no parque de estacionamento do outro lado da rua não é certamente uma resposta.
Comunidade, escolas e pais devem estar em sintonia relativamente à resolução do problema da violência na escola.

05/05/10

Transições escolares e orientação

Estamos a atingir o final do ano lectivo e esta época do ano é particularmente sensível para alguns alunos, em particular para aqueles que se encontram numa etapa de transição escolar.
Isto acontece com os alunos que efectuam matrículas nos diversos ciclos dos ensino básico ou secundário.
De alguma forma os alunos no 9º ano de escolaridade, estão a escolher a sua vida profissional futura e por isso o salto para o ensino secundário terá ainda maior risco se for um salto no escuro.
Não é a sua primeira decisão na vida mas é uma das primeiras e das mais relevantes.
Por esse motivo, é necessário trabalhar com os alunos a orientação escolar, que os ajude a reduzir o campo da dúvida e a tomar uma decisão mais madura e consciente e com menor probabilidade de erro.
A orientação escolar é baseada num trabalho feito com os alunos ao longo do ano e passa por uma pesquisa fundamentada da personalidade do aluno em áreas como as capacidades cognitivas e as aptidões, o auto-conceito, os interesses, as motivações e os valores, tendo sempre em conta a avaliação académica.
Além disso, é muito importante que o aluno disponha de toda a informação relevante sobre os cursos existentes na sua região e no país, os currículos e os acessos à formação profissional ou à universidade, o mercado de trabalho, etc.
A decisão da escolha de um curso científico-humanístico ou de um curso de carácter profissional nem sempre se afigura uma tarefa fácil, pelo que é frequente existirem indecisões, ansiedades, dúvidas.
O aluno e o psicólogo na entrevista de orientação, devem analisar os factores em presença como, por exemplo, nos casos em que existe discrepância entre as aptidões e os interesses, as expectativas do aluno e a realização académica.
Os pais devem ser ouvidos tendo em conta que podem ter uma opinião facilitadora ou, ao contrário, os seus desejos e interesses, mais ou menos conscientes, podem gerar alguma conflitualidade familiar, contribuindo para a dificuldade da decisão dos alunos.
Hoje, fazer um curso secundário ou equivalente ao secundário pode implicar deslocações geográficas para locais mais afastados. É necessário que os pais compreendam que fazer um curso profissional de equitação, de termalismo ou na área das artes: pintura, dança, música, podem requerer estas deslocações. O processo de decisão pode ser mais complexo dado que implica factores de risco acrescidos.
A orientação faz ainda sentido mesmo para os jovens que já decidiram o seu futuro escolar e que sabem, ou pensam que sabem, exactamente o que pretendem. Muitas vezes serve para confirmarem a sua decisão outras para ficarem mais bem informados, outras para alertar para alguns escolhos que podem encontrar no caminho porque não é inédito que mesmo nestes jovens venha a haver dúvidas e mudanças, dado que se encontram no início do processo de desenvolvimento da identidade profissional.
Nem um jovem indeciso quanto ao futuro que prolonga a sua decisão está numa situação de fracasso nem o jovem decidido significa sucesso garantido.

29/04/10

TPC e explicações: sucesso a quanto obrigas

      
Os trabalhos de casa (TPC) e as explicações presentes no quotidiano dos alunos e suas famílias, são um tema controverso, mas de que raramente se fala.
Uma multiplicidade de actividades extra-curriculares, não lectivas, como os TPC, as explicações, as actividades de enriquecimento curricular (AEC’s), o estudo acompanhado, o trabalho na sala de estudo, o apoio pedagógico acrescido, as aulas de esclarecimento de dúvidas, as tutorias…fazem parte do trabalho de muitos alunos.
O estudo acompanhado, supostamente, deveria acabar com algumas dessas actividades ou pelo menos deveria equacionar e articular com as outras actividades do aluno. (1)
Como sabemos não só não acabaram como até foram reforçadas e diversificadas.
Acontece mesmo que as explicações são necessárias para quem quer aceder a notas que permitam entrar em determinados cursos universitários. O que quer dizer que as explicações são para os alunos com melhores resultados, o que quer dizer também que lhes cabe uma parte do sucesso pessoal e do sucesso das escolas que esses alunos frequentam.
Em relação aos TPC há várias posições: os que são contra e até os que acham que violam os direitos da criança. Temos até quem peça um dia de greve aos trabalhos de casa, principalmente contra o formato XXL dos trabalhos de casa. (2)
Há países que proibiram os TPC, como a Bélgica, Finlândia, Dinamarca, Luxemburgo, França, Grécia, alguns estados alemães…
Mas não se pense que os pais contestam essa situação: na Bélgica 80% dos pais estavam de acordo com os trabalhos de casa que os professores passavam. (3)
A favor ou contra, penso que os pais são suficientemente autónomos e esclarecidos para saberem o que devem fazer.
Em meu entender, se não podemos prescindir dos TPC, então deveria haver alguma organização e regulação.
Há professores que dão grande importância aos trabalhos de casa e que de alguma forma contam para a avaliação, na medida em que para esses professores, eles são a demonstração do interesse do aluno mesmo que não se trate de uma situação formal da avaliação.
Por outro lado, qual é o tempo limite: 30 minutos, uma hora ? Se é fácil definir no 1º ciclo, como se faz isso no 2º, 3º ciclo e secundário, uma vez que os professores não coordenam entre eles esse assunto ?
Mas os TPC não são suficientes para o sucesso.
E é A. Benavente que escreve: “mesmo nas famílias que tendem a rejeitar os TPC se opta frequentemente por um reforço através de explicações, prática que se apresenta como um sinal claro da dificuldade que a escola revela na explanação dos processos cognitivos e na organização metódica de itinerários individuais de pesquisa e resolução de problemas”.
As novas áreas curriculares do meu ponto de vista, não vieram resolver ou colmatar estas situações. Por isso, as explicações estão cada vez mais organizadas e franchizadas.
É caso para dizer: sucesso a quanto obrigas.

(1) Veja-se o que escrevia Ana Benavente a esse propósito: Aprender a estudar na escola, Público, de 8 de Novembro de 2000.
(2) Eduardo Sá, Noticias Magazine, 14 de Novembro de 2004. A polémica vem muitas vezes de fora da escola e é levantada, designadamente, por psicólogos e pediatras, às vezes de forma provocatória como penso que são algumas intervenções de Eduardo Sá e de Mário Cordeiro, mas, por isso mesmo, merecem ser discutidas e analisadas.
(3) Souta, L., Os (in)controversos TêPêCês, A página da Educação, Internet.
       

25/04/10

Arqueologia ideológica

     
Aguiar-Branco, com um discurso bem a propósito do que se passa na nossa sociedade, incomodou os do "nós por cá todos bem ", mexeram-se nas cadeiras, riram-se com alguns sorrisos lorpas, fizeram gestos...
pois é ...
Rosa Luxemburgo não interessa nada...
Mas como diz o Sr. Presidente da República "para onde é que estão a conduzir o país?"
Todos tão contentes com o 25 de Abril, aqueles cujos familiares faziam parte do poder antes dessa data, estão todos recuperados ... para o poder. São sempre os mesmos.
Cavaco Silva é uma excepção a esta regra. Por isso, não lhe perdoam ter tido a ousadia de ter vindo do povo e ter chegado a Presidente da República.
Vamos dar ao povo o que é do povo: o 25 de Abril.

22/04/10

Os avós e a autoridade parental

           
Nas famílias, as tarefas da educação são partilhadas, muitas vezes, com os avós. Dependendo das circunstâncias em que vive cada família, os avós têm mais ou menos intervenção na educação das crianças.
Uma questão controversa é se os avós educam ou deseducam.
Em primeiro lugar, deve dizer-se que falar dos avós em geral é falar de avós nenhuns e, portanto, é, provavelmente, estarmos a errar na análise que fizermos.
O mesmo se diga quando falamos dos avós de hoje. Quem são os avós de hoje ? Quem são os avós de ontem ? Estamos a referir-nos a uma entidade abstracta em relação à qual não há consensos nem estudos que nos orientem em relação a tendências seguras sobre o assunto.
Não existem "os avós de hoje". Existem os avós do João, da Maria, do Pedro...
Quando se diz que os avós mimam em excesso temos que saber de que avós concretos estamos a falar. Há avós que o fazem e outros que não. Mimar em excesso poderá ser um problema como qualquer outro excesso educativo.
Diz-se, genericamente, que as crianças de hoje são príncipes, ditadores, etc… e associa-se muitas vezes essa educação aos avós que deixam a criança fazer tudo o que quer.
Esta ideia é muito parcial e parcelar.
Os grandes e os pequenos ditadores são outros… que não as crianças !
Já encontrei crianças com dificuldade de obedecer aos adultos, educadas pelos avós como crianças bem educadas em que os avós têm um papel fundamental na sua educação.
O problema da falta de apreensão dos limites vem tanto dos pais como dos avós.
O que acontece é que há avós que tentam recompensar de forma desajustada a ausência dos pais ou têm comportamentos intrusivos na presença dos pais, chegando, muitas vezes, ao ponto da sua desautorização, como acontece nas contradições educativas do pai e da mãe. A criança não compreende esta situação: a quem obedecer ?
A realidade de hoje é que educar é uma tarefa mais complexa do que nas gerações anteriores. E por isso tanto os avós como os pais enfrentam dificuldades semelhantes na educação das crianças: a violência do mundo moderno, o consumismo, os problemas do ensino…
O stress é um problema comum, por motivos diferentes, para os pais e para os avós. Os pais com falta de tempo, o desemprego, as dificuldades económicas, entre outras.
Os avós enfrentam outras dificuldades como problemas de saúde, preocupações com os filhos, às vezes vários filhos, e, portanto, vários netos, etc. Tudo isso pode gerar uma situação de stress que prejudica o modo como os avós conseguem lidar com as crianças.
A minha convicção é a de que os avós não são os educadores laxistas que não impõem limites às crianças nem os educadores idílicos que podem prescindir do papel educativo dos pais.
Os avós, quando integrados na perspectiva educativa peculiar de cada família, são o passado da linha intergeracional que nos projecta, enquanto genes e enquanto cultura, no futuro.
              

15/04/10

O pai social – o nascimento da autoridade


A autoridade dos pais nasce das interacções que se estabelecem entre a mãe e o filho e do papel que o pai vai marcando nessa relação, ao longo do desenvolvimento.
A verdadeira autoridade dos pais numa família vem dessa relação que é apreendida pelos filhos, isto é, do modelo que os pais representam para os filhos.
Sabemos, desde há muito tempo, que “as crianças precisam mais de modelos do que de críticas” (Joubert, 1842, referido por Bettelheim, B.)  De facto, “a melhor e provavelmente a única maneira de nos tornarmos uma pessoa disciplinada é imitarmos alguém cujo exemplo admiramos”. (1)
A nossa experiência tem-nos também ensinado que para alguns jovens não há modelos dentro das famílias que eles possam seguir. É muito interessante verificarmos isso, no trabalho com os alunos do 9º ano, quando perguntamos “quem admira, se tem um modelo para a vida futura ou quem admira quando for mais crescido”.
Aparece algumas vezes a resposta da "admiração pelos pais" mas, geralmente, os adolescentes não têm qualquer referência neste campo.
Quando as crianças vão crescendo interessam-se sempre por saber onde os pais trabalham, qual a sua profissão. Devem saber do que vivem e o que lhes interessa. Quando os filhos não perguntam devem ser os pais a iniciar esse diálogo.
Encontramos na nossa experiência crianças que pouco sabem dos pais e poucas são as referências a seu respeito.
O trabalho parental deve consistir, assim, em dois aspectos fundamentais:
Apresentar-se como modelo às crianças interessando-se pela sua vida: saber os seus interesses, os seus gostos, os seus amigos, os seus jogos e com quem joga, o que lê e os seus programas preferidos e como assimila isso tudo, qual a sua atitude e comportamento face à escola e aos professores, quais são as suas dificuldades.
E isto faz-se sem interrogatórios e sem espionagem, do tipo bisbilhotar o diário, ler a correspondência e outras formas de intrusão…
É necessário o diálogo entre os elementos da família. Neste diálogo pode surgir a necessidade de ajuda para saber como se comportar. Quando esta ajuda não é pedida pelos filhos, é necessário ir ao seu encontro.
Às vezes os filhos apenas estão à espera de uma opinião, fazer um jogo com o pai ou a mãe ou até à espera de uma ordem.
Em segundo lugar, a ajuda não deve substituir a acção da criança: É necessário que a criança às vezes resolva os seus problemas sozinha e se habitue a ultrapassar as dificuldades.
A criança deve saber que será sempre apoiada, principalmente nas dificuldades que a ultrapassam, ao mesmo tempo que se exige que assuma as suas responsabilidades.
A autoridade do professor na escola será então vista pela criança de outra forma, com autonomia mas com confiança.
Quando a criança entra para a escola, os dados da personalidade da criança não estão definitivamente lançados, mas muito trabalho, bem ou mal feito, já faz parte da sua vida.
Se este trabalho foi bem feito, então não é necessário falar de bullying, nem de sexting, nem de outras formas de falta de autoridade parental... porque a falta de autoridade da escola, do professor, é falta de autoridade parental.
Fica a pergunta: se fosse perguntado ao seu filho “quem admira?”, acha que ele ia responder: admiro o meu pai ou admiro a minha mãe ?

(1) Bettelheim, B. (1994), Bons Pais - O sucesso na educação dos filhos, Venda Nova: Bertrand Editora, pag. 177.
     

01/04/10

Ser pai - o nascimento da autoridade


As alterações nas relações familiares vieram mudar substancialmente as funções sociais do pai. Algumas dessas funções sociais passaram para segundo plano.
O papel do pai na cultura e na sociedade modernas de que resultava a autoridade educativa mudaram, assim, na nossa vida.
A ausência do pai na escola e na educação integra estas mudanças sociais e culturais.
Mas apesar de todas as mudanças, ser pai, o papel do pai deve ser realçado. E é este pai que deve estar presente na escola e não será o estado, que assumiu o papel social do pai, a impedir que isso aconteça.
Se temos vindo a dar cada vez maior importância ao papel da mãe e da interacção precoce mãe-filho, e muito bem, não podemos esquecer a relação triangular que com o pai determina o desenvolvimento da criança.
De acordo com Cyrulnik (1), podemos dizer que temos três pais. O desenvolvimento da criança passa por um pai intramaterno, um pai perimaterno e um pai social.
A mãe pode ser vista como um objecto contínuo, que quando está ausente é substituída pelo objecto transaccional que assegura a sua permanência sensorial e simbólica.
Em contrapartida, o pai tem fases mais marcadas: o pai percebido (até aos seis meses), o papá ( quinze - vinte meses) e o pai social (dois - três anos).
O pai intramaterno é o pai biológico. “Este pai intramaterno torna-se sensorial, traduzido pela mãe. O seu odor, voz, carícias, a sua simples presença e o significado que a mãe lhe atribui, modificam as comunicações sensoriais entre a mãe e o filho.
Temos depois o pai perimaterno: o pai - rosto surge a partir do oitavo mês, quando a maturação da criança lhe permite diferenciar a percepção entre dois rostos. Neste momento, nasce o pai percebido enquanto rosto estranho…
“Este período sensível do nascimento do pai cria um momento de vulnerabilidade em que a mãe pode muito bem não atribuir qualquer significado ao pai, pode não o apresentar pela fantasmática dos gestos, pode não o sinalizar, não exprimindo os sorrisos, os olhares, as posturas e as vocalizações que familiarizam a criança com esta nova percepção perimaterna. O pai conhecido acaba de nascer”.
Pelos quinze a vinte meses, quando a criança é capaz de o referir pela linguagem, o pai que passa a ser o «papá». A criança é capaz de perceber um objecto presente que significa o pai ausente e pode indicá-lo à mãe por meio de um conjunto verbal e comportamental que consiste em apontar para o objecto com o indicador, em olhar para a mãe e articular «papá».
O pai passa a ser «o meu papá». O pai acaba de aparecer na linguagem. O pai já não é biológico, passa a ser semântico.
Quando aos dois três anos aparecer o pai social já muito daquilo que é ser pai foi integrado na relação familiar.

(1) Cyrulnik, Boris, (1995), Sob o signo do afecto, Lisboa: Instituto Piaget. Seguimos e condensámos o texto do autor (pag. 141 a 143).