04/03/10

Gestão de carreiras absurdas

Na administração pública há carreiras completamente absurdas, como, por exemplo, a dos técnicos superiores.
Vejamos. Se um trabalhador for avaliado como excelente, isto é, se em todos os anos da sua vida de trabalho for avaliado com excelente, são necessários 56 anos de trabalho para chegar ao topo da carreira. Mas se o trabalhador for muito bom, isto é, se for classificado com muito bom, precisa de 70 anos de serviço para chegar ao topo da carreira. Se for considerado bom trabalhador precisa de 140 anos para chegar ao topo da carreira…
Então para quem é uma careira destas ?
A avaliação de desempenho individual serve para posicionar o trabalhador nesta carreira absurda. Portanto, é fácil concluir pela falta de seriedade de tudo isto.
Segundo C. Dejours (1) , nos últimos anos, três ferramentas de gestão mudaram profundamente o trabalho:
- a avaliação individual do desempenho,
- a exigência de “qualidade total”,
- e o outsourcing.
Vamos falar hoje, apenas, da avaliação de desempenho individual.
A avaliação de desempenho individual é um instrumento que modificou totalmente o mundo do trabalho.
A máxima “cooperar internamente para competir externamente” deixou de fazer sentido.
A avaliação de desempenho individual pôs em concorrência não só os serviços e as empresas mas também os indivíduos.
“As pessoas estão agora a competir entre elas, o êxito dos colegas constitui uma ameaça, altera profundamente as relações no trabalho: “O que quero é que os outros não consigam fazer bem o seu trabalho.” Muito rapidamente, as pessoas aprendem a sonegar informação, a fazer circular boatos e, aos poucos, todos os elos que existiam até aí – a atenção aos outros, a consideração, a ajuda mútua – acabam por ser destruídos. As pessoas já não se falam, já não olham umas para as outras. E quando uma delas é vítima de uma injustiça, quando é escolhida como alvo de um assédio, ninguém se mexe…”
Foi doloroso assistir ao que se passou em Portugal quando se defendia a avaliação de desempenho como a única forma de avaliação na função pública, com maior evidência no caso da avaliação de desempenho dos professores, como se não houvesse amanhã, com a perturbação que isso causou e continua a causar nos serviços e nas escolas.
Porém, em outros países há empresas e alguns patrões que começaram a abandonar a avaliação de desempenho individual.
"Esses patrões estavam totalmente fartos dela. Essas pessoas (como acontece por cá nas empresas e na administração) o que mais odiavam no seu trabalho era ter de fazer a avaliação dos seus subordinados e que essa era a altura mais infernal do ano".
Além disso, não servia para nada: apenas para semear injustiças…e colher ódios.
Os bons resultados, a produção e a produtividade de uma empresa, estão, assim, ligados à cooperação dentro da empresa, ao ambiente de confiança mútua, de lealdade, onde ninguém tem medo de dizer o que pensa e não à avaliação de desempenho individual.

(1) Christophe Dejours ver aqui

20/02/10

Adolescência: preocupação despreocupada


P – Preocupa-me a minha falta de preocupação e interesse na matéria leccionada. O que posso fazer para me interessar mais ?
R - Esta pergunta chamou-me a atenção para o problema do desinteresse na adolescência. É mesmo assim. O aborrecimento, a falta de interesse para o estudo mas também para muitas actividades é uma característica da adolescência. Este aborrecimento é uma circunstância normal mas pode aparecer ligada a problemas patológicos como seja a delinquência, o recurso a produtos aditivos... O aborrecimento é no fundo uma a falta de prazer no investimento das coisas, das actividades, das pessoas. Vemos muitas vezes jovens que têm dificuldade em se interessar por qualquer coisa, ficam “muito cansados” quando participam numa actividade.
Muitas vezes este aborrecimento aparece ligado a formas exibicionistas no vestuário, na linguagem. E esta é a dificuldade que os educadores encontram nas propostas que fazem e podem ser colmatadas com actividades que passam pelo desporto ou pela cultura desde que haja participação nessa escolha por parte dos adolescentes. Este aborrecimento traduz-se naquele poema “ Passo horas no café/ Sem saber para onde ir/ Tudo à volta é tão feio/ Só me apetece fugir” (Rui Veloso/Carlos Tê)
Em muitos jovens encontra-se uma anidealidade de que parecem sofrer alguns jovens como aquele que recentemente veio referido na comunicação social e que estava preocupado em ser internado num dos colégios de reinserção social porque deixava de poder andar ”na descontra “ e não podia andar com “as damas”...

P – O que é a adolescência ? Durante a adolescência existem vários tipos ou fases...
R - A adolescência é um das grandes períodos de desenvolvimento humano. Podemos dizer que sabemos quando se inicia mas não sabemos exactamente quando acaba. O início da adolescência concretiza-se com o aparecimento dos caracteres sexuais secundários que marca também o início da puberdade. A puberdade termina com a eliminação do primeiro espermatozóde ou do primeiro óvulo, respectivamente, pelo rapaz ou pela rapariga. Não podemos é estabelecer uma idade que seja considerada como o início deste tipo de transformações. Além do mais esta idade tem vindo a diminuir em muitos países. Na Europa o avanço da puberdade nos dois sexos foi, entre 1900 e 1970, de 4 meses por decénio.
É um idade de transformações profundas nas relações familiares, na autonomia, na identidade, na intimidade e realização escolar e profissional, etc. Daí que não seja de estranhar que é muita mudança para uma pessoa só... E digo só de propósito porque é um estádio de desenvolvimento em que temos este sentimento de estar só, de desencorajamento, de tristeza, de quebra do rendimento escolar e da auto-estima...
Podemos considerar vários estádios, mas nem todos os autores concordam com esses estádios ou fases. E isso depende da área de desenvolvimento de que estamos a tratar, isto é, do desenvolvimento cognitivo, do desenvolvimento moral, do desenvolvimento da identidade, etc. No desenvolvimento cognitivo é suposto que o adolescente seja capaz de raciocinar de forma hipotético-dedutiva, o pensamento se alargue à perspectiva dos outros. É também o tempo em que o jovem procura a sua identidade.

P – O que é a chamada “crise” da adolescência ?
R – É um salto em frente. Mas nem sempre este salto se faz de forma equilibrada. Às vezes aparecem desequilíbrios mais acentuados e a identidade leva tempo a constituir-se. Podemos definir vários momentos como a difusão da identidade, a insolvência da identidade, a moratória e finalmente a realização da identidade. A maioria de nós realiza esta última etapa nos anos finais do ensino superior, a que se segue a integração no mundo do trabalho, provavelmente a constituição de família, etc. Será por esta altura que para muitos termina este período de desenvolvimento. Até aqui foi um longo caminho e uma longa procura... É a isto que chamam “crise”. Mas eu não tenho a certeza disso, isto é, a crise não passa de um período de desenvolvimento.

P – Por é que quando algum adolescente faz algo de incorrecto, dizem que estão na crise da adolescência ?
R- A minha resposta anterior queria dizer isso. É, muitas vezes, uma forma de paternalismo do adulto em relação a um adolescente desvalorizando a sua opinião ou remetendo-o para a sua situação de desajustamento da realidade, que existe de facto mas em relação à qual é necessário, como sempre, ter uma atitude de compreensão enquanto acto que pretende compreender o adolescente no seu contexto e não como cliché característico da adolescência.

P – Porque é que a nós adolescentes nos tratam como crianças, como os nossos pais?
R- O processo da adolescência tem implicações também para os pais que não se adaptam à nova situação, que tendem a ter dificuldade em perder o ponto de vista com que lidavam até então. Se é uma crise para o jovem é também uma crise para os pais. Alguns pais não estão preparados para lidar com esta situação. Eu diria que não é fácil manter o diálogo em família. Há, necessariamente, uma conflitualidade intergeracional, e eu tenho muita dificuldade em ver como se pode construir a identidade se não se construir a autonomia. Mas era importante que houvesse informação para os jovens e para os pais sobre todas as etapas do desenvolvimento humano para se perceber melhor como podemos intervir nas interacções educativas, escolares ou familiares.

P – Eu tenho algumas dúvidas sobre o emprego que vou seguir.
R – Esta dúvida já é positiva. É reflectindo sobre isso que podemos delinear uma carreira. A orientação escolar e profissional existe para tentar clarificar alguns aspectos dessas dúvidas. No entanto, hoje, não podemos esperar pelo 9º ano para começarmos a falar do desenvolvimento da carreira. Por isso é bom aproveitar toda a informação e programas existentes para reduzir o campo da dúvida.

(Perguntas de alunos do 9º ano. Publicado no Jornal “Despertar”, Junho 2003, da Escola Afonso de Paiva, Castelo Branco)

18/02/10

Educar na era digital: As metas educativas e a diversidade na sala de aula



Vai ser feito um estudo para definir para cada ano e tipo de ensino as metas de aprendizagem que os alunos devem atingir, de modo a que fique definido o que os alunos têm de saber, que competências têm de demonstrar no final de cada ano de escolaridade em relação a cada disciplina.
A ideia central é transformar os programas das diversas disciplinas, que estão agora organizados por conteúdos e temas em metas de aprendizagem tendo em consideração o objectivo do ciclo de estudos. (1)
É interessante concluirmos que não sabemos, hoje, o que os alunos devem aprender em cada ano de escolaridade.
Reconhecê-lo já é de grande mérito.
Mas o desafio é enorme se quisermos propor metas a atingir, tendo em conta a diversidade de alunos na sala de aula e elevados padrões de realização educativa.
O meu entusiasmo com esta situação vem do facto de, finalmente, estarmos a falar do núcleo da educação. Isto é, estamos a falar da sala de aula e do essencial do currículo.
As mudanças culturais, educacionais e jurídicas alteraram significativamente a composição dos alunos na sala de aula do ensino regular.
A sala de aula típica de hoje pode incluir alunos cuja língua materna não é português; alunos que não lêem ao nível de leitura do seu ano de escolaridade, alunos com problemas comportamentais, de atenção e de motivação; estudantes de variadas formações culturais; e os alunos com precocidade excepcional ou sobredotados. Além disso, existem os alunos com necessidades especiais, tais como a visão limitada, deficiência motora, dificuldades emocionais, da fala e linguagem e dificuldades de aprendizagem.
Então como estabelecer metas?
O cérebro era visto numa perspectiva unidimensional da aprendizagem e da inteligência. Em contraste, hoje falamos de inteligências múltiplas e dos alunos que têm capacidades de aprendizagem multifacetadas, e que uma deficiência ou desafio numa área pode ser contrariado pela extraordinária capacidade noutra área.
Por exemplo, uma pessoa que tem défice de aprendizagem num conteúdo baseado num texto pode ser extraordinariamente qualificado num ambiente baseado em gráficos ou vídeo.
Os avanços tecnológicos, computadores e meios digitais, dotaram os educadores com novos recursos didácticos. As novas tecnologias oferecem uma oportunidade de responder às diferenças individuais multifacetadas da população estudantil, fornecendo meios mais variados, ferramentas e métodos.
Devido à sua flexibilidade, as tecnologias digitais podem ajustar-se às diferenças dos alunos, permitindo aos professores diferenciar um aluno estabelecendo os pontos fortes, os interesses e as barreiras que podem ser bloqueados pelo uso exclusivo do texto impresso.
A legislação promove a inclusão dos alunos tendo como base o currículo comum. As adequações curriculares, tendo como base a diferenciação pedagógica suportada pelas ferramentas da era digital, indicam a possibilidade de participação e progresso dentro do currículo geral e então poderemos melhorar os resultados de todos os alunos não só dos que apresentam necessidades especiais mas de todos os que em qualquer momento têm dificuldades.

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(1) Ver aqui

Educar na era digital: o currículo do futuro

               
Vivemos na era digital, no tempo da sociedade do conhecimento e da informação. No entanto, outras pessoas vivem no tempo da sociedade industrial e outras no das sociedades agrícolas.
As taxas de desemprego aumentam praticamente em todo o mundo, mas, por outro lado, as empresas apresentam, cada vez mais, uma carência de mão-de-obra especializada.
O sistema educativo e de formação não estão capacitadas para formar profissionais com o perfil necessário para responder a essas carências.
As grandes empresas, multinacionais, marcam a economia actual, e no futuro, poderão tomar-se ainda mais poderosas. Em contrapartida, as microempresas e as profissões liberais, assumirão um papel cada vez mais preponderante, sendo de destacar uma cada vez maior especialização.
As empresas mais flexíveis, mais rápidas a decidir e a inovar, vão requerer técnicos altamente especializados.
No que se refere às saídas profissionais, diversos estudos apontam para o desaparecimento de muitas actividades. Novas profissões, entretanto, serão criados nas universidades.
O ensino actual passa por profundas modificações. A escola oriunda da era industrial será ultrapassada por novos modelos alternativos, mais eficazes e criativos.
Segundo Alvin Toffler, essa transformação passará por procurar os objectivos e os métodos no futuro e não no passado:
- transformar a estrutura organizacional do ensino,
- revolucionar o seu curriculum,
- ter em conta não apenas os dados, a informação, muitas vezes excessiva mas as aptidões, isto é, a capacidade para a processar e fazer escolhas,
- uma estratégia de futuridade em que cada aluno se pode perspectivar no futuro.
A escola terá que se tranformar , tal como os pofessores e os alunos. Mas essta transformação passa pelo currículo.
Os professores têm de aprender a ver cada aluno como um todo singular onde se escondem, por vezes, potencialidades que podem aparecer em áreas curriculares diferentes do currículo nacional ou tradicional.
Como estamos então a adaptar a escola a esta realidade ? A criação do secundário obrigatório poderá ser uma resposta.
Parece-me fácil ser a favor do ensino secundário para todos, embora haja tantas perguntas a fazer, como por exemplo, quanto vai custar, há orçamento para pagar professores e as bolsas de estudo dos alunos, é a melhor oportunidade para o seu lançamento, como vão ser integrados os alunos com NEE quando sabemos que os alunos já têm tanta dificuldade no básico ?
Surgem vozes que sempre existiram, aliás, contra a escola inclusiva até mesmo no ensino básico...
Mas o caminho é o da escola para todos na perspectiva da escola para cada aluno como um todo singular.
A questão está na transformação de um currículo tradicional num currículo da era digital o que vai permitir não só mais educação mas também melhor educação, e educação que responde às necessidades do futuro mas também já às do presente.. E é absolutamente urgente que a escola se adapte a uma educação para cada aluno na era digital.

(Toffler, A. (1970), Choque do Futuro, Lisboa: Edição Livros do Brasil)

03/02/10

O lápis mágico ou o lápis azul


Estou a ler um livro maravilhoso de Maria Alberta Menéres : Imaginação - histórias de vida vivências afectos poesia - uma pedagogia do encantamento.
Dentre os muitos encantamentos, fala dos lápis mágicos e de uma parede branca que não tinha nada para dizer.
“Ó setora, o meu lápis é mágico! Olhe que ele escreve coisas que eu não sabia que sabia."
"Eu acho que hoje escrevo e continuo a escrever porque passo a vida a servir-me de lápis mágicos."
É esta a magia de todos os dias: podermos exprimir aquilo que pensamos nas paredes brancas, nas linhas tortas ou direitas, quer o poder goste ou não goste.
Para que me servirá ter um milhão de computadores Magalhães se não posso exprimir o que penso?
Para que me servirá uma educação que admite a censura do pensamento ? Enganam-se se pensam que conseguem censurar a imaginação.
Imaginar é antes de mais ter liberdade para poder exprimir aquilo que se sente. Esta é a primeira condição da imaginação.
Como diz o poema de Jacques Prevert, quando o pássaro vem à janela desinquietar o menino, brinca com ele e tudo se transforma. Dois e dois podem até não ser quatro.
A imaginação é a aptidão para a representação de objectos ausentes e para a combinação de imagens (Larousse).
A imaginação é importante para romper com certos modos de pensamento e criar novas sínteses mentais, é necessária uma certa flexibilidade de espírito que depende em grande parte das atitudes profundas da pessoa.

A imaginação pode ser um futuro melhor. Imagine que se concretiza a canção de Lenon:
Imagine todas as pessoas
Vivendo pelo hoje...,
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz...
Você talvez diga que sou um sonhador,
Mas eu não sou o único.

A imaginação é imprescindível para a criatividade. Para a relação transformadora com os objectos mas também para a relação transformadora entre dois seres.
E é imprescindível para nos curarmos. A terapia cognitiva utiliza técnicas com imagens mentais para tratar os nossos problemas de ansiedade e de personalidade.
A imaginação aprende-se e desenvolve-se desde criança.
Para ter imaginação e ser criativo é necessário ser inteligente mas não são necessariamente os mais inteligentes que são mais criativos.
Desenvolver a criatividade passa pela condição de ser livre e de ensinar aos nossos alunos que ser livre é também ser capaz de poder expressar livremente a sua imaginação.
Mas que pedagogia do encantamento poderá ser entendida pelos nossos alunos, pelos jovens, quando assistimos à situação de jornalistas e comentadores de opinião que são silenciados ?

É por isso que educar é dar preferência ao lápis mágico e contestar o lápis azul.




27/01/10

A arte de viver com os outros



Na última semana fomos, finalmente, postos perante uma situação social, organizacional e política nova: a negociação.
Aquilo que parecia impensável há algum tempo, de repente torna-se realidade.A negociação pode acontecer e até pode dar resultados sem ninguém perder a face. Sem ninguém deixar de ser o que é, sem ninguém ceder no essencial do seu projecto.
Uma palavra que praticamente tinha deixado de fazer parte do dicionário, de repente voltou, independentemente de se saber se vai haver resultados. O que importa, neste momento, é que há uma metodologia diferente. O método da negociação é o caminho a seguir porque a negociação é a regra de base das relações humanas.
ei que algumas pessoas não gostam da palavra principalmente quando estão em jogo as relações familiares como por exemplo as relações entre pais e filhos.
Mas a realidade é que quando duas ou mais pessoas vivem sob o mesmo tecto entram em desacordo diariamente. O conflito faz parte da vida de todos os dias.
Por isso é necessário negociar. Mas negociar não é deixarmos de ter a nossa posição. Negociação não é cedência.
Mas fazer do outro o alvo de todos os males não parece razoável. Nem o outro é tão mau que não se possa negociar com ele nem nós temos toda a verdade de forma tão absoluta que não se possa melhorar ou corrigir a nossa posição.
Na legislatura anterior foi o que aconteceu: Alcochete jamais acabou por ser Alcochete é que é. Na arte de negociar tem que se saber dar tempo ao tempo. Não se vai negociar quando se está num estado emotivo muito forte.
Entre as opções “o inferno são os outros” ou “o inferno somos nós” podemos encontrar uma plataforma de resolução do conflito que é a arte de viver com os outros.
A negociação respeita a todas as situações da vida e também àquelas que se passam no seio da família. Entre pais e filhos, entre adultos e crianças, entre professores e alunos, os conflitos devem ser também resolvidos pela negociação. A negociação requer uma tomada de perspectiva social de interdependência autónoma dado que a total independência é tão infrutífera quanto a total dependência (Selman).
Há portanto limites para a negociação. Tudo pode ser objecto de negociação mas nem tudo é negociável. A violência doméstica, a violência sobre as crianças, a violência sobre a liberdade, não é certamente negociável.
Mas a grande maioria dos problemas são negociáveis. Se o seu filho não quer comer a sopa o que faz? Se a sua filha de 7 anos recusa comer legumes vai castigá-la para mudar o seu comportamento? e são muitas vezes estes problemas tão simples que nos aborrecem fortemente no nosso dia a dia.
Assistimos nos últimos tempos, no plano social, a uma atitude obstinada de não querer negociar nada. É estranho hoje em dia porque sabemos que a resolução dos conflitos passa pela negociação.Ainda bem que se entendeu que negociar faz parte da nossa vida.
___________________________
(Ghazal, Michel (2004), “Un art de vivre avec les autres”, in Psychologies, nº 229, Avril, pp.58-59
Rondeau, Alain (1990), «La gestion des conflits dans les organisations», in Chanlat, J.-F., L’individu dans l’organisation, Les dimensions oubliées, Éditions ESKA, pp. 507-527.
Kindler, H.(1991), A gestão construtiva dos desacordos, Monitor )

21/01/10

Quem se preocupa ?


Não resisto a colocar aqui a informação do STE sobre a alteração ao estatuto do Pessoal Dirigente da Administração Pública.
É a inacreditável gestão de recursos humanos! Como se passou na Educação, há alguém que não gosta mesmo da Função Pública.

20/01/10

As nossas crises: “o inédito viável”

                        






A propósito da passagem dos 80 anos do nascimento de Maria de Lurdes Pintasilgo, revisito “as dimensões da mudança” de que ela tanto falava. Em texto de 1978, muito interessante e cheio de actualidade, fala-nos da crise.
As crises põem a claro as nossas vulnerabilidades ou a nossa forma de reacção aos factores de vulnerabilidade.
Como reagimos nas situações de um desastre ou a circunstâncias traumáticas de vida como, por exemplo, nos casos de perigo de vida ou doença, fome, perdas importantes, solidão, reduzida ou nula capacidade de resolução de problemas .
As reacções às crises podem ser as mais diversas. Veja-se o que acontece nas situações de tremores de terra, tsunamis ou outros desastres.
Como a M. L. Pintasilgo, certamente, as nossas crises e as crises da sociedade sempre nos apanharam de surpresa.
Como ela refere: “Crises em mim própria - quantas situações sem saída a perturbarem a linha sem labirintos que queria seguir.
Crises das pessoas - a perturbarem subitamente a confiança mútua, a abalarem as solidariedades laboriosamente criadas...
Crises das sociedades - a perturbarem a «ordem» estabelecida, a mostrarem a precariedade de todas as coisas... Subitamente, a sensação de suspensão no vazio, de interrogação inquieta. Onde vai desembocar a crise?
Será ela prenúncio de uma situação sem saída a agudizar-se cada vez mais, ou anúncio de uma nova porta que se abre? Será ela o perigo, o confronto último com a inviabilidade de qualquer solução ou a oportunidade para descobrir o «inédito viável», escondido pelas mil artimanhas da rotina instalada? …”
“Crises das relações: … Inesperada a sensação de que já não é o outro que no outro fala e age, que já não somos nós que o outro vê e acolhe, mas um outro de nós que desconhecemos. Continuam a circular palavras e até gestos. Mas as palavras passam a ser objectos em si e não meio de comunicação; fazem o seu caminho entre nós e o outro independentemente de qualquer relação, por isso são ouvidas em outro código; a emissão e a recepção deixaram de ter uma linguagem comum. E os gestos passam a não ser nada, a não conter o que pretendem significar, tornam-se desastrados, partem as pontes, desfazem os laços. Abre-se então a crise da grande solidão.”
"Fácil é reduzir as crises aos epifenómenos políticos em que se traduzem..."
acusando-se os políticos uns aos outros pela responsabilidade da crise, atirando para outros sempre o que se fez de errado e auto-vangloriando-se com a chamada obra feita.
Crise também do projecto social. A crise das instituições é crise de decisão, de organização e de pessoas.
Se as escolas, os hospitais, as empresas não funcionam onde estão as pessoas para as fazerem funcionar ?
Já percebemos que não há, hoje, projecto social. Porque ainda não compreendemos nem o porquê nem o para onde do empenhamento que nos pedem.
E como já fomos surpreendidos várias vezes… a palavra, os gestos passam a não ser nada…
Mas a reconstrução é possível e podemos tornar “o inédito viável”.



13/01/10

Reforma ? É só fazer as contas...


Há uma fase da nossa vida em que somos idosos, estamos na 3ª idade, somos séniores ou velhos, enfim, termos que vamos usando para definirmos a idade mais avançada.
Para Erikson estamos no estádio VIII que chama de adulto tardio ou da maturidade. Começa após a reforma, quando os filhos já saíram de casa e temos mais de 60 anos.
É bom chegar a esta etapa da vida, penso. Significa que se ultrapassaram muitos problemas.
A tarefa principal é, no entanto, conseguir chegar aqui com integridade do EU, com um mínimo de desespero.
Há um distanciamento social em relação ao trabalho e à família e pode-se acreditar que já não se é necessário, porque está tudo feito, e existe um sentimento de inutilidade biológica porque o corpo já não responde como antes mas também de inutilidade social.
A integridade do EU significa que somos capazes de olhar e aceitar os acontecimentos do passado e aceitar a vida tal como se viveu mesmo se tomámos algumas decisões erradas.
É a idade da sabedoria que é uma pessoa sentir-se verdadeiramente grata por viver com simplicidade, ser gentil e generosa e ser capaz de encarar a morte sem medo.
Queremos chegar a esta etapa da sabedoria mas, nestes tempos, estão a acontecer várias indicações de sinal contrário.
A preparação para a reforma praticamente não existe e além do mais é difícil, neste quadro, fazer opções racionais.
Não faz sentido que se diga “é bom ires para a reforma para dares lugar aos novos” e ao mesmo tempo se diga que é importante que os séniores continuem a ser pessoas activas, continuem a trabalhar nos sectores onde têm sabedoria para darem o seu contributo à sociedade.
Também não faz sentido que se diga: ou vais para a reforma agora ou se fores daqui a um, dois anos vais ser prejudicado no valor da reforma.
É o que se passa hoje: as pessoas têm que fazer as contas para saberem qual a melhor altura para se reformarem.
Estes sinais contrários mais uma vez não nos ajudam a definir o que queremos como sociedade. Queremos que os idosos trabalhem mais tempo, isto é, que se mantenham mais tempo como activos ou não?
Se não queremos, estamos a preparar as respostas sociais adequadas, tais como: a preparação para a reforma, os equipamentos sociais, os centros de dia, lares humanizados, cuidados de saúde, parques de manutenção de vida com qualidade, etc. como acontece em países mais evoluídos?
O que estamos a fazer para que as pessoas idosas consigam esta integridade do Eu?
Uma sociedade avançada também se caracteriza pela forma como integra e trata os idosos e não apenas por aqueles projectos que alguns políticos acham que são importantes.
Mas este não é um assunto fracturante e os senhores deputados também não têm este problema das reformas.
Os cidadãos com mais idade podem continuar a fazer as contas...

07/01/10

Líderes servidores

A “Fundação europeia para a melhoria das condições de trabalho e de vida” revelou em estudo efectuado em 2007, que Portugal se situava na cauda da Europa no que diz respeito à satisfação com a chefia.[1].
Hoje há ainda políticos, militares, executivos, catedráticos empresários, banqueiros que são (ou foram) lideres que se baseiam na arrogância, autoritarismo e individualismo que são aspectos que conduzem à insatisfação nas organizações.
Utilizam cargos, dinheiro, títulos e influência para demonstrar a sua força e ditar as regras, eliminando qualquer possibilidade de diálogo.
Estes lideres ocupam uma posição privilegiada dentro da organização e o seu poder vem muitas vezes de nomeações político-partidárias. Não é um poder que lhes vem da cidadania ou da sua competência técnica e profissional.
Mas há outra forma de liderança: a liderança servidora é justamente o oposto desta liderança arrogante.
Mas o que é a liderança servidora ?
O termo foi introduzido, em 1970, por Robert K. Greenleaf no ensaio The Servant as Leader (“O servidor como líder”).
Não é, portanto, um conceito novo.
Na liderança servidora não existe o culto da personalidade, o salvador da pátria, mas gente comum, com um forte desejo de servir os seus concidadãos.
Liderar não é ser 'chefe'. Liderar é servir. E ao contrário do que se possa pensar, as lideranças servidoras não são lideranças fracas nem frágeis.
O que é que as pessoas esperam e admiram nos seus líderes ?
Que sejam honestos, competentes, inspiradores e visionários (inquérito efectuado a 75.000 pessoas, J. Kouzes e B. Posner, citado por Roberto Carneiro. Ver aqui o PowerPoint Liderança e gestão na direcção das escolas)
A nossa organização sócio-política ou a nível da liderança das empresas e das chefias intermédias não necessitará de lideres servidores ?
Provavelmente se tivéssemos lideres servidores a actual crise nunca teria existido e teríamos poupado grande sofrimento às pessoas que entretanto ficaram no desemprego e entraram no campo da pobreza e do desespero.
O que é interessante é podermos verificar que de vez em quando surgem lideres que provam que essas características são as realmente importantes para a liderança.
Afinal havia uma ministra da saúde que tem mostrado que se pode ter uma liderança diferente do ministro anterior. O mesmo, espero, se está a passar no sector de educação. Há agora uma ministra que sorri, que dialoga, que acredita nas pessoas. Felizmente para os alunos e professores.. E estas qualidades não pesam um cêntimo no orçamento.

Segundo Greenleaf, o líder servidor deve ter em conta 10 princípios: [2]
1. Escuta - Os lideres são valorizados pela sua capacidade comunicacional. O Líder Servidor escuta intensamente o outro… e esforça-se continuamente por ouvir a sua voz interior: o que o seu corpo, a sua mente a sua consciência lhe dizem.
2. Empatia - Procura sempre aceitar o que há de específico único na outra pessoa, colocar-se no lugar do outro para ver a realidade de outro modo.
3. Cura - O poder da cura é uma força enorme de transformação e integração. O Líder Servidor tem o grande potencial de curar-se a si e ao outro, na permanência , na procura da integridade e do todo
4. Consciência do outro - O líder servidor não teme os desafios, o desassossego da busca interior que leva à auto consciência das fraquezas e fragilidades pessoais. A consciência da sua pequenez fá-lo mais atento ao outro.
5. Persuasão - Persuasão e inspiração mais do que exercício de autoridade é a forma como o Líder Servidor convence os outros
6. Conceptualização - O Líder Servidor desenvolve a capacidade de “sonhar grandes sonhos” de olhar para o problema de forma a transcender a sua realidade limitativa.
7. Antecipação - O Líder Servidor compreende as lições do passado as realidades do presente para pensar a construção do futuro. O Líder Servidor cultiva sem descanso a mente intuitiva.
8. Direcção e orientação - Uma boa orientação a todos mobiliza: líder, liderados, directores e colaboradores, para a realização do bem da sociedade.
9. Compromisso - com o crescimento das pessoas que estão à sua volta; dimensão pessoal, profissional, espiritual.
10.Comunidade - Sem integração na comunidade o indivíduo está perdido O Líder Servidor é um empreendedor social. Um produtor de capital social em todas as instâncias em que está empenhado.


[1] Patrícia Jardim da Palma, "Liderança servidora", Sol , 18.12.2009

[2] Com base no PowerPoint referido.