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08/03/20

8 de Março: Reflectir, honrar e agir



Dia Internacional da Mulher: Porque é que ainda se celebra este dia?
"É um dia em que todos devemos refletir acerca do progresso a nível de direitos humanos, e honrar a coragem e determinação das mulheres que ajudaram e continuam a ajudar a redefinir a história, local e globalmente."
"Apesar de todos os avanços relativos aos direitos das mulheres, nenhum país atingiu a igualdade plena entre homens e mulheres."
Mas há uns piores do que outros: Professor condenado à morte por ensinar que as mulheres têm direitos assim como os homens.

Sobre o 8 de Março, escrevi, em 2017:  8 de Março: Mitos e realidade.


16/02/20

Ciúme e violência doméstica


https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/1e/%282%29_Cycle_of_abuse%2C_power_%26_control_issues_in_domestic_abuse_situations.gif



O ciúme é uma das causas que está na origem da violência doméstica. Agride-se, violenta-se e mata-se, por causa do ciúme, sendo a vítima principalmente a mulher, como as estatísticas comprovam.
Para a Associação de Apoio à Vítima (APAV), a violência doméstica abarca comportamentos utilizados num relacionamento, por uma das partes, sobretudo para controlar a outra.
Assim, a violência doméstica abrange:
- os actos criminais enquadráveis na legislação (art. 152º, Código Penal, Decreto-Lei n.º 48/95): maus tratos físicos; maus tratos psíquicos; ameaça; coacção; injúrias; difamação e crimes sexuais (sentido estrito).
- outros crimes em contacto doméstico: violação de domicílio ou perturbação da vida privada; devassa da vida privada (imagens; conversas telefónicas; emails; revelar segredos e factos privados; etc. violação de correspondência ou de telecomunicações; violência sexual; subtracção de menor; violação da obrigação de alimentos; homicídio: tentado/consumado; dano; furto e roubo), em sentido lato).
O ciúme é um sinal de que algo não está a correr bem na relação do casal. Em muitos casos pode explicar a a violência doméstica e o feminicidio. Porém, há muitas outras causas que explicam estes comportamentos.
Continua a haver, no contexto social em que vivemos, o sentimento de que uma pessoa, normalmente a mulher, é propriedade de outra pessoa, em geral o homem, e tem contado com alguma passividade por parte da sociedade.

Assim sendo, a pessoa ciumenta controla a vítima do seu ciúme até ao limite preferindo a sua eliminação a vê-la com outra pessoa: "perdido por cem perdido por mil".

Para Freud, "O ciúme é um daqueles estados emocionais, como o luto, que podem ser descritos como normais. Se alguém parece não possuí-lo, justifica-se a inferência de que ele experimentou severa repressão e, consequentemente, desempenha um papel ainda maior em sua vida mental inconsciente. Os exemplos de ciúme anormalmente intenso encontrados no trabalho analítico revelam-se como constituídos de três camadas. As três camadas ou graus do ciúme podem ser descritas como ciúme (1) competitivo ou normal, (2) projetado, e (3) delirante.
Não há muito a dizer, do ponto de vista analítico, sobre o ciúme normal. É fácil perceber que essencialmente se compõe de pesar, do sofrimento causado pelo pensamento de perder o objeto amado, e da ferida narcísica, na medida em que esta é distinguível da outra ferida; ademais, também de sentimentos de inimizade contra o rival bem-sucedido, e de maior ou menor quantidade de autocrítica, que procura responsabilizar por sua perda o próprio ego do sujeito. Embora possamos chamá-lo de normal, esse ciúme não é, em absoluto, completamente racional, isto é, derivado da situação real, proporcionado às circunstâncias reais e sob o controle completo do ego consciente; isso por achar-se profundamente enraizado no inconsciente, ser uma continuação das primeiras manifestações da vida emocional da criança e originar-se do complexo de Édipo ou de irmão-e-irmã do primeiro período sexual... 
O ciúme da segunda camada, o ciúme projetado, deriva-se, tanto nos homens quanto nas mulheres, de sua própria infidelidade concreta na vida real ou de impulsos no sentido dela que sucumbiram à repressão...
... A posição é pior com referência ao ciúme pertencente à terceira camada, o tipo delirante verdadeiro. Este também tem sua origem em impulsos reprimidos no sentido da infidelidade, mas o objeto, nesses casos, é do mesmo sexo do sujeito. O ciúme delirante é o sobrante de um homossexualismo que cumpriu seu curso e corretamente toma sua posição entre as formas clássicas da paranóia. Como tentativa de defesa contra um forte impulso homossexual indevido, ele pode, no homem, ser descrito pela fórmula: ‘Eu não o amo; é ela que o ama!’ Num caso delirante deve-se estar preparado para encontrar ciúmes pertinentes a todas as três camadas, nunca apenas à terceira." (S. Freud, Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranóia e no homossexualismo, 1922)

O ciúme difere da inveja na medida em que envolve mais do que duas pessoas: o medo da perda por parte do sujeito activo do ciúme, a pessoa de quem se sente ciúmes e a terceira pessoa que é o motivo dos ciúmes.

Nos casos de ciúme patológico, verifica-se uma permanente desconfiança e um estado de tensão, angústia e insegurança pelo medo de ser traído, conduzindo a um constante controle das ações do parceiro, mesmo que este não tenha dado razões para tal. As reacções são desproporcionais e podem mesmo ser agressivas do ponto de vista físico e psicológico, gerando sofrimento para ambas as partes.

Como fenómeno psicológico complexo, o ciúme manifesta-se em todas as classes sociais, idades e regiões. O ciúme é também um comportamento complexo porque envolve um largo conjunto de emoções, pensamentos, reacções físicas e comportamentais.
O sofrimento da pessoa que tem ciúmes envolve toda a sua personalidade: as emoções tornam-se tóxicas, os pensamentos obsessivos, de desconfiança, e de ressentimento, as reacções físicas ficam dependentes da angústia e ansiedade e os comportamentos desajustados, agressivos e violentos.

Nesta situação, (se acha que os seus relacionamentos estão nesta situação) procurar ajuda especializada é o melhor caminho para o equilíbrio psicológico e para acabar com o seu sofrimento psicológico e o de outras pessoas.







05/02/20

Tráfico de crianças


https://www.unodc.org/documents/data-and-analysis/glotip/2018/GLOTiP_2018_BOOK_web_small.pdf



O tráfico de crianças é um caso especial de tráfico de seres humanos,  uma prática de sequestro, desaparecimento e ocultação da identidade das crianças, que se destina a  adopção ilegal, a exploração infantil, tanto para trabalho escravo  como sexual, actividades  criminais e uso militar das crianças.

Embora haja zonas do mundo onde estas práticas são mais evidentes, o nosso país não passa incólume a esta situação.  Vejamos duas situações recentes:

1. Uma notícia de 6-11-2019 da Renascença informa-nos de que, no último ano e meio, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) perdeu o rasto a 66 menores, que chegaram sozinhos ao aeroporto de Lisboa, pediram asilo a Portugal e desapareceram. A maioria terá como destino a exploração sexual.
Estas pessoas “destroem os seus próprios documentos, viajam sozinhas ou controladas por alguém dentro do voo e uma vez num Estado-membro solicitam asilo. Mais cedo ou mais tarde o seu processo será decidido, mas enquanto esperam estão, na maior parte das vezes, em regime aberto e desaparecem”. (Mário Varela, inspector da Unidade Anti-Tráfico de Pessoas do SEF - Renascença, "Tráfico de menores. Pedem asilo e depois desaparecem. Quantos? Todos". Celso Paiva Sol, Renascença, 6/11/2019)*

2. Joana Amaral Dias, recentemente, adoptou uma criança, viajou com o menino (Dinis) e a restante família para Cuba onde estiveram de férias, e contou que esta "foi uma experiência assustadora". "Porque fomos para Cuba e levei um papel do tribunal para comprovar que ele [Dinis] está à minha guarda, e acreditam que saí da Europa, entrei em Cuba, saí de Cuba, voltei a entrar na Europa sem nunca me pedirem esse papel. Dá que pensar. Fiquei assustadíssima" . ("Joana Amaral Dias partilha "experiência assustadora" com filho adotivo", Notícias ao Minuto, 28/1/2010)

Um relatório da ONU, de 07-01-2019, Global Report on Trafficking in Persons 2018, refere que dos  142 países analisados, as crianças representam 30%, quase um terço, de todos os indivíduos traficados, sendo o número de meninas afectadas superior ao de meninos.
Em 2016, quase 25 mil pessoas foram traficadas no planeta - 70% eram do sexo feminino, com as meninas representando 20% de todas as vítimas. A exploração sexual corresponde a cerca de 59% do total dos casos. O trabalho forçado foi identificado em 34% das ocorrências.
Embora as crianças sejam em sua maioria vítimas do tráfico para trabalhos forçados (50%), muitas também são vítimas de exploração sexual (27%) e outras formas de exploração, como mendicidade forçada, recrutamento para tropas e grupos armados e actividades criminosas forçadas. 
As meninas foram vítimas de exploração sexual em 72% dos episódios analisados. Casos de trabalho forçado envolvendo as jovens menores de idade equivaliam a 21% do total.

O tráfico de crianças é um dos mais abjectos comportamentos do ser humano e priva as crianças de praticamente todos os seus direitos fundamentais: o direito a uma família,  à educação, à saúde,  a não sofrerem maus tratos, ao desenvolvimento  num ambiente afectivo e emocional…
Os países e respectivos governos são responsáveis pela incapacidade de organização de um sistema de protecção eficaz para estas crianças.
Como diz Joana Amaral Dias vivemos de facto num mundo "assustador" e, acrescento eu, um mundo sem-vergonha e um mundo desumanizado (Seligman **).
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* Escrevi sobre o assunto em  Maldade: o caso das crianças desaparecidas.
** Forças de carácter da virtude Humanidade: Amor, Bondade e Inteligência social.




https://www.mixcloud.com/RACAB/cr%C3%B3nica-de-opini%C3%A3o-de-carlos-teixeira-06-02-2020/




29/12/19

Psicologia do trânsito * - a busca de sensações


Acidentes de viação com vítimas, feridos e mortos (Continente). Pordata

 
A Psicologia do trânsito e da condução compreende, avalia e intervém nos comportamentos das pessoas quer sejam peões, condutores de automóveis, motociclos e outros meios de locomoção.

O número de vítimas que vinha numa tendência decrescente nos últimos anos voltou a subir. O Número de mortos na estrada subiu 17% em dois anos.
Para além de todos os impactos individuais, familiares e sociais da sinistralidade rodoviária, os impactos na economia são muito importantes. Os Acidentes rodoviários tiram 1,2% ao PIB, ou seja, 2,3 mil milhões de euros.

Compreender a relação entre a personalidade e os comportamentos desajustados e ou transgressivos na condução é sempre relevante. Ainda mais nas circunstâncias actuais em que, novos factores, positivos ou negativos, como, por ex., o uso do telemóvel durante a condução, ou de novos meios de locomoção nas cidades (bicicletas, trotinetes...), vieram alterar o panorama da condução, apesar de haver factores positivos como a melhoria das infraestruturas (Portugal é o 2º país da UE com melhores estradas).

A personalidade do condutor afecta a forma de condução e tem implicações nos resultados da sinistralidade. Alguns dos comportamentos dos condutores não seriam, aparentemente, tão difíceis de alterar como por exemplo: não usar o telemóvel enquanto se conduz, não conduzir sob o efeito de álcool e de drogas, reduzir o excesso de velocidade…
Porque é tão difícil a mudança mesmo quando está em jogo a vida das pessoas ?

Na teoria da personalidade do psicólogo Marvin Zuckerman, o factor impulsividade e "busca de sensações" (sensation seekings) poderá explicar este comportamento. Esta busca de sensações inclui a necessidade de vivenciar novas emoções e situações, bem como a tendência a assumir riscos em diferentes áreas da vida. Impulsividade e o factor psicoticismo referidos pelo psicólogo Eysenck ** também seriam incluídos nesta dimensão, que tem sido relacionada com alterações nos níveis de testosterona, dopamina e serotonina.

Os resultados de um Estudo da PRP, sobre a distracção dos condutores, mostram a elevada utilização do telemóvel durante a condução na cidade de Lisboa, sobretudo por parte dos condutores mais novos e dos que viajam sozinhos. Dos condutores observados, 7.7% estavam a utilizar o telemóvel enquanto conduziam e 13.7% quando parados num semáforo.

Numa investigação de 2010, Joana Conceição Soares Alves, sobre a relação entre a personalidade e os comportamentos de condução transgressivos e os crimes estradais, verificou-se que os condutores que cometem crimes estradais obtiveram maior pontuação na dimensão neuroticismo e busca de sensações (sensation seeking). No entanto, os condutores que cometeram crimes estradais não praticaram mais comportamentos de condução transgressivos do que os condutores sem contacto com a justiça.

Das 675 pessoas que morreram em acidentes de carro no ano passado, 536 (79%) eram homens.
A investigação de José Poças Correia sobre se há diferenças sexuais nos comportamentos dos condutores e condutoras permitiu verificar que apesar de os condutores homens cometerem mais infracções do que as mulheres, as mesmas são de origem multicausal, não sendo possível estabelecer uma relação unívoca com determinadas características da personalidade e determinados estados emocionais. ….
No entanto, o sexo diferencia os traços de personalidade, os estados emocionais e a sua associação aos comportamentos de risco na condução, devendo ser considerado na formação de futuros condutores e nas acções de sensibilização relacionadas com a prevenção e segurança rodoviária.

Vários apelos cívicos, como o apelo do sr.  Presidente da República, e programas de informação e prevenção são feitos aos portugueses para se combater a sinistralidade rodoviária no país.
As campanhas  de  informação, prevenção e fiscalização das forças de segurança principalmente nas datas festivas, têm tido resultado insatisfatório.
Por isso, com os votos de boas festas, aqui fica o meu apelo: Neste Natal dê um presente a si próprio, respeite a sua vida e a vida dos outros.

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* A traffic psychology (a psicologia do trânsito) estuda "a relação entre processos psicológicos e o comportamento dos usuários da estrada. Em geral, a psicologia do tráfego visa aplicar aspectos teóricos da psicologia, a fim de melhorar a mobilidade do tráfego, ajudando a desenvolver e aplicar contramedidas contra acidentes, bem como orientando os comportamentos desejados por meio da educação e da motivação dos usuários da estrada."(Wikipedia)
"A psicologia do trânsito tornou-se um domínio de estudo específico que se interessa particularmente pelas reacções de cólera ao volante comportando condutas de risco" Clément Guillet, "Pouquoi la voiture rend-elle fou?", le cercle psy, nº 34, pag. 96-97.
** Eysenck identificou 3 dimensões de personalidade independentes (PEN): Psicoticismo (P), Extroversão (E) e Neuroticismo (N).



https://www.mixcloud.com/RACAB/cr%C3%B3nica-de-opini%C3%A3o-de-carlos-teixeira-19-12-2019/