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16/03/20

Para este tempo estranho - You're Not You

Um filme sobre ELA. "Um ponto de viragem" (You're Not You).
Passou a horas impróprias um dia destes num dos canais.

20/02/20

Morrer


Lev Tolstói descreve assim o sofrimento no processo de morte de Ivan Iliitch:
Piotr, traz-me cá o medicamento. - «E depois porque não? Talvez o medicamento ajude.» Pegou na colher, tomou-o. «Não, não ajuda. Tudo isto é um disparate, uma ilusão» - concluiu mal sentiu o sabor familiar, demasiado doce e desesperado. «Não, já não consigo acreditar. Mas a dor, para que é esta dor, que ela desapareça ao menos por um minuto.» «E gemeu. Piotr arrepiou caminho. – Não, vai e traz o chá.
Piotr saiu. Ivan Iliitch, sozinho desatou aos gemidos, não tanto pela dor, pavorosa, como pela angústia. « Sempre a mesma coisa, dias e noites sem fim. Que isto seja mais rápido. Mais rápido o quê? A morte, as trevas. Não, não. Tudo é melhor do que a morte!» (Lev Tolstói, A morte de Ivan Iliitch”, p. 72)

A morte é um assunto que diz respeito a todos. É um processo natural, inerente à condição humana. Morrer é um processo previsível mas quase sempre inesperado e que não depende de nós. A morte de qualquer ser humano é sempre uma perda com a complexidade que a envolve e tem o seu tempo próprio para acontecer.
A questão que se coloca é se deverá ser acelerada pelo próprio ou por outra pessoa a seu pedido. No primeiro caso trata-se de suicídio. A outra situação, actualmente em discussão, requer a necessidade de algumas clarificações conceptuais. (Wikipedia)
Eutanásia é o acto intencional de proporcionar a alguém uma morte indolor para aliviar o sofrimento causado por uma doença incurável ou dolorosa. Geralmente a eutanásia é realizada por um profissional de saúde mediante pedido expresso da pessoa doente. (1)
A eutanásia é diferente do suicídio assistido, que é o ato de disponibilizar ao paciente meios para que ele próprio cometa suicídio.
A eutanásia pode ser classificada em voluntária e involuntária. É voluntária quando é a própria pessoa doente que, de forma consciente, expressa o desejo de morrer e pede ajuda para realizar o procedimento. Na eutanásia involuntária a pessoa encontra-se incapaz de dar consentimento para determinado tratamento e essa decisão é tomada por outra pessoa, geralmente cumprindo o desejo anteriormente expresso pelo próprio doente nesse sentido.
A eutanásia pode também ser activa e passiva. A eutanásia activa é o ato de intervir de forma deliberada para terminar a vida da pessoa. A eutanásia passiva consiste em não realizar ou interromper o tratamento necessário à sobrevivência do doente.
Distanásia é o prolongamento artificial do processo de morte e por consequência prorroga também o sofrimento da pessoa. Muitas vezes o desejo de recuperação do doente a todo custo, ao invés de ajudar ou permitir uma morte natural, acaba prolongando sua agonia. O tratamento é inútil. Não visa prolongar a vida, mas sim o processo de morte"
Ortotanásia significa morte pelo seu processo natural. Neste caso o doente já está em processo natural da morte e recebe uma contribuição do médico para que este estado siga seu curso natural. (2)

Outro aspecto não consensual tem a ver com a Constituição.
Jorge Miranda, não tem dúvidas: "legalizar a eutanásia "fere flagrantemente" a Constituição… sejam quais forem as circunstâncias e as intenções". Porque, argumenta, de acordo com o artigo 24º,1º, sobre a inviolabilidade da vida, "ninguém pode dispor da sua vida, como ninguém pode alienar a sua liberdade ou o respeito por si mesmo".
E Jorge Miranda soma-lhe "uma segunda inconstitucionalidade por omissão, por o Estado não conferir exequibilidade plena às normas constitucionais sobre direitos económicos. sociais e culturais", ou seja, "não defender a plena realização do SNS, incluindo cuidados paliativos e cuidados continuados".

A eutanásia é também um retrocesso civilizacional. (3) Tanto mais num tempo em que o conhecimento científico e os meios postos à disposição do ser humano, como os cuidados paliativos (4), podem ajudar a que no morrer haja menos sofrimento.
A aprovação da eutanásia é a instauração de um controle da vida pelas mais diversas razões, mesquinhas ou supostamente humanitárias mas ainda assim insuficientes para que a vida seja deixada ao poder de outros mesmo que pedida pela pessoa que a pretende.
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(1) Entre os motivos mais comuns que levam os doentes terminais a pedir uma eutanásia estão a dor intensa e insuportável e a diminuição permanente da qualidade de vida por condições físicas
Entre os fatores psicológicos estão a depressão e o medo de perder o controlo do corpo, a dignidade e independência.
(2) Desta forma, diante de dores intensas sofridas pelo paciente terminal, consideradas por este como intoleráveis e inúteis, o médico deve agir para amenizá-las, mesmo que a consequência venha a ser, indirectamente, a morte do paciente.
(3) Mesmo que deputados do BE digam o contrário... há outras opiniões, como esta, e até esta ...
(4) “Os cuidados paliativos definem-se como uma resposta activa aos problemas decorrentes da doença prolongada, incurável e progressiva, na tentativa de prevenir o sofrimento que ela gera e de proporcionar a máxima qualidade de vida possível a estes doentes e suas famílias. São cuidados de saúde activos, rigorosos, que combinam ciência e humanismo.”






29/12/19

Psicologia do trânsito * - a busca de sensações


Acidentes de viação com vítimas, feridos e mortos (Continente). Pordata

 
A Psicologia do trânsito e da condução compreende, avalia e intervém nos comportamentos das pessoas quer sejam peões, condutores de automóveis, motociclos e outros meios de locomoção.

O número de vítimas que vinha numa tendência decrescente nos últimos anos voltou a subir. O Número de mortos na estrada subiu 17% em dois anos.
Para além de todos os impactos individuais, familiares e sociais da sinistralidade rodoviária, os impactos na economia são muito importantes. Os Acidentes rodoviários tiram 1,2% ao PIB, ou seja, 2,3 mil milhões de euros.

Compreender a relação entre a personalidade e os comportamentos desajustados e ou transgressivos na condução é sempre relevante. Ainda mais nas circunstâncias actuais em que, novos factores, positivos ou negativos, como, por ex., o uso do telemóvel durante a condução, ou de novos meios de locomoção nas cidades (bicicletas, trotinetes...), vieram alterar o panorama da condução, apesar de haver factores positivos como a melhoria das infraestruturas (Portugal é o 2º país da UE com melhores estradas).

A personalidade do condutor afecta a forma de condução e tem implicações nos resultados da sinistralidade. Alguns dos comportamentos dos condutores não seriam, aparentemente, tão difíceis de alterar como por exemplo: não usar o telemóvel enquanto se conduz, não conduzir sob o efeito de álcool e de drogas, reduzir o excesso de velocidade…
Porque é tão difícil a mudança mesmo quando está em jogo a vida das pessoas ?

Na teoria da personalidade do psicólogo Marvin Zuckerman, o factor impulsividade e "busca de sensações" (sensation seekings) poderá explicar este comportamento. Esta busca de sensações inclui a necessidade de vivenciar novas emoções e situações, bem como a tendência a assumir riscos em diferentes áreas da vida. Impulsividade e o factor psicoticismo referidos pelo psicólogo Eysenck ** também seriam incluídos nesta dimensão, que tem sido relacionada com alterações nos níveis de testosterona, dopamina e serotonina.

Os resultados de um Estudo da PRP, sobre a distracção dos condutores, mostram a elevada utilização do telemóvel durante a condução na cidade de Lisboa, sobretudo por parte dos condutores mais novos e dos que viajam sozinhos. Dos condutores observados, 7.7% estavam a utilizar o telemóvel enquanto conduziam e 13.7% quando parados num semáforo.

Numa investigação de 2010, Joana Conceição Soares Alves, sobre a relação entre a personalidade e os comportamentos de condução transgressivos e os crimes estradais, verificou-se que os condutores que cometem crimes estradais obtiveram maior pontuação na dimensão neuroticismo e busca de sensações (sensation seeking). No entanto, os condutores que cometeram crimes estradais não praticaram mais comportamentos de condução transgressivos do que os condutores sem contacto com a justiça.

Das 675 pessoas que morreram em acidentes de carro no ano passado, 536 (79%) eram homens.
A investigação de José Poças Correia sobre se há diferenças sexuais nos comportamentos dos condutores e condutoras permitiu verificar que apesar de os condutores homens cometerem mais infracções do que as mulheres, as mesmas são de origem multicausal, não sendo possível estabelecer uma relação unívoca com determinadas características da personalidade e determinados estados emocionais. ….
No entanto, o sexo diferencia os traços de personalidade, os estados emocionais e a sua associação aos comportamentos de risco na condução, devendo ser considerado na formação de futuros condutores e nas acções de sensibilização relacionadas com a prevenção e segurança rodoviária.

Vários apelos cívicos, como o apelo do sr.  Presidente da República, e programas de informação e prevenção são feitos aos portugueses para se combater a sinistralidade rodoviária no país.
As campanhas  de  informação, prevenção e fiscalização das forças de segurança principalmente nas datas festivas, têm tido resultado insatisfatório.
Por isso, com os votos de boas festas, aqui fica o meu apelo: Neste Natal dê um presente a si próprio, respeite a sua vida e a vida dos outros.

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* A traffic psychology (a psicologia do trânsito) estuda "a relação entre processos psicológicos e o comportamento dos usuários da estrada. Em geral, a psicologia do tráfego visa aplicar aspectos teóricos da psicologia, a fim de melhorar a mobilidade do tráfego, ajudando a desenvolver e aplicar contramedidas contra acidentes, bem como orientando os comportamentos desejados por meio da educação e da motivação dos usuários da estrada."(Wikipedia)
"A psicologia do trânsito tornou-se um domínio de estudo específico que se interessa particularmente pelas reacções de cólera ao volante comportando condutas de risco" Clément Guillet, "Pouquoi la voiture rend-elle fou?", le cercle psy, nº 34, pag. 96-97.
** Eysenck identificou 3 dimensões de personalidade independentes (PEN): Psicoticismo (P), Extroversão (E) e Neuroticismo (N).



https://www.mixcloud.com/RACAB/cr%C3%B3nica-de-opini%C3%A3o-de-carlos-teixeira-19-12-2019/




11/12/19

Carlos Amaral Dias



Carlos Amaral Dias, psicanalista, de 73 anos, faleceu a 3 de Dezembro, em circunstâncias ainda não totalmente explicadas pelo SNS/INEM.

Tive a sorte de ser seu aluno. E é essa a ligação de aluno-professor que tenho com ele. Uma ligação-admiração que seria continuada com os seus livros, e com as suas participações e intervenções na comunicação social.
Como já disse noutra altura, foi devido ao trabalho dos meus professores que sou quem sou. E como dizia a grande poetisa brasileira Cecília Meireles:
"Há pessoas que nos falam e nem as escutamos,
há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam
mas há pessoas que simplesmente aparecem em nossa vida
e nos marcam para sempre". 
Carlos Amaral Dias foi uma dessas pessoas que nos marcam para sempre.

Leio ou consulto com frequência algum dos livros que publicou. Amaral Dias não é de leitura fácil mas creio que era assim que ele queria. Nada pode ser fácil quando se trata da complexidade do ser humano.
Recordo as aulas de Psicanálise, do curso de Psicologia da Universidade de Coimbra, que leccionava no Centro de estudos e profilaxia da droga da mesma cidade.
Sempre impecavelmente vestido, fato e gravata, relógio de bolso, cigarro na mão... Entre o método expositivo e dialógico, as ideias fluíam de forma atractiva o que me levava a querer ouvir/saber sempre mais.
Embora com alguns conhecimentos na área do desenvolvimento psicossexual de Freud, a cadeira de psicanálise permitiu-me conhecer algumas vertentes do seu pensamento psicanalítico que passavam, necessariamente, por Freud, Melanie Klein, Bion…
Era um professor diferente do que era praticado na Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra onde o formalismo de alguns professores doutores chocava um pouco com a informalidade, talvez excessiva, que trazia das minhas aulas do ISPA.
Depois continuei a acompanhar o seu pensamento nos livros que escrevia, cerca de duas dezenas,* e em  textos e entrevistas que resultaram das suas intervenções na comunicação social.

Um dos seus mais pequenos livros, A bondade e o perdão - ensaio psicanalítico sobre algumas qualidades do bom objecto interno, é, afinal, o grande livro que, desculpem o paternalismo, todos devíamos ler e meditar.
É de A Bondade e o perdão este extraordinário excerto (ponto 15):
"À violência que quotidianamente é gerada no nosso tempo, e que não pode ser somente denunciada mas essencialmente compreendida como gerada pelas angústias primitivas e pela pulsão de morte existente em cada um de nós, deve o homem não tanto opor, mas propor alternativas criadoras e por isso bondosas de habitar a Terra.
Uma das maiores consequências da prática da psicanálise é precisamente esta, ou seja, a compreensão dia a dia, sessão após sessão, da esterilidade da vingança e da estupidez própria da raiva. Diariamente nos confrontamos, nos nossos actos, nos nossos gestos, nas nossas relações, e nos nossos sonhos, com a obtusão mental derivada quase sempre da destruição interna que Thanatos inflige às partes boas e criadoras do self. Esse é o peso que nos empurra para a doença e para a dor. A bondade e o perdão, farão provavelmente parte das asas que nos esperam quando finalmente conseguirmos ser livres.”

Ele, certamente nas asas da bondade e do perdão, passou a ser definitivamente livre. Amaral Dias é uma referência obrigatória no campo da psicologia. Tenho, no trabalho e na vida, recorrido varias vezes à ajuda do seu pensamento. Só lhe posso estar grato.

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*Bibliografia (incompleta)
O Inferno somos nós - conversas sobre crianças e adolescentes,
Já posso imaginar que faço, com João Sousa Monteiro,
Um psicanalista no expresso do Ocidente,
Freud para além de Freud (Vol 1 e vol 2), 

Espaço e relação terapêutica, com prefácio de Jean Bergeret
Teoria das transformações,
Carne e lugar,
Modelos de interpretação em psicanálise,
(A)Re-pensar - Colectânea psicanalítica,
A psicanálise em tempo de mudança - Contribuições teóricas a partir de Bion,
com Manuela Fleming
Volto já - ensaios sobre o real,
Costurando as linhas da psicopatologia borderland (estados -limite), 

O negativo ou o retorno a Freud,
Tabela para uma nebulosa - Desenvolvimentos a partir de Wilfred R. Bion,
Bion hoje,
com A. Muniz de Rezende e David E. Zimerman
A bondade e o perdão - ensaio psicanalítico sobre algumas qualidades do bom objecto interno.

https://www.mixcloud.com/RACAB/cr%C3%B3nica-de-opini%C3%A3o-de-carlos-teixeira-12-12-2019/