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12/02/19

Lembranças e esquecimentos


ZAZ - Si jamais j'oublie


Se eu me esquecer

Lembra-me o dia e o ano
Lembra-me do tempo que fazia
E se eu o esqueci
tu podes fazer-me reagir
E se eu quiser ir embora
Fecha-me e deita a chave fora
Com doses de estímulos
Diz como eu me chamo
Se um dia eu esquecer as noites que passei
As guitarras e as vozes
Lembra-me quem eu sou
Porque eu estou viva
Se um dia eu me esquecer de como escapar
Se um dia eu fugir
Lembra-me quem eu sou
O que eu prometia a mim mesmo
Lembra-me de meus sonhos mais loucos
Lembra-me das lágrimas no meu rosto
E se eu esquecer do quanto eu amava cantar
Lembra-me quem eu sou
Porque eu estou viva
Lembra-me do dia e do ano…


A memória pode definir-se como a capacidade de armazenar, processar e recuperar informação que provém de todo o ambiente que nos rodeia captada pelas nossas capacidades sensoriais.
Tanto as lembranças ou recordações como os esquecimentos ou amnésias estão presentes na nossa vida. Todos nós já alguma vez percebemos que nos esquecemos de alguma coisa, como não nos lembrarmos onde deixamos as chaves de casa ou termos o nome de uma pessoa "mesmo debaixo da língua", ou como respondem os alunos, quando são interrogados pelos professores mesmo quando estudaram: "sei mas não me lembro".
Também é engraçado quando nos acontece que nos lembramos de que nos esquecemos de dar um recado, ou de dar os parabéns a alguém.
Os "lapsos de memória" acontecem com frequência e não me refiro àqueles falsos lapsos de memória que acontecem muitas vezes nos tribunais e nas comissões de inquérito parlamentar...

A idade tem influência na frequência dos esquecimentos ou vai tornando mais difícil as lembranças, embora esta dificuldade possa também afectar  os mais jovens.
Muitos de nós têm a ideia de que se lembram de tudo o que ouvem ou fixam tudo o que vêem. No entanto, na realização de um teste psicológico de memória visual, como acontece no teste da Figura Complexa de Rey, acabam por verificar que afinal se esqueceram de muitas coisas, acrescentaram ou modificaram outras.
De facto, o processo de memorização envolve a complexidade do sistema nervoso, por um lado, e, por outro, a complexidade psicológica de todo o processo de aprendizagem, condicionamento operante, do tipo de tarefa e motivação e das emoções que acompanham a realidade da nossa vida.

Mesmo que não se atinjam situações tão graves como em algumas doenças em que se perde a própria identidade, à medida que envelhecemos os esquecimentos tornam-se uma realidade mais frequente. Cerca de 40% das pessoas com idade acima de 65 anos têm algum tipo de problema de memória, e a prevalência aumenta rapidamente com o aumento da idade.
Segundo um relatório da OCDE de 2017, em Portugal, 20 em cada mil habitantes sofrem de demência.  Um valor acima da média da OCDE que está nos 15 casos por mil habitantes (Relatório Health at a Glance, 2017), “A prevalência da demência, cuja forma mais comum é a doença de Alzheimer, é um indicador para monitorizar a saúde da população idosa, acrescentando que o envelhecimento da população tornará a demência mais comum. E os países “com um envelhecimento mais rápido verão esta prevalência mais do que duplicar nos próximos 20 anos”. (Ana Maia, Público, 10/11/2017)

Há uma canção de Zaz -“Se eu me esquecer” - que expressa bem este esquecimento, a necessidade de compreensão e apoio.


29/09/18

Momentos

Há momentos da nossa vida em que precisamos dos outros de uma forma mais intensa, mais empenhada e mais solidária.
Nestes momentos é reconfortante poder ter a esperança de que os enormes progressos científicos e técnicos adquiridos na área da saúde, física e mental, melhorem a nossa qualidade de vida, reduzindo a dor e sofrimento.
É animador poder ter confiança nas qualidades científicas, técnicas e humanas dos profissionais de saúde, médicos, enfermeiros, nas mãos de quem fazemos depender a nossa vida e do pessoal auxiliar que nos ajuda a ultrapassar as nossas limitações resultantes de fragilidades e dependências nas coisas mais básicas do dia a dia.

Nestes momentos entendemos melhor que a inclusão é um processo em que todos estão envolvidos  e de que todos irão precisar em algum momento da vida.

É muito bom poder ler e pensar com Séneca, Marco Aurélio, Epicteto, a filosofia... Nestes momentos mais difíceis, servem-me de lenitivo e refúgio com mais frequência  do que habitualmente.
Ou contar com a ajuda de estratégias como a meditação e oração, neste caso nas formas de obsecração e súplica, como é vista por João Cassiano e por John Main.
É fortalecedor contar com a psicologia positiva, proposta por Seligman, e procurar o bem-estar, conhecendo os pontos fortes da nossa personalidade, e a importância do optimismo como elemento fundamental da recuperação.

Por fim, talvez o mais importante, poder contar com o apoio da família onde, nestes momentos, os vínculos se manifestam com toda a sua força, e com o apoio de verdadeiros amigos que nos confirmam deste modo como gostam de nós.
É esta, verdadeiramente, a melhor sorte que podia ter.

(29 de Setembro - Dia mundial do coração)


20/08/18

Sobriedade

 
Demi Lovato (20/8/1992) - Sober
 
I got no excuses
For all of these goodbyes
Call me when it's over
'Cause I'm dying inside
Wake me up when the shakes are gone
And the cold sweats disappear
Call me when it's over
And myself has reappeared

I don't know, I don't know, I don't know, I don't know why
I do it every, every, every time
It's only when I'm lonely
Sometimes I just wanna cave
And I don't wanna fight
I try and I try and I try and I try and I try
Just hold me, I'm lonely

Momma, I'm so sorry, I'm not sober anymore
And daddy, please forgive me for
the drinks spilled on the floor
To the ones who never left me
We've been down this road before
I'm so sorry, I'm not sober anymore

I'm sorry to my future love
For the man that left my bed
For making love the way I saved for you
inside my head
And I'm sorry for the fans I lost
Who watched me fall again
I wanna be a role model
But I'm only human

I don't know, I don't know, I don't know, I don't know why
I do it every, every, every time
It's only when I'm lonely
Sometimes I just wanna cave
And I don't wanna fight
I try and I try and I try and I try and I try
Just hold me, I'm lonely

Momma, I'm so sorry I'm not sober anymore
And daddy, please forgive me
for the drinks spilled on the floor
To the ones who never left me
We've been down this road before
I'm so sorry, I'm not sober anymore
I'm not sober anymore

I'm sorry that I'm here again
I promise I'll get help
It wasn't my intention
I'm sorry to myself



Sobriedade

01/06/18

Jogo e desenvolvimento psicológico

Atividades para crianças: férias criativa e divertida 


jogo finalidade em si (Janet)
jogo energia vital que ultrapassa as necessidades imediatas e estimula o crescimento (Huizinga)
jogo realização do ego do indivíduo (Claperède e M. Mead)
jogo contágio e incubação de valores sócio-culturais
jogo secreção da actividade psicomotora
jogo "loisir" recriação como meio de libertação das preocupações e cansaço
jogo"momento de cultura"onde a criança se encontra com todas as possibilidades de expressão
         corporal, estética, coreográfica, literária, teatral, desportiva, científica
jogo expressão de uma vitalidade mental e concretização de um dom psicomotor
jogo"écran" onde se projecta o que ocupa, ou que invade o espírito e sensibilidade da criança
jogo recapitulação na ontogénese da filogénese (Stanley Hall)
jogo expressão psicomotora e sociomotora
jogo factor de libertação e formação
jogo realização psicomotora que não tende para nenhuma finalidade senão ela própria
jogo obstáculo à solidão, eclosão extra-espacial
jogo relação com os outros, factor essencial ao desenvolvimento da personalidade
jogo caminho para a conquista da autonomia da criança
jogo "écran"do quotidiano
jogo contributo para a realização de frustrações, de complexos, de insuficiências, de dificuldades de
       aprendizagem, de dificuldades relacionais, de reacções regressivas, de tendências agressivas e
       anti-sociais (Anna Freud)
jogo meio terapêutico no âmbito das perturbações psicomotores como também na esfera de
        prevenção de dificuldades escolares
jogo meio de expressão e libertação de forças não utilizadas (Schiller-Spencer)
jogo exercício de preparação para a vida séria (Gross)
jogo agente de crescimento dos órgãos dado que estimula a acção do sistema nervoso (Carr)
jogo exercício de tendências geralmente não utilizadas (Konrad-Langue)
jogo é tudo isto
        mas não é só isto...

***
Todas as crianças do mundo deviam ter direito a brincar, hoje, dia da criança, e todos os dias, em vez de estarem a lutar pela sobrevivência.

Artigo 31
1. Os Estados Partes reconhecem à criança o direito ao repouso e aos tempos livres, o direito de participar em jogos e actividades recreativas próprias da sua idade e de participar livremente na vida
cultural e artística.
2. Os Estados Partes respeitam e promovem o direito da criança de participar plenamente na vida cultural e artística e encorajam a organização, em seu benefício, de formas adequadas de tempos livres e de actividades recreativas, artísticas e culturais, em condições de igualdade.

(Convenção sobre os Direitos da Criança - Adoptada pela Assembleia Geral nas Nações Unidas, em 20 de Novembro de 1989 e ratificada por Portugal em 21 de Setembro de 1990).



12/04/18

Estratégias contra a ansiedade - a meditação

Falámos a semana passada em algumas estratégias de gestão e redução da ansiedade. Dissemos que o relaxamento e a meditação  podem ser usados como técnicas para esse efeito. As técnicas de meditação de atenção plena,  mindfulness, pode ser uma delas. Quero, no entanto, dar um enfoque diferente em relação à meditação, relevando nesta terapia o significado espiritual que ela envolve.

John Main (A palavra que leva ao silêncio) escreve sobre a meditação como um modo de “oração profunda que nos encaminhará para a experiência da união, longe das distracções superficiais e da auto-comiseração".
Ela é para crentes cristãos mas pode ser usada por todos os que querem descondicionar-se em relação à ansiedade.

Como meditar?
"Senta-te. Senta- te tranquilo e direito. Fecha levemente os teus olhos. Senta-te descontraído mas atento. Começa silenciosamente, intimamente, a dizer uma única palavra. Recomendamos a frase oração «Maranatha». Recita-a com quatro sílabas  de igual extensão. Escuta-a à medida que a dizes, gentilmente, mas de forma contínua. Não penses ou imagines coisa alguma – espiritual ou de outra natureza. Se acorrerem pensamentos e imagens, são distracções no tempo de meditação: persiste, pois, em dizer de novo apenas a palavra. Medita, todas as manhãs e todas as noites, cerca de vinte a trinta minutos." (p. 17)
"Para bem meditares, deves adoptar uma posição sentada confortável; esta deve ser confortável e descontraída, mas não desleixada. As costas devem estar tão direitas quanto possível, com a coluna numa posição vertical. Os que possuem um bom grau de flexibilidade e agilidade podem sentar-se no chão, com as pernas cruzadas." (p. 27)

Podemos aprender a meditar?
"Aprender a meditar não é justamente uma questão de dominar uma técnica. É antes aprender a apreciar e a responder directamente às profundezas da tua própria natureza, não da natureza humana em geral, mas da tua em particular…" (p 19)

Contexto cristão da meditação.
Para J Main, "meditação é sinónimo de termos como contemplação, oração contemplativa, oração meditativa, e assim por diante” (p. 19)
"A meditação é o processo muito simples pelo qual nos preparamos, em primeiro lugar, para estar em paz connosco, a fim de conseguirmos prezar a paz da Divindade dentro de nós”
"A visão da meditação que muita gente é encorajada  a ter como meio de descontração, de manter a sua quietação interior no meio das pressões da moderna vida urbana, não é em si essencialmente falsa. Mas , se isto é tudo o que ela afigura ser, então a visão é muito limitada…" (p 20)

Silêncio e  mantra
"A repetição fiel da nossa palavra – o mantra - é que integra todo o nosso ser. Fá-lo assim , porque nos encaminha para o silêncio, para a concentração, para o nível necessário de consciência que nos torna capazes de abrir a nossa mente e o nosso coração à acção do amor de Deus, na fundura do nosso ser." (p.31)

 Obectivos da meditação
"Ao começar a meditar temos três objectivos preliminares:
O primeiro é simplesmente dizer o mantra durante toda a duração da meditação...
O segundo é dizer o mantra sem interrupção ao longo da meditação...
O terceiro é proferir o mantra durante todo o tempo de meditação, inteiramente livre de todas as distracções..." (p 34-35)

Mantra vs narcisismo
Ao contrário do que possa parecer, embora a prática da meditação possa evidenciar narcisismo, “ a meditação intima-nos a abrir os nossos corações a esta luz e esta vida pelo expediente muito simples de prestar atenção; ou seja, prestar atenção à sua (Deus) presença em nós. (p.39)

Meditação vs auto-análise
"Poucas gerações têm sido tão introvertidas e auto-analíticas como a nossa e, todavia, a moderna auto-análise pode ser notoriamente improdutiva. A razão é que ela, como sugeri, tem sido radicalmente não-espiritual; ou seja, não foi levada a cabo à luz do Espírito, não teve em conta esta real e fundamental dimensão da nossa natureza. Sem o espírito não produtividade, não há criatividade ou possibilidade de crescimento."  (p.48)


Estratégias contra a ansiedade

"No mundo desenvolvido, a  ansiedade é o transtorno* psicológico  mais comum, seguido da depressão e do abuso de álcool e das drogas.
A ansiedade é uma ameaça presente ao longo de toda a vida do indivíduo. Prognostica-se que 14 por cento da população a experimentará num dado momento...
…a ansiedade é uma emoção que nos é familiar. Quase toda a gente se sentiu nervosa ou cheia de angústia num dado momento, com razão ou sem ela.” (Pilar Varela, p. 21)
Dada a generalização da ansiedade, grande parte da nossa vida é passada a procurar gerir esta ansiedade através de estratégias terapêuticas que a possam controlar, manter ou reduzir, de forma a podermos viver a vida  com mais equilíbrio e maior participação social.
Assim, são imensas as possibilidades de cada um poder lutar contra esta situação e poder decidir quais as formas que se adaptam melhor ao seu caso.
Temos aqui falado de algumas. Gerir a ansiedade, dadas as diferentes situações emocionais por que passamos durante o dia ou por que passamos ao longo da vida não é fácil, mas é possível.

Em algumas situações não podemos prescindir das respostas disponibilizadas  pela medicina em que os ansiolíticos desempenham um papel importante. Claro que se deve evitar a automedicação e seguir uma estratégia definida com o médico.

Mas há muitas outras situações em que a terapia  psicológica pode ser necessária. Das estratégias psicológicas que podemos adoptar talvez as mais conhecidas sejam as  terapias cognitivo-comportamentais (TCC), como a programação neurolinguística (PNL).

Muitas outras estratégias podem depender apenas de cada indivíduo e de cada situação. Para controlar e reduzir a ansiedade, em grande parte das vezes, seria suficiente fazer pequenas alterações nos nossos  hábitos quotidianos. 
São exemplos disso, as técnicas de relaxamento e meditação, uma boa gestão e organização do tempo,  comunicação equilibrada na família e no trabalho, alimentação e sono equilibrados… O desporto e as artes são boas maneiras de reduzir a ansiedade, assim como as férias, a ocupação dos tempos livres, o ginásio verde (trabalho na quinta ou na horta), as actividades manuais (ergoterapia), ou o consolo da filosofia...
Escrever pode ser uma forma de sentir tranquilidade,  como a terapia com mandalas, a pintura, a dança a música e o teatro... todas as artes podem ser verdadeiras terapias ("Desenho, pinto para me descondicionar" - Henri Michaux)

Pilar Varela refere sete estratégias psicológicas para lutar contra a ansiedade:
Interpretar correctamente as coisas: temos várias maneiras de olhar o que nos acontece, e também aquilo que não sabemos se alguma vez irá acontecer.
Desterrar os pensamentos ilógicos: o nosso pensamento é, muitas vezes, distorcido e exagerado.
Descobrir e expressar os sentimentos: a ansiedade de pende da emoção quer quando a ansiedade provoca a emoção quer quando a emoção provoca a ansiedade
Saber ser assertivo: exprimir os seus sentimentos, nem ser submisso, nem agressivo, nem manipulador
Aprender a ser sossegado: aprende-se através de técnicas como a meditação e o relaxamento
Cuidar da alimentação: estamos cansados de saber a importância de estilos de vida saudáveis, atenção aos excessos:  nicotina, álcool, açúcar, sal, estimulantes...
Ser cauteloso com os medicamentos: acima de tudo terem conta que devem ser prescritos pelo médico.
No próximo programa iremos falar da meditação com atenção plena, no sentido  oração/meditação (John Main) dando relevo ao significado profundo dessa experiência.
________________________________
* Usam-se indistintamente os termos «transtorno», «distúrbio», «perturbação». No Prefácio à Edição Portuguesa do DSM-IV, refere-se que o termo mais adequado é «perturbação»:  "... a designação «perturbação» possui campo semântico mais vasto, denotando uma mudança de estado com alteração das condições de equilíbrio, mas sem as conotações sociais negativas de «distúrbio».

02/04/18

Brazelton, um ponto de referência

Thomas Berry Brazelton, pediatra norte-americano, faleceu no passado dia 13 de Março de 2018. Brazelton, autor de dezenas de livros sobre o desenvolvimento infantil, professor de pediatria na Harvard Medical School, foi um dos defensores mais influentes da criança com o seu contributo na área do desenvolvimento infantil.
A sua prática pediátrica em Cambridge, Massachusetts, em que ajudou vários milhares de pacientes, foi a base a partir da qual emergiu a sua compreensão do desenvolvimento comportamental e emocional da criança e da necessidade de ajudar os pais a enfrentar as crises de desenvolvimento.
Brazelton foi o criador do modelo Touchpoints (“pontos de referência”) seguido e implementado em Portugal pelo pediatra Gomes-Pedro. Este modelo releva a importância do conhecimento que os pais têm dos seus bebés, das suas competências para educarem os filhos e também a importância do aconselhamento e apoio dado pelos especialistas aos pais. 
Desta forma, este modelo leva a abandonar o “modelo patológico”, para passar a um modelo “relacional”. Por ouro lado, leva a substituir um modelo psicoeducativo de “Educação” Parental, pelo de “Suporte” Parental, em que se promovem as competências das famílias.

Em entrevista a Isabel Stilwell, (“Berry Brazelton - eternamente uma delas”, Notícias Magazine, 4-12-2005), explica assim o que são “pontos de referência”:
“Há momentos na vida de uma criança (e na dos adultos também, mas essa é outra conversa), em que se dão «saltos de desenvolvimento». Etapas que obrigam a criança a uma prévia «desorganização» interior, a um armazenar de energia, para depois terem a capacidade necessária para arriscar o salto e para conseguirem uma nova reorganização. Estes momentos colocam uma pressão extra nos pais e, se não tiverem quem os apoie nesses momentos podem ser experiências dolorosas e assustadoras. Mas se, pelo contrário, forem acompanhadas e entendidas, podem ser maravilhosas oportunidades de crescimento, tanto para os pais como para os filhos. Foi por isso que lhes chamámos touchpoints porque se soubermos colocar o «dedo no ponto certo» podemos interagir com o sistema, com ganhos imensos para a família. Quando digo nós, incluo também os técnicos, porque é importante que quem acompanha os pais, nomeadamente o pediatra, conheça estes momentos e saiba prepará-los em conjunto com a família

Identificamos treze touchpoints nos primeiros anos de vida,* que foram aqueles que estudamos mais intensamente. São momentos ligados a tempos de aprendizagem, como por exemplo os touchpoints do aprender a dormir, da alimentação, etc. Um dos mais importantes é logo após o nascimento, em que a vinculação dos pais com o bebé é fundamental (e vice-versa). É um momento em que o recém-nascido tem de se adaptar, mas os pais também, deixando para trás a imagem do bebé idealizado, para a substituir por aquele bebé concreto, que pertence àquele sexo e não a outro, tem aquele peso, aquele tamanho… e aquele temperamento específico. “ (p.23-24)

Fizemos aqui, várias vezes, referência aos ensinamentos de Brazelton, de grande utilidade para quem interage com crianças como são os técnicos ou os pais, particularmente em alguns aspectos críticos do desenvolvimento, como, por ex., na autonomia e independência, disciplina, birras… (12,  3,  4)
Com Brazelton, a psicologia da infância melhorou a nossa compreensão do que é a criança, o desenvolvimento e comportamento infantil, as crises normais do desenvolvimento. E, por outro lado, houve um reconhecimento da importância das competências parentais na educação dos filhos.
Por isso, podemos perceber melhor o que são crises de aprendizagem da autonomia e da disciplina e não atribuir às crianças com comportamentos difíceis a terminologia de ditadores e ou tiranos, como parece ser moda e aparece de vez em quando na comunicação social.
Apreciei, particularmente, o livro de Brazelton Os primeiros passos dos bebés - Uma declaração de independência, sobre o processo da aprendizagem da independência e autonomia e a regulação de comportamentos de disciplina.
Não tenho a pretensão de aconselhar todos os pais a lerem Brazelton, porque os pais sabem o que devem fazer, mas se sentirem dificuldades na interacção com os seus bebés têm um bom recurso nos conhecimentos que Brazelton nos deixou.
Também não precisamos de ser especialistas em Touchpoints para podermos usar a informação que Brazelton e colaboradores nos transmitiram. Para mim, tiveram particular importância livros como Dar atenção à criança - Para compreender os problemas normais do crescimento; A relação mais precoce – Os pais, os bebés e a interacção precoce; Os primeiros passos dos bebés - Uma declaração de independência; A Criança e a disciplina – O método Brazelton.
Brazelton, criador dos “pontos de referência” é, também ele, um ponto de referência no campo da psicologia do desenvolvimento infantil.
_________________
* Um resumo dos Touchpoints. Neste texto o 13º ponto de referência, refere-se, certamente, aos 3 anos e não 18 meses.


15/03/18

Dores há muitas ... Competências clínicas de comunicação

A comunicação, fundamental para o ser humano, é um dos problemas em qualquer serviço onde haja pessoas que necessariamente têm que comunicar. É ainda mais sensível quando ela se faz  entre o doente e o seu médico ou  psicólogo, ou a equipa que atende o doente por exemplo num serviço de urgência hospitalar, o médico, enfermeiros e outros profissionais dessa equipa.

Na posição de cliente ou doente que tem de recorrer, ultimamente com mais frequência, aos serviços de saúde particulares ou estatais, temos a perspectiva da parte mais fragilizada da interacção, de um dos lados dessa comunicação mas, obviamente, com toda a nossa experiência  e vivência nesse campo.
Com o recurso às tecnologias  é possível melhorar a comunicação entre os vários profissionais, sabendo uns o que outros estão a fazer, procurando com isso reduzir  em tempo oportuno, sofrimento físico e sofrimento psicológico.  
Sem dúvida, tem sido feito um esforço pelos serviços… Mas, p.ex., em visita recente do ministro da saúde à ULS - Hospital Amato Lusitano,  o seu director disse directamente ao sr. ministro que havia falta de 40 profissionais nos serviços do hospital, sendo metade enfermeiros. Obviamente, podemos prever os constrangimentos que esta redução de pessoal tem provocado...
Também, na relação humana, na comunicação com os doentes, há  muito que melhorar. É na relação médico-doente que essa comunicação é fundamental. Também isto quer dizer que apesar do défice de condições materiais para que o acto clínico possa decorrer nas melhores condições, o que salva muitas vezes o funcionamento de um serviço e, mais importante, o doente, é exactamente esse acto clínico, a competência e dedicação dos seus profissionais, para além das condições.  

As competências clínicas de comunicação são fundamentais para quem exerce esta relação e esta relação clínica.
Como dizíamos a semana passada é este doente concreto que pede ajuda  “e não a parte de si suposta perturbada e muito menos a sua doença. Pede ajuda para a defesa e manutenção de tudo aquilo que a doença lhe está  a  ameaçar, a saber:
Integridade física, psicológica e social; Segurança, porventura a mais angustiante das necessidades; Controlo sobre a situação e o stress;  Informação e Decisão que preservem  a autodeterminação; Dignidade; Autonomia sinal primário de saúde. Às vezes, necessidade de Expressão e de Orientação no tempo e no espaço”
A resposta a todas estas necessidades pressupõe Comunicação. E não há necessidade mais básica do ser humano do que Exprimir-se."(p. 6)
Uma dor intensa como numa litíase renal poderá ser atenuada se for explicado ao doente o  que se passa. No meu caso, foi muito mais intensa porque só quando o episódio estava ultrapassado compreendi a origem do meu mal.
A comunicação clínica tem melhorado muito desde essa altura. No entanto,  ainda se deve  e se pode melhorar muito neste aspecto.
Dispomos de imensa informação sobre saúde  e doença,  a todos os níveis, que também ela contribui para as pessoas estarem mais informadas, compreenderem melhor as opções e estilos de vida saudáveis que querem adoptar ou ignorar.
Para além da comunicação social massificada, tanto nos canais abertos como no cabo, ou na internet, hospitais e farmácias têm editado publicações, em papel e em formato digital, que ajudam a esclarecer, prevenir, reduzir a ansiedade ou alertar para as questões de saúde que de alguma forma podem vir a comprometer o nosso bem-estar. É de elogiar esse esforço.  
Toda a informação, no entanto, não dispensa a qualidade da  relação  e comunicação de que aqui falamos e as competências clínicas nela envolvidas.