04/06/21

Uma crise perfeita: desgoverno e desoposição *




Vivemos uma crise perfeita, silenciosa, que manifesta o descrédito da politica e dos políticos. Silenciosa, enquanto for controlada pelos radicais às ordens dos respectivos partidos. Os grandoleiros silenciam. Os parlamentares concordam. Silenciosa enquanto a oposição apoiar o governo, activa ou passivamente, em praticamente tudo o que se passa no parlamento e na sociedade. (1) Alguns exemplos:
- "Em Junho de 2017, na região de Pedrógão Grande, um fogo florestal destruiu vidas, fazenda e empresas. Resultaram sessenta e cinco mortos, sendo que, três meses depois, mais cinquenta se acrescentariam noutras localidades da região Centro". Segundo António Barreto, "tratou-se de um dos incêndios mais mortíferos de que há registo em Portugal e no mundo desde 1900." (2)
- Em Março de 2020, a pandemia covid 19 atinge o mundo inteiro. Com todas as controvérsias dos serviços de saúde, da OMS à DGS, assistimos ao impacto da pandemia nas nossas vidas, paradas, à espera...
- Também em 2020, manifestações de ódio dos chamados "anti-racistas" e "antifas", que infestam ong´s por todo o lado, querem reescrever a história conforme a sua vontade porque não querem mudar nada mas apenas esperam vingança...
- Em 2021, querem especialistas no recrutamento e selecção das forças de segurança para detectarem, dizem, quem tem vestígios de ódio e foi instituída a censura no artº 6º, da lei 27, de 17 de Maio de 2021... (3)

Pode parecer um cenário de “E tudo o vento levou”, sem consequências para a política onde apenas levou uma ministra após uma leve brisa vinda de Belém. Mas foi pior a emenda que o soneto. (4)
Estes factos trouxeram um vendaval de emoções positivas, de dádiva de muitos que quiseram colocar em primeiro lugar salvar pessoas e lutar pela liberdade. Mas também um vendaval de emoções destrutivas que também habitam no coração de cada ser humano. Nada, porém, se muda. Mantêm-se as fragilidades das famílias, os problemas das escolas, das empresas. As pessoas têm cada vez mais um sentimento de perda, de desmoronamento, de decadência.

Felizes os que sinceramente acham que a salvação está no seu partido, e que o sol quando nasce é para todos. Então podemos ter esperança nos Capitães da areia, de Jorge Amado, em que meninos maus vão ser bons quando chegar o socialismo.
O socialismo é mesmo a água que apaga todos os fogos, seca todas as enchentes, dá amor aos que andam à míngua de afecto. Problemas apenas para os que não têm uma réstea de crédito nesta conta bancária socialista.

Porém, por estranho que pareça, cada um pode conseguir alguma pacificação interior e tranquilidade na procura de respostas não como desesperado ou revoltado ou um Calimero inconsolável mas como resultado de um aprofundamento da bondade dentro de nós. 
Esta é uma perspectiva dramática mas sensata, embora a prática demonstre que todas as relações estão imbuídas da filosofia dos interesses ou de erradas esperanças. É preferível este neuroticismo da procura do que a irresponsabilidade daqueles, sempre prontos a afirmar que “nada lhes pesa na consciência”, ou vivem sem se preocuparem com esta luta entre Eros e a Morte (Thanatos).
Podemos, por isso, procurar futuro nesta incerteza.

 


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* A palavra não existe mas é a melhor maneira para designar falta de oposição, má oposição, oposição falsa ou até  o desgoverno da oposição.

(1) Bruno Vieira Amaral, "Para onde corre Rio", LER, nº 153, Primavera, 2019, pág.17

(2) Em 2003, um incêndio devastador devia ter servido de alerta para a possibilidade de ocorrerem situações idênticas. Em 2017, ardeu uma área superior (539 mil hectares, 6% da área de Portugal), com o número de mortes referido. Depois disso, continua a não se fazer a limpeza, a reflorestação - Programa da SIC- Essencial - de 2-6-2021, com Conceição Lino.

(3) E ainda... uma série de situações desde o revertério da TAP, das 35 horas, feriados, do fecho de colégios com contrato com o estado, o fim de ppp da saúde,  trapalhadas do  Novo Banco, Tancos, incêndios e protecção civil, Siresp, golas antifumo, a praticamente inexistente reflorestação, a reconstrução que não se sabe como foi feita, as trapalhadas da covid 19 com o desporto, Sporting, Champions, Santos populares, o nepotismo, as mudanças no Banco de Portugal, no Tribunal de contas, na Procuradoria, etc.

(4) Depois da ministra Constança veio o ministro Cabrita...






 



27/05/21

Java para o fim-de-semana

 

ZAZ e Aznavour - Java bleue

(Letra - Géo Koger and Noël Renard, música -Vincent Scotto)
Canção escrita em 1938. Foi inicialmente interpretado por Fréhel, em 1939.


Madeleine Peyroux - La Javanaise (Gainsbourg)



Khatia Buniatishvili - La Javanaise  (Gainsbourg)



História de javanaise 


Java é uma dança desenvolvida na França no início do século XX. A origem de seu nome é incerta, mas provavelmente evoluiu da valsa. Apresentada principalmente no bal-musette (baile popular) francês entre 1910 e 1960, a dança foi amplamente concebida devido à demanda popular por um novo tipo de valsa. Em particular, um que fosse mais fácil, rápido, mais sensual e não exigiria um salão de dança tão grande quanto os normalmente usados ​​para valsas. Java assume a forma de uma valsa rápida, com os dançarinos dançando muito próximos uns dos outros, dando pequenos passos para avançar. Os homens frequentemente colocam ambas as mãos nas nádegas de seus parceiros enquanto dançam. Naturalmente, isso fez com que alguns dos salões de dança bal-musette mais respeitáveis ​​proibissem o java.(Wikipédia)


O ranking das escolas à espera do Super-homem




Na semana passada, foi publicada pelo Ministéro da Educação, a lista de classificação das escolas, ou ranking das escolas, baseada nos resultados dos exames dos alunos do ensino secundário.
Esta classificação tem um valor relativo mas não deixa de ser o retrato, mesmo que imperfeito, do que se passa na educação. Serve ou devia servir como bússola e como aviso para se pensar o rumo da educação nas escolas e no país.
É fundamental para o diagnóstico mas também para o prognóstico educativo. É um instrumento de trabalho importante para o planeamento educativo, para a elaboração de planos de melhoria, para procurar soluções, para aprender com os melhores.
Em vez disso, tem gerado a contestação dos que não gostam de avaliações, e preferem desconhecer a realidade, os "negacionistas" do ranking das escolas.
Como os resultados colocam as escolas privadas nas primeiras posições da lista, de forma consistente ao longo de vinte anos, justificam esta situação pela baixa origem sócio-económica dos alunos que frequentam as escolas estatais e origem elevada os alunos das escolas privadas.
Mas estes resultados não são a mera constatação daquilo que todos já sabem e que não querem ver: a indisciplina, violência, que reina em muitas escolas estatais?

O documentário Waiting for Superman (à espera do Super-Homem), do realizador Davis Guggenheim (que a tvi passou há alguns dias), é um bom ponto de partida para ajudar a compreensão do ranking dos exames do ensino secundário.
O documentário trata da luta dos alunos e das suas famílias por uma boa escola para os filhos, das dificuldades que é entrar numa dessas escolas e da esperança que a lotaria das vagas pode trazer quando se é sorteado para entrar numa charter school, escola com contrato com o estado. 
Os números do ranking tal como os números do documentário significam pessoas com nomes e com famílias. As famílias do Anthony, Francisco, Bianca, Daisy e Emily.
São pessoas concretas, crianças e pais, trabalhadores, às vezes com problemas de emprego, que têm dificuldade em dar aos seus filhos a educação que desejam, ou seja, colocá-los numa escola um pouco melhor. São pais que valorizam a educação e que sentem que a educação dos filhos é mais importante do que tudo o resto das suas vidas.
Por isso, o importante é tirá-los de escolas que são fábricas de desistentes, como em Pittsburg, onde os alunos, empurradas pelo sistema, andam na escola mas sem qualquer interesse na vida
Como se diz no documentário, bairros fracassados dependem do fracasso na escola e o fracasso na escola leva ao insucesso na vida. 

O futuro dos cidadãos e dos países joga-se na sala de aula. Como não se investe na educação, teremos no futuro os custos sociais e económicos de muitas famílias, problemas sociais, problemas com a policia e justiça, problemas dentro das próprias famílias. *
É sintomático deste insucesso que o governo actual tenha fechado 24 colégios num ano e a quase eliminação dos contratos de associação. 
Não, o super-homem não nos vem salvar.


Até para a semana.

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* Como se constatou com o programa Head Start.







20/05/21

Fringe benefits




Os fringe benefits (benefícios sociais, acção social complementar ou benefícios adicionais) (1) são um subsistema de apoio social das organizações que visa complementar necessidades permanentes ou de emergência ou, ainda, uma  regalia dos seus trabalhadores.

São muitas vezes uma maneira de complementar, em espécie ou com subsídios, os salários dos trabalhadores (remuneração indirecta). (2)

Têm como objectivos fundamentais:

- esbater as diferenças salariais dos trabalhadores, na medida em que todos têm acesso aos serviços e prestações sociais concedidas.

- motivar para o trabalho  e  manter a motivação na organização.

- contribuir para a estabilidade familiar dado que os apoios se verificam em relação a pessoas mais frágeis, crianças, idosos, famílias com carência económica.

- proteger as franjas menos remuneradas e mais carenciadas dos profissionais da organização.

- diferenciar e prestigiar a organização e servir de atractividade no recrutamento de pessoal e manter a  continuidade dos trabalhadores na  empresa.

- contribuir para o bem-estar dos trabalhadores através de actividades culturais,  desportivas, de férias e lazer...


Os benefícios sociais existem em praticamente todas as empresas e organizações (3), privadas ou estatais, como instrumento da gestão para melhorar o desempenho e a motivação e dessa forma aumentar a produtividade.

O estado   é a maior organização empresarial do país. Como tal criou serviços de acção social complementar para os trabalhadores nos vários ministérios governamentais.

Os actuais serviços sociais da administração pública (SSAP) são o resultado da fusão de vários de serviços sociais de vários ministérios, como os serviços sociais da presidência do conselho de ministros, do ministério da saúde, da educação ....  

 

Também nas empresas privadas foram criados benefícios sociais como seguros de saúde, actividades de animação sócio-cultural e desportiva como os CCD (Centros de cultura e desporto), para além de serviços públicos de acção social complementar como o Inatel, as pousadas de juventude ...  

Muitos destes serviços sociais são também responsáveis pela assistência na saúde como os SAMS dos bancários ou os serviços sociais da CGD, das forças armadas, forças de segurança, de muitas empresas...

 

A responsável do governo para a Modernização do Estado e da Administração Pública, Alexandra Leitão, foi pouco sensata ao querer criar uma residência para alunos do ensino superior, em Lisboa.  Certamente a ministra podia fazê-lo, se se entendesse que este apoio correspondia a uma necessidade dos beneficiários. E corresponde. Porém não teve em conta o timing, a situação real das necessidades de todas as famílias portuguesas com  alunos que têm de se deslocar para estudarem na universidade, numa área em que há imensas carências de residências para estudantes. Por outro lado, nesta área há alternativas para esta necessidade como o subsídio de estudos.

Claro que por tudo isto, a governante foi contestada e nem se esperava outra coisa. Pena é que a contestação seja aproveitada para atacar os chamados privilégios dos funcionários  públicos...

 

Apesar do que disse sobre a necessidade e importância dos  benefícios sociais, que os justificam, são, de facto, um privilégio. Mas é da sua natureza  serem um privilégio.

Assim, há que ser claro. Ou eles existem nas organizações como contributo para a melhoria da qualidade de vida dos seus trabalhadores e com vantagens para as organizações ou, então, imponham limites ao seu âmbito de actuação ou, finalmente, acabem com eles mas assumam essa responsabilidade pelas consequências daí resultantes. *

 

Até para a semana.

 

 

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(1) Idalberto Chiavenato, Administração de recursos humanos, vol. 3, Ed. Atlas, 1985, cap. 2 - Planos de benefícios sociais, pags 100-112.


(2) Normalmente estes serviços são sustentados com verbas do orçamento do estado mas também são comparticipados  pelos beneficiários. Aliás nenhum serviço deve ser gratuito  (I. Chiavenato, pag. 110).


(3) Os benefícios sociais têm história recente (I. Chiavenato, pag. 101) mas as organizações desde sempre tiveram este assistencialismo que dependia da vontade dos empresários: habitação económica, creches para os filhos dos trabalhadores, transporte para as fábricas... Basta ver os extraordinários exemplos de Alfredo da Silva ou de Rui Nabeiro. Em entrevista recente, Rui Nabeiro disse que gostava de ver o sorriso dos trabalhadores e, por isso, os apoiava na saúde (odontologia). Obviamente que este paternalismo assistencialista ou este Plano de Benefícios socais da Delta cafés significa também benefícios para a empresa. 

* Nota - Tenho uma visão muito positiva dos fringe benefits. Fui e sou beneficiário de alguns serviços sociais. Trabalhei como técnico superior (psicólogo) nos Serviços Sociais da Presidência do Conselho de Ministros (SSPCM) de 1987 a 1991. 









15/05/21

A nova censura

Estátua da liberdade - Paris



A liberdade de expressão é um assunto extremamente sensível que deve ser tratado com todo o cuidado.
“No dia 8 de Maio de 2021, foi promulgada (1) pelo Presidente da República aCarta de Direitos Humanos na Era Digital que estabelece um novo Direito: a “protecção contra a desinformação”. Trata-se de uma proposta do PS e do PAN. (2)
Quando se trata de controlar a informação, a tentação do poder é grande e agora foi encontrado um pretexto, a internet, a informação via internet.

Na semana em que um secretário de estado (3) classifica o programa da RTP1, 6ª às nove, como “estrume”, justifica-se ainda mais a preocupação. 
O poder tem sempre a tentação de calar as vozes discordantes. Para a húbris o poder é mais forte quando controla a comunicação social. 

Uma das mais importantes “conquistas” do 25 de Abril foi a liberdade e a liberdade de expressão sem a qual não existe aquela. O direito à informação livre é uma visão positiva do funcionamento social mas o que esta legislação vem trazer é uma visão negativa, restritiva, sem critérios... Misturar isto com direitos humanos é, realmente, a primeira desinformação.

O diploma tem aspectos positivos (4) mas outros são perigosos para a democracia como o conceito de desinformação e a forma de a controlar.
Por desinformação entendem “toda a narrativa comprovadamente falsa ou enganadora criada, apresentada e divulgada para obter vantagens económicas ou para enganar deliberadamente o público, e que seja suscetível de causar um prejuízo público, nomeadamente ameaça aos processos políticos democráticos, aos processos de elaboração de políticas públicas e a bens públicos.”
Estas narrativas falsas são, entre outras, referentes à “saúde, meio ambiente ou segurança”. Ou seja, a todas as narrativas.

E quem vai controlar estas narrativas é a ERC, Entidade reguladora para a comunicação social, porque “Todos têm o direito de apresentar e ver apreciadas pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social queixas contra as entidades que pratiquem os atos previstos no presente artigo... “ (nº 5, artº 6)
Além disso, “O Estado apoia a criação de estruturas de verificação de factos por órgãos de comunicação social devidamente registados e incentiva a atribuição de selos de qualidade por entidades fidedignas dotadas do estatuto de utilidade pública.” (nº 6, artº 6º)
Já tínhamos a comunicação social de referência e agora passará a haver “estruturas de verificação de factos por órgãos de comunicação social”, com selo de qualidade! 

Como se conjuga isto com a constituição? Não se conjuga porque a Constituição da República Portuguesa garante nos artigos 37º e 38º a Liberdade de Expressão e de Imprensa, não podendo ser limitados por “qualquer tipo ou forma de censura” e assegurando a “liberdade e a independência dos órgãos de comunicação social perante o poder político”.

Em conclusão: eu não quero este direito, obrigado! Chega-me a Constituição para definir o que é liberdade de expressão e os Tribunais para julgarem e decidirem quem comete infracções contra ela. 



Até para a semana.


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(1) Lamento que o Presidente Marcelo, por quem tenho todo o respeito como se pode verificar pelos textos deste blog, tenha promulgado esta lei sem qualquer reparo  à perigosidade que contém  para a liberdade de expressão.

(2) Aqui está a votação. Apesar do discurso de J. Cotrim Figueiredo não houve votos contra. 

(3) O Sr. João Galamba. Mas depois do primeiro ministro ter dito que Paulo Rangel, Poiares Maduro, Ricardo Baptista Leite, "lideram uma campanha internacional contra Portugal", de chamar a Rio, que se põe a jeito e por quem não tenho simpatia, "cata-vento" sem pontos cardeais, do Sr. Cabrita ter chamado partido "náufrago" ao CDS, de o primeiro ministro ter apelidado de "repugnante" aos países que chamam de "frugais"... o que se pode esperar?

(4) Aspectos positivos desta lei, por ex., herança digital, direito ao esquecimento, direitos autorais em contexto digital...









05/05/21

Manifestações violentas



As manifestações do 1º de Maio em Bruxelas, Paris e um pouco por todo o lado,  apesar do controle dos respectivos aparelhos político-sindicais dos partidos, acabam quase sempre na maior das confusões entre várias facções  e destas com as forças da ordem ...

Estas manifestações, em regimes democráticos, deviam ter um clima reivindicativo um clima de alegria, paz, confraternização entre todos os trabalhadores ... ao contrário são marcadas pela violência entre manifestantes, contra a propriedade privada mas também a pública, violência contra a polícia ...


Movimentos e grupos sociais velhos ou novos, radicais, mas com ideias feitas, dos velhos anarquistas aos novos grupos de “acção directa”, facciosos das novas formas de violência climática, populistas, patrulheiros da linguagem e dos costumes, dos hábitos alimentares, envolvem-se nesta intervenção violenta. 

Claro que há no meio desta gente pessoas bem intencionadas que se vêem envolvidas nesta gelatina  de ideias feitas, indisciplinada, sem regras, onde vale tudo, que se sente abrangida pela impunidade já que o poder, mesmo democrático, tem receio  de enfrentar estas ideias “taxativas”, como se dizia em Maio de 68: “é proibido proibir”.


José Ortega e Gasset, em 1930, há mais de 90 anos, fez a compreensão deste fenómeno e deu a resposta à questão. Escreve:

 .”.. creio que as inovações políticas dos mais recentes anos não significam outra coisa senão o império político das massas. A velha democracia vivia temperada por uma dose abundante de liberalismo e de entusiasmo pela lei. 

 ... Democracia e Lei, convivência legal, eram sinónimos. Hoje assistimos ao triunfo de uma hiperdemocracia em que a massa actua diretamente sem lei, por meio de pressões materiais, impondo suas aspirações e seus gostos. “

O cap. VIII  da Rebelião das massas * tem justamente o título: "Por que as massas intervêm em tudo, e por que só intervêm violentamente".

É assim porque o “homem médio” tem "ideias" taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo. Por isso perdeu o uso da audição. Só se ouve a si próprio e é cego e surdo para a opinião dos outros.

Estas “ideias" taxativas não significam exactamente cultura. Refere Gasset: “O que digo é que não há cultura onde não há normas a que se possa  recorrer. Não há cultura onde não há princípios de legalidade civil a que apelar. “...

“Quando faltam todas essas coisas, não há cultura; há, no sentido mais estrito da palavra, barbárie. E isto é, não tenhamos ilusões, o que começa a haver na Europa sob a progressiva rebelião das massas." (p.136-137)


Donde vem tudo isto?

Gasset refere: “aqueles grupos sindicalistas e realistas franceses por volta de 1900, inventores da maneira e da palavra "ação directa". (p. 139)

Estes grupos de "acção directa", de facto, estão em tudo, são violentes e não se pode questionar as “ideias” do homem-massa seja sobre o que for:  o clima, a história, o racismo, o colonialismo, a escravatura, as políticas, os comportamentos... 


Até para a semana.

 

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 * Há uma edição brasileira em formato digital - A rebelião das massas.










29/04/21

Amor e ódio


A RTP1 exibiu na última semana alguns filmes clássicos como Lawrence da Arábia, West side story - amor sem fronteiras, Green book – um guia para a vida, que me sugeriram haver entre eles um fio condutor: o amor em contraposição ao ódio que torna o amor impossível. 

A vida de Lawrence da Arábia (1) manifesta um personagem singular que se envolve na luta de árabes contra o império turco-otomano,  com a violência que sempre acompanha estas guerras pela supremacia entre povos.  

Em West side story - Amor sem fronteiras (2), o conflito entre jovens de Nova York,  de um gang de anglo-saxónicos  versus um gang de porto-riquenhos, mostra como o ódio de grupos diferentes torna impossível  o amor entre as pessoas e a felicidade algo sempre distante.

Em Green book – Um guia para a vida (3), somos confrontados com a ligação inesperada entre um pianista afro-americano de renome mundial,  músico clássico, com um italo-americano, o seu motorista, em que ambos  enfrentam os perigos de uma era de segregação racial, ligação que não é compreendida nem aceite  pela sociedade da altura (anos 60).  


Nestas três situações podemos constatar que o amor e o ódio  atingem  toda a sociedade: indivíduos, famílias, etnias, grupos... O conflito e o ódio não são nem mais nem menos do que uma mancha que se espalha igualmente por toda a sociedade e têm acompanhado toda a história da humanidade: West side story é a história de Anton e Maria, no séc. XX (1961), de Romeu e Julieta, no séc. XVI (1591), de Píramo e Tisbe, no sec. I AC.


Para os etologistas, amor e ódio são comportamentos etológicos fundamentais  inscritos na nossa natureza, inatos. Por isso, o ódio está em ambos os lados dos conflitos, sejam racistas, xenófobos, religiosos, políticos, desportivos, de discriminação social ou outra, violência familiar e doméstica,...

A  pergunta é então: por que não mudam os comportamentos das pessoas, ou seja, por que não se procuram outros caminhos igualmente etológicos como a ritualização e os comportamentos vinculativos ?

Mesmo quando há vencedores nestes conflitos, a prazo são todos perdedores, como em West side story, mas isso não é suficiente para inibir o ser humano a que o ódio  volte sempre a renascer das cinzas do último conflito...


A esperança de ultrapassar o ódio, apesar disso, é que também pode haver mudança, se os indivíduos forem vistos como  seres humanos e não como grupos diferentes, inferiores ou superiores. A esperança de que a vitória está na vinculação amorosa  entre  Anton e Maria, que  não conseguiram superar o ódio dos gangs, nem evitar uma batalha de rua, fatal, mas que coloca a interrogação: Para quê o ódio ?  

No nosso futuro, a nossa vida vai continuar a ter estes comportamentos etológicos: agressividade e amor. Quero acreditar que um dia, qualquer individuo será visto como ser humano e os vínculos amorosos terão um papel efectivo nas nossas relações.

 

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(1) O argumento do filme baseia-se na biografia de T. E. Lawrence (1888–1935) descrita no seu livro Sete Pilares da Sabedoria. Realização: David Lean (1962).

(2) West Side Story - Amor Sem Barreiras. Realização de Robert Wise. (1961).

(3) Green Book - Um guia para a vida. Realização de Peter Farrelly (2018).






23/04/21

Psicologia da corrupção 3


Por que é que jogo no euromilhões ? Se nunca me sai nada e a probabilidade de sair é praticamente nula porque insisto semanalmente em tentar a sorte grande ?

O que me move neste comportamento é sobretudo a crença de que o dinheiro,  resolveria os meus problemas e satisfaria a ambição de ter uma boa vida, com tudo o que isso implica. 

Para atingir estes fins há quem não queira esperar por esta "basuca" pessoal e prefira os atalhos. A política na sua versão menos nobre  é um dos atalhos que me pode dar o euromilhões.  

Tentar a sorte por estes caminhos ínvios parece ser cada vez mais frequente, tolerado e banalizado, encolhemos os ombros e sentenciamos: “são todos iguais”.

 

Porém, na corrupção não há apenas uma pessoa mas uma rede que envolve corruptores, corrompidos, cúmplices silenciosos ou activos onde todos são ganhadores ou pelo menos pensam que são.

O que se passou no processo “operação marquês” foi exactamente esta tolerância e cumplicidade de várias instituições, principalmente de um governo e de  um partido onde ninguém viu ou sabia de nada, ninguém disse nada, mas onde imperam compromissos, tácitos ou não, tanto mais fortes quanto o nível de recompensas que daí advêm.

E tudo isto feito com a tolerância de cidadãos que elegem democrática e repetidamente  estas pessoas ... 

 

Se pensarmos que  a corrupção não é um acontecimento recente, sempre existiu, e está entranhada nas democracias de forma sistémica, como compreender este comportamento? 

Podemos pensar a  corrupção a três níveis:  Individual, cultural e social.

Digamos que a cultura e a sociedade  proporcionam e facilitam a corrupção. A organização do estado, a organização das autarquias, facilitam estas circunstâncias, com a contratação directa de bens e serviços, o nepotismo, a criação de empresas municipais, a mistura estado-empresas como as PPP (1), aempresas e contas bancárias offshore. (2)

 

Porém, nem a cultura nem a organização social, são justificação suficiente para se entender este comportamento. O que parece ser essencial no desvio comportamental, na  desonestidade, na ambição excessiva do sucesso sem olhar a meios, está no indivíduo, no seu desenvolvimento psicológico, na aquisição de princípios éticos e morais que permitem tomar decisões íntegras sobre a verdade e a mentira.(3)

Então será que é possível quebrar estas redes de corrupção a partir de uma educação voltada para a  ética e assente na modelagem feita na família e nas instituições ? É certamente necessário aumentar os mecanismos de fiscalização e diminuir a sensação de impunidade dos acusados.(4) É necessário que as instituições do estado sejam independentes. Mas não chega mudar as leis (5). É 
necessária uma reflexão profunda sobre o silêncio, a tolerância e a banalização do mal, como escreveu Hannah Arendt. Estes desvios não se justificam por estarmos a obedecer a ordens, por fazermos parte de uma engrenagem de que não podemos sair. Podemos sempre dizer não, “não vou por aí”.


Até para a semana, com muita saúde.

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(1) Como aqui refiro, as PPP podem ser vantajosas para a organização do estado e da sociedade mas isso depende da forma como forem negociadas... 

(2) E também onshore. "O termo offshore vem dos tempos dos corsários que saqueavam os mares e depositavam a pilhagem offshore (fora da costa)" (Wikipédia)


(4) “Quando os corruptos começam a roubar, podem se sentir culpados, mas, então, se acostumam com isso e não se importam mais. Se não forem punidos, esse comportamento ficará cada vez mais normal”, Antoine Bechara. 
O neurocientista compara o cérebro do corrupto sistêmico, incluindo políticos desonestos, ao de um psicopata, cuja amígdala funciona de maneira diferente do restante da população. “O psicopata verdadeiro tem uma patologia real no córtex pré-frontal. Ele não se sente obrigado a seguir as regras”, diz Bechara. “A raiz do comportamento corrupto está na recompensa. Nós não agimos dessa forma porque conseguimos controlar nosso comportamento e, na minha opinião, fazemos esse controle por causa da punição. Se o corrupto não é condenado pela Justiça, não há razão para deixar de se comportar de maneira desonesta”, acredita. ("Como funciona o cérebro de uma pessoa corrupta")

(5) Como combater a corrupção quando o centro da corrupção são as instituições democráticas: parlamento, governo, autarquias, etc.? Talvez por isso seja tão difícil legislar sobre enriquecimento ilícito/injustificado, embora haja questões de constitucionalidade que devem ser salvaguardadas (Transparência e integridade). Se for desta vez que a lei passa, podemos esperar que não vai ser mais um daqueles procedimentos burocráticos que fazem parte do "lado A" da corrupção? (Eduardo Sá, "Os rezingões da vida").