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08/12/13

Educação especial e cidadania




No dia 3 de Dezembro assinalou-se o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência.

A cidadania é um princípio universal de inclusão e não pode haver diferenciação. Mas, ao mesmo tempo, a inclusão dos cidadãos passa pela criação de subjectividade mediante a atribuição de direitos a cada cidadão. (M. Bach, Democracia e subjetividade, pag. 115)

O conceito de cidadania apresenta três dimensões: A cidadania, como princípio de legitimidade política, como conjunto de direitos e deveres, cidadania como construção identitária e cidadania como conjunto de valores. (M.E. Brederode Santos)
É um estatuto que se define pela relação entre o indivíduo e o Estado, relação regulada por um conjunto de direitos e deveres codificados na Constituição da República Portuguesa. É a cidadania nacional.
Mas, desde 1992, pelo tratado de Maastricht, também somos cidadãos europeus. 2013 é o ano europeu dos cidadãos.  
Talvez possamos dizer que também temos uma cidadania mundial pelo facto de sermos habitantes do mundo. Como dizia Sócrates, pelo menos a frase é-lhe atribuída: "não sou nem ateniense, nem grego, mas sim um cidadão do mundo."

A cidadania é também ter identidade ou "sentimento de pertença a uma determinada comunidade e enraíza-se em factores como uma história comum, uma língua, valores, religião, cultura ...

A cidadania refere-se também aos valores, atitudes e comportamentos expectáveis do cidadão. Estes valores necessariamente são os que se orientam pelos direitos humanos que nos servem de bússola que podem  e devem orientar a Educação, e em especial a Educação para a Cidadania, centrando-a na defesa da dignidade das pessoas, no direito ao desenvolvimento da personalidade e no combate a todas as formas de discriminação..."
A Educação para a Cidadania deve ter uma perspectiva dinâmica integrando as temáticas que marcam a sociedade e a cultura, como por exemplo, a construção e oferta de condições que permitam a todos o acesso e o pleno gozo dos seus direitos, numa perspectiva de Educação Inclusiva.
A cidadania acontece quando devido às nossas diferenças, que podem ser mais visíveis, o sistema educativo intervém, com as respostas educativas correspondentes às necessidades da pessoa.

De acordo com a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, a cidadania exclui a "discriminação com base na deficiência que designa qualquer distinção, exclusão ou restrição com base na deficiência que tenha como objectivo ou efeito impedir ou anular o reconhecimento, gozo ou exercício, em condições de igualdade com os outros, de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais no campo político, económico, social, cultural, civil ou de qualquer outra natureza. Inclui todas as formas de discriminação, incluindo a negação de adaptações razoáveis."
Ou seja "modificação e ajustes necessários e apropriados que não imponham uma carga desproporcionada ou indevida, sempre que necessário, num determinado caso, para garantir que as pessoas com incapacidades gozam ou exercem, em condições de igualdade com as demais, de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais."
A escola é um espaço privilegiado de educar, de ensinar e de aprender, de errar e de acertar, de ter alegria e ansiedade, de construir amizades.
A escola é o espaço privilegiado de inclusão de todos os alunos que também são, antes de mais, cidadãos.

19/12/12

Os sentidos do Natal


O Natal é uma época extraordinária para os sentidos. A luz, o madeiro, os doces, as filhós, o tronco de natal, os cânticos, os sabores, os cheiros, as tradições, o calor da lareira, o frio da rua…
É um dos acontecimentos sociais mais importantes do ano porque se junta a nossa família dos afectos. Na ceia de Natal estamos com aqueles que amamos. Mesmo quando ausentes estão presentes com as saudades que deles sentimos
Na festa de Natal a alimentação é, principalmente, hedónica e simbólica. Comer é muito mais do que comer. Isto é, comer é muito mais do que a parte energética. É muito mais o prazer do convívio e dos símbolos presentes.
As escolhas alimentares estão directamente ligadas a regras sociais, culturais e à nossa personalidade.
São experiências passadas, inconscientes, que fizeram parte do nosso desenvolvimento e foram experiências agradáveis ou desagradáveis.
Somos muito determinados nos nossos gostos: gostamos ou não gostamos de determinado alimento. 
E é assim desde a infância. Matty Chiva (“Le gout et l' autre: sensation, émotion et communication dans la prime enfance”, 1980), concluiu que o gosto começa por ser um reflexo gusto-facial (se colocamos um alimento amargo na boca da criança muito pequena ela fará uma careta) e à medida que vamos saboreando vários alimentos o comportamento vai-se transformando em comunicação com o outro tornando-se cada vez mais uma interacção cultural, com a socialização e aprendizagem, que se realiza na mesa familiar.
É uma festa para os sentidos porque a variedade de alimentos, de cores, de sabores, de cheiros diferentes constituem uma oportunidade extradordinária para a criança efectuar e treinar a aprendizagem do paladar, de sabores novos e diferentes. Geralmente o aumento da aceitação de um novo alimento está sujeito a várias apresentações desse alimento. Os pais nem sempre são persistentes para que a criança possa fazer essa aprendizagem.
A alimentação da criança é muitas vezes um processo complicado e é necessário saber que a criança é muito selectiva em relação aos sabores. Porque está a fazer aprendizagens em relação aos seus gostos. É por isso que gostos se discutem e começam a discutir-se desde muito cedo. 
O Natal é uma festa para os sentidos porque é uma festa da relação. É uma festa que se faz com o outro. 
Para construirmos um mundo com sentido, precisamos de um mundo que seja coerente.
Natal continua a ser a festa da família e das recordações. Mesmo na ausência da família. A família real muitas vezes já não existe ou está ausente mas a recordação está bem presente. E pode existir numa recordação encobridora sugerida por um harmonioso quadro familiar de Natal. Como uma memória reparadora da falha, da ausência, do vazio.
A vida faz sentido quando temos afecto, uma identidade, pertencemos a alguém e a algum sítio, vivemos em paz e temos um espaço afectivo seguro. 
Neste Natal, é apenas isto que estão a pedir as nossas crianças.
O Natal é uma festa para os sentidos porque é o retorno à infância e à degustação. É bom não perdermos o sabor dos alimentos simples e diferentes, o olfacto das coisas naturais e o brilho colorido das luzes da infância .

12/12/12

Quebrar barreiras

Daqui: Sensory Software International Ltd


O nosso mundo torna-se compreensível através dos sentidos. É por isso que para haver desenvolvimento temos de ter acesso ao mundo exterior através dos órgãos dos sentidos. Muitas vezes não o conseguimos devido às barreiras que existem entre nós e o mundo. Por causa de nós, por causa do mundo ou dos dois.
Quando as barreiras se tornam permanentes e não podemos efectuar essas experiências na infância o nosso desenvolvimento fica comprometido e dificilmente nos tornamos pessoas completamente integradas.
Ma, além disso, cada um de nós tem uma maneira própria de sentir o mundo. Os gostos, os cheiros, são muito especiais para cada um de nós. Podemos dizer que ouvimos e gostamos de uma sinfonia de Beethoven. Mas mesmo aí há várias sensibilidades nessa maneira de gostar. É que o nosso cérebro tem uma maneira personalizada de sentir .
Ora acontece que estas diferenças personalizadas se passam em todas as aprendizagens.
Quando estabelecemos metas gerais de aprendizagem, para poderem ser atingidas, tem que haver caminhos ou métodos diferentes.
Todos aceitamos que prédios para habitação e equipamentos colectivos não devem ter barreiras arquitectónicas para que todas as pessoas possam ter acesso aos equipamentos sociais.
O mesmo se passa na escola com as aprendizagens. Se formos capazes de eliminar as barreiras curriculares seremos capazes de fazer com que todos os alunos aprendam. E acredito que a maioria delas podem ser eliminadas e os alunos têm a possibilidade de atingir as metas comuns.
Sabemos melhor como o cérebro trabalha e também vivemos, ou começamos a viver, num mundo digital. São dois mundos extraordinários e com muito para explorar .
Os meios digitais dão-nos a possibilidade de aprender e comunicar o que sentimos dado que são extensão ou alternativa dos nossos órgãos dos sentidos.
Por outro lado, "os indivíduos aprendem de maneira tão exclusiva como seu ADN". E por isso, a educação tem que ser personalizada.
As novas tecnologias têm versatilidade e capacidade de transformação, que não existem num quadro, livro ou caderno.
Veja-se o que podemos fazer com um texto digital: a utilização de tags ou marcadores, as redes e os hiperlinks, para todos os tipos de aprendizagem, dicionários, tradutores, dão-nos uma visão do que podemos ter no futuro. ..
Dispomos também de novas tecnologias a de comunicação aumentativa e alternativa, como a comunicação com símbolos e as possibilidades que pode trazer software tipo boardmaker, ou hardware como um ipad, ou todo o tipo de switches que nos dão acesso à comunicação.
Este método designa-se como desenho universal de aprendizagem e destina-se a aumentar o acesso às aprendizagens, eliminando ou pelo menos reduzindo barreiras físicas, cognitivas e organizacionais para a aprendizagem.
Este método não exclui outros como o ensino multissensorial e a pedagogia diferenciada...
O nosso cérebro funciona em rede sendo uma delas o reconhecimento sensorial. As tecnologias de informação e comunicação permitem a eliminação de barreiras nas aprendizagens e possibilitam que a informação chegue ao nosso cérebro.
Se, como sabemos, a legislação obriga a que os edifícios não tenham barreiras arquitectónicas, era bom que nos mentalizássemos de que também podemos quebrar barreiras na educação.

05/12/12

Da experiência de ouvir à aprendizagem de escutar





A educação sensorial é o ponto de partida para que o desenvolvimento atinja os seus objectivos.
Também para Piaget, a experiência é um dos factores de desenvolvimento. Sem ela todo desenvolvimento fica comprometido. Para se chegar à experiência lógico–matemática temos primeiro que desenvolver a experiência física que se processa a partir dos órgãos dos sentidos: a visão, a audição, o paladar, o olfacto e o tacto.
A experiência infantil ligada à natureza é uma experiência fundamental:
O bebé precisa dessa experiência física para ir construindo a sua pele psicológica de modo a que possa incorporar os dados da natureza nas suas estruturas cognitivas e por outro lado, processar igualmente os dados que vêm do seu próprio organismo.
No caso da audição, praticamente todas as tarefas a exigem, com particular relevância na linguagem. A maioria das pessoas nasce com a capacidade de ouvir. No entanto, as pessoas ouvem mas nem sempre escutam. Os dois termos, ouvir e escutar (hearing e listening) não significam a mesma coisa.
Os bebés têm capacidade para ouvir. Nascem com particular sensibilidade para determinados sons, para a música e para ritmo que lhe está associado desde muito cedo.
Mas esta capacidade inata de ouvir tem que ser desenvolvida pela experiência auditiva em todas as situações da vida, no sentido de se tornar capacidade de escuta.
Os alunos “ouvem” de maneiras diferentes e por motivos diferentes ao longo do dia de escola. Eles podem ouvir e escutar: o Director, o DT, professores, os amigos, histórias, regras do jogo, avisos, etc.
Podemos dizer que 45 por cento do dia de um aluno é gasto ouvindo e os alunos adquirem 85 por cento do conhecimento, ouvindo (Associação Internacional de escuta).
O treino da escuta é essencialmente informal, embora algumas pessoas possam treinar a escuta formalmente (segundo a mesma associação apenas 2% da população já recebeu instrução formal de escuta), deve ser feita para melhorar essa capacidade
Escutar é difícil porque envolve outras capacidades como por exemplo a capacidade de atenção, a capacidade para reconhecer os pontos importantes ou insignificantes do discurso, o contexto em que se fala, a linguagem corporal que acompanha, a entoação com que se dizem as frases.
Alguns alunos manifestam dificuldades na capacidade de atenção e por isso devem ser encaminhados para terapia. Usamos com eles programas de treino da atenção e reflexividade.
A escuta é muitas vezes inactiva, estamos presentes quando alguém fala, mas não absorvemos qualquer informação, estamos apenas fisicamente mas não mentalmente.
A comunicação entre as pessoas é difícil e, por isso, as reacções a uma entrevista, geram em cada comentador reacções diferentes, levado ao extremo quando se trata de ajuizar o que foi dito, consoante a cor politica. É normalmente uma escuta selectiva em que se ouve o que se quer ouvir e não o que está sendo dito.
Pelo menos em determinados settings, como entre pais-filhos, professores- alunos, psicólogo-cliente, médico-doente, a escuta na comunicação deve ser a escuta reflexiva que envolve escutar activamente, interpretar o que se diz e observar como está sendo dito e implica escutar o outro profundamente, interessar-se seriamente pelo que ele diz.
Escutar é uma competência poderosa mas é necessário que seja aprendida desde o berço.