11/12/19

Carlos Amaral Dias



Carlos Amaral Dias, psicanalista, de 73 anos, faleceu a 3 de Dezembro, em circunstâncias ainda não totalmente explicadas pelo SNS/INEM.

Tive a sorte de ser seu aluno. E é essa a ligação de aluno-professor que tenho com ele. Uma ligação-admiração que seria continuada com os seus livros, e com as suas participações e intervenções na comunicação social.
Como já disse noutra altura, foi devido ao trabalho dos meus professores que sou quem sou. E como dizia a grande poetisa brasileira Cecília Meireles:
"Há pessoas que nos falam e nem as escutamos,
há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam
mas há pessoas que simplesmente aparecem em nossa vida
e nos marcam para sempre". 
Carlos Amaral Dias foi uma dessas pessoas que nos marcam para sempre.

Leio ou consulto com frequência algum dos livros que publicou. Amaral Dias não é de leitura fácil mas creio que era assim que ele queria. Nada pode ser fácil quando se trata da complexidade do ser humano.
Recordo as aulas de Psicanálise, do curso de Psicologia da Universidade de Coimbra, que leccionava no Centro de estudos e profilaxia da droga da mesma cidade.
Sempre impecavelmente vestido, fato e gravata, relógio de bolso, cigarro na mão... Entre o método expositivo e dialógico, as ideias fluíam de forma atractiva o que me levava a querer ouvir/saber sempre mais.
Embora com alguns conhecimentos na área do desenvolvimento psicossexual de Freud, a cadeira de psicanálise permitiu-me conhecer algumas vertentes do seu pensamento psicanalítico que passavam, necessariamente, por Freud, Melanie Klein, Bion…
Era um professor diferente do que era praticado na Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra onde o formalismo de alguns professores doutores chocava um pouco com a informalidade, talvez excessiva, que trazia das minhas aulas do ISPA.
Depois continuei a acompanhar o seu pensamento nos livros que escrevia, cerca de duas dezenas,* e em  textos e entrevistas que resultaram das suas intervenções na comunicação social.

Um dos seus mais pequenos livros, A bondade e o perdão - ensaio psicanalítico sobre algumas qualidades do bom objecto interno, é, afinal, o grande livro que, desculpem o paternalismo, todos devíamos ler e meditar.
É de A Bondade e o perdão este extraordinário excerto (ponto 15):
"À violência que quotidianamente é gerada no nosso tempo, e que não pode ser somente denunciada mas essencialmente compreendida como gerada pelas angústias primitivas e pela pulsão de morte existente em cada um de nós, deve o homem não tanto opor, mas propor alternativas criadoras e por isso bondosas de habitar a Terra.
Uma das maiores consequências da prática da psicanálise é precisamente esta, ou seja, a compreensão dia a dia, sessão após sessão, da esterilidade da vingança e da estupidez própria da raiva. Diariamente nos confrontamos, nos nossos actos, nos nossos gestos, nas nossas relações, e nos nossos sonhos, com a obtusão mental derivada quase sempre da destruição interna que Thanatos inflige às partes boas e criadoras do self. Esse é o peso que nos empurra para a doença e para a dor. A bondade e o perdão, farão provavelmente parte das asas que nos esperam quando finalmente conseguirmos ser livres.”

Ele, certamente nas asas da bondade e do perdão, passou a ser definitivamente livre. Amaral Dias é uma referência obrigatória no campo da psicologia. Tenho, no trabalho e na vida, recorrido varias vezes à ajuda do seu pensamento. Só lhe posso estar grato.

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*Bibliografia (incompleta)
O Inferno somos nós - conversas sobre crianças e adolescentes,
Já posso imaginar que faço, com João Sousa Monteiro,
Um psicanalista no expresso do Ocidente,
Freud para além de Freud (Vol 1 e vol 2), 

Espaço e relação terapêutica, com prefácio de Jean Bergeret
Teoria das transformações,
Carne e lugar,
Modelos de interpretação em psicanálise,
(A)Re-pensar - Colectânea psicanalítica,
A psicanálise em tempo de mudança - Contribuições teóricas a partir de Bion,
com Manuela Fleming
Volto já - ensaios sobre o real,
Costurando as linhas da psicopatologia borderland (estados -limite), 

O negativo ou o retorno a Freud,
Tabela para uma nebulosa - Desenvolvimentos a partir de Wilfred R. Bion,
Bion hoje,
com A. Muniz de Rezende e David E. Zimerman
A bondade e o perdão - ensaio psicanalítico sobre algumas qualidades do bom objecto interno.

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04/12/19

Educação especial e cidadania


Esta semana, no dia 3 de Dezembro de 2019, comemorou-se mais uma vez o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, sob o lema, “O futuro é acessível”, proposto pela ONU.
Entre nós o dia foi assinalado, em vários locais.
O Instituto Nacional para a Reabilitação - INR, comemorou este dia em parceria com a Câmara Municipal de Santarém, e contou com representantes do governo, município e instituições locais.*
Em Castelo Branco, foi comemorado pela Câmara Municipal, Agrupamentos de escolas e instituições ligadas à educação e apoio de pessoas com deficiência. **

Sabemos que estes dias são simbólicos e por isso parece que estamos a repetir os mesmos assuntos há anos e que não avançamos em concreto nas respostas às necessidades das pessoas com deficiência. Estas mudanças são lentas e faz sentido que este ritual anual seja realizado porque há muito para lembrar e para fazer.
O Secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que “a inclusão de pessoas com deficiência é um direito humano fundamental.” Neste aspecto, concordo inteiramente com ele.

A comemoração deste dia começou a ser feita de um modo mais relevante em Castelo Branco na Escola Afonso de Paiva, ** graças à Equipa de Educação Especial que nesta escola tem tido um papel insubstituível no apoio às crianças com deficiências e com dificuldades de aprendizagem.
Em 2013, a acção de formação em que participei, justamente para comemorar este dia, foi dedicada ao tema “Unidos nas diferenças para a cidadania”, na sequência do apelo do Secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, “Quebrem barreiras, Abram portas: Por uma sociedade inclusiva para todos.”
Na sessão comemorativa  deste dia no Agrupamento de Escolas Afonso de Paiva apresentei o tema "Educação especial e cidadania".
Resumidamente, a cidadania diz respeito a todos. A cidadania envolve direitos civis, políticos, sociais económicos, culturais...
Em termos psicológicos costumo dizer que os direitos humanos são a realização das necessidades humanas, como, por exemplo, foram definidas por Maslow.

A cidadania é um principio universal de inclusão e não pode haver discriminação de ninguém.
A cidadania é um principio de legitimidade política, de construção identitária e de um conjunto de valores.
É por isso que ao mesmo tempo somos cidadãos nacionais, europeus e do mundo e, simultaneamente, a cidadania dá-nos um sentimento de pertença  a uma comunidade de valores. Valores esses consagrados nas diversas declarações e convenções de organismos internacionais como a ONU.
A Convenção sobre os direitos das pessoas com deficiência, de 2006, que, em Portugal, foi adoptada pela Resolução nº 56/2009, da Assembleia da República, refere, no que diz respeito à educação, que os "estados partes reconhecem o direito das pessoas com deficiência à educação ... e asseguram um sistema de educação inclusiva a todos os níveis e uma aprendizagem ao longo da vida.”
Penso que já todos estamos convictos deste princípio. Porém, a nossa prática e a das instituições não são de forma a que sejam garantidos esses elementares direitos nas oportunidades, nos espaços e nas barreiras físicas e psicológicas, nas barreiras curriculares, nas barreiras profissionais e de emprego… direitos a que todas as pessoas, com ou sem deficiência, devem poder  aceder.
Basta dar uma volta pela nossas cidade e constatar como temos tratado as acessibilidades e a eliminação de barreiras arquitectónicas, para as pessoas com dificuldades de locomoção, nas ruas e passeios, nas habitações, nos transportes, onde não cabem cadeiras de rodas ou carrinhos de bebé … ou como os ratios de pessoal são insuficientes para trabalhar com as crianças nas escolas, quando se pretende um sistema unificado de ensino. ***
A inclusão é um processo. É feita todos os dias e a todo o momento. Não é para começar amanhã. É para fazer agora que é quando o futuro começa.
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* Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, da Secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência, Ana Sofia Antunes, do Presidente do INR, Humberto Santos, e do Presidente da Câmara Municipal de Santarém, Ricardo Gonçalves. Evento apoiado pela APPACDM de Santarém e pela Associação de Desporto Especial do Distrito de Santarém.
** Este projecto passou a ser gerido pela autarquia albicastrense que refere "que esta data é assinalada em conjunto com os agrupamentos de escola do concelho". Assim, cada agrupamento escolar irá ter um momento próprio relacionado com a efeméride, juntando-se também instituições que cuidam de pessoas com deficiência."
*** David Rodrigues refere duas vias para os sistemas educativos: um sistema alternativo e um sistema unificado de ensino. São medidas opostas ou complementares? Dito de outra maneira: qual o papel das instituições face à escola, e vice-versa, qual o papel dos currículos alternativos face ao currículo geral?





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02/12/19

Psicologia da internet - o efeito de desinibição online

"Julgar que o computador serve para tudo é correr ao encontro de decepções e de catástrofes sem precedentes. Julgar que o computador não serve para nada, é renunciar a um arsenal de serviços a que nenhum observador de boa fé contestará o valor. O maior perigo para o homem será ceder ao seu temor pela máquina e começar a fugir, ao mesmo tempo, dos benefícios da tecnologia.”
“O desordenador é perigoso: tende a sobrevalorizar as estatísticas, as médias, as massas em detrimento do indivíduo e dos seus sentimentos. A felicidade não é codificável.”
“Em caso algum um computador poderia ser ridículo. Pelo contrário, em todos os casos, o homem torna-se ridículo quando destina uma máquina a fins ridículos.”
"O desencanto cresce mais depressa que o progresso. Após as delícias do possível, as brutalidades do real."
Continuam a  ser assim, as delícias e as brutalidades.

O computador trouxe enormes vantagens para a sociedade mas a evolução da comunicação digital é de tal modo avassaladora em todas as áreas da vida que, como seria de esperar, a mudança dos comportamentos das pessoas faz-se com dificuldades, desfasamentos e estão à vista os desequilíbrios de personalidade.
A internet cria uma "dinamização" da personalidade que leva as pessoas a inclinarem-se  para atitudes de maior risco e descontrolo calculado. O "efeito de desinibição online" define estas alterações  comportamentais. (C. Nabuco)
Passámos, assim, a ter uma vida offline e uma vida online. Vidas que coincidem ou que são completamente diferentes.
Alvin Toffler falava do homem modular. Conhecemos a pessoa apenas em alguns aspectos, alguns módulos, da sua vida. Conhecemos, p.ex., a pessoa no trabalho mas nada sabemos da sua vida familiar, das suas origens, das suas amizades e  intimidades...
Agora podemos acrescentar que nada conhecemos da sua vida online mesmo quando se trata dos nossos filhos ou pais, nossos familiares, amigos ou colegas de trabalho.

Então qual é a nossa realidade? A vida online será mais real do que a vida offline? Os perfis falsos, os sites e blogues com identidades falsas serão afinal mais verdadeiros relativamente à nossa personalidade? Acontece que  na vida online   a pessoa apresenta dimensões da sua personalidade que não suspeitávamos que existissem. É muitas vezes na vida online que nos surpreendemos com os gostos, os ódios, as ideias de uma pessoa   que manifestam o módulo mais profundo da sua realidade pessoal e de relação com os outros.

Como compreender então os perfis falsos criados para esconder uma identidade falsa ou até usurpação de identidade ?
"Até setembro deste ano (2019), o Facebook fechou mais de 5,4 mil milhões de contas falsas criadas na rede social, um aumento de mais de 2 mil milhões de utilizadores face aos números do ano passado. De janeiro a dezembro de 2018 a empresa removeu da sua plataforma principal 3,3 mil milhões de utilizadores falsos, o que representa um aumento de 157%." (Record)
É que na nossa vida online (C. Nabuco)  temos a “falsa percepção de que somos anónimos e não há limites ou regras associadas ao comportamento online.
É um processo de "desindividualização", ou seja, “um estado de dissipação da identidade real e que favorece o aparecimento de maior grau de insubordinação, agressividade e sexualidade exacerbada, se comparado ao que ocorre na vida concreta.” Portanto, o "efeito de desinibição online" desconstrói os ambientes formais e mais rígidos da realidade concreta… tornando as pessoas mais condescendentes e altamente plásticas em relação às transgressões”, passando a ter uma "personalidade eletrónica" (e-personality). (C. Nabuco)
A internet é um instrumento de informação e liberdade mas também de manipulação e  marketing, de propaganda e de ódio, que influencia a nossa vida  e inferniza a de muitas pessoas. A internet veio revelar varáveis da nossas personalidade. Veio mostrar a força da Sombra, de Jung,  arquétipo que revela o lado escuro da nosso psiquismo, ou a força do nosso inconsciente, como dizia Freud. São estas forças que mostram o que na realidade somos e que  determinam muitos dos nossos comportamentos.




https://www.record.pt/fora-de-campo/detalhe/facebook-fechou-54-mil-milhoes-de-contas-falsas-ate-setembro

22/11/19

Medos bons e medos maus - a fobia de impulsão


De uma maneira ou de outra, todos conhecemos e somos afectados pela ansiedade e pelo medo em diferentes graus, circunstâncias e diferenças intra e interpessoais.
O medo é uma resposta emocional do organismo a uma situação de ameaça que podemos sentir e assim é uma resposta protectora do equilíbrio psicológico.
O medo dirige-se a algo concreto, a algo exterior, entra dentro do possível. A ansiedade á algo mais indefinido, é mais interior do que exterior, responde a uma ameaça vaga, algo mau que nos pode acontecer, ou fazer perder o controlo...
Mas há ansiedade normal e patológica. Há ansiedades que são características do desenvolvimento como os medos sociais próprios da adolescência  que desaparecem normalmente com a idade. Porém nos fóbicos esses medos mantêm-se.

Há fobias em relação a tudo, algumas que podemos achar ridículas, como o medo de baratas, de osgas…  que, ainda assim,  merecem ser levadas em conta particularmente quando descontrolam o comportamento.
Mesmo quando um determinado objecto fóbico não o seja para a maioria das crianças, temos que ter em conta que há crianças que têm medo, por exemplo, de animais, como cães ou gatos, e mesmo do pai natal.
Os pais devem ter sensibilidade para compreender cada situação e não reforçar essa fobia pela persistência em confrontar a criança com esses objectos ou situações.

Em geral, devemos estar atentos a sinais como:
- Sentir medo exagerado em relação a uma situação de pouco ou nenhum perigo real;
- Ficar descontrolado perante determinadas situações ou objetos;
- Evitar situações da vida ou determinados objectos impedindo a pessoa de um comportamento normal, ex. medo de andar de elevador;
- Sentir reacções físicas como sudorese, taquicardia, dificuldade para respirar perante algumas situações ou objetos…

Quase todas as pessoas (80%) têm pensamentos intrusivos e desagradáveis durante a vida mas a maioria de nós interpreta-os como sendo sem gravidade e não ligamos.
Pode não acontecer o mesmo com a fobia de impulsão que consiste na obsessão de fazer mal a alguém, familiares, a si próprio, ter medo extremo de insultar, agredir, ter ideias assassinas, perder o controlo e seguir os seus impulsos, o que atormenta alguns pacientes ...
Há factores que desencadeiam esta situação: uma mudança de vida, traumatismos ou factores de stress.
As fobias de impulsão variam em função do contexto socio-cultural e do que é admitido ou proibido numa sociedade. É expectável que actualmente as temáticas pedófilas sejam mais frequentes.

Perante esta perturbação, é possível sabermos qual o risco, qual a possibilidade de passagem ao acto ?
Na fobia de impulsão estas ideias podem ser consideradas egodistónicas, isto é, contrárias ao que a pessoa deseja, que é controlar o pensamento.
No caso de um paciente que apresenta risco de passagem ao acto o pensamento violento é considerado em ligação com a procura de prazer. Os pensamentos de agressão ou sexuais são, então, egossintónicos, isto é, de acordo com o que a pessoa pensa. Eles serão vividos como agradáveis e a pessoa minimiza as consequências do seus acto.
Na história desta pessoa poderemos encontrar antecedentes de passagem ao acto e esforços de planeamento do mesmo.
Em todo o caso, a dificuldade está sempre em fazer o diagnóstico acertado.
As estatísticas * indicam-nos que as perturbações obsessivo-compulsivas (POC) ** correspondem a 2% dos adultos, sendo as fobias de impulsão um quarto destes casos.
Como em qualquer doença psicológica, a fobia de impulsão provoca uma significativa diminuição da qualidade de vida do paciente.

Sempre que sinta que está a viver situações deste tipo deve procurar ajuda psicológica. Para além da ajuda, se necessário, de medicação adequada, sabemos que as terapias cognitivo-comportamentais são eficazes. ***
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* Clément Guillet, "Phobies d' impulsion: la hantise de faire du mal", le cercle psy, pgs 54 e 55.
** Em Portugal, "disorder" foi traduzido por "transtorno" mas substituído por "perturbação", após o DSM IV.
*** Como sempre, na internet encontra diversos artigos sobre o assunto, por ex.: Fobia de impulsão: o que é e como tratar; Fobia social, por John W. Barnhill ... No entanto, a ajuda especializada não pode nem deve ser negligenciada.




https://www.mixcloud.com/RACAB/cr%C3%B3nica-de-opini%C3%A3o-de-carlos-teixeira-21-11-2019/