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02/04/26

Entre o parque jurássico e a guerra das estrelas



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Uma casa onde habitam crianças não é bem um espelho de desarrumação mas tem momentos em que parece. Nada de especial. Casa onde há crianças é assim. Tudo o que encontram ou conseguem apanhar com potencial para a descoberta, interesse ou nova experiência serve para brincar mesmo que sejam objectos frágeis, valiosos ou perigosos, são mais atractivos do que alguns brinquedos acabados de comprar e, o nosso trabalho é dizer vezes sem conta: "Isso não é brinquedo", "isso é perigoso", "põe no sítio onde estava", "tem cuidado"...*
A casa vira Arca de Noé, invadida por todo o tipo de animais, fofinhos ou ferozes, muito rápidos ou muito lentos, bichos medonhos e nojentos, perigosos e assustadores, aranhas, osgas, cobras... Mais ferozes para mim que para eles. 
Há dinossauros por todo o lado misturados com starwars, naves espaciais, transformers, legos, bonequinhos do Kinder surpresa, Minecraft e Creeper, Superthings e Kazoom Blast, Piratrix, Stich e Lilo, Sonic... 
Toda esta confusão e desarrumo ou, quem sabe, organização, faz-me sentir entre o parque jurássico e a guerra das estrelas. 

A situação pode ainda complicar-se. Quando são duas ou mais crianças no mesmo estádio de desenvolvimento ou em estádios contíguos, pré-operatório e operações concretas, por ex., podem surgir mais conflitos porque o que um quer o outro também quer, o mais novo a sombra do mais velho, os dois querem sempre ganhar e a brincadeira às vezes termina com choro ou agressão... E nós, sempre temos a desculpa de que são irmãos, não é? Quem tem irmãos sabe que é assim...

Mais difícil ainda quando estão com pais, avós, primos. Em família alargada com autoridade mais diluída a obediência também fica mais fluida: "Tu não mandas em  mim", "tu não és meu pai", "o pai ainda não disse", "oh mãe,  a avó disse...", "deixa-me em paz", "pára, pára"...

Mas, na realidade, o mais difícil é gerir a tralha electrónica: tv e o respectivo comandotelemóvel, tablet ou iPad. Séries infindáveis como Os Mistérios dos bichos, Spidy, Barbapapa, Rubble e companhia... no canal panda, disney junior, nickjr, etc... É deveras difícil mas tem que ser levado em conta para não passarem manhãs e tardes inteiras de passividade motora. Há que esperar o protesto dos mais novos que sempre querem mais e as regras ainda não importam...

Os adultos são responsáveis por gerir a situação relacional e educativa. Um adulto deve conseguir resolver estas crises com segurança, controlo emocional, compreensão de que se fossemos nós teríamos as mesmas atitudes e comportamentos. São de facto crianças muito pequenas para perceberem a necessidade de mudança de actividade  e de passar para as tarefas das rotinas diárias: almoçar, jantar, sair...

Os adultos têm também que perceber quando se trata de desorganização ou de acumulação pura e simples de objectos sem função lúdica. Neste caso o problema é querer sempre mais tralha o que leva à dispersão e à dificuldade em se concentrar ou focar numa determinada actividade dificultando a conclusão de qualquer trabalho.

Por estes longos dias de férias podemos ver como a liberdade de escolher  actividades, brinquedos, brincadeiras, nos revela as muitas capacidades que as crianças têm para interagir, para desenvolver a criatividade, para inventar jogos, actividades, às vezes a partir de qualquer coisa aparentemente insignificante que lhes desperte a atenção.

Sair de casa é sempre uma boa alternativa. Principalmente quando começam a ficar cansados e quezilentos.  

É uma boa estratégia aproveitar a oferta de actividades de ocupação de tempos livres que as comunidades mais atentas através das autarquias locais ou associações de solidariedade social, responsavelmente, oferecem, algumas bem interessantes, criativas e pedagógicas.

E, mesmo sem a inventividade do "task master", pode fazer-se tanta coisa... 

- Podemos passear na quinta e ter a sensação da terra acabada de lavrar. Que bom que é caminhar na terra como se se estivesse na lua! Afinal podemos ir à lua e andar suavemente quase sem sentir o chão debaixo dos pés.

E fazer corridas até ao fim da leira como se fosse uma pista de atletismo. É mais suave do que na praia ... Pouco importa se, no fim, é pó por todo o lado, da cabeça até aos pés.

- Podemos construir uma casa. Não importa se para isso é preciso desfazer as camas, mudar de sítio as almofadas, lençóis...

- À noite podem surgir ideias interessantes como fazer uma representação, um espectáculo de bateria com tachos e panelas, mesmo que o público seja  apenas os dois avós mas é como se estivesse a sala cheia.

- Podemos organizar a "A feira das pipocas" com um stand para venda com os respectivos preços.

- Podemos jogar um jogo de cartas com as regras de conveniência do momento onde há cooperação mas também competição.

- Podemos participar no Atelier "Verão por um fio", organizado pelo Museu Cargaleiro/Câmara Municipal ou praticar natação na piscina dos "Redentoristas".
Uma questão que sempre se coloca diz respeito à protecção ou superprotecção vs "deixem-me arriscar" (2) ou seja, sobre a salutar actividade da criança no seu contexto ecológico.
O que é risco e perigo na educação? Até onde podemos correr riscos numa actividade educativa ou numa situação que configura perigo ? (3)
É preciso compreender que a criança é activa e, para o seu pleno desenvolvimento, necessita de actividade físico-motora regular. Desde cedo é crucial para o desenvolvimento físico, mental, emocional, motor e neurológico da criança. 
Por outro lado, a actividade diminui o risco de doenças como obesidade, diabetes e problemas cardiovasculares. Tem também a vantagem de reduzir a atracção do telemóvel e dos écrans... (3)

Finalmente as férias chegam ao fim. Com o passar dos dias, devagarinho, vêm-nos à memória os momentos agradáveis das férias e começam as saudades dos mais pequenos episódios, das mais pequenas coisas e vem-nos à memória aquele bordão descontraído e irreverente: " 'I believe I can fly', as cuecas do teu pai..."

Moral da história: A actividade, brincar, é fundamental para o desenvolvimento harmonioso das crianças. A prevenção, necessariamente, deve ter em conta os riscos decorrentes dessa actividade. Ou seja, a actividade da criança tem inúmeras vantagens para o seu desenvolvimento mesmo face a alguns riscos calculados que dela possam advir. No caminho para a autonomia tudo envolve algum nível de risco. É por isso que a supervisão do adulto deve ser permanente. Isso também significa que podem ser feitas actividades que envolvem algum risco. Por isso a prevenção é a melhor protecção. (4)

 

 

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(1) Ilustrações de M. 9:4,  Atelier "Verão por um fio", Museu Cargaleiro.


(2) Joana Silva, Deixem-me arriscar - Correr, lutar, trepar, cair. - A importância de deixar as crianças correrem riscos saudáveis na brincadeira.


(3) Finalmente, o governo "arriscou" regular a utilização de telemóveis no espaço escolar para o 1º e 2º ciclos (DL n.º 95/2025, de 14 de agosto)Como combater dependência do telemóvel, CUF.


(4) Temos de  ter a consciência de que os acidentes domésticos são a principal causa de morte em crianças e jovens.  Maria Luisa Faleiro "Acidentes domésticos aprenda a preveni-los", CUF;  "A seguranca na água",  APSI.










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