13/11/14

Muros


Em 1961, Berlim passou a estar dividida por um muro, que de algum modo representava uma divisão mundial que ficou conhecida como Guerra Fria.

Há 25 anos (9 de Novembro de 1989) o muro foi derrubado. A barreira de betão que dividiu Berlim, a Alemanha, a Europa e o mundo durante quase 30 anos caiu, aparentemente com alguma surpresa e facilidade.
No entanto, muitos contribuíram para que isso acontecesse: Gorbatchov, Lech Walesa, Reagan (“Senhor Gorbatchov, derrube este muro”), e sobretudo os que perderam a vida devido a essa divisão. Estima-se que 136 pessoas tenham perdido a vida a tentar passar para a República Federal Alemã (RFA). 
As comemorações dos 25 anos da queda do muro mostram que não há alternativa à liberdade dos cidadãos mesmo que nem tudo tenha sido positivo, como dizem os saudosistas que podem agora manifestar-se livremente. (Observador)

Mas há outros muros físicos e culturais que continuam a existir no nosso mundo, na nossa sociedade.
São os muros que não queremos, nas palavras dos Pink Floyd,  porque não necessitamos de uma educação de obediência cega, que humilha as crianças, não precisamos de controle mental, não somos apenas um tijolo no muro.

As sociedades através da escola podem propor modelos diferentes de cultura: a cultura muro ou a cultura rede (Bruno Munari).
A cultura muro é a acumulação de noções, apenas pode aumentar pela junção de novos tijolos. Esta cultura considera o processo de aprendizagem como a sedimentação de camadas sucessivas de saberes, que se empilham uns sobre os outros, lenta e progressivamente. 
O muro é apenas construído de baixo para cima. Há apenas uma única maneira de aceder ao saber. Cada noção deve ser bem distinta das outras, cada disciplina bem separada das outras. O muro não é susceptível de mudança.
Mas há a cultura rede que significa tecer o maior número possível de relações entre noções. Uma rede é uma transformação permanente.
Não há uma única maneira de aceder ao saber. Uma rede pode ser construída a partir de um ponto qualquer. Aprender significa modificar e transformar continuamente as conexões entre noções, sejam novas ou já conhecidas. Para facilitar a construção da rede importa multiplicar os pontos de vista. Uma rede não está nunca construída, mas necessita de modificações e cuidados constantes... 
Já Pascal escrevia que era preferível “uma cabeça bem feita a uma cabeça bem cheia”.

Por ocasião do 25º aniversário da queda do Muro de Berlim, o Papa Francisco pediu a construção de pontes e não de muros. Disse ainda que "a queda do Muro chegou de forma imprevista, mas foi possível graças ao longo e difícil compromisso de todas as pessoas que lutaram, rezaram e sofreram .
E´necessarrio que "se desenvolva cada vez mais a cultura do encontro, susceptível de fazer cair todos os muros que ainda dividem o mundo, e para que nunca mais os inocentes sejam perseguidos ou, às vezes, mortos por suas crenças e religiões".
"Precisamos de pontes, não de muros". 

12/11/14

"O homem que assobia a mulher que passa"


Tudo é comunicação. A vida é comunicação. Independentemente da minha vontade, eu comunico ainda que não queira, mesmo que esteja em silêncio ou que me afaste das pessoas e viva no deserto. 
Há formas de comunicação que nos podem parecer estranhas porque elas dependem da cultura de cada povo. Há formas de comunicação que podem ser insultuosas, dependendo do contexto.
Dois terços da nossa comunicação é não verbal e apenas após o primeiro ano de vida estamos em condições de comunicar verbalmente.
Uma forma de comunicação não verbal que merece a concordância de uns e a discordância de outros é o comportamento de “assobiar a mulher que passa"
Como em toda a comunicação, há uma fonte do comportamento comunicacional, a mulher que passa, em que, sem falar, comunica, como no poema de Almada Negreiros. 
       Aquela que tem a forma do faz calar,
       Aquela que fala co’o andar,
       Aquela que sabe mentir,
       Aquela cujo olhar dá ilusão
       E que tem na voz o timbre dos repuxos;
                     J. de Almada Negreiros, Poesias
O assobio apreciativo muitas vezes é acompanhado de outros piropos ou de outras expressões, que entram no campo do assédio moral. 
Parece, no entanto, que este assunto merece uma análise mais detalhada. O que motiva um individuo a assobiar uma mulher?
A comunicação é um processo básico da vida. Torna-se indispensável ao estabelecimento de relações sócio-afectivas. Mas nem por isso é fácil expressarmos as nossas emoções. 
Como expressão da nossa organização psicológica, a comunicação, é, certamente, uma questão da personalidade do indivíduo.
Sabemos que o assobio admirativo dificilmente tem resultado. Então por que continua a verificar-se este comportamento ?
Há vários paradigmas psicológicos dos processos intrapsíquicos e relacionais que podem ajudar a compreender este comportamento.
Os paradigmas dos processos intrapsíquicos remetem-nos para a organização interna do psiquismo. A personalidade é constituída pelas instâncias (ego, id, superego) e põem em jogo desejos, motivações, outras necessidades do individuo.
Torna-se imperiosa a necessidade de comunicar. Há processos inconscientes na comunicação que foram socializados pelo super-ego e pelo princípio da realidade que impedem que esta comunicação seja simplesmente uma pulsão sexual primitiva.
A analise transaccional permite-nos analisar os estratagemas, jogos e motivações escondidas.
Provavelmente este individuo acredita que é uma maneira de se evidenciar perante outros e que o torna na vedeta do grupo. 
Este padrão comportamental tem origem na infância. Começa por ser a maneira de se evidenciar perante a família e os irmãos onde o jogo comunicacional tinha esse beneficio.
É também uma forma de relação sistémica, um comportamento que normalmente acontece em grupo, sendo necessário entender os aspectos do contexto, do enquadramento do grupo a que se pertence, da forma como é entendida a mulher nesse grupo e onde há trocas comunicacionais prévias, em relação às quais há aceitação por parte do grupo.
Podemos compreender o sentido deste comportamento a partir da nossa própria experiência, do contexto das normas sociais em que o assobio define uma situação de ambivalência de comunicação sexualizada mas simultaneamente lúdica e sem consequências a esse nível.
Mais uma vez o processo de socialização na escola e na família é decisivo para a comunicação sócio-afectiva, sexualizada e equilibrada, entre homens e mulheres. 

06/11/14

Ousar falar


Le cercle psy, nº 3 , hors-série,  dá voz às pessoas que sofrem de alguma difculdade a nível da sua personalidade. Sobre o assédio moral, um extracto do livro De la rage dans mom cartable, remete-nos para o testemunho de Noémya.


Noémya foi vítima de assédio moral durante toda a sua escolaridade. Viveu quatro longos anos de sofrimento, onde intimidação, insultos, agressões e rejeição foram o seu quotidiano, na indiferença geral do pessoal docente, acrescentando a cada dia um pouco mais de raiva na sua mochila ... Isto foi seguido por dez longos anos de depressão e fracassos profissionais, as consequências directas do fenómeno do assédio. Com espírito de luta, Noémya escapou graças à escrita, conseguindo colocar em palavras os seus problemas .... 
Durante três anos, ela fez da luta contra o assédio moral a sua luta pessoal. 

"Diz-se que há palavras que matam. Palavras que destroem do interior. A diferença com as agressões é que as palavras ficam...

...Para as vítimas de assédio escolar não há geralmente paragem. Todos os locais se tornam ansiogénicos. As salas de aula. O pátio do recreio. A cantina. O autocarro. A perseguição é permanente."


Para os que sofrem com esta situação,  mais importante  do que "guardar na mochila" todas estas agressões é ousar falar.

Respeito


Respeito é a atitude que consiste em não prejudicar o outro nem fisicamente através da violência, nem moralmente através do juízo (Larousse)
É esta atitude, respeito, que faz falta na nossa sociedade:  respeito por si próprio, pelos outros.
Mas o que falta em respeito sobra em assédio moral.
O assédio pode acontecer em vários aspectos e várias etapas da nossa vida.
No mundo do trabalho, leva ao constrangimento da pessoa, afecta a sua dignidade, criando-lhe um ambiente hostil e humilhante (mobbing).
O assédio pode assumir carácter sexual sob forma verbal, não verbal ou física.
O assédio é mais comum em relações hierárquicas autoritárias e assimétricas, isto é, da chefia em relação ao subordinado, em que o fracasso do subordinado é fabricado, um falso fracasso, com o objectivo de o destruir moralmente. Entre nós uma forma frequente deste  assédio é "por o trabalhador na prateleira”
O assédio é frequente na escola, normalmente falamos de bullying.
Hoje, o assédio é particularmente pernicioso nas redes sociais. A internet tornou-se um local preferido para a perseguição (cyberstalking). Tem a vantagem de funcionar no anonimato e na cobardia.
Há vários estudos sobre uso da internet para o assédio. Num deles, (Universidade East Carolina) nos Estados Unidos, perguntaram a 804 estudantes se já tinham usado as tecnologias de informação e comunicação para controlar os seus parceiros. Metade respondeu que sim, ao menos uma vez. 
A pesquisa também mostra que as mulheres são mais propensas ao abuso. Uma em cada quatro das entrevistadas afirmou que violava o e-mail de seus parceiros em comparação  apenas 6% dos homens.
O que leva uma pessoa a assediar alguém, chegando ao ponto de a prejudicar no trabalho, na escola  ou na sua vida ?
Há três tipos de personalidades reprováveis: personalidade maligna, personalidade narcísica e a personalidade paranóica (Piñuel, referido por Varela, P., Ansiosa-mente, pag.135)
Eventualmente pessoas comuns, como o caso de alguns adolescentes, podem manifestar episódios de perseguidores. Há um limite ténue entre a curiosidade sobre uma pessoa e o começo do assédio.
Como, no espaço  público, é difícil saber quando, para comportamentos que vão do piropo apreciativo ou ofensivo  à perseguição (stalking) e agressão física, se atingiu o limite.
Neste caso a vítima é quase exclusivamente feminina.
O piropo é, supostamente, uma expressão ou frase dirigida a alguém, geralmente para demonstrar apreciação física. 
Há quem ache que é uma questão cultural mas também discorde e ache que “não existe lado “positivo” no piropo” (Soledad Cutuli) 
Recentemente uma instituição sem fins lucrativos, a Hollaback realizou a seguinte experiência:
Uma actriz (Shoshana B. Roberts) andou durante dez horas em silêncio pelas ruas de Nova Iorque. Durante essas dez horas ouviu 100 comentários, desde piropos mais ou menos inócuos a outros mal educados, até ser acompanhada durante vários minutos.
A Hollaback refere que há entre 70 e 99% de mulheres que passa por uma experiência de assédio na rua, em determinada fase da sua vida.
O assédio sexual no espaço púbico, mesmo quando assume a forma de piropo, é sempre um comportamento injustificável mas obviamente que há uma grande diferença entre piropo e perseguição (stalking ou cyberstalking).
Aquilo que falta é que haja mais respeito nas relações entre seres humanos, no trabalho ou na rua. A educação pode dar uma ajuda.


03/11/14

DDT




"São mais contas, as outras duas que o Económico hoje destaca: as que se começam a fazer sobre a promessa do novo PS de repor na íntegra, em 2016, os salários cortados no Estado (que merecem um alerta de Manuel Caldeira Cabral e uma crítica de Paulo Trigo Pereira no Público de domingo); e as que o ministro Poiares Maduro faz a António Costa, ainda sobre as contas que este retira dos quadros do Orçamento sobre a aplicação de fundos comunitários em 2015 ("A questão já não é de números mas de seriedade e credibilidade", acusa o ministro).
O posicionamento do novo líder socialista neste início de mandato merece uma nota crítica do diretor do Económico no editorial de hoje ("O pé esquerdo de Costa") e uma violenta crítica de Camilo Lourenço no Negócios ("fica claro qual vai ser o posicionamento do PS nos próximos meses: prometer tudo e mais alguma coisa. Mesmo aquilo que não pode cumprir"). O Governo não sai incólume em nenhum dos dois artigos." (Observador, Newsletters -360º, David Dinis, 3-11-2014)


Por aqui podemos começar a imaginar o que se vai seguir. O sr. DDT (dá dinheiro a todos) está a chegar. Não aprendemos facilmente estas contracurvas da política e dos políticos, mas quando a esmola é grande até o santo desconfia. Era necessário um momento de verdade porque este povo é mais do que santo.



30/10/14

Nada existiu ainda


1. "Se aos quatro canais generalistas se juntarem os canais de informação portugueses no cabo (RTP Informação, SIC Notícias e TVI24), é possível assistir a 69 horas de comentário político por semana. O equivalente a quase três dias completos em frente à televisão. Marcelo Rebelo de Sousa, José Sócrates e Marques Mendes são alguns dos rostos mais conhecidos de uma lista de, pelo menos, 97 comentadores com presença semanal na televisão portuguesa. Destes, 60 são, ou já foram, políticos."
"O império dos comentadores onde quem manda são os políticos", Filipa Dias Mendes e Pedro Nunes Rodrigues, Público, 12/05/2013

2. Há um tipo de políticos comentadores e de comentadores políticos que passam a vida a arrasar, normalmente o governo na sua totalidade, um ou outro ministro ou serviço, conforme se vão pondo a jeito ou se adivinha a fragilidade. O mesmo acontece à oposição (veja-se o desventurado Seguro).
São os arrasadores.
Claro que andam todos a arrasar-se uns ao outros. Mas aqueles a que acho mais piada são os arrasadores do seu próprio partido quer estejam no governo quer estejam na oposição. 
No que actualmente acontece, não há praticamente uma medida, um item do orçamento que mereça uma nota positiva. O pessimismo é a sua visão do mundo dos outros. Porque a sua visão do mundo próprio, segundo as suas ilusões, é a melhor possível.  
Alguns arrasadores: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete...

3. Vale a pena pensar com K. Popper, novamente:
"Kreuzer: Esta refutação impressionante de um optimismo ingénuo é motivo para o pessimismo?
Popper: Não. Pelo contrário. Pelo contrário, constitui um desafio para que, o homem veja as possibilidades e aproveite as oportunidades. É isso. Não é motivo algum para pessimismo. É precisamente no pessimismo que eu vejo o maior risco, ou seja na tentativa permanente de dizer aos jovens que vivem num mundo cruel. Considero este o mais grave perigo do nosso tempo, mais grave ainda do que a bomba atómica. O sugerir-se às pessoas que vivem num mundo ruim, num mundo hipócrita e não sei que mais. Nós vivemos, numa perspectiva histórica (esta é a minha opinião), no melhor dos mundos que jamais houve. Naturalmente que é um mundo cruel, uma vez que há um mundo melhor e porque a vida nos estimula a buscar um mundo melhor. E temos que prosseguir essa procura de um mundo melhor. Isto não significa, porém, que o nosso mundo seja mau. Na realidade, o mundo não só é belo como os jovens têm hoje a possibilidade de verem este mundo maravilhoso. E de um modo antes nunca possível. E isto é extraordinariamente importante.
Lorenz: Tal como um médico, é-se muitas vezes forçado a advertir. O que não significa que se seja pessimista. Quando se considera todas as hipóteses de doença e se alerta para elas, tal não significa que se seja pessimista. Eu sou tido por um pessimista da cultura. De facto, se o fosse, dedicava-me apenas aos meus peixes e aos meus gansos e não me preocupava com os problemas da humanidade. Um dos principais perigos, como sublinhou com toda a razão Karl Popper, é o esvaziamento de sentido do mundo para os jovens. E a perda de sentido que Viktor Frankl vê também e contra a qual, muito justamente, luta. Interrogo-me constantemente sobre como fazer-lhe frente e a melhor forma que conheço é o dar a conhecer aos jovens a beleza da natureza. Um indivíduo que conheça a beleza de um bosque na primavera, a beleza das flores, a magnífica complexidade de uma qualquer espécie animal, nunca poderá duvidar do sentido do Universo. A possibilidade de uma evolução superior, insuspeitada e nunca antes atingida está tão em aberto quanto a possibilidade de a humanidade evoluir no sentido de uma comunidade de térmitas da pior espécie.
Kreuzer: Nada existiu ainda.
Lorenz: Nada existiu ainda, e tudo é possível!
Kreuzer: Muito obrigado a ambos."
(O futuro está aberto, pg.41-42)

4. "Nada existiu ainda" e, por isso, contra os arrasadores pessimistas, vale a pena prosseguir na procura de um mundo melhor, talvez, se deixarmos entrar o optimismo no nosso coração.


Violências familiares


Temos sido confrontados, ultimamente, com notícias que nos deixam angustiados devido a casos de extrema violência doméstica. Periodicamente, parece haver um aumento de situações letais deste tipo de violência. 
Também as páginas negras das revistas cor de rosa mostram que o glamour nem sempre é o que parece.
Na realidade, conheço melhor a violência familiar do ponto de vista das crianças que chegam à consultas de psicologia ou porque já estão a ser acompanhadas pelos tribunais e comissões de protecção ou porque as famílias estão a viver essas situações.
São crianças expostas a modelos de violência com frequência e que às vezes são igualmente vitimas quando tentam defender o progenitor agredido.
Outras vezes o sofrimento é mais invisível: Sofrem porque os pais não se entendem, se agridem verbal ou fisicamente de forma sistemática.
Há algumas falsas ideias que é importante termos em conta.
Há a falsa ideia de que se pode ser um bom pai mesmo sendo um marido violento. “Só me bate a mim, não toca com um dedo nos filhos…”
Outra ideia errada é pensar, quando as crianças são pequenas, que ainda não entendem o que se passa.
Acontece que estas violências começam desde muito cedo. Em 40% dos casos a violência inicia-se logo na gravidez ou logo a seguir ao nascimento.
Observam-se reacções de agressividade ou de medo em crianças desde os 8 ou 9 meses que é uma altura em que áreas especializadas do cérebro são mais sensíveis a indicadores de ameaça psicológica.
Alem disso a violência psicológica é igualmente importante se desqualificam a vítima ou se a vítima é ameaçada de maus tratos corporais graves. A criança pode assumir como real essa ameaça.(Entrevista de Jean-François Marmion a Karen Sadlier, Le cercle Psy)

A violência doméstica envolve os vários elementos da família mas ela é principalmente uma violência de género. Em 2013, em 82% dos casos de violência doméstica, o autor do crime era do sexo masculino.(APAV)

Nas violências familiares não é fácil de entender porque as vitimas tem tanta dificuldade a denunciar e ou deixar o cônjuge violento.
Em parte, talvez porque as vítimas sempre esperam que o agressor possa mudar por elas ou pelos filhos.
Apesar das convenções internacionais e da legislação existentes, o atavismo cultural e o fanatismo religioso continua a ter grande importância em muitos países. Em alguma culturas, as mulheres continuam a ser propriedade dos maridos, os filhos propriedades dos pais...
Mas entre nós há quem ainda não compreenda que as pessoas não são propriedade de outras pessoas. Nem o casamento as torna proprietários de alguém.
Um dos aspectos de maior conflito tem sido a subtracção de menores (Artigo 249.º do CC). Muita violência tem a ver com a desregulação do poder parental porque consideramos que somos proprietários dos nossos filhos.

 Kalil Gibran, nascido no Líbano, já dizia

Vossos filhos não são vossos filhos.           
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.           
Vêm através de vós, mas não de vós.           
E embora vivam convosco, não vos pertencem.           
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,           
Porque eles têm seus próprios pensamentos.           
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;           
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,           
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.           
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,           
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.           
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.           
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força          
Para que suas flechas se projectem, rápidas e para longe.           
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:           
Pois assim como ele ama a flecha que voa,           
Ama também o arco que permanece estável. 


28/10/14

Progressos na educação


A euforia em volta da demissão do ministro de educação Nuno Crato, como se pode verificar um pouco em todos os media, é bem a imagem de uma campanha que obedece a critérios da  mera luta política. Como parece que Passos Coelho vai cumprir a legislatura, a estratégia para fazer mais alguns estragos costuma ser tentar  fragilizar mais ainda a situação da educação "limpando" o que popularmente está mais a jeito.
Nuno Crato pode  sair amanhã do ministério por vontade própria ou  do primeiro ministro. Que importa?  Haverá sempre ministros que saem e outros que entram. Ainda não houve falta de candidatos.
Mas por que há-de sair Crato ?
Porque Crato é o bode expiatório de  todo o mal que tem acontecido e, em especial, tem acontecido à educação.
Crato devia pedir  desculpa porque houve um erro que não foi dele. Pediu. E mais: prometeu a reparação do erro cometido. Mas isso já não interessa.

O que esteve errado então? A aplicação de critérios/subcritérios que tinham sido aprovados. Que nunca foram aceites pelos sindicatos e professores.
Como já disse, o que que ficou claro é que apenas aceitam a lista de graduação única. E não há esperança de que outros critérios possam entrar na selecção dos candidatos a professor. Não há esperança de mudança.

Várias críticas foram aqui feitas, obviamente. As falhas vieram da continuidade das medidas do governo anterior, como o fecho de escolas rurais e de pequena dimensão, mega-agrupamentos, continuação da burocracia...
Mesmo assim, muito foi substituído ou terminado: a parque escolar, as aulas de substituição,  o estatuto do aluno, os professores titulares, a avaliação de desempenho, o autoritarismo, a destruição da imagem dos "professores que não trabalham", as novas oportunidades... por Nuno Crato. Tudo foi esquecido.

Uma avaliação crítica, equilibrada e justa encontra-se em Marlene Carriço - três anos de Crato: orgulho de quê? (Observador).
"Com Nuno Crato aumentaram de 21 para 212 o número de escolas com contrato de autonomia, foi dada uma maior liberdade na definição do tempo de cada unidade letiva e da carga horária anual de cada disciplina, cumprindo os limites mínimos, e assegurando que disciplinas como o Português e a Matemática ficassem reforçadas, foram também atribuídos mais créditos horários às escolas que tiveram melhores resultados escolares e que mais reduziram o abandono escolar para poderem utilizar como bem entendam, no apoio aos alunos."
alunos

Provavelmente não há que ter "grande orgulho" como quer Passos Coelho. Mas pedir a demissão do governo e dos ministros faz parte da lógica de partidos que não aceitam esta politica, nem outra, desde que a considerem "de direita".
O pretexto de não se ser capaz de harmonizar escalas com pontuações diferentes ultrapassa a racionalidade. E o que tem Crato que ver com isso ?  Mas o problema não é esse mas o que já escrevi noutro local.

Não deixa de ser interessante verificar que no mesmo dia em que M. F. Mónica chama "burro" ao ministro Crato, um relatório da OCDE vem dizer que é necessário reduzir o número de professores.


Tal como diz: "Reduce grade repetition by investing in alternative ways of supporting those with learning difficulties", coisa de que a (dita) esquerda nem quer ouvir falar. 
E esta é uma medida muito positiva de Crato.

Será que o relatório tem alguma importância ?

Já tínhamos visto este filme. Claro que tinha que acontecer um incidente como o da colocação de professores no tempo de Santana Lopes/Maria do Carmo Seabra. A informática não explica tudo.

25/10/14

Gosto e inteligência


Sermos mais ou menos inteligentes faz com que façamos determinadas escolhas musicais, literárias, etc.  e não outras? Ou essas escolhas  podem significar mais inteligência ou bom gosto? 

A "informação mostrada num gráfico é baseada na comparação dos resultados dos exames de acesso à universidade, nos Estados Unidos, com os gostos dos alunos.
Um estudo realizado nos Estados Unidos diz que quem ouve artistas como Beyoncé, T.I. ou Jay-Z ou géneros musicais como reggaeton, jazz ou pop é menos inteligente do que quem ouve Beethoven, Radiohead, Sufjan Stevens ou Bob Dylan. 
O critério utilizado no estudo, levado a cabo por Virgil Griffith no site Musicthatmakesyoudumb, foi a comparação das notas dos exames de acesso à universidade (SAT)* nos Estados Unidos com os gostos dos estudantes (informação retirada dos perfis do Facebook)."
Os resultados estão no Blitz ou no Musicthatmakesyoudumb.

A mesma metodologia foi usada com os gostos de livros. Veja os resultados em Booksthatmakeyoudumb.

A ser verdade, seria apenas para o grupo etário/de escolaridade estudado. 
Tem que se partir do princípio que os resultados do SAT acompanham os dos testes de inteligência. Para além de todos os problemas ligados à avaliação da inteligência.
Por outro lado, os bons resultados na prova não querem dizer que se tenha bons gostos musicais ou literários, o que é uma coisa discutível. Só faltava que não fosse !
___________________________

* O SAT (Scholastic Aptitude Test ou Scholastic Assessment Test) é um exame educacional padronizado nos Estados Unidos aplicado a estudantes do ensino médio, que serve de critério para admissão nas universidades norte-americanas.


22/10/14

Tudo gente inteligente

A gente já desconfiava de que quando Deus distribuiu a inteligência pelos seres humanos, fez os de esquerda mais inteligentes que os de direita.

É também essa a conclusão a que chegou um controverso estudo realizado por académicos da Universidade Brock, em Ontário, no Canadá, que "afirma que pessoas com opiniões políticas de esquerda tendem a ser mais inteligentes do que aquelas com visões de mundo de direita."
Political ideology"Analyses of large representative samples, from both the United States and the United Kingdom, confirm this prediction. In both countries, more intelligent children are more likely to grow up to be liberals than less intelligent children. For example, among the American sample, those who identify themselves as “very liberal” in early adulthood have a mean childhood IQ of 106.4, whereas those who identify themselves as “very conservative” in early adulthood have a mean childhood IQ of 94.8.
Even though past studies show that women are more liberal than men, and blacks are more liberal than whites, the effect of childhood intelligence on adult political ideology is twice as large as the effect of either sex or race. So it appears that, as the Hypothesis predicts, more intelligent individuals are more likely to espouse the value of liberalism than less intelligent individuals, possibly because liberalism is evolutionarily novel and conservatism is evolutionarily familiar." (Psychology TodaySatoshi Kanazawa ).

A tradução de esquerda e direita parece não corresponder a liberais e conservadores como é dito no texto acima.
Em todo o caso, para quem tenha dúvidas sobre estas conclusões o melhor é pensar que nos tempos que correm, direita e esquerda são mais ou menos farinha do mesmo saco. Veja-se por exemplo os ministros e todos os que estiveram no poder nos governos de Salazar e Caetano e agora são todos uns grandes democratas, alguns ministros...
Veja-se os que passam do ps para o psd e vice-versa, do cds para o ps e do bloco para o livre e do pcp para o psd e para o ps. São pessoas que sempre estiveram com a verdade e razão no último partido que escolheram. É sinal de que os que mudaram para partidos de esquerda são mesmo muito inteligentes . Os que foram em sentido contrário, deixaram de ser.

Para quem acredita que isto é assim pode sempre contar com a ajuda da representação social que existe (para não falar de preconceito). Na crónica de Mário Soares (A crise e Portugal, DN), na tal esquerda, só há gente inteligente, menos o sr. Hollande, coitado, que já não conta no contexto da esquerda, uma vez que a França passou a ser "a França do primeiro-ministro Renzi".