04/06/21
Uma crise perfeita: desgoverno e desoposição *
01/06/21
Hoje, dia da Criança, se eu fosse presidente...
...
"Mas não contem comigo para fazer política
Não é necessário ser Presidente, para amar as crianças"
27/05/21
Java para o fim-de-semana
ZAZ e Aznavour - Java bleue
Madeleine Peyroux - La Javanaise (Gainsbourg)
Khatia Buniatishvili - La Javanaise (Gainsbourg)
O ranking das escolas à espera do Super-homem
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* Como se constatou com o programa Head Start.
20/05/21
Fringe benefits
Os fringe benefits (benefícios sociais, acção social complementar ou benefícios adicionais) (1) são um subsistema de apoio social das organizações que visa complementar necessidades permanentes ou de emergência ou, ainda, uma regalia dos seus trabalhadores.
São muitas vezes uma maneira de complementar, em espécie ou com subsídios, os salários dos trabalhadores (remuneração indirecta). (2)
Têm como objectivos fundamentais:
- esbater as diferenças salariais dos trabalhadores, na medida em que todos têm acesso aos serviços e prestações sociais concedidas.
- motivar para o trabalho e manter a motivação na organização.
- contribuir para a estabilidade familiar dado que os apoios se verificam em relação a pessoas mais frágeis, crianças, idosos, famílias com carência económica.
- proteger as franjas menos remuneradas e mais carenciadas dos profissionais da organização.
- diferenciar e prestigiar a organização e servir de atractividade no recrutamento de pessoal e manter a continuidade dos trabalhadores na empresa.
- contribuir para o bem-estar dos trabalhadores através de actividades culturais, desportivas, de férias e lazer...
Os benefícios sociais existem em praticamente todas as empresas e organizações (3), privadas ou estatais, como instrumento da gestão para melhorar o desempenho e a motivação e dessa forma aumentar a produtividade.
O estado é a maior organização empresarial do país. Como tal criou serviços de acção social complementar para os trabalhadores nos vários ministérios governamentais.
Os actuais serviços sociais da administração pública (SSAP) são o resultado da fusão de vários de serviços sociais de vários ministérios, como os serviços sociais da presidência do conselho de ministros, do ministério da saúde, da educação ....
Também nas empresas privadas foram criados benefícios sociais como seguros de saúde, actividades de animação sócio-cultural e desportiva como os CCD (Centros de cultura e desporto), para além de serviços públicos de acção social complementar como o Inatel, as pousadas de juventude ...
Muitos destes serviços sociais são também responsáveis pela assistência na saúde como os SAMS dos bancários ou os serviços sociais da CGD, das forças armadas, forças de segurança, de muitas empresas...
A responsável do governo para a Modernização do Estado e da Administração Pública, Alexandra Leitão, foi pouco sensata ao querer criar uma residência para alunos do ensino superior, em Lisboa. Certamente a ministra podia fazê-lo, se se entendesse que este apoio correspondia a uma necessidade dos beneficiários. E corresponde. Porém não teve em conta o timing, a situação real das necessidades de todas as famílias portuguesas com alunos que têm de se deslocar para estudarem na universidade, numa área em que há imensas carências de residências para estudantes. Por outro lado, nesta área há alternativas para esta necessidade como o subsídio de estudos.
Claro que por tudo isto, a governante foi contestada e nem se esperava outra coisa. Pena é que a contestação seja aproveitada para atacar os chamados privilégios dos funcionários públicos...
Apesar do que disse sobre a necessidade e importância dos benefícios sociais, que os justificam, são, de facto, um privilégio. Mas é da sua natureza serem um privilégio.
Assim, há que ser claro. Ou eles existem nas organizações como contributo para a melhoria da qualidade de vida dos seus trabalhadores e com vantagens para as organizações ou, então, imponham limites ao seu âmbito de actuação ou, finalmente, acabem com eles mas assumam essa responsabilidade pelas consequências daí resultantes. *
Até para a semana.
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(1) Idalberto Chiavenato, Administração de recursos humanos, vol. 3, Ed. Atlas, 1985, cap. 2 - Planos de benefícios sociais, pags 100-112.
(2) Normalmente estes serviços são sustentados com verbas do orçamento do estado mas também são comparticipados pelos beneficiários. Aliás nenhum serviço deve ser gratuito (I. Chiavenato, pag. 110).
* Nota - Tenho uma visão muito positiva dos fringe benefits. Fui e sou beneficiário de alguns serviços sociais. Trabalhei como técnico superior (psicólogo) nos Serviços Sociais da Presidência do Conselho de Ministros (SSPCM) de 1987 a 1991.
15/05/21
A nova censura

05/05/21
Manifestações violentas
As manifestações do 1º de Maio em Bruxelas, Paris e um pouco por todo o lado, apesar do controle dos respectivos aparelhos político-sindicais dos partidos, acabam quase sempre na maior das confusões entre várias facções e destas com as forças da ordem ...
Estas manifestações, em regimes democráticos, deviam ter um clima reivindicativo um clima de alegria, paz, confraternização entre todos os trabalhadores ... ao contrário são marcadas pela violência entre manifestantes, contra a propriedade privada mas também a pública, violência contra a polícia ...
Movimentos e grupos sociais velhos ou novos, radicais, mas com ideias feitas, dos velhos anarquistas aos novos grupos de “acção directa”, facciosos das novas formas de violência climática, populistas, patrulheiros da linguagem e dos costumes, dos hábitos alimentares, envolvem-se nesta intervenção violenta.
Claro que há no meio desta gente pessoas bem intencionadas que se vêem envolvidas nesta gelatina de ideias feitas, indisciplinada, sem regras, onde vale tudo, que se sente abrangida pela impunidade já que o poder, mesmo democrático, tem receio de enfrentar estas ideias “taxativas”, como se dizia em Maio de 68: “é proibido proibir”.
José Ortega e Gasset, em 1930, há mais de 90 anos, fez a compreensão deste fenómeno e deu a resposta à questão. Escreve:
.”.. creio que as inovações políticas dos mais recentes anos não significam outra coisa senão o império político das massas. A velha democracia vivia temperada por uma dose abundante de liberalismo e de entusiasmo pela lei.
... Democracia e Lei, convivência legal, eram sinónimos. Hoje assistimos ao triunfo de uma hiperdemocracia em que a massa actua diretamente sem lei, por meio de pressões materiais, impondo suas aspirações e seus gostos. “
O cap. VIII da Rebelião das massas * tem justamente o título: "Por que as massas intervêm em tudo, e por que só intervêm violentamente".
É assim porque o “homem médio” tem "ideias" taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo. Por isso perdeu o uso da audição. Só se ouve a si próprio e é cego e surdo para a opinião dos outros.
Estas “ideias" taxativas não significam exactamente cultura. Refere Gasset: “O que digo é que não há cultura onde não há normas a que se possa recorrer. Não há cultura onde não há princípios de legalidade civil a que apelar. “...
“Quando faltam todas essas coisas, não há cultura; há, no sentido mais estrito da palavra, barbárie. E isto é, não tenhamos ilusões, o que começa a haver na Europa sob a progressiva rebelião das massas." (p.136-137)
Donde vem tudo isto?
Gasset refere: “aqueles grupos sindicalistas e realistas franceses por volta de 1900, inventores da maneira e da palavra "ação directa". (p. 139)
Estes grupos de "acção directa", de facto, estão em tudo, são violentes e não se pode questionar as “ideias” do homem-massa seja sobre o que for: o clima, a história, o racismo, o colonialismo, a escravatura, as políticas, os comportamentos...
Até para a semana.
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29/04/21
Amor e ódio
A RTP1 exibiu na última semana alguns filmes clássicos como Lawrence da Arábia, West side story - amor sem fronteiras, Green book – um guia para a vida, que me sugeriram haver entre eles um fio condutor: o amor em contraposição ao ódio que torna o amor impossível.
A vida de Lawrence da Arábia (1) manifesta um personagem singular que se envolve na luta de árabes contra o império turco-otomano, com a violência que sempre acompanha estas guerras pela supremacia entre povos.
Em West side story - Amor sem fronteiras (2), o conflito entre jovens de Nova York, de um gang de anglo-saxónicos versus um gang de porto-riquenhos, mostra como o ódio de grupos diferentes torna impossível o amor entre as pessoas e a felicidade algo sempre distante.
Em Green book – Um guia para a vida (3), somos confrontados com a ligação inesperada entre um pianista afro-americano de renome mundial, músico clássico, com um italo-americano, o seu motorista, em que ambos enfrentam os perigos de uma era de segregação racial, ligação que não é compreendida nem aceite pela sociedade da altura (anos 60).
Nestas três situações podemos constatar que o amor e o ódio atingem toda a sociedade: indivíduos, famílias, etnias, grupos... O conflito e o ódio não são nem mais nem menos do que uma mancha que se espalha igualmente por toda a sociedade e têm acompanhado toda a história da humanidade: West side story é a história de Anton e Maria, no séc. XX (1961), de Romeu e Julieta, no séc. XVI (1591), de Píramo e Tisbe, no sec. I AC.
Para os etologistas, amor e ódio são comportamentos etológicos fundamentais inscritos na nossa natureza, inatos. Por isso, o ódio está em ambos os lados dos conflitos, sejam racistas, xenófobos, religiosos, políticos, desportivos, de discriminação social ou outra, violência familiar e doméstica,...
A pergunta é então: por que não mudam os comportamentos das pessoas, ou seja, por que não se procuram outros caminhos igualmente etológicos como a ritualização e os comportamentos vinculativos ?
Mesmo quando há vencedores nestes conflitos, a prazo são todos perdedores, como em West side story, mas isso não é suficiente para inibir o ser humano a que o ódio volte sempre a renascer das cinzas do último conflito...
A esperança de ultrapassar o ódio, apesar disso, é que também pode haver mudança, se os indivíduos forem vistos como seres humanos e não como grupos diferentes, inferiores ou superiores. A esperança de que a vitória está na vinculação amorosa entre Anton e Maria, que não conseguiram superar o ódio dos gangs, nem evitar uma batalha de rua, fatal, mas que coloca a interrogação: Para quê o ódio ?
No nosso futuro, a nossa vida vai continuar a ter estes comportamentos etológicos: agressividade e amor. Quero acreditar que um dia, qualquer individuo será visto como ser humano e os vínculos amorosos terão um papel efectivo nas nossas relações.
(1) O argumento do filme baseia-se na biografia de T. E. Lawrence (1888–1935) descrita no seu livro Sete Pilares da Sabedoria. Realização: David Lean (1962).
(2) West Side Story - Amor Sem Barreiras. Realização de Robert Wise. (1961).
(3) Green Book - Um guia para a vida. Realização de Peter Farrelly (2018).
23/04/21
Psicologia da corrupção 3
Por que é que jogo no euromilhões ? Se nunca me sai nada e a probabilidade de sair é praticamente nula porque insisto semanalmente em tentar a sorte grande ?
O que me move neste comportamento é sobretudo a crença de que o dinheiro, resolveria os meus problemas e satisfaria a ambição de ter uma boa vida, com tudo o que isso implica.
Para atingir estes fins há quem não queira esperar por esta "basuca" pessoal e prefira os atalhos. A política na sua versão menos nobre é um dos atalhos que me pode dar o euromilhões.
Tentar a sorte por estes caminhos ínvios parece ser cada vez mais frequente, tolerado e banalizado, encolhemos os ombros e sentenciamos: “são todos iguais”.
Porém, na corrupção não há apenas uma pessoa mas uma rede que envolve corruptores, corrompidos, cúmplices silenciosos ou activos onde todos são ganhadores ou pelo menos pensam que são.
O que se passou no processo “operação marquês” foi exactamente esta tolerância e cumplicidade de várias instituições, principalmente de um governo e de um partido onde ninguém viu ou sabia de nada, ninguém disse nada, mas onde imperam compromissos, tácitos ou não, tanto mais fortes quanto o nível de recompensas que daí advêm.
E tudo isto feito com a tolerância de cidadãos que elegem democrática e repetidamente estas pessoas ...
Se pensarmos que a corrupção não é um acontecimento recente, sempre existiu, e está entranhada nas democracias de forma sistémica, como compreender este comportamento?
Podemos pensar a corrupção a três níveis: Individual, cultural e social.
Digamos que a cultura e a sociedade proporcionam e facilitam a corrupção. A organização do estado, a organização das autarquias, facilitam estas circunstâncias, com a contratação directa de bens e serviços, o nepotismo, a criação de empresas municipais, a mistura estado-empresas como as PPP (1), as empresas e contas bancárias offshore. (2)
Porém, nem a cultura nem a organização social, são justificação suficiente para se entender este comportamento. O que parece ser essencial no desvio comportamental, na desonestidade, na ambição excessiva do sucesso sem olhar a meios, está no indivíduo, no seu desenvolvimento psicológico, na aquisição de princípios éticos e morais que permitem tomar decisões íntegras sobre a verdade e a mentira.(3)
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