05/02/20

Tráfico de crianças


https://www.unodc.org/documents/data-and-analysis/glotip/2018/GLOTiP_2018_BOOK_web_small.pdf



O tráfico de crianças é um caso especial de tráfico de seres humanos,  uma prática de sequestro, desaparecimento e ocultação da identidade das crianças, que se destina a  adopção ilegal, a exploração infantil, tanto para trabalho escravo  como sexual, actividades  criminais e uso militar das crianças.

Embora haja zonas do mundo onde estas práticas são mais evidentes, o nosso país não passa incólume a esta situação.  Vejamos duas situações recentes:

1. Uma notícia de 6-11-2019 da Renascença informa-nos de que, no último ano e meio, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) perdeu o rasto a 66 menores, que chegaram sozinhos ao aeroporto de Lisboa, pediram asilo a Portugal e desapareceram. A maioria terá como destino a exploração sexual.
Estas pessoas “destroem os seus próprios documentos, viajam sozinhas ou controladas por alguém dentro do voo e uma vez num Estado-membro solicitam asilo. Mais cedo ou mais tarde o seu processo será decidido, mas enquanto esperam estão, na maior parte das vezes, em regime aberto e desaparecem”. (Mário Varela, inspector da Unidade Anti-Tráfico de Pessoas do SEF - Renascença, "Tráfico de menores. Pedem asilo e depois desaparecem. Quantos? Todos". Celso Paiva Sol, Renascença, 6/11/2019)*

2. Joana Amaral Dias, recentemente, adoptou uma criança, viajou com o menino (Dinis) e a restante família para Cuba onde estiveram de férias, e contou que esta "foi uma experiência assustadora". "Porque fomos para Cuba e levei um papel do tribunal para comprovar que ele [Dinis] está à minha guarda, e acreditam que saí da Europa, entrei em Cuba, saí de Cuba, voltei a entrar na Europa sem nunca me pedirem esse papel. Dá que pensar. Fiquei assustadíssima" . ("Joana Amaral Dias partilha "experiência assustadora" com filho adotivo", Notícias ao Minuto, 28/1/2010)

Um relatório da ONU, de 07-01-2019, Global Report on Trafficking in Persons 2018, refere que dos  142 países analisados, as crianças representam 30%, quase um terço, de todos os indivíduos traficados, sendo o número de meninas afectadas superior ao de meninos.
Em 2016, quase 25 mil pessoas foram traficadas no planeta - 70% eram do sexo feminino, com as meninas representando 20% de todas as vítimas. A exploração sexual corresponde a cerca de 59% do total dos casos. O trabalho forçado foi identificado em 34% das ocorrências.
Embora as crianças sejam em sua maioria vítimas do tráfico para trabalhos forçados (50%), muitas também são vítimas de exploração sexual (27%) e outras formas de exploração, como mendicidade forçada, recrutamento para tropas e grupos armados e actividades criminosas forçadas. 
As meninas foram vítimas de exploração sexual em 72% dos episódios analisados. Casos de trabalho forçado envolvendo as jovens menores de idade equivaliam a 21% do total.

O tráfico de crianças é um dos mais abjectos comportamentos do ser humano e priva as crianças de praticamente todos os seus direitos fundamentais: o direito a uma família,  à educação, à saúde,  a não sofrerem maus tratos, ao desenvolvimento  num ambiente afectivo e emocional…
Os países e respectivos governos são responsáveis pela incapacidade de organização de um sistema de protecção eficaz para estas crianças.
Como diz Joana Amaral Dias vivemos de facto num mundo "assustador" e, acrescento eu, um mundo sem-vergonha e um mundo desumanizado (Seligman **).
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* Escrevi sobre o assunto em  Maldade: o caso das crianças desaparecidas.
** Forças de carácter da virtude Humanidade: Amor, Bondade e Inteligência social.




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30/01/20

"O capitão fantástico"




Filme de 2016. A ideologia de Noam Chomsky está expressa logo no início: "o povo é que mais ordena... abaixo a autoridade".
Mas, como sempre, é necessário, num mundo de ilusões, ter alimento para sobreviver. A operação chama-se "Missão libertar a comida".
O tema é recorrente: a educação natural vs civilização consumista. Uma, a primeira, é boa, a outra má.
Viver segundo a natureza, sem educação que manche essa boa natureza e em que apenas importa uma educação familiar radical e utópica.
De Rousseau no que tem de pior ao menino selvagem mas da frente para trás, na direcção contrária das crianças do "capitão". Ou seja:  Fugir da civilização e criar os filhos na floresta.

Salva-se a música dos Guns N' Roses - Sweet Child O' Mine




Sweet Child O' Mine

Ela tem um sorriso que parece
Lembrar-me de memórias de infância
Onde tudo era fresco
como o brilhante céu azul
De vez em quando eu vejo seu rosto
Ela me leva para aquele lugar especial
E se eu olhasse por muito tempo
Provavelmente perderia o controle e choraria
Oh, oh! Minha doce criança
Oh, oh, oh, oh! Meu doce amor
Ela tem olhos dos céus mais azuis
Como se eles pensassem na chuva
Odeio olhar para dentro daqueles olhos
E ver um pingo de dor
O seu cabelo lembra-me um lugar quente e seguro
Onde como uma criança eu me esconderia
E rezaria para que o trovão e a chuva
Passassem quietos por mim
Para onde vamos?
Para onde vamos agora?
Para onde vamos?


29/01/20

Psicologia da corrupção 2

 


Na semana passada falámos da corrupção numa perspectiva cognitivista. Hoje apresentamos outras perspectivas psicológicas que nos ajudam a compreender este fenómeno tão perturbador na nossa vida social.

2. A perspectiva comportamentalista dá particular relevo ao ambiente como fundamental para a aprendizagem.
Qualquer processo comportamental, como a corrupção, depende do ambiente através do comportamento operante e da contingência do reforço. 
Como sabemos para o behaviorismo, o comportamento é justificado pelas suas consequências. Portanto, tudo depende da história de desenvolvimento do individuo, de contingências sociais a que esteve sujeito, do ambiente social e cultural complexos em que vive. 
Nesta perspectiva, a corrupção como um conjunto de acções ou comportamentos de um indivíduo é aprendida e está sujeita às contingências sociais. 
Na vida social ou política todos conhecemos a troca de favores por meios mais ou menos obscuros, frequentemente envolvendo empregos, posições de poder nas instituições, dinheiro e enriquecimento, desafiando os limites da legalidade. 
A corrupção, por um lado, resulta de reforçadores positivos, como o poder que se pode obter, as vantagens económicas, as vantagens dos relacionamentos sociais, o papel e estatuto que se tem na sociedade.
Por outro lado, em geral, não há punição efectiva para os corruptos. Por exemplo, no nosso país são raríssimos os casos em que a justiça puniu estes comportamentos.
Estas duas condições, reforçadores positivos no curto prazo (lucro financeiro ou outras vantagens ilegais), bem como risco reduzido de punição a curto e médio prazo (sanções legais), modelam e mantêm os comportamentos corruptos.
Mesmo quando há condenação dos corruptos, após processos judiciais altamente complexos e que se eternizam no tempo, as relações custo-benefício entre as respostas que caracterizam o comportamento corrupto e as consequências que produzem, indicam que corromper-se e corromper “valem a pena”, no sentido de que há pouca ou nenhuma consequência aversiva contingente nos âmbitos comunitário e legal ou jurídico…(1)

3. Na perspectiva analítica de Jung, a corrupção está relacionada com características individuais da personalidade, é um acto egoísta do indivíduo, o indivíduo corrupto coloca as suas necessidades acima da sociedade inteira. 
Quando a corrupção se torna um comportamento padrão, há um processo de "normalização da corrupção" em que pela racionalização, o corrupto cria narrativas socialmente construídas para legitimar os actos aos seus próprios olhos
Por outro lado, há um inconsciente cultural em que a relação do indivíduo com a corrupção não é a mesma se ele vive num lugar onde a corrupção é endémica ou se vive em um lugar onde a corrupção está sob controle. A corrupção é, então, relativa: varia de acordo com o tempo e o espaço. 
A corrupção, de uma forma ou de outra, esteve presente ao longo da história. Ela pode ser encontrada em todo o lado, em todas as sociedades e todos sistemas económicos, mesmo que mudem as manifestações, as frequências, os níveis hierárquicos e as influências culturais. (2)

Para Jung o bem e o mal não são relativos. A corrupção é oposta de integridade e consciência moral e contém vários elementos, como: responsabilidade, rectidão, perfeição, honestidade, obrigação moral, harmonia psicológica interna, eros psicológico e ético, sinceridade… Por seu lado, a corrupção é irresponsabilidade, vergonha, fragmentação, imperfeição, desonestidade, imoralidade, dissociação... Assim a corrupção a nível do inconsciente colectivo, representa uma propensão à ruptura, uma tendência contrária à integridade moral e uma expressão do mal na sociedade. (3)

Apesar de sabermos que os comportamentos corruptos manifestam esta complexidade do ponto de vista psicológico, há uma escolha a fazer (4) entre ser corrupto ou ser íntegro (5) e essa escolha é pessoal.
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(1) Baseado e condensado de Kester Carrara - Diego Mansano Fernandes, "Corrupção e seleção por consequências: uma análise comportamental".
(2) O inconsciente colectivo é composto de arquétipos. "A natureza dos arquétipos é tal que os reconhecemos de imediato e somos capazes de lhes atribuir um significado emocional específico". O Livro da Psicologia, pag.105.
(3) Apesar do determinismo que algumas perspectivas psicológicas envolvem (B. F. Skinner, Para além da liberdade e da dignidade), há sempre lugar para as escolhas e liberdade individual.
(4) Baseado e condensado de  Camila Souza Novaes, "Corrupção no Brasil: uma visão da psicologia analítica".
(5) Uma das 24 forças de carácter de Seligman: Integridade / Autenticidade / Honestidade




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26/01/20

Psicologia da corrupção





Todos sabem o que é a corrupção. Todos, de alguma forma, sofrem as consequências que dela resulta. Quase não há dia nenhum em que não somos surpreendidos com mais um caso de corrupção. É, portanto, um tema que, infelizmente, pelos piores motivos, está na moda.
A corrupção tornou-se um fenómeno global que atinge todos os países. Mesmo aqueles em que por falta de liberdade de expressão e de transparência não são notícia nos media.
A corrupção atinge os sistemas políticos e as democracias como Portugal, e é causador de grandes prejuízos na economia dos países, na sua reputação externa e no descrédito dos cidadãos no estado e nos políticos.
A corrupção "compreende uma variedade de comportamentos que têm como princípio a apropriação indevida de uma autoridade pública para fins privados, causando prejuízos materiais e morais a uma sociedade por operar contra a lei ." *
"Este comportamento é bastante complexo e possui múltiplas causas, e é necessário que se compreenda os mecanismos inerentes ao mesmo para elaborar estratégias mais eficientes para combatê-lo"*.
Além disso, atinge também todos os sectores da vida, vai desde as golas antifumo, como no caso dos incêndios, até às falências de bancos ou à insolvência dos países.
Ela afecta todos os níveis em que nos movemos, enquanto indivíduos, na sociedade e na cultura.
Os comportamentos de corrupção têm vindo a interessar, cada vez mais, os estudos psicológicos.
Nesse sentido, os modelos da psicologia cognitiva, comportamental e analítica podem ser de grande utilidade para compreender os comportamentos e a personalidade do corrupto e da corrupção na sociedade.

1. Hoje vamos falar da perspectiva da Psicologia cognitiva em relação à corrupção
A psicologia cognitiva (Piaget e Kohlberg) define vários estádios de desenvolvimento moral: inicialmente temos uma moral heterónoma que se vai desenvolvendo até uma moral autónoma. Este processo de desenvolvimento cognitivo e moral acontece na maioria das pessoas.
Para Kohlberg há 3 níveis de desenvolvimento moral: Pré-convencional, convencional e pós-convencional, cada nível com dois estádios.
Digamos que alguns destes corruptos se situam entre o estádio do auto-interesse (ou "hedonismo instrumental") ou de “o que eu ganho com isso?”, do nível 1, e o estádio do acordo interpessoal e conformidade, do nível 2.
A psicologia cognitiva apresenta alguns mecanismos que conduzem a esta alteração no desenvolvimento do juízo moral *:
- o “desengajamento moral” (moral disengajement) que leva o indivíduo a reinterpretar os seus conceitos morais de forma a poder modificar ou bloquear o seu julgamento moral. Estes indivíduos corruptos podem cometer actos desumanos, sem sofrer grande stress ou culpa. Estes actos não lhes tiram o sono, como costumamos dizer.
O "desengajamento moral" ocorre por meio de subprocessos cognitivos como: Simplificar um dilema por meio de racionalizações e eufemismos (deturpação cognitiva); minimizar o próprio papel na conduta ilícita ou admitir que a mesma é inevitável, deslocando a responsabilidade para as circunstâncias; reduzir a dissonância cognitiva desumanizando as vítimas ou culpando as mesmas pela ocorrência do acto corrupto.
- O processo de decisão pode levar um indivíduo a pensar em termos de custos-benefícios resultantes do seu comportamento.
Neste caso, a tomada decisão pelo comportamento de corrupção ocorre com maior frequência em indivíduos que sentem mais emoções positivas advindas da antecipação de cenários favoráveis, como os lucros financeiros resultantes da acção criminosa.
- Ter poder pode levar a modificações cognitivas acerca do julgamento moral de um indivíduo, permitindo que o mesmo tenha uma maior inclinação para cometer actos ilícitos.
O poder e o sentimento de superioridade podem evidenciar e exagerar traços comportamentais narcisistas. Como tal acredita que merece algum tipo de tratamento especial e que não precisa respeitar certas regras… *
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Baseado e condensado de Henrique Britto de Melo, "Psicologia da corrupção: uma abordagem cognitiva".




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