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09/02/20
05/02/20
Tráfico de crianças
O tráfico
de crianças é um caso especial de tráfico de seres humanos,
uma prática de sequestro,
desaparecimento e ocultação da identidade das
crianças, que se destina a adopção
ilegal, a exploração infantil, tanto para trabalho escravo
como sexual, actividades criminais e uso militar das crianças.
Embora haja zonas do mundo onde estas práticas são mais evidentes, o
nosso país não passa incólume a esta situação. Vejamos duas situações recentes:
1. Uma notícia de 6-11-2019 da Renascença informa-nos
de que, no último
ano e meio, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) perdeu o rasto a 66 menores,
que chegaram sozinhos ao aeroporto de Lisboa, pediram asilo a Portugal e
desapareceram. A maioria terá como destino a exploração sexual.
Estas pessoas “destroem os seus próprios documentos, viajam sozinhas ou controladas por alguém dentro do voo e uma vez num Estado-membro solicitam asilo. Mais cedo ou mais tarde o seu processo será decidido, mas enquanto esperam estão, na maior parte das vezes, em regime aberto e desaparecem”. (Mário Varela, inspector da Unidade Anti-Tráfico de Pessoas do SEF - Renascença, "Tráfico de menores. Pedem asilo e depois desaparecem. Quantos? Todos". Celso Paiva Sol, Renascença, 6/11/2019)*
2. Joana Amaral Dias, recentemente, adoptou uma
criança, viajou com o menino (Dinis) e a restante família para Cuba onde
estiveram de férias, e contou que esta "foi uma experiência
assustadora". "Porque fomos para Cuba e levei um papel do
tribunal para comprovar que ele [Dinis] está à minha guarda, e
acreditam que saí da Europa, entrei em Cuba, saí de Cuba, voltei a entrar
na Europa sem nunca me pedirem esse papel. Dá que pensar. Fiquei
assustadíssima" . ("Joana Amaral Dias partilha "experiência assustadora" com filho
adotivo", Notícias ao Minuto, 28/1/2010)
Um relatório da ONU, de 07-01-2019, Global Report on Trafficking in Persons 2018, refere que dos 142 países analisados, as crianças
representam 30%, quase um terço, de todos os indivíduos traficados, sendo o número de meninas
afectadas superior ao de meninos.
Em 2016, quase 25 mil pessoas foram traficadas no
planeta - 70% eram do sexo feminino, com as meninas representando 20% de todas
as vítimas. A exploração sexual corresponde a cerca de 59% do total dos casos. O trabalho forçado foi
identificado em 34% das ocorrências.
Embora as crianças sejam em sua maioria vítimas do tráfico para
trabalhos forçados (50%), muitas também são vítimas de exploração sexual (27%)
e outras formas de exploração, como mendicidade forçada, recrutamento para tropas
e grupos armados e actividades criminosas forçadas.
As meninas foram vítimas de
exploração sexual em 72% dos episódios analisados. Casos de trabalho forçado
envolvendo as jovens menores de idade equivaliam a 21% do total.
O tráfico de crianças é um dos mais abjectos
comportamentos do ser humano e priva as crianças de praticamente todos os seus
direitos fundamentais: o direito a uma família, à educação, à saúde, a não sofrerem maus tratos, ao desenvolvimento
num ambiente afectivo e emocional…
Os países e respectivos governos são responsáveis pela incapacidade de
organização de um sistema de protecção eficaz para estas crianças.
Como diz Joana Amaral Dias vivemos de facto num mundo "assustador" e, acrescento
eu, um mundo sem-vergonha e um mundo desumanizado (Seligman **).
___________________________________________
* Escrevi sobre o assunto em Maldade: o caso das crianças desaparecidas.
** Forças de carácter da virtude Humanidade: Amor, Bondade e Inteligência social.
** Forças de carácter da virtude Humanidade: Amor, Bondade e Inteligência social.
Etiquetas:
CPCJ,
DESENVOLVIMENTO HUMANO,
Família,
LIBERDADE E DEMOCRACIA,
Parentalidade,
Prevenção,
Prosperidade Bem-estar Florescimento,
Psicologia do desenvolvimento
02/12/19
Psicologia da internet - o efeito de desinibição online
"Julgar que o computador serve para tudo é correr
ao encontro de decepções e de catástrofes sem precedentes. Julgar que o
computador não serve para nada, é renunciar a um arsenal de serviços a que
nenhum observador de boa fé contestará o valor. O maior perigo para o homem
será ceder ao seu temor pela máquina e começar a fugir, ao mesmo tempo, dos
benefícios da tecnologia.”
“O desordenador é perigoso: tende a
sobrevalorizar as estatísticas, as médias, as massas em detrimento do indivíduo
e dos seus sentimentos. A felicidade não é codificável.”
“Em caso algum um computador poderia ser ridículo.
Pelo contrário, em todos os casos, o homem torna-se ridículo quando destina uma
máquina a fins ridículos.”
"O desencanto cresce mais depressa que o
progresso. Após as delícias do possível, as brutalidades do real."
Continuam a ser
assim, as delícias e as brutalidades.
O computador trouxe enormes vantagens para a sociedade
mas a evolução da comunicação digital é de tal modo avassaladora em todas as
áreas da vida que, como seria de esperar, a mudança dos comportamentos das
pessoas faz-se com dificuldades, desfasamentos e estão à vista os desequilíbrios
de personalidade.
A internet cria uma "dinamização" da
personalidade que leva as pessoas a inclinarem-se para atitudes de maior risco e descontrolo
calculado. O "efeito de desinibição online" define
estas alterações comportamentais. (C. Nabuco)
Passámos, assim, a ter uma vida offline e uma vida online.
Vidas que coincidem ou que são completamente diferentes.
Alvin Toffler falava do homem modular. Conhecemos a
pessoa apenas em alguns aspectos, alguns módulos, da sua vida. Conhecemos,
p.ex., a pessoa no trabalho mas nada sabemos da sua vida familiar, das suas
origens, das suas amizades e intimidades...
Agora podemos acrescentar que nada conhecemos da sua
vida online mesmo quando se trata dos nossos filhos ou pais, nossos familiares,
amigos ou colegas de trabalho.
Então qual é a nossa realidade? A vida online será
mais real do que a vida offline? Os perfis falsos, os sites e blogues com
identidades falsas serão afinal mais verdadeiros relativamente à nossa personalidade? Acontece
que na vida online a
pessoa apresenta dimensões da sua personalidade que não suspeitávamos que
existissem. É muitas vezes na vida online que nos surpreendemos com os gostos, os
ódios, as ideias de uma pessoa que
manifestam o módulo mais profundo da sua realidade pessoal e de relação com os
outros.
Como compreender então os perfis falsos criados para esconder uma identidade falsa ou até usurpação de identidade ?
"Até setembro deste ano (2019), o Facebook fechou mais de 5,4 mil milhões de contas falsas criadas na rede social, um aumento de mais de 2 mil milhões de utilizadores face aos números do ano passado. De janeiro a dezembro de 2018 a empresa removeu da sua plataforma principal 3,3 mil milhões de utilizadores falsos, o que representa um aumento de 157%." (Record)
É que na nossa vida online (C. Nabuco) temos a “falsa percepção de que somos
anónimos e não há limites ou regras associadas ao comportamento online.
É um processo de "desindividualização", ou
seja, “um estado de dissipação da identidade real e que favorece o aparecimento
de maior grau de insubordinação, agressividade e sexualidade exacerbada, se
comparado ao que ocorre na vida concreta.” Portanto, o "efeito de desinibição online" desconstrói os
ambientes formais e mais rígidos da realidade concreta… tornando as pessoas
mais condescendentes e altamente plásticas em relação às transgressões”, passando a ter uma "personalidade eletrónica" (e-personality). (C. Nabuco)
A internet é um instrumento de informação e liberdade mas também de manipulação
e marketing, de propaganda e de ódio, que influencia a nossa vida e inferniza a de muitas pessoas. A internet
veio revelar varáveis da nossas personalidade. Veio mostrar a força da Sombra,
de Jung, arquétipo que revela o lado
escuro da nosso psiquismo, ou a força do nosso inconsciente, como dizia Freud. São estas forças
que mostram o que na realidade somos e que
determinam muitos dos nossos comportamentos.
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