15/07/20

Minimalismo digital


Numa autoavaliação do consumo de internet e redes sociais direi que sou um utilizador moderado, Apesar disso, não sei se ainda serei capaz de controlar o meu comportamento na utilização dos dispositivos digitais.

O desordenador (G. Elgozy), livro escrito em tempo anterior às redes sociais, já nos alertava para os perigos da informática apesar dos benefícios que também nos trazia.
Porém, estávamos longe de pensar no desenvolvimento das redes sociais e da força que elas têm para modificar os nossos comportamentos que resulta da força do condicionamento operante.

As redes sociais capturam a nossa atenção e o nosso tempo. Os engenheiros das várias empresas e plataformas digitais estão interessados em que cada pessoa deixe de ter vontade própria e passe a depender delas. Quer dizer, estamos perante a programação das pessoas e a alienação digital.

Trata-se, efetivamente, de dependência, isto é, de vício que vai dos comportamentos graves de adição como o jogo altamente viciante  que destrói personalidades e famílias, às manipulações políticas em processos eleitorais que leva à perturbação social nesses países. 

Para além da gravidade de instaurar a censura e de limitar a liberdade de expressão, as redes sociais, apresentam outros graves problemas que afectam milhões de pessoas de que apenas algumas se vão apercebendo: o problema de nos deixarem sem tempo para as coisas importantes da vida por captarem a nossa atenção de forma quase permanente.

Em 2018, a média de tempo gasto em frente aos écrans e monitores, a nível mundial, é de 7,7 horas por dia. O uso da internet, cresceu mais de 209% nos últimos oito anos. (Leah Ryder, 31/07/2018)

Os riscos para a saúde física e mental existem e à medida que mais apps vão surgindo mais pessoas ficam expostas a esses riscos:
Há estudos científicos que concluem que quanto mais uma pessoa usa as redes sociais mais insatisfeita se pode sentir;
O exagero do tempo gasto com dispositivos digitais pode causar danos aos olhos, insónia etc.;
O desenvolvimento social das crianças pode ter dificultados;
Ficamos condicionados e actuamos de modo ansioso e compulsivo devido às notificações constantes nos telemóveis.

Face a esta invasão da nossa personalidade alguns autores tentam alertar-nos para este grave problema e persuadir-nos a viver melhor com menos tecnologia que Cal Newport descreveu como minimalismo digital.

Tristan Harris


Cal Newport

A pandemia veio mostrar, por um lado, a importância e os benefícios das novas tecnologias em todos a áreas da vida humana mas também a nossa dependência da internet, a "manipulação dos espíritos".

É, por isso, necessário reforçar a ideia de que há necessidade de auto-regulação do uso da internet e das redes sociais e de adopção de comportamentos de proximidade do ser humano, da comunicação face a face, dos toques afectivos, de nos olharmos olhos nos olhos e vermos as emoções impressas no rosto do outro. 

Até para a semana com muita saúde.







10/07/20

Respect - Otis Redding ou Aretta Franklin ?







A história de respect. É isto que  falta nas interacções humanas. Aprende-se em casa, na escola, na educação formal e informal. O respeito tem em conta a tolerância mas está para além dela. 
A democracia exige que o respeito comece pelo poder: "dar-se ao respeito" é o móbil de toda a intervenção política e social. É o sentimento que me torna igual em direitos e deveres face aos outros, os mais poderosos ou os mais frágeis. Às vezes é tratar diferente o que é igual e igual o que é diferente porque a igualdade pode não ser justiça. É estar do lado das vítimas tenham elas as características que tiverem. 





Monitorização dos discursos de ódio na internet - a nova censura


Quase sem darmos por isso surgem novas formas de controlar o pensamento, de controlar a liberdade de expressão e de punir quem não pensa da forma que o poder quer.
Recentemente surgiu a notícia de que este governo vai monitorizar o discurso de ódio na internet”. A srª ministra, Mariana Vieira da Silva, disse “estar em preparação um barómetro mensal para acompanhar o discurso de ódio que existe online em Portugal”.

A legislação em relação ao discurso de ódio difere de país para país. Em Portugal segundo a Constituição, “Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual”. (Artigo 13º da Constituição portuguesa) 
Ora isto era mais do que suficiente para que as instituições judiciais funcionassem no caso de alguém desrespeitar. 

Podemos então perguntar: Na realidade o que está em jogo neste projecto ? Sem dúvida a liberdade dos cidadãos e em particular a liberdade de expressão.

O que é monitorizar para o governo?
Segunda a srª ministra : "O Governo está “em vias” de dar início à contratação pública de um projecto que deverá traduzir-se num barómetro mensal de acompanhamento e identificação de sites onde esse discurso de ódio existe, numa tentativa de perceber quais as plataformas visadas, que mensagens são essas, quem as publica e como decorrem os processos de queixas." (Negrito meu)

O que é um discurso de ódio ?
A definição de discurso de ódio do dicionário, diz-nos que é o discurso público que expressa ódio ou encoraja a violência contra uma pessoa ou grupo baseado em algo como raça, religião, sexo ou orientação sexual (o facto de ser gay, etc.).
Tudo isto está na Constituição portuguesa.

Quais são os critérios para classificar um discurso como discurso de ódio, e quem são os avaliadores desses critérios? 
Não sabemos... mas desconfio que será tudo o que é definido como populismo, extrema direita ou mesmo direita...pelos antifas, okupas, anarquistas, black bloc, mascarados e encapuçados das manifestações, brigadas revolucionárias, grupos armados da américa latina, movimentos anti-globalização, radicais das alterações climáticas, os manipuladores da orientação de consumos, do que bebemos ao que comemos... Os que discursam contra Portugal e a sua história, que querem mudar, o achincalhamento da bandeira nacional, o discurso sobre a europa culpada por ser colonizadora e desenvolvida? 
Ou seja, critérios de uma subjectividade ímpar e de um enorme facciosismo antidemocrático.

Por que interessa apenas monitorizar a internet ?
Não sabemos porque não acontece o mesmo com os discursos dos comícios, das manifestações, da imprensa e das televisões. 
Mas talvez pela promiscuidade entre comunicação social e poder... o alvo preferencial seja a internet porque é o único meio que não controlam.
A internet e as redes sociais podem trazer muita sujeira à mistura mas em democracia é sempre preferível que essa sujeira possa exprimir-se sem se ser punido por isso.**

Até para a semana com muita saúde.


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* Alberto Gonçalves, "Monitorizar" o ódio não é amor, é censura,  Observador.
** Compete aos tribunais e ao sistema de justiça avaliar e punir quem não respeita a Constituição, de forma independente e imparcial.








02/07/20

Robinson Crusoé e a nova censura

Título de edição original: The Life and Strange Adventures of Robinson Crusoe, of York, Mariner.
Versão portuguesa segundo a tradução do séc. XiX, de Pinheiro Chagas, condensada e actualizada pelos serviços Editoriais da Editorial Verbo.
Capa e ilustrações de Augusto Trigo.



1. Em 1 de Fevereiro de 1709, Alexander Selkirk foi resgatado numa ilha deserta depois de um naufrágio. A sua história serviu de inspiração a Daniel Defoe para escrever o livro Robinson Crusoe.
O livro Robinson Crusoé fez 300 anos em 2019. Foi publicado originalmente em 1719 no Reino Unido.
Faz parte do Plano Nacional de Leitura, e é aconselhado ao 6.º ano, o que "demonstra a importância e universalidade da sua prosa, que tem resistido ao desgaste do tempo e das teorias literárias." (F. Ribeiro)
O livro tem inúmeras edições, foram realizados diversos filmes sobre o tema. Continua a ser de leitura generalizada, a surgirem as versões mais diversas no cinema....
Interessa-me principalmente como livro didáctico e exemplo de sobrevivência.

2. Em resumo, Robinson Crusoé era um jovem inglês, que tinha o sonho de ser marinheiro, partir num navio e visitar vários países. Apesar de ser contrariado pelos pais que queriam que ele fosse advogado, um dia resolve embarcar.
O seu navio é apanhado por uma tempestade, naufraga e fica encalhado numa ilha. Toda a tripulação morre excepto o jovem Crusoé. Começa por ir buscar mantimentos ao navio naufragado. Constrói uma cabana de madeira, fez carvão, plantou cereais a partir de grãos que havia no navio, construiu barcas, fez ferramentas, mesa, cadeira e tudo o que mais precisava para o seu uso. Um dia descobriu uma tribo de canibais, e destes canibais, ele conseguiu educar um. Deu-lhe o nome de Sexta-Feira (assim chamado em razão do dia da semana que foi salvo). A princípio, trata-o como escravo mas aos poucos encontra um amigo. Robinson, depois de cerca de vinte e oito anos, e após a chegada de um navio inglês, ele e Sexta-Feira, rumaram a Inglaterra. (Wikipedia)

3. Aquilo que podia ser uma efeméride normal, passou a ser mais um assunto do quadro actual de controvérsia que surge sobre tudo o que não seja considerado sem mácula pela ideologia dos patrulheiros do politicamente correcto.
Uma censura terrível tomou conta da sociedade que não é capaz de tomar medidas contra os revisionistas da história. A passividade com que tudo isto é aceite deixa-nos uma grande apreensão.
Tivemos um "pequeno" exemplo na vandalização de algumas estátuas* que pouco ou nada tinham a ver com aquilo que dizem defender: o antirracismo.

4. Fernando Ribeiro, do grupo musical  Moonspell define bem a actual situação no texto "Deixem o Robinson em paz!", (9 mai 2019): "O livro Robinson Crusoé faz 300 anos. Parabéns a você. É um dos meus livros de cabeceira. Li-o quando era jovem, e reli-o inúmeras vezes já adulto, em outros contextos e alturas."
Cada um de nós poderá dizer o mesmo dos livros de que gostou** e que o espírito revisionista que inunda as redes sociais e a comunicação social classifica de racista, colonialista, etc., e é necessário colocar as coisas no tempo e no modo em que tudo sempre aconteceu e acontece, sem apagamentos, silêncios, revisionismo da história e das estórias.***


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* Churchill, P. António Vieira...
**  Como o clássico "E tudo o vento levou", retirado da plataforma de streaming HBO.
*** Por exemplo a censura de género no beijo salvador d 'A Bela Adormecida ou a escola Tàber de Barcelona que retirou cerca de 200 livros – um terço do acervo, entre eles “O Capuchinho Vermelho” e “A Bela Adormecida” – por achar que transmitem valores “tóxicos” às crianças.




   

01/07/20

Amália


Amália da Piedade Rebordão Rodrigues (Fundão, 1/7/1920 – Lisboa6/10/1999

Letra e Música: Alberto Janes 
Guitarra Portuguesa: Raul Nery / Viola: Santos Moreira 
(1952) 
Valentim de Carvalho.


26/06/20

O homem e a Natureza



"A sobrevivência de qualquer espécie depende da capacidade de essa espécie se adaptar ao meio. O homem é como qualquer outra espécie, na medida em que tem tido de se adaptar ao mundo em que nasceu." (A. Szent-Gyorgyi)
Como já a aconteceu antes, provavelmente estamos a passar por um novo período histórico "turbulento" que, pelas suas características de mudança profunda, necessita dessa adaptação de uma forma mais dramática.

Por vezes, sentimo-nos cansados, fartos, infelizes, desajustados, desiludidos, com os acontecimentos que todos os dias vemos à nossa volta. 
Desde a criação da bomba atómica, de Hiroshima e Nagasaki,  que o mundo vive com o medo  de se autodestruir de uma vez só, ou de ir morrendo lentamente, principalmente a partir de 2001, com o derrube das torres gémeas e os sobressaltos terroristas que se seguiram, que  vieram trazer novas fontes de apreensão aos países e às pessoas, inocentes, vítimas do ódio, da inveja, da ambição de poder. 

Estas já eram preocupações de segurança suficientes para nos angustiarmos quando surgiu a pandemia da covid 19, provocada por um vírus desconhecido 
Simultaneamente outras preocupações sociais complicaram a nossa vida:  reescrever a história, vandalizar estátuas, censurar obras de arte, literárias e cinematográficas como “E tudo o vento levou”, “Robinson Crusoé”... por questões rácicas, de género, ecológicas, climáticas. 
Criou-se a ideia de que toda a actividade humana trata mal a natureza (“Como se atrevem?"/"How dare you?") que  seria o paraíso se não fosse o homem. 
Os irrealistas  ecologistas, da esquerda à  direita, esquecem-se de ver a natureza como um todo, belo e bom, mas também  com tudo o que ela tem de adverso, inóspito e mortal para o ser humano, como acontece com as doenças biológicas e psicológicas. (1) O medo, o stress, a depressão, o estado de alerta constante a tudo o que põe em causa a  nossa sobrevivência, coloca-nos em pânico e com receio de que tudo se desmorone. (2)

A desadaptação provoca reacção mais violenta sobre nós próprios ou sobre os bens públicos ou privados.
Embora nós saibamos como deve ser: “não matarás", está inscrito na nossa mente... também sabemos que o nosso cérebro funciona de forma irregular ("avaria") quando estamos nestas situações de grande angústia.
Neste tempo em que se tenta descobrir heróis em todo o lado, como faz o presidente Marcelo, com o seu optimismo, embora mereça crítica na cobertura que dá ao governo (3) em muitas medidas e em que tudo se resolve com dinheiro e quanto mais melhor, o seu papel tem sido extremamente importante no apoio que dá a cada cidadão, fazendo-o sentir-se alguém com algum valor.
Como sabemos não se vence uma batalha quando nos colocamos no “fundo da hierarquia da dominância” ou quando saímos de casa para o trabalho já derrotados.  
As mudanças comportamentais de cada um de nós,  são difíceis mas necessárias para sairmos do fundo em direcção ao topo.
Há que dizer que cada um de nós tem que ser herói.
Então, "se cada um de nós viver como deve ser, floresceremos colectivamente". (J. Peterson) 

Até para a semana com muita saude.
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(1) É um esforço (quase) inútil tentar argumentar que as alterações climáticas dependem mais da própria natureza do que da acção do homem. Aliás, a acção humana depende da própria natureza...

(2) Por ex., o recente caso do actor Pedro Lima.

(3) Como o anúncio da Liga dos Campeões em Lisboa. As instrumentalização do poder do futebol pelo poder politico. A tolerância a festas políticas como o 1º de maio ou a manifestação contra o racismo...