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24/05/18

Fim do anonimato

Em 2015, a lei da adopção foi alterada de forma a que qualquer adoptado tem agora direito a saber quem são os pais biológicos. A informação pode ser pedida a partir dos 16 anos.
No caso da procriação medicamente assistida e da maternidade de substituição, o Tribunal Constitucional considerou inconstitucionais algumas normas. (Acórdão nº 225/2018)
Para os juízes do Tribunal Constitucional os termos dos contratos são demasiado vagos, as gestantes devem poder arrepender-se até à entrega da criança e, finalmente, rejeitam o anonimato dos dadores e da própria gestante de substituição. Reconhecendo que esta norma “não afronta a dignidade humana”, os juízes alertam para o facto de ser cada vez mais importante a questão do conhecimento das origens de cada ser humano e que, neste diploma, a opção seguida “de estabelecer como regra, ainda que não absoluta, o anonimato dos dadores no caso da procriação heteróloga e, bem assim, o anonimato das gestantes de substituição – mas no caso destas, como regra absoluta – merece censura constitucional”. (Observador, Rita Porto e Rita Ferreira)
Os juízes consideram que tal restrição, que faz com que a criança nascida através destas técnicas, não tenha previsto na lei o direito a conhecer nem os dadores, nem a gestante, é uma “restrição desnecessária aos direitos à identidade pessoal e ao desenvolvimento da personalidade das pessoas nascidas em consequência de processos de PMA com recurso a dádiva de gâmetas ou embriões, incluindo nas situações de gestação de substituição”.

Conhecer as nossas origens, saber quem são os nossos pais não é apenas a inscrição numa genealogia mas é um sentimento que nos liga aos progenitores e a uma família que contribui para a construção da nossa identidade e personalidade.
É uma informação fundamental para conhecermos quem somos como seres humanos em todas as dimensões.
Uma dessas dimensões da nossa origem diz respeito à saúde. Conhecermos essas origens do ponto de vista genético pode ser fundamental, em determinadas circunstâncias, para prevenção de doenças e para uma vida saudável.
A nossa vida social, cultural e relacional também pode ser afectada pelo desconhecimento de quem são os nossos progenitores.
Nos diversos países existem as mais diversas situações sobre o problema do incesto. A legislação portuguesa "nada diz sobre relações incestuosas entre adultos e com consentimento de ambos. Significa isto que, excluindo naturalmente os casos de abuso, o incesto não é crime."
No entanto o código civil impede o matrimónio no Artigo 1602.º (Impedimentos dirimentes relativos): São também dirimentes, obstando ao casamento entre si das pessoas a quem respeitam, os impedimentos seguintes:
a) O parentesco na linha recta;
b) A relação anterior de responsabilidades parentais;
c) O parentesco no segundo grau da linha colateral;
d) A afinidade na linha recta;
e) A condenação anterior de um dos nubentes, como autor ou cúmplice, por homicídio doloso, ainda que não consumado, contra o cônjuge do outro.

O direito ao conhecimento dos dadores em relação à procriação medicamente assistida (PMA) e no caso da gestação de substituição, ao conhecimento da identificação da gestante tem vindo a ser reconhecido.
O fim do anonimato não é apenas exigido pelas pessoas em geral mas também pelas pessoas que têm sido geradas por este processo. Finalmente, o anonimato tem vindo a ser questionado e abolido quer no caso da adopção, quer no caso da PMA.
O livro “O nome do meu pai é doador” *, refere uma pesquisa em que "foram ouvidos 485 adultos cujas mães recorreram a esperma doado. Dos entrevistados, dois terços gostariam de ter acesso aos dados do doador. Para 45% dos participantes, o modo como foram concebidos é razão de incómodo. A saúde também é afetada. Eles são duas vezes mais propensos a abuso de substâncias químicas quando comparados com quem conhece os pais biológicos. E têm uma vez e meia mais chances de apresentar distúrbios psicológicos".
E quais são os argumentos para se negar a uma pessoa o conhecimento de quem são os seus pais biológicos?
Finalmente, as pessoas que nasceram por este processo, podem ficar a conhecer a sua origem genética ou a conhecer a sua gestante.
____________________

* Elas querem saber quem são seus pais
Mais alguns textos que colocam questões sobre este assunto, ou relevam o sofrimento de muitas pessoas que passaram por este processo:
- Dadores de esperma anónimos estão a ser descobertos
- Também há casos que acabam bem... mulher casa com o seu dador de esperma anónimo ("How I Met Your Father")

29/03/18

O grande poder do mundo

Bach - Paixão seg. S. Mateus - Coral "O Haupt voll Blut und Wunden"
Oh, cabeça lacerada e ferida,
cheia de dor e escárnio!
Oh, cabeça rodeada, ferida,
por uma coroa de espinhos!
Oh, cabeça outrora adornada
com elevadas honras e presentes,
e agora grandemente ultrajada!
Eu te saúdo!

Tu, nobre rosto,
ante a quem o mundo todo
treme e teme,
De que forma escarram sobre Ti!
Quão lívido te achas!
Quem se encolerizou
de forma tão infame
com a luz sem igual de teus olhos?

13/12/17

"Fora do lugar"

Pelo sonho é que vamos, escrevia Sebastião da Gama. Quando olhamos para o mundo rural e para a desertificação humana que o caracteriza vale a pena continuar a sonhar. Há indícios de que a mudança se vai fazendo à medida que se pretende ter qualidade de vida, um estilo de vida que passa pelo mundo rural no que tem de mais identitário e original e pelo mundo urbano no que tem de excelência na criatividade e modernidade.
Uma grande permeabilidade entre o meio urbano e o mundo rural atenua diferenças e é uma inevitabilidade a globalização da informação e comunicação: o vizinho mais próxima encontra-se no teclado de um computador, temos a actualidade a ser debitada a todo o momento na internet, acedemos aos serviços em segundos e com frequência estamos fisicamente num mundo ou no outro. É um inconveniente mas também uma vantagem em relação ao passado.
Um dos factores que contrariam esta ideia é a tendência para seguir modas. Ao fazerem isso, as pessoas que estoicamente continuam a querer viver em espaços mais descentralizados como os espaços rurais, correm o risco de perderem a sua identidade.

O problema, então, é quando todos vão realizando projectos semelhantes e as mesmas actividades. Foram as rotundas, as piscinas, os polidesportivos, os parques infantis, as universidades da 3ª idade ... agora temos as feiras medievais, as festas das TVs, os festivais de verão...
Quando afinal o que distingue é a identidade inscrita no património construído e na cultura, nas tradições populares, na música, no artesanato, na relações de vizinhança e entreajuda.

A estratégia da câmara municipal de Idanha-a-Nova foi a aposta na música, fazendo parte da rede de cidades criativas da UNESCO - organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura.
Em Idanha destacou-se a música e a ligação profunda a instrumentos tradicionais como o adufe e a manifestações musicais populares e religiosas.
Neste contexto, decorreu, no concelho de Idanha a 6ª edição do programa - "Fora do Lugar - Festival internacional de músicas antigas". A identidade aberta à música intemporal com intérpretes de todo o mundo.

Tive a oportunidade de estar em dois momentos "fora do lugar":
O primeiro, “conversa mesmo ao pé”, com o professor Jorge Paiva, biólogo e botânico da Universidade de Coimbra, com 84 anos de idade. Falou da biodiversidade de uma forma encantadora e simples. E só quem sabe muito consegue falar de forma simples de assuntos verdadeiramente complexos.
Sem facciosismos, considera que todas os políticos de todas as cores têm responsabilidade naquilo que estão a fazer ao mundo, em que os negócios e a devastação das florestas por causas humanas, e a comunicação social que desenfreadamente noticia durante imenso tempo os incêndios florestais.
Diz-nos que não são só as fábricas apenas que estão a destruir o ambiente. Mais importante é a devastação das florestas e da biodiversidade. Fala da necessidade da biodiversidade e das plantas que podem conter a resposta para muitas doenças da humanidade.
Jorge Paiva tem esperança em dias melhores e por isso manda anualmente as boas festas aos políticos com a fotografia de uma árvore de Natal especial.

O segundo momento foi o "concerto mesmo ao pé"- Musick's Recreation, com Milena Cord-to-Krax, flauta, (Alemanha), Alex Nicholls, violoncelo, (Austrália) e César Queruz, tiorba, (Colômbia), apresentado num local “fora do lugar”, o Centro de Dia de S. Miguel d’Acha, sem dúvida uma ideia óptima que leva música de excelência a quem é capaz de apreciar, a pessoas idosas que merecem o melhor.

Não faz parte do festival “fora do lugar”, mas podia, a exposição de pintura na casa da cultura de S. Miguel d'Acha dedicada ao tema "migração", com obras da colecção de Paulo Lopo: Gracinda Candeias, Júlio Pomar, Mário Cesariny, Lourdes Castro, José de Guimarães, Joaquim Martins Correia, M. Helena Vieira da Silva, Manuel Cargaleiro, Nadir Afonso. Todos têm em comum o facto de terem estado em algum momento das suas vidas noutro país.
Tem ainda em exposição uma obra de Carlos Farinha uma tela, de 2013, justamente intitulada “Migração” que pelas suas dimensões (220X700 cm) ficou exposta na igreja de S. Miguel.
Podemos dizer, parafraseando Sebastião da Gama,  que “pela cultura é que vamos”...
 

19/07/17

O meu lindo país azul

 
Alfredo Keil (1850-1907)
O meu lindo país azul
Luís Pipa, piano


Esta é uma questão de todos, devia, por isso, ser tratada por todos, sem censuras ("lei da rolha") de qualquer tipo.  
Não tinha passado muito tempo, ainda ardia a floresta com "a informação devidamente organizada e estruturada", e já uma "Comissão" recomendava à Porto Editora para "apagar" a venda de cadernos de actividades para meninos e meninas. 

O meu lindo país azul... não pode ter essa tonalidade de azul. *
________________
*  Revisto em 31/8/2017

31/05/17

Tejo, meu doce Tejo



Realizou-se, esta semana, a cimeira ibérica em que os governos de Portugal e de Espanha discutiram assuntos comuns e de grande importância, suponho eu, para os dois países.
A cooperação transfronteiriça parece ter sido   o grande assunto (pelo menos da agenda formal) nesta cimeira ibérica. O objectivo para esta cooperação transfronteiriça seria a transformação da interioridade em centralidade. É óbvio que faz todo o sentido e o tema não é novo. Quem vive, por exemplo, em Castelo Branco, sabe que nos deslocamos a Madrid tão facilmente como a Lisboa.
Mas a notícia é preocupante quando refere que “A central nuclear de Almaraz, que motivou uma manifestação com a participação d' «Os Verdes» e do BE, ficou de fora da agenda da cimeira por, concluiu hoje António Costa, ser uma questão discutida no passado e ter ficado «bem resolvida».

Na verdade, não ficará bem resolvida,  enquanto  for adiado o “prazo de validade “ da Central de Almaraz e enquanto existir.
Independentemente de manifestações e de partidos que às vezes apenas servem para  tirar partido destas situações aproveitando-se dos sentimentos, preocupações e medos das populações, depois de Chernobyl e Fukushima, em Lisboa ou em Madrid, apercebem-se certamente de que este é o assunto mais importante a ser resolvido.* A centralidade da interioridade é importante depois de resolvido  um perigo potencialmente mortal que a central de Almaraz significa  para as pessoas e para o ambiente.
O Tejo faz parte da  nossa memória e da nossa cultura que só pode ser uma cultura de vida: de Camões à poesia popular cantada num fado. O Tejo de Almeida Garrett, de Pessoa, de Camões, de Alves Redol,  Gedeão, de Sophia, de Manuel da Fonseca,  dos Madredeus, de Frederico de Brito, de Amália…
"Pelo Tejo vai-se para o Mundo" (Alberto Caeiro),  e fomos para o mundo  interpelados pelo velho do Restelo:
"Ó gloria de mandar ó vã cobiça
 desta vaidade a que chamamos fama"
É o Tejo das ninfas a quem Camões pede inspiração para escrever Os Lusíadas :
“E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mi um novo engenho ardente …"
O Tejo espelho, do poema da Memória, de António Gedeão
"Havia no meu tempo um rio chamado Tejo
que se estendia ao Sol na linha do horizonte.
Ia de ponta a ponta, e aos seus olhos parecia
exactamente um espelho
porque, do que sabia,
só um espelho com isso se parecia.”
O Tejo de Manuel da Fonseca:
 “ Tejo que levas as águas
Correndo de par em par
Lava a cidade de mágoas
Leva as mágoas para o mar.” 
O Tejo cantado pelos  Madredeus
"Tejo, meu doce Tejo, corres assim;
corres há milénios sem te arrepender,
és a casa de água onde há poucos anos eu escolhi nascer.”

É este Tejo, inspirador, e tão maltratado pelas poluições de toda a espécie,  ao longo dos anos, e ao longo do seu percurso de 875 quilómetros, que na nossa memória se  revela em todo o seu esplendor.
É este Tejo que, em nome do descontrolado  progresso económico, colocam em  risco de sofrer a pior ameaça ambiental: a  ameaça radioactiva.
Será isto uma questão “bem resolvida” ? “Ó glória de mandar , ó vã cobiça”!
___________________________
* "O ministro do Ambiente afirmou hoje que a decisão espanhola de prolongar por dois anos o prazo para uma decisão sobre o funcionamento das centrais nucleares dará tempo a Portugal e Espanha para discutir compromissos sobre ambiente e energia." (Notícias ao minuto, 31-5-2017, Lusa)

18/05/17

Atavismos culturais de esquerda


No último fim de semana, em especial no dia 13 de Maio, vários acontecimentos, como a visita do papa a Fátima, a vitória de Salvador Sobral no festival da Eurovisão, o tetracampeonato do Benfica, trouxeram à nossa vida colectiva algum colorido emocional e social, vivido genuinamente pelas pessoas em manifestações diversas, mas também aproveitado pelos políticos, principalmente candidatos a próximas eleições.
Embora os públicos destes eventos não sejam os mesmos, ainda que haja sobreposição em algumas situações, como acontece com portistas e sportinguistas que não tiveram um grande dia de felicidade, podemos dizer que a autoestima melhorou.
A coincidência destes sucessos nestas actividades relembram que há determinadas áreas da nossa vida colectiva que alguns insistem em ver como negativas.
Sou do tempo em que para criticar o regime político se cantava: “Paradas e procissões/Fátima, fados e bola/São as estas as distracções/De um povo que pede esmola” .
O jargão dos três “f”, “Fátima, fado e futebol”, tem hoje menos acrimónia e uma valoração diferente (o fado foi considerado património imaterial da humanidade). Já se percebeu que este país é muito mais do que estas “distracções” e também se percebeu, que não são as características nem as capacidade genuínas de um povo responsáveis pela sua sobrevivência com esmolas, ou resgates financeiros, mas a falta de capacidade para se auto-organizar, auto-governar e o desprezo pelos valores morais e espirituais. Basta olhar para o mundo para se perceber o que faz e quem faz a miséria das nações. Por isso, era tempo de nos livramos de atavismos culturais de esquerda e de todos os atavismos.
O importante era que as vitórias fossem uma aprendizagem para relevar o que são características positivas de um povo: a espiritualidade, a música, o desporto...
Talvez tenha sido na área da música que surgiu o mais inesperado: Uma música que resultou da criatividade de Luísa Sobral, arranjos de um músico vindo do jazz, Luís Figueiredo, e de uma interpretação limpa e simples onde o que releva é mesmo a música.
Não basta que haja uma melhoria da autoestima. Na realidade, as consequências desta vitória poderiam ser importantes se houvesse uma aposta na música de forma mais sedimentada, um projecto nacional que tornasse a música obrigatória em todos os anos de escolaridade do ensino básico e uma maior possibilidade de escolha no secundário.
Sabemos que a música tem grande importância no desenvolvimento do ser humano, em especial no desenvolvimento infantil. Temos informações suficientes para não podermos ignorar que:
- estudar música melhora as funções executivas do cérebro, responsáveis por capacidades como memória, controle da atenção, organização e planeamento do futuro. (Pesquisa da Universidadede Vermont, Estados Unidos)
- o contacto com a música, ainda que apenas como ouvinte, tem um grande impacto no desenvolvimento humano e prepara o cérebro para executar diferentes tipos de funções. (Elvira Souza Lima)
Por tudo isto, viva Fátima, viva o futebol, viva o fado e a música! Quando nos libertarmos dos atavimos de direita e de esquerda restará a cultura e todos os sucessos que conseguirmos obter serão vividos com felicidade, como fio condutor da nossa vida.

03/12/16

Pelas crianças *



SEXTA ORAÇÃO: OS FILHOS

Senhor!
Tu separaste os sexos para que, ao buscarem-se mutuamente, 
Eles possam fazer vibrar nas maiores harmonias as mais profundas cordas das nossas almas. 
Dessa busca jorram os nossos filhos, amorosas crianças 
Que vêm a nós com espíritos limpos e vazios.

E eu encho esses espíritos com os meus ódios, medos e preconceitos; 
Os meus abrigos contra bombas apontam-lhes a escuridão da vida e a futilidade dos empreendimentos; 
E quando crescem, prontos para nobres feitos, 
Obrigo-os a aprender homicídio organizado, 
Desperdiçando os seus melhores anos em estagnação moral. 

Meu Deus! Salva os meus filhos, 
Salva os seus espíritos, 
Para que a minha podridão não os corrompa. 
Salva as suas vidas, 
Para que as armas que eu forjo contra outros não os destruam, 
Para que possam ser melhores que os mais velhos, 
Para que possam construir um mundo para eles, 
Um mundo de beleza, decência, harmonia, boa vontade e justiça, 
Para que a paz e o amor possam reinar 
Para sempre.

Albert Szent-Györgyi**, O macaco louco, Europa-América, p.151-152

_____________________________
* O sofrimento causado pelas guerras é particularmente doloroso quando se trata de crianças. Como no caso de Aleppo onde há mais de 100 mil crianças como Omran.
"Omran, com seus cinco anos de idade, o mesmo tempo de duração da guerra civil no país, simboliza toda uma geração de crianças que nunca conheceram o que é viver em tempos de paz."

**Albert Szent-Györgyi nasceu em Budapeste (Hungria), em 1893. Em 1937, foi laureado com o Prémio Nobel pela descoberta da vitamina C. Em 1947, descontente com o comunismo no seu país, foi para os Estados Unidos para dirigir a pesquisa no Instituto de Pesquisa Muscular, em Massachusetts. Em 1956, obteve a cidadania norte-americana. (Biografia)


11/05/16

Poesia para uma vida

O Senhor é meu pastor
O Senhor é o meu pastor, nada me falta,
Em verdes prados me faz recostar.
Conduz-me junto às águas refrescantes para repousar,
Reconforta a minha alma,
E guia-me pelos caminhos rectos,
Por amor do seu nome.
Ainda que eu atravesse o vale tenebroso,
Nada temerei, porque estais comigo.
O Vosso cajado e o Vosso báculo
São o meu amparo.
Preparais a mesa para mim
À vista dos meus inimigos.
Ungis com óleo a minha cabeça,
e o meu cálice transborda.
Graça e misericórdia hão-de acompanhar-me
Todos os dias de minha vida.
Habitarei na casa do Senhor,
Duante larguíssimos tempos.
Salmo de David, Bíblia, Salmo 22

08/05/16

Poesia para uma vida

Os dias contigo

Os dias contigo são dias inteiros que passam num instante. Tenho saudades de ti quando acordo, antes de perceber que já estás ali ao meu lado. Tenho saudades de ti de manhã enquanto espero que desças do banho. Fico bem a ler enquanto te espero, mas leio melhor quando estás ao pé de mim, quando já não me apetece ler. 
Hoje foi mais um dia contigo e, mais uma vez, dou comigo aqui à noite, separado de ti, para escrever sobre o dia que se passou. E a coisa principal que aconteceu foi ter saudades de ti outra vez. Bem sei que sei onde estás e que eu estou aqui a cinco passos de ti. Mas a maior certeza que tenho é que, apesar disso tudo, não estou contigo nem tu estás comigo. É o que me basta para ter saudades de ti. Não preciso de mais: se mais tivesse, morreria.
É verdade que estive contigo durante uma pequena parte do dia: aquela a que as pessoas tristes e habituadas chamam vida. Mas estava tão apaixonado e tão feliz que nem dei por isso.
Pensei apenas: "Conseguimos! Conseguimos estar juntos! Nem acredito!" E o tempo nunca é suficiente para me convencer que conseguimos mesmo estarmos juntos e, ao mesmo tempo, estarmos juntos o tempo suficiente para deixarmos de nos preocuparmos (e sofrermos) com isso. 
Continuo a sofrer, todos os dias, às mesmas horas em que não estou contigo, da saudade de quando estive. Os dias contigo são os bocadinhos de manhã, tarde e noite que são avaramente permitidos aos mais felizes. 
E apaixonados. E ingratos.

Miguel Esteves Cardoso
(Público)

Poesia para uma vida


Cantiga sua partindo-se

Senhora partem tão tristes
Meus olhos por vós, meu bem
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém

Tão tristes, tão saudosos,
Tão doentes da partida,
Tão cansados, tão chorosos,
Da morte mais desejosos
Cem mil vezes que da vida.

Partem tão tristes os tristes,
Tão fora de esperar bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém

João Roíz de Castelo Branco





25/03/16

Ciência, tradição e cultura


1. Uma das experiências mais interessantes que tenho vindo a verificar, entre as pessoas que têm uma pequena quinta ou horta, é a da partilha. Normalmente, há sempre quem plante em excesso, de forma que as dádivas dos vizinhos permitem que não seja preciso gastar dinheiro em sementes ou plantas novas.
Um livro cheio de boas ideias e actividades práticas para realizar. A ideia fundamental é reciclar, não desperdiçar, ser criativo e ter estilo.
Os cenários da nossa vida ficam muito mais agradáveis e a natureza menos agredida.
Aprende-se todos os dias com a natureza, o tempo, a fragilidade, a riqueza da natureza que tantas vezes nos passa ao lado. É um mundo maravilhoso de complexidade que a maior parte (?) de nós desconhece como verificamos, por exemplo, em The seed site.
É uma óptima terapia, como aqui escrevi para todas as pessoas e, para os mais velhos, uma boa alternativa aos bancos do jardim ou à esperança de orçamentos milagrosos que, dizem "eles", viram a página da austeridade!
O livro tem uma dedicatória: "À minha avó, uma inspiração na jardinagem." Muitas destas aprendizagens resultaram da observação que fizemos com os nossos pais e avós. A tradição começou na aprendizagem com as gerações anteriores. A cultura começou por esta parte, pela cultura agrícola (séc XI) que mais tarde (séc.XVI) passaria a ter o sentido figurado de cultura de espírito (Dicionário temático Larousse, Sociologia, pág 58).


2. A relação entre cultura, ciência e tradição é uma das melhores formas de compreensão do mundo em que vivemos e, esta visão do ser humano, integrada e ecológica, possibilita percursos de vida mais felizes. A tradição tem,  afinal, grande importância para uma vida de qualidade. O saber fazer e saber estar, o modo de viver dos nossos pais e avós somado aos instrumentos de trabalho da actualidade podem ser o segredo para uma vida com qualidade.

Um projecto interessante, já com alguns anos, tem vindo a promover a ligação, o diálogo, entre Ciência, Tradição e Cultura que pelos vistos é possível e necessário.


No âmbito deste projecto, em 15 de outubro de 2014, ocorreu o encontro improvável entre Marcelo Rebelo de Sousa e Rosalia Vargas, no Cineteatro Avenida, em Castelo Branco. Falaram sobre Ciência, Tradição e Cultura e de como estas podem e devem ser promovidas, desde os mais jovens aos menos jovens e em que medida os meios de comunicação social e as instituições as podem promover.

Falaram da experiência infantil da modelagem do barro e da vontade de fazer novamente essa experiência.
Infelizmente, nas nossas escolas este tipo de experiências tem vindo a ser esquecido. As muflas que havia nas escolas desapareceram ou jazem em armazéns à espera da inutilização. Diga-se o mesmo de outras artes: carpintaria, mecânica, tecelagem... Face a este esquecimento curricular, ganha maior importância tudo o que pode ser feito pelas associações culturais ou por projectos como é o caso do Centro Ciência, Tradição e Cultura. O que era mesmo interessante era que fosse dado o lugar na educação que estas artes merecem, tendo em conta o significado que o diálogo ciências-artes pode ter na formação dos alunos, não apenas em relação à aprendizagem dessas artes mas à estratégia que é subjacente à motivação para as aprendizagens, à ligação com a cultura. É o que verificamos sempre que há festa na escola: são as artes que dão o toque estético de como a escola vive a cultura e a integração na comunidade.
O que era mesmo interessante era que o desejo do agora Presidente da República se tornasse numa experiência enriquecedora para as aprendizagens de tantos alunos.

3. A tradição é também o tema deste número de Inverno da Epicur. Do Editorial "O que ainda é do que já foi", a frase de Gustav Mahler: "A tradição não é o culto das cinzas, mas a preservação do fogo" e a escrita de Filipa Melo "É verdade que grande parte das vezes se consome tradição como se consome novidade: não por serem ricas em potencalidades ou evocativas mas porque estão à mão, como um hábito que nos dispensa de pensar. E, no entanto, a ligação aos clássicos e à tradição só faz sentido se significar culto, preservação ou recuperação do afeto. Se de algum modo for parte viva, estimulante, de nós e do presente."
Todo o desenvolvimento humano (psicológico, social, económico...) tem que ver com estas formas de ser e estar. Não se pode fazer à custa do esquecimento da tradição tanto mais que, como sabemos, são cada vez mais apreciados os produtos tradicionais, mesmo contra o excesso de padronização europeia, porque muitos deles têm em conta o respeito pela natureza e pelas suas regras. O desenvolvimento da ciência também tem estes limites do humano e apenas quando eles estão garantidos o justificam.

12/01/16

Contos de fadas

338º Aniversário de Charles Perrault

338º Aniversário de Charles Perrault

Doodle Charles Perrault (Foto: Reprodução/Google)
Doodles sobre Charles Perrault (12/1/1628 – 16-5-1703), por  Sophie Diao

Perrault estabeleceu as bases de um novo género literário, o conto de fadas, além de ter sido o primeiro a dar acabamento literário a esse tipo de literatura, o que lhe conferiu o título de "Pai da Literatura Infantil".
...
Já idoso, resolveu registar as histórias que ouvia a sua mãe nos salões parisienses. O livro, publicado em 11 de Janeiro de 1697, quando contava quase 75 anos, recebeu o nome de Histórias ou contos do tempo passado com moralidades, mas também era chamado de "Contos da Velha" e "Contos da Cegonha", ficando, afinal, conhecido como "Contos da mãe gansa". (wikipedia)

Charles Perrault celebraria esta terça-feira 388 anos.

19/10/15

Serena humildade


Entrevista de Freud, aos 70 anos, ao jornalista americano George Sylvester Viereck, em 1926. Notável a humildade e a aceitação da vida como ela acontece. A importância de viver a vida sem a prosápia do desejo de imortalidade e do reconhecimento da  história. O homem que vive a vida até ao fim, "a vida tem que completar o seu ciclo de existência".
Semmering vom Hirschenkogel.JPG
Semmering
...
- O senhor teve a fama - disse eu. - Sua obra influi na literatura de cada país. O homem olha a vida e a si mesmo com outros olhos, por causa do senhor. E recentemente, no seu septuagésimo aniversário, o mundo se uniu para homenageá-lo - com excepção da sua própria universidade!
- Se a Universidade de Viena me demonstrasse reconhecimento, eu ficaria embaraçado. Não há razão porque deveriam aceitar a mim e a minha obra porque tenho setenta anos. Eu não atribuo importância insensata aos decimais. A fama chega apenas quando morremos e, francamente, o que vem depois não me interessa. Não aspiro à glória póstuma. Minha modéstia não é virtude.
- Não significa nada o facto de que o seu nome vai viver?
- Absolutamente nada, mesmo que ele viva, o que não é certo. Estou bem mais preocupado com o destino de meus filhos. Espero que a vida deles não venha a ser difícil. Não posso ajudá-los muito. A guerra praticamente liquidou com minhas posses, o que havia poupado durante a vida. Mas posso me dar por satisfeito. O trabalho é minha fortuna.
Estávamos subindo e descendo uma pequena trilha no jardim da casa. Freud acariciou ternamente um arbusto que floria.
- Estou muito mais interessado neste botão do que no que possa acontecer depois de morto.
...

08/10/15

Hoje apetece-me ouvir

Dave Brubeck - Take Five 

"Take Five" é uma composição de jazz escrita por Paul Desmond e apresentada pelo The Dave Brubeck Quartet no álbum Time Out, de 1959. Gravada no 30th Street Studios em Nova Iorque em 25 de junho, 1 de julho e 18 de agosto do mesmo ano, a obra é uma das gravações mais famosas do grupo, notória por sua melodia distinta, pelo solo de bateria de Joe Morello e pelo uso inusitado do compasso 5/4, de onde se origina o nome da composição... 
Depois da sua morte, em 1977, Desmond deixou os direitos da sua obra, incluindo "Take Five", à Cruz Vermelha Americana. (Wikipedia)
Das inúmeras versões, destaco a de Quincy Jones.

07/08/14

A mudança de Caná

Pelo ano 30, acontecia um casamento em Caná. Normal como qualquer casamento mas que irá transformar-se num evento extraordinário porque uma transformação irá ter lugar e vai marcar o início da vida pública de Jesus.
O que mais se deseja é que tudo corra bem neste dia em que duas pessoas constroem a sua casa, o seu lar. Este casamento estava a correr mal, faltou o vinho, elemento indispensável.

Na longa entrevista de Gérard Sévérin a Françoise Dolto, este é um dos temas analisados.
A visão de F. Dolto sobre este acontecimento, revela-nos essa transformação que acontece na tradição do casamento.

"Jesus mostra-se aí construtor de uma outra casa, de uma casa espiritual. E mais ainda: é aí que Ele sente uma perturbação mutativa. É primeiramente uma festa de núpcias humanas: um jovem e uma jovem mulher unem-se diante de testemunhas.
Eles permutam os seus votos de amor comum abandonando o seu passado familiar e individual.
Renunciam em festa à sua juventude vigiada.
Empenham a energia da sua ascendência ancestral através do seu desejo, atraídos como são um pelo outro, em acordo  com as suas famílias. É um acto deliberado, individual, familiar e social.
Fundam uma nova célula social responsável e generosa, num dom recíproco total que dá sentido à sua curta vida mortal.
Para todos os participantes, quaisquer que sejam as sua idade e sexo, esses jovens esposos, nesse dia de núpcias, incarnam a imagem realizada ou futura dos seus sonhos de destino. Portanto, que corra com abundância o sumo mágico e luminoso da vinha !
Porquê mágico e luminoso?
Porque a embriaguez vivida em comum é uma possibilidade de fugir em comum à realidade e conseguir a alegria em conjunto. Esta alegria é também o que redime a embriaguez. E acrescento que o inconsciente
se entrega então. ..in vino veritas !
Embriagar-se só tem outra significação?
Certamente. Aquele que bebe só, fecha-se. Receia evadir-se com os outros da realidade tangível. Não pode comunicar senão «em jejum»; portanto, apenas pode comunicar o racional, o judicioso, o sensato, o razoável. Fora deste aspecto, é para ele o deserto.
Em Caná é o contrário. ..
A água clara que os serventes levam nas talhas transforma-se em bebida fermentada, fonte de risos, de esquecimento das amarguras e das preocupações quotidianas. É o leite da alegria que faz ecoar a festa na alma dos convivas, florescer os sorrisos; que o cacho maduro dos fantasmas suaves de sabores inebriados desfia. Bebido em comum, esse sumo capitoso da vinha desprende a língua e os corações."

A mudança é feita com angústia. Este episódio é angustiante pela mudança da situação social de duas pessoas,  pelas circunstâncias da festa do casamento e também outro contratempo: ainda não tinha chegado o tempo e, mesmo hesitando, acabou por ter a ver com o que estava a acontecer.

27/11/12

"O povo é quem mais ordena"


Esteja quem estiver no poder, compete-nos ter uma cidadania activa. Normalmente, essa cidadania é exercida através da participação em acções organizadas pela sociedade, em associações de solidariedade ou através da iniciativa individual e do espírito de entreajuda. De uma forma negativa através de acções críticas aos governos quer seja o governo do país quer seja o governo local, da câmara municipal, ou outros poderes. 
Queremos construir um mundo melhor e por isso temos que questionar: Por que chegámos aqui ? Deveríamos estar noutro patamar do desenvolvimento moral ? Podíamos viver num mundo melhor ? 
Por que não temos serviços de proximidade? Por que não há segurança? Por que morrem as pessoas em casa, sozinhas? Por que esperamos horas na consulta externa ?...
A realidade é que há recuos e avanços permanentes e regressamos a momentos que pensávamos já ultrapassados e que não seriam facilmente  imagináveis.
Este livro (orig. de 1994, tradução de 1996) de Benjamin Spock "trata da deterioração da sociedade contemporânea e daquilo que as pessoas empenhadas podem fazer para legar um mundo melhor a todas as crianças".
É, de algum modo, uma autobiografia onde o autor de "Meu filho, meu tesouro" fala da sua vida familiar, profissional e de cidadão. Como tal refere a sua intervenção social e politica.
É uma visão desiludida da política. O episódio que conta acerca das promessas dos políticos como, por ex., numa campanha eleitoral, ter apoiado um politico que era contra a guerra do Vietname e logo que eleito redobraram os ataques no terreno (pag. 28).
Foi candidato por um partido minúsculo, o partido popular, que obteve oitenta mil votos e o deixou muito satisfeito (pag. 30). Lembra-me a satisfação que tive quando M. L. Pintasilgo obteve 7,38 % dos votos nas eleições de Janeiro de 1986.
Mas Benjamin Spock, fala-nos também de esperança e diz que a política é fundamental para podermos viver num mundo melhor. Por isso, é necessário o exercício da cidadania e de uma cidadania activa.
O exercício da cidadania começa no voto. O voto não pode ficar para os outros sejam eles quem forem. Temos vindo assistir a um crescimento da abstenção que enfraquece a democracia representativa. Mas, ainda assim, 
Depois da tomada de posse dos órgãos eleitos, os cidadãos, individualmente e em grupo, devem vigiar o cumprimento das promessas e fazer pressão junto desses órgãos: escrever-lhes cartas e, se necessário organizar piquetes e manifestações. 
...Hoje em dia, os traficantes da política são muito mais sofisticados. Sabem que poucas pessoas estudam realmente as questões e compreendem as políticas seguidas pelos partidos e candidatos. Sabem que slogans sonantes e acusações enganadoras podem conquistar mais votos do que debates sérios sobre questões complexas...
A televisão, infelizmente, presta-se a meias-verdades ditas de forma fluente mas insincera mais do que à análise de problemas complexos...
Não admira que as vedetas televisivas sejam consideradas autoridades em todos os assuntos e que alguns deles troquem de carreira, enveredando por altos cargos políticos. 
Um mundo melhor necessita de uma cidadania activa.
Tão importantes como as campanhas para as legislativas são as eleições para as autarquias e para a gestão escolar. Os debates e o activismo político de base, a nível local, são vitais para um processo verdadeiramente democrático, pois os assuntos locais, ao serem persistentemente debatidos, depressa se fazem ouvir no cenário político global. O poder autárquico, ao sentir-se pressionado pela comunidade para a necessidade da existência de infantários públicos dirigir-se-á às instâncias superiores para solicitar orientação e apoios.
Tão importante como irem votar é o facto de os pais se manterem politicamente activos entre eleições. A sua opinião de cidadão pode ser dada a conhecer através de uma carta para o director do jornal local ou de telefonemas para um talk show com intervenções telefónicas em directo. Pode escrever cartas aos presidentes das câmaras, aos deputados, ao primeiro-ministro, ao presidente, não apenas uma vez mas sempre que se sinta particularmente irritado com uma situação. Pode frequentar encontros e debates públicos e levantar questões da assistência... (pag.179)
Mudar o mundo é tarefa política, é tarefa de cada um de nós. Mas um mundo melhor para os nossos filhos faz-se com melhores cidadãos. E essa  mudança para melhor é sempre não-violenta.

30/12/10

PIB/FIB

Falar de felicidade nos tempos de crise profunda que correm parece ser uma tarefa arriscada. Apesar disso, desejamos boas festas e próspero ano novo aos nossos familiares, amigos ou simplesmente conhecidos.
Tem vindo a opor-se Felicidade Interna Bruta (FIB) ao Produto Interno Bruto (PIB). Ou seja, para além do crescimento económico e do desenvolvimento material, o verdadeiro desenvolvimento de uma sociedade humana depende também do desenvolvimento espiritual, complementando-se e reforçando-se mutuamente. Os quatro pilares da FIB são a promoção de um desenvolvimento socio-económico sustentável e igualitário, a preservação e a promoção dos valores culturais, a conservação do meio-ambiente natural e o estabelecimento de uma boa governação.
Não sei se a fórmula será esta. Sabemos que as emoções e os sentimentos negativos, como a tristeza, a angústia e a raiva influenciam a saúde.
Os psicólogos, desde há cerca de vinte anos, falam da "psicologia positiva" (Seligman) que visa determinar o peso das emoções positivas no equilíbrio físico e mental.
O estudo de pacientes deprimidos, procura respostas para compreender quais são as raízes da felicidade.
Hoje a depressão é dez vezes mais frequente do que era em 1960.
Além disso, a depressão atinge pessoas cada vez mais cedo.
Algumas pessoas procuram a felicidade no dinheiro e no poder de compra.
É evidente que uma situação financeira confortável ajuda. Mas é um erro pensar que, quanto mais dinheiro, mais satisfação. Especialmente se, para consegui-lo, se sacrificam outros aspectos. (Seligman)
A riqueza tem uma baixa correlação com o nível de felicidade. Os ricos são, em geral, só um pouco mais felizes que os pobres.
Nos Estados Unidos, enquanto o rendimento aumentou 16% nos últimos trinta anos, o número de indivíduos que se consideram muito felizes caiu de 36% para 29%.
Quanto ao poder de compra verifica-se que há países muito pobres, como o Bangladesh, por exemplo, que têm, na média, menos pessoas felizes que países como os Estados Unidos, mas também é verdade há países onde as pessoas têm um poder de compra quase quatro vezes maior do que outros e são menos felizes.
Portanto, a felicidade não está necessariamente associada a mais dinheiro ou a mais poder de compra.
O problema é que muitas pessoas têm tudo para serem felizes e não o são, isto é, há pessoas que quanto mais têm mais querem.
Essas pessoas acumulam bens materiais, realizações e sucessos. Passam a encarar o status e o conforto que alcançaram como se fosse um dado da natureza.
Com isso, começam a ficar insatisfeitos e a querer sempre mais. É claro que tal atitude causa frustração. Por esse motivo, lidar com a felicidade pode ser tão difícil quanto enfrentar a infelicidade.
Vejamos o que acontece com os ídolos com pés de barro,do nosso tempo ou do passado.
Pode acontecer que a felicidade não seja vista como uma caraterística da personalidade "eu sou feliz” ou “eu não sou feliz”, mas como uma felicidade momentânea que vai perdendo o seu impacto.
O grande desafio é manter o nível constante de felicidade.
Quem ganha a lotaria ou o euromilhões, após esta euforia momentânea, regressa ao seu nível básico de felicidade.
Também é verdade que quando passamos por um acontecimento muito triste também somos capazes de regressar a esse nível básico de felicidade.
Para o novo ano, como Seligman, proponho que a conquista da felicidade seja um exercício diário, feito com gentileza, originalidade, humor, optimismo e generosidade.

(Entrevista a Martin Seligman, VEJA on-line, Edição 1844, 10 de Março de 2004)

18/08/10

Gente muito....muito... importante

                                                 era um homem
                                                 muito importante

                                                 a mulher também era
                                                 muito importante

                                                 era um casal muito
                                                 muito importante
                                                                                
                                                 vivia
                                                 numa cidade          muito importante

                                                 até fizeram testamento
                                                 um ao outro
                                                 da sua importância

                                                 e consta
                                                 que os notários
                                                 não levaram
                                                 honorários

                                         (Silva Amaro, À janela da vida, 1995)