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13/07/19

"As três bençãos"


Temos aqui falado da psicologia positiva criada pelo psicólogo Martin Seligman e da teoria do bem-estar que integra, entre outras medidas, as emoções positivas.
Temos tendência a dar relevo ao que de errado acontece na nossa vida e no meio social em que vivemos. O que atrai mais a curiosidade das pessoas, nos eventos sociais e políticos descritos pela comunicação social, são essencialmente os assuntos negativos e as notícias com maiores audiências são acidentes, desastres naturais, todo o tipo de violência, conflitos políticos, guerras ...
Por outro lado, a nível pessoal, na avaliação que fazemos dos nossos comportamentos, em geral, temos tendência a dar mais relevo ao que fizemos errado e a quem nos fez mal; vamos para a cama e não conseguimos dormir porque algo aconteceu que foi perturbador durante o dia e ficamos ali a ruminar nesses pensamentos negativos.

Seligman, tem vindo a estudar o que é a felicidade e o bem-estar. O bem-estar tem cinco elementos básicos:
1) a emoção positiva, da qual a felicidade e a satisfação com a vida são dois aspectos;  2) o envolvimento; 3) as boas relações ; 4) o significado; 5) realização pessoal.

O que é necessário para ser feliz ou ter uma vida boa? O triângulo ser rico, ter poder e sucesso social é talvez o que move muita gente. Porém, podemos perguntar quantos milhões de euros são necessários para fazerem a nossa felicidade, ou a que preço fica o poder ou o sucesso. Os dias de hoje são elucidativos quando a corrupção de milhões, todos os dias com novos casos, nos deixa estupefactos sobre a indignidade e também fragilidade do ser humano, face a estas três situações.
Ou, pelo contrário, a felicidade será ser capaz de desenvolver e atingir o potencial humano sentindo-nos desta forma mais felizes… e o bem-estar está em aumentar as nossas emoções positivas, as relações positivas e a autorrealização? Esta perspectiva psicológica - a psicologia positiva - é mais enriquecedora do que a perspectiva psicopatológica do disfunconamento mental.

O trabalho de procurar o funcionamento positivo da nossa mente pode ser desenvolvido com crianças, adolescentes e adultos. Com base na perspectiva de Seligman, trabalhava com os meus alunos, sobre as forças positivas que cada um de nós tem, tentando descobrir aquelas que são os pontos fortes da sua personalidade. Era interessante verificar como, por vezes, ficavam surpreendidos com as suas forças positivas que eles desconheciam de uma forma estruturada.
A gratidão é uma dessas forças. Já aqui falámos várias vezes sobre ela.

Hoje queria falar de outro exercício proposto por Seligman. (pag. 47)
A dor e a perda que mais tarde ou mas cedo perpassa pela nossa vida transformam-nos e podem conduzir a estados depressivos ou a sentimentos mais profundos de compreensão do que somos na realidade interior e na relação com os outros.
E, embora possam ter os seus pontos mais perturbadores em determinados momentos, todos os dias nos confrontamos com estes sentimentos, com a nossa cultura de preocupação e de ansiedade.
Seligman propõe o exercício das "três bênçãos", que consiste no seguinte:
Durante a próxima semana, antes de ir dormir, em 10 minutos, escreva três situações que correram bem durante um dia, considerando-se o porquê de isso ter acontecido.
Podem ser acontecimentos importantes mas também os mais simples do nosso quotidiano.
No princípio poderá parecer estranho mas o mais provável é que daqui a seis meses esteja menos deprimido, mais feliz e viciados neste exercício.

Neste período de férias que se vai seguir queria deixar uma nota positiva para o bem-estar de cada um. Às vezes as ideias simples e positivas são as mais eficazes. Gostava de despertar em si este sentimento de que é uma pessoa abençoada.
Boas férias.

04/05/19

A segurança do cidadão

1. É provável que mesmo os menos familiarizados com a Psicologia, já tenham lido ou tenham ouvido falar das necessidades humanas. Mas certamente todos sentimos a realidade dessas necessidades.
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Daqui
O psicólogo Abraham Maslow concebeu a motivação humana como um conjunto de necessidades  hierarquizadas que definem as necessidades básicas e outras necessidades do indivíduo  para ter uma vida plena.
De facto, o homem procura ao longo da sua via a autorrealização. Para isso, o indivíduo deve ter asseguradas as necessidades básicas.
Estas necessidades primordiais são as fisiológicas: ar, alimento, bebida, sono, calor, exercício, logo seguidas das necessidades de segurança: segurança, estabilidade, saúde, refúgio, dinheiro, emprego, e das necessidades  de amor e pertença: aceitação, amizade, intimidade, relação, e ainda de autoestima: sucesso, reconhecimento, respeito, competência. (O Livro da Psicologia, Abrahm Maslow, «O que um homem pode ser, deve sê-lo», págs. 138-139)

2. Como necessidade fundamental, a segurança do cidadão deve estar  garantida de forma a que o indivíduo possa desenvolver-se e ascender às necessidades de autorrealização.
Como podemos conseguir atingir este patamar?  Maslow “afirma que cada um de nós tem um propósito individual para si, para o qual está singularmente dotado e parte do caminho em direcçao à plenitude  consiste em identificar  e perseguir tal propósito.”
Portanto, não se trata apenas de vivermos numa sociedade que proporcione todas as necessidades básicas  ao individuo mas também de cada individuo procurar o propósito da sua vida e assim tudo poderá concorrer para atingir a autorrealização. Isto é, se podemos ser infelizes na mais segura das sociedades, isso não tira importância ao papel que as instituições do estado e da sociedade civil devem ter na protecção dos cidadãos.

3. Como sabemos, "A violência, nascida com a vida, acompanha o homem ao longo da sua história. Mas nenhum historiador é capaz de dizer como este fenómeno evoluiu ao longo dos séculos. Ao contrário,  as estatísticas, após uma data relativamente recente, permitem afirmar que a violência, considerada sobre todas as suas formas, aumenta." (Jean Voujour, La sécurité du citoyen, p. 3)
O que é contraditório é que o “meio económico, cada vez mais complexo pelo progresso técnico, assim como a elevação do nível de vida, fonte de multiplicação de bens, revela-se em parte responsável pela violência, incitando à agressão, facilitando o acidente, enquanto que ao mesmo tempo, a protecção eficaz dos bens e das pessoas é frequentemente negligenciada. Por conseguinte, a segurança tornou-se um dos maiores problemas da nossa sociedade." (idem, p. 3)
Por outro lado, numa altura em que  o terrorismo chegou à obscenidade dos últimos  tempos, a corrupção nunca foi tão avassaladora, as instituições do Estado devem assegurar a segurança no nosso quotidiano

4. Perante este problema, o governo minoritário de A. Costa, apresenta-se como a última versão pós 25 de Abril do "nós por cá todos bem", nega os  problemas graves, nega até que haja problemas, não reconhece a responsabilidade dos responsáveis governativos pelas cativações, principalmente na saúde, com as infindáveis listas de espera, o aumento da dívida, a procrastinação do investimento, o atraso nas pensões,  o amiguismo e o nepotismo, as falhas estruturais de combate aos incêndios, o roubo de armas, o tratamento dado aos professores* e aos técnicos especializados da educação (psicólogos, terapeutas, ILG...), aos enfermeiros, etc.
Assim, quem é que pode estar seguro ? 
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* Afinal havia um problema com os professores, criado no Parlamento por uma "coligação negativa". Este texto foi escrito antes de 3 de Maio, data da ameaça de demissão do governo pelo primeiro-ministro, ele próprio  à frente da mais longa "coligação negativa" que existiu neste país e a que Paulo Portas, eufemisticamente, deu o nome de "geringonça".

25/10/17

Marcelo: o alfabeto do coração

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1. A dor de Marcelo. A dor de cada um de nós. "A nossa dor neste momento não tem medida". Marcelo decidiu dar importância às pessoas, lá onde elas têm as suas circunstâncias e o seu sofrimento. E sabemos como é difícil ao poder reconhecer e dar importância às pessoas que sofrem, para além dos lindos discursos de solidariedade.
Não é de agora mas o comportamento de Marcelo ainda nos surpreende pelo espontâneo e genuíno sentimento de compaixão, que contrasta com o calculismo de alguns políticos. São centenas de abraços que, parece, nunca o cansam. É importante a abreacção. É importante que a dor de cada pessoa tenha uma expressão: de choro, desabafo e sentimento.
Não é necessário concordar com tudo o que Marcelo fez ou faz. No essencial é com grande inveja que tenho visto a capacidade de um homem expressar um comportamento genuíno, de ser pessoa aqui e agora, de ser gente com gente na frente, de se meter no fato e nos factos do outro.
Excesso de exposição ou a mais profunda solidariedade? Marcelo não tinha necessidade de estar em grande parte das coisas em que tem estado... Mas ainda bem que o tem feito. O contacto, o toque das emoções com os mais frágeis, idosos, crianças, sem abrigo, e agora com as vítimas dos incêndios tem sido apaziguador do conflito interior de quem ficou com nada do trabalho de uma vida inteira. É ainda uma tomada de consciência da incapacidade que foi manifestada pelo executivo de ao menos pedir desculpa e tomar medidas expeditas para minimizar ocorrências semelhantes.

2. Marcelo diz que devemos ter uma "visão panorâmica": "cada um na sua casa pensa que tem melhor visão do que os outros", referia Marcelo no cimo de uma colina, num destes dias de calamidade.
É esta visão que um político deveria ter sempre para poder ser político. Nesta discussão sobre os incêndios ouvimos todas as opiniões e as suas contrárias. São os eucaliptos, a desertificação, a falta de limpeza das matas, o desordenamento, a falta de meios, de comunicações, de vigilância… Por isso uma metodologia panorâmica parece ser a melhor para encontrar soluções mais do que a solução.

3. Marcelo tem o seu estilo próprio. Poderá haver pessoas que exprimem sentimentos de compaixão de outra forma. No entanto, este estilo é de enaltecer vinda do PR ao lidar com uma tragédia como esta. Podia ou deveria servir de modelo para os políticos que com distância e frieza trataram o assunto e que não deixa de evidenciar um contraste chocante com a realidade das pessoas.
Marcelo mostrou solidariedade e compaixão com a compreensão que fez do estado emocional das outras pessoas. A compaixão usa a delicadeza para com aqueles que sofrem e alivia o sofrimento de outro ser humano.
James Doty criou o “alfabeto do coração” para ser usado como um exercício de meditação. O alfabeto do coração inclui: Compaixão, Dignidade, Equanimidade, Perdão, Gratidão, Humildade, Integridade, Justiça, Bondade e Amor.
Marcelo diz que gosta de tratar as pessoas assim porque gostou da compaixão dos outros quando em sofrimento. Não é mais do que “tratar os outros como gostávamos de ser tratados por eles”.
O alfabeto do coração também inclui:
A dignidade que todo o ser humano deve ter.
Equanimidade, a serenidade encontrada entre os altos e baixos dos acontecimentos.
Saber perdoar aqueles que falharam .
Gratidão por tudo o que conseguimos obter.
Humildade porque não é melhor nem pior do que outros.
Ter integridade, ou seja, orientar as suas acções pela honestidade.
Ter justiça para com aqueles que são mais vulneráveis.
Bondade pelo reconhecimento da humanidade do outro.
E, finalmente, o Amor que contém e liga tudo.

08/10/17

Mãe e filhos


1. É importante falar, escrever e fazer a divulgação da relevância  para o desenvolvimento da relação da mãe com os filhos. Esta interacção privilegiada, a vinculação 1, coloca em relevo o importante papel que a mãe assume nesse desenvolvimento.  É um comportamento inato dos primatas e em particular dos humanos.
"Embora o conhecimento esteja longe de ser definitivo 2, a investigação permitiu já concluir que os laços que se estabelecem entre mãe e filho constituem o primeiro modelo de relacionamento humano do bebé, potenciando uma sensação  de segurança e de autoestima positiva. Além de que a resposta dos pais aos sinais do bebé também pode influenciar o desenvolvimento social e cognitivo do bebé. Não há, contudo, uma fórmula mágica: é uma experiência pessoal e complexa que não pode ser forçada." (p. 16)
Este processo de vinculação começa muito antes do parto e continua depois do nascimento. De facto, "quando o parto acontece, já se pode dizer que os dois se conhecem, sendo reconhecido que a ligação afetiva que se estabelece durante a gestação é um dos processos mais importantes desses nove meses. É verdade que essa intimidade é sensível a um conjunto de variáveis, nomeadamente a idade da mãe, o apoio familiar e social recebido, o contexto da própria gravidez. Mas também é verdade que, após o nascimento é fundamental consolidar os laços que se começaram a gerar durante a gestação." (p.15)

Há situações, em que por diversas circunstâncias (falecimento, separação forçada pela guerra, acidentes, doença...) a mãe não está presente, e a vinculação é feita a pessoas de referência da criança... Mas esta é uma situação inultrapassável e não há outra resposta mais adequada para o desenvolvimento adequado e seguro da criança.
A adopção surge também como uma dessas possibilidades em que o superior interesse da criança passa por este tipo de resposta, sendo preferível  à institucionalização, p ex..


A partir dos anos 50 do século passado, a psicologia passou a dispor de um conjunto de dados resultante da investigação animal e humana que fundamentaram com segurança este processo de interacção.
Há alguns anos, R. Zazzo recolheu em livro a opinião de vários especialistas sobre  a vinculação. A mudança conceptual que vinha trazer em relação à necessidade primária que a vinculação representava, mostrava uma perspectiva diferente da  relação mãe-filho.  Ficava em questão quer o conceito da psicanálise enquanto defensora de que essa vinculação era secundária em relação à necessidade primária de alimentação, como o do behaviourismo que seria secundária em relação ao reforço.


Para Bowlby (O vínculo mai-filho e a saúde mental, Galiza editora) "a vinculação não é exclusiva da nossa espécie já que existe igualmente tal como o demonstraram outros autores (como Harlow, Hinde e Lorenz) na primeira infância de muitos mamíferos e algumas aves." (p.13)
A teoria da vinculação (apego) é um modo de conceptualizar a tendência dos seres humanos a estabelecerem fortes vínculos afectivos com outros seres particulares e de explicar as múltiplas formas de aflição emocional e transtorno da personalidade que compreendem a ansiedade, a ira a depressão e o desapego emocional a que dão lugar a separação e a perda não desejadas" (p. 27)
O DSM caracteriza a Perturbação reactiva de vinculação da primeira infância e início da segunda infância. (No Brasil, "Transtorno de apego").

2. A gestação de substituição, aprovada em conselho de ministros, (Decreto Regulamentar n.º 6/2017- DR n.º 146/2017, Série I, de 2017-07-31) 3 certamente tem muito a ver com o que se disse antes  e os senhores deputados devem ter ponderado o assunto, seriamente. De facto, a mãe é indispensável para o desenvolvimento da criança. Por isso, para este efeito há necessidade
"d) De uma declaração de psiquiatra ou psicólogo favorável à celebração do contrato de gestação de substituição".
 Apesar do risco, parece compreensivo que haja situações excepcionais em que a gestação de substituição tenha  lugar.

Por outro lado, há cláusulas que não se sabe como vão ser resolvidas, na prática, e como vai ser feito o seu controlo, como:
"k) A gratuitidade do negócio jurídico e a ausência de qualquer tipo de imposição, pagamento ou doação por parte do casal beneficiário a favor da gestante de substituição por causa da gestação da criança, para além do valor correspondente às despesas decorrentes do acompanhamento de saúde efetivamente prestado, incluindo em transportes".

3. Seja como for, o DR estipula as condições da gestação de substituição. Fora destas situações e fora dos limites impostos, trata-se de um negócio que nunca deixará de ser outra coisa senão a compra e venda de crianças.

4. O caso Cristiano Ronaldo, como escreve H. Raposo ou Isabel Stilwell, tendo em conta os direitos da criança a ter uma família não cabe nesta situação porque a legislação portuguesa não o permitiria. Mas a moral também não.  
Podemos ser fãs de Ronaldo, apreciar as suas atitudes e comportamentos nas diversas  situações desportivas, reconhecer a sua caridade ou filantropia para com os outros, nomeadamente as atitudes relativamente a crianças com dificuldades de saúde ou outra ordem, acompanhá-lo até ao fim do mundo, porém, o nosso caminho tem, necessariamente, que acabar aqui. Como Saramago, "até aqui cheguei", mas não daqui em diante.4

5. Do ponto de vista psicológico, qualquer situação deste tipo, configura uma situação de risco de vinculação. Ou seja, uma situação de risco em relação aos direitos da criança.

___________________
1. Maria Rita Silva, «Mãe e filhos: uma relação única», PH, nº 15, Maio-Junho 2017.

2. Discute-se a questão da vinculação e critica-se que "La relation mère-enfant devient le seul objet de l’évaluation, elle est donc réalisée indépendamment de la relation paternelle (ici les absents n’ont pas toujours tort), de l’environnement familial élargi et du contexte culturel, économique et social dans lequel l’enfant a évolué." Le cercle psy
" Surtout diverses enquêtes, dont celles qui ont servi de base à la notion de résilience, montrent que bon nombre d’individus mal partis déjouent tous les pronostics. Inversement, d’autres tournent mal alors qu’ils ont bénéficié d’un soutien parental sans faille. L’attachement sécure est un atout, pas une baguette magique. Ni sans doute un ingrédient indispensable." J.- F. Marmion, Le cercle psy

3. A designação  "barrigas de aluguer" mostra bem que a natureza deste negócio não se coaduna com a letra ou o espírito do normativo  (Decreto Regulamentar n.º 6/2017DR).

4. Mesmo com a militância política de Saramago é necessário reconhecer-lhe a grandeza moral de condenar o regime cubano. De facto, quando "O governo cubano executou na sexta-feira passada três homens sumariamente condenados por assaltar uma balsa com o propósito de fugir para os EUA" , Saramago escreveu: "Até aqui cheguei. De agora em diante, Cuba seguirá seu caminho, e eu fico onde estou. Discordar é um direito que se encontra e se encontrará inscrito com tinta invisível em todas as declarações de direitos humanos passadas, presentes e futuras. Discordar é um ato irrenunciável de consciência." 16 de Abril de 2003, Folha de S. Paulo.

10/08/17

Confiança básica

 ...
"Olha-me. Nunca me irei embora; mesmo quando já cá não estiver, basta-te abrir pernas e braços, pôr o peito para cima e fechar os olhos, dessa vez fecha os olhos, para me veres onde estou: aí dentro. Quando essa cabeça quiser pensar em nada, que serei eu dentro de ti, fecha os olhos. Nós os dois aqui, um ao lado do outro, a boiar no mar calmo de olhos postos no céu imenso.

A extraordinária relação pai-filho que nasce nas pequenas coisas da vida, da aprendizagem do quotidiano, da confiança básica (E. Erikson), do amor profundo entre dois seres. Muito gratificante. 
Obrigado AAA. 
Partilhei no facebook.

04/07/17

06/04/17

Saúde e doença

O inestimável contributo de Freud e dos vários estudiosos do comportamento para compreender a vida psicológica do ser humano ajudou-nos a compreender a saúde e a doença em termos até então inéditos.
Conhecemos hoje melhor o funcionamento mental, os comportamentos das pessoas e, portanto, conhecemos melhor a sua saúde e doença.
Com António Damásio (“O Erro de Descartes”), percebemos como corpo e mente estão de tal modo relacionados que um não existe sem a outra deixando de fazer sentido a separação corpo e mente.
A unidade da psicologia não pode prescindir de nenhum factor. Na realidade o sofrimento psicológico e o sofrimento físico têm sempre subjacente factores biológicos e psicológicos.
Vivemos tempos em que esta realidade está bem patente na vida das pessoas. A saúde psicológica é cada vez mais relevante e levada a sério desde a infância até à velhice.
Com mais enfoque no biológico ou no social, desde há muitos anos tem vindo a ser promovida a "higiene mental" (João dos Santos) e com o desenvolvimento da psicologia ganhou relevo a psicologia escolar.
Vinda dos anos 90 do século passado, a psicologia positiva destaca como mais importante "promover a felicidade e o desenvolvimento de cada um". No entanto, o conceito de felicidade não é unívoco em todas as culturas e dentro da mesma cultura. O “hedonismo” "refere-se às emoções positivas e à noção de prazer", o “eudemonismo” "é o objectivo daqueles que aspiram a uma felicidade mais profunda que leva à realização de si e à procura de sentido." (le cercle psy, nº23, p. 32)
A psicologia positiva veio dar relevo à saúde mental e não apenas à doença mental. Para a OMS “a saúde mental positiva é um estado de bem-estar no qual a pessoa se pode realizar, ultrapassar as tensões normais da vida, ter um trabalho produtivo e frutuoso e contribuir para a vida da sua comunidade.” (p. 26)
Seligman, criador da psicologia positiva, definiu 5 pilares da felicidade e do bem-estar: emoções positivas, envolvimento, significado, relações positivas e realização pessoal. (A vida que floresce)
Muitos psicólogos trabalham nesta perspectiva, como no caso dos psicólogos do desenvolvimento e escolares, estudam os comportamentos normais da criança e propõem intervenções terapêuticas de forma a atingir esses padrões comportamentais.
Mas, definitivamente, a psicologia positiva veio dar o enfoque na perspectiva da saúde.

Portuguese Healthy Eating Plate

O mesmo se passa na medicina. Cada vez mais se trabalha na perspectiva de saúde de forma a que se possa viver sem doença. Hoje a preocupação é "trate da saúde antes da doença " como forma para "Chegar novo a velho." ( M. Pinto Coelho)
Somos inundados com todos os processos e métodos terapêuticos para mantermos a saúde e evitarmos a doença.
O nutricionismo e a alimentação ganharam grande importância e o retorno a conhecimentos ancestrais têm hoje relevo fundamental nas nossas vidas, como acontece com o chamado regime paleolítico.
A par da cozinha fast food, há um retorno a uma nutrição de qualidade relevando as características saudáveis dos alimentos.
Há também um regresso à filosofia, que felizmente se mantém como obrigatória nos currículos do secundário, ou a correntes filosóficas como o epicurismo e o estoicismo que ajudam a adoptar uma filosofia de vida e a dar sentido à vida.  Esta visão global do ser humano parece-me também ela saudável.
Desde Freud que o estudo do sofrimento humano era feito com base na compreensão do passado das pessoas.*  E isso continua a ser fundamental no conhecimento da pessoa e a dizer-nos muito do que a pessoa é e porque é.
Mas, como refere V. Frankl, a terapia está em perspectivar o futuro, na medida em que é o futuro que dá sentido à vida. Assim, passado e futuro fazem de nós seres humanos saudáveis, vivendo de forma plena a vida do nosso tempo.
_________________________
* P - "Ao contrário dos clássicos, está mais virado para o futuro?" R - "Aos alunos dizia que a psicanálise antiga era como o condutor que estava sempre a olhar pelo espelho retrovisor. Ora, eu quando vou na estrada tenho de olhar para a frente." Entrevista a António Coimbra de Matos: “Não é fácil amar, mas é bom. E se não se amar não se vive." (Expresso)

18/03/17

Hoje apetece-me ouvir: Rodrigo Leão

Carpe Diem !

Nullum infortunium venit sollum 
O me infelicem! Me perditum! 
Tempus fugit! Carpe diem! 
Vita brevis! Carpe diem! 

Omnia vincit amor! Vincit amor! 
Omnia vincit fortuna! Vincit fortuna! 

Nullum amore venit sollum! 
O me infelicem! Me perditum! 
Furor aeternum! Carpe diem! 
Meae deliciae! Carpe diem! 

Omnia vincit amor! Vincit amor! 
Omnia vincit fortuna! Vincit fortuna! 
Omnia vincit amor! Vincit amor! 
Omnia vincit amor! Vincit amor!

08/02/17

Incerteza, ansiedade e o sentido da vida

A incerteza está sempre presenta na nossa vida. Por falta ou por excesso de informação, como nos dias de hoje, os acontecimentos políticos e sociais exercem maior influência na nossa vida psicológica 
As perturbações de ansiedade podem desenvolver-se a partir de um conjunto de factores de risco biológico, de personalidade e também da incerteza que envolve os acontecimentos da vida (life events). A dificuldade em tolerar a incerteza favorece o aparecimento da ansiedade.
É, por isso, que se recorre a defesas como a racionalização e a negação da incerteza que leva as pessoas a quererem saber o seu futuro: o que vai acontecer à sua relação, ao seu dinheiro, o que vai acontecer aos filhos… Têm necessidade de saber o que dizem as cartas ou procuram outras formas de adivinhar o futuro, pensando reduzir a incerteza na sua vida.
No entanto, continuamos sem poder de controlo nestas situações. E, desde logo, a ansiedade e o sofrimento podem ser reduzidos se deixarmos de querer saber e de controlar o futuro.
Há muitos anos, Epicteto, filósofo grego, que foi levado para Roma, ainda jovem, como escravo, fazia a distinção entre aquilo que é da nossa responsabilidade e o que não é. O problema é que queremos controlar aquilo que não tem a ver connosco e não está na nossa mão poder resolver.
Dizia Epicteto: “Das coisas existentes, algumas são encargos nossos; outras não. São encargos nossos o juízo , o impulso , o desejo , a repulsa – em suma: tudo quanto seja acção nossa. Não são encargos nossos o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos – em suma: tudo quanto não seja acção nossa. 
Por natureza, as coisas que são encargos nossos são livres, desobstruídas, sem entraves. As que não são encargos nossos são débeis, escravas, obstruídas, de outrem.” (O Encheirídion de Epicteto)
Todos passamos por crises existenciais em que questionamos o sentido da vida. 
São crises provocadas por eventos importantes da vida, como casamento, divórcio, perdas pela morte de familiares, acidentes, relações familiares difíceis, crises da idade: adolescência, meia idade, velhice.
Viktor Frankl, médico psiquiatra, diz-nos, pela sua experiência, que “nos campos de concentração os mais aptos a sobreviver eram os que tinham uma tarefa a cumprir após a sua libertação.” “Apenas o sentimento
de ter uma missão, uma “vocação” a realizar dá sentido à vida, mesmo nos momentos de maior desespero”.
("Les psys face à la question existentielle")
“Há três caminhos principais através dos quais se pode chegar ao sentido na vida. O primeiro consiste em criar um trabalho ou fazer uma acção. O segundo está em experimentar algo ou encontrar alguém; em outras palavras, o sentido pode ser encontrado não só no trabalho, mas também no amor”
“O mais importante, no entanto, é o terceiro caminho para o sentido na vida: mesmo uma vítima sem recursos, numa situação sem esperança, enfrentando um destino que não pode mudar, pode erguer-se acima de si mesma, crescer para além de si mesma e, assim, mudar-se a si mesma. Pode transformar a tragédia pessoal em triunfo. “(Viktor E. Frankl, Em busca de sentido - Um psicólogo no campo de concentração)
Ter um sentido na vida é fundamental para ultrapassar o sofrimento que resulta da incerteza e da ansiedade.

26/01/17

Expectativas

Na semana passada, falamos das expectativas presentes na nossa vida. Há quem defenda que é melhor não termos expectativas para não virmos a ficar frustrados quando elas não se concretizam ou aceitar, passivamente, aquilo que vai acontecendo seja a nível pessoal familiar e laboral.
Na realidade, as expectativas são uma componente da motivação que se tornou uma grande preocupação fundamental das organizações, em especial na área da motivação no trabalho.
Psicólogos e investigadores das organizações têm vindo a propor várias teorias sobre a relação das expectativas com a motivação
Pode-se partir do pressuposto de que existe sempre "uma maneira melhor" (“the best way”) de motivar as pessoas. Porém, “ a evidência tem demonstrado que as pessoas reagem de diferentes maneiras conforme a situação em que estejam colocadas.” (I. Chiavenato, Administração de recursos humanos, vol.1, p. 92)
A desmotivação atinge muitas pessoas nas mais diversas profissões e situações profissionais. 
A profissão docente, por exemplo, tem vindo a ser objecto de alguns estudos em que fica patente uma grande desmotivação.
A carreira docente a que, actualmente, é difícil aceder é constituída por uma série de factores que a transformam numa das mais stressantes:
“A intensificação do trabalho docente, a indisciplina dos alunos, a avaliação dos professores, a desresponsabilização das famílias no apoio aos seus filhos, o não reconhecimento do trabalho dos professores pelos pais e encarregados de educação, o número elevado de alunos por turma, o cumprimento de diretrizes burocráticas, o excesso de burocracia, o excesso de reuniões, a instabilidade de vínculo profissional, a crescente descredibilização da importância do papel do professor na sociedade, a desvalorização da carreira, a dificuldade de relacionamento com os pais e o aspeto remuneratório, constituem alguns indicadores iniludíveis da desmotivação docente." (M.Rosário Miranda, O impacto da desmotivação no desempenho dos professores, 2012)
Num estudo recente  (As motivações e preocupações dos Professores, Fundação Manuel Leão, 2016) “cerca de um terço dos professores gostaria de deixar de lecionar e mais de metade, 57%, aponta a falta de reconhecimento profissional como a causa de maior insatisfação no trabalho, sendo que 85% considera que o Ministério da Educação não valoriza o trabalho da classe docente e 48.4% considera que o seu trabalho não é valorizado pelos alunos.” (resumo de Sandra Maximiano,"Estar motivado para motivar", Expresso, 9-9-2016)
Sendo assim, que motivação podemos esperar de um professor? Uma das teorias da motivação (Victor Vroom) considera que a motivação individual em produzir em dado momento depende de objectivos particulares e da percepção da utilidade relativa do desempenho como um meio gradativo de atingir determinados objectivos. Ora isso depende de três forças básicas que actuam no individuo, isto é, a motivação depende então de expectativas, recompensas e relações entre expectativas e recompensas.
A motivação de produzir é função de:
expectativas: a força do desejo de alcançar objectivos individuais;
recompensas: a relação percebida entre produtividade e alcance de objectivos individuais;
relações entre expectativas e recompensas: a capacidade percebida de influenciar o seu próprio nível de produtividade. (Chiavenato, p. 92-93) 
A teoria da expectativa pode então ser um bom ponto de partida para avaliar o esforço investido pela pessoa na sua profissão. Se o esforço investido pela pessoa não a leva a alcançar determinados objectivos, no fundo, a atingir as suas expectativas, então compreende-se bem a desmotivação dos profissionais da educação.
E o que faz o Ministério da Educação para responder às expectativas dos professores?



  

19/01/17

Expectativas


O primeiro-ministro A. Costa tinha a expectativa de que os partidos de oposição (designadamente o PSD) aprovariam o aumento do salário mínimo nacional em troca do abaixamento da TSU.  
Na política do actual governo tem sido assim: dar com uma mão o que tira com a outra. Mais uma vez, para o primeiro-ministro, esta medida não tinha custos. Quem não percebe de economia sabe,  pelo menos, que a segurança social paga a despesa. Entretanto, o ministro da segurança social veio dizer que no ano passado a despesa correspondeu a 11 milhões de euros.
Na política internacional vive-se mais ou menos de expectativas. Trump, que amanhã será presidente dos Estados Unidos, tem a expectativa de que vai ter uma boa relação com Putin…
Na vida pessoal vivemos de expectativas. Eu tenho a expectativa de que um dia hei-de ganhar o euromilhões pois há vinte anos anos jogo todas as semanas sempre com a mesma chave.
E assim é feita a nossa vida de expectativa em expectativa. 
Também é fácil constatar que expectativas elevadas levam muito provavelmente ao fracasso. Pelo contrario expectativas baixas dão-nos a possibilidade de termos agradáveis surpresas.
O que acontece nos concursos das televisões got talent, voice de Portugal… mostra que se formulamos expectativas baixas, normalmente somos surpreendidos. Claro que só é surpresa porque criámos expectativas baixas, a partir da roupa, da cara, do corpo da idade, da postura, de preconceitos… que afinal pouco têm de essencial para o que é avaliado.
No trabalho psicológico com crianças ou adolescentes com dificuldades sociais e de de aprendizagem era frequente manifestarem grandes expectativas. Esperavam ter um futuro muito bom em que teriam uma grande vivenda, um grande automóvel… Mas também havia outros alunos que não queriam ouvir falar de futuro e não tinham qualquer expectativa. O que naquele momento a família e a escola pediam e queriam era que estudassem e tivessem bom comportamento. No entanto, estes alunos preferiam viver a sonhar com o futuro ou num presente vazio. 
Gerir as expectativas é uma das nossas grandes dificuldades. Podemos viver como se tudo nos fosse correr mal e então esperar pelo dia da morte ou viver como se fôssemos imortais como faz a gerontocracia que se mantém no poder até cair da tripeça.
Para algumas "teorias", "as expectativas não nos permitem viver em liberdade, aceitando o curso das coisas, já que acreditamos que pelo fato de desejarmos algo de verdade, seja aprovação, perfeição ou comodidade, isso tem que obrigatoriamente ocorrer. A realidade é que o que tiver que acontecer irá acontecer, estejamos ou não de acordo." (Viver sem expectativas)
É por isso que é muito importante ter pensamento positivo mas não é suficiente Como é importante ter auto-estima mas não como se fosse algo de mágico. Temos dentro de nós um pequeno ditador (eu devo ser, eu devo fazer…) que nos impõe expectativas muitas vezes excessivamente elevadas e, então, não podemos falhar sob pena de considerarmos que somos um fracasso.
Saramago dizia que (cito de cor) "aquilo que tiver que ser meu à mão me virá ter". Mais do que esperar o destino melhor será viver a vida como ela é.
E como este assunto tem pano para mangas, tenho a expectativa de voltar a ele na próxima semana.


15/12/16

Natal positivo


Para António Damásio, “as emoções são conjuntos complicados de respostas químicas e neurais que formam um padrão…são processos biologicamente determinados, dependentes de dispositivos cerebrais estabelecidos de forma inata e sedimentados por uma longa história evolucionária…” (O sentimento de si, p 72)
Podemos falar da existência de emoções primárias, básicas ou universais, de carácter inato, e de emoções secundárias ou sociais, resultantes de aprendizagem, sendo que cada emoção contribui para a adaptação do indivíduo ao ambiente em que vive.
Para Paul Ekman existem seis emoções básicas que todos os seres humanos são capazes de expressar na sua cara, bem como todos nós somos capazes de entender o que significam: tristeza, medo, surpresa, repulsa, raiva, alegria e emoções sociais ou secundárias (vergonha, inveja, ciúme, empatia, embaraço, orgulho e culpa).
Daniel Goleman refere as emoções destrutivas descritas pelo budismo, ou seja, as “seis angústias mentais principais”: o apego ou desejo, a ira (que inclui a hostilidade e o ódio), a soberba, a ignorância e a ilusão, a dúvida angustiante e as opiniões angustiantes. (Emoções destrutivas e como dominá-las, p. 139) 
As emoções são de cada pessoa. Podemos pensar que elas podem ser desencadeadas por causas externas mas as emoções estão dentro de nós, isto é, somos nós, o nosso pensamento e a nossa imaginação que as torna mais ou menos importantes para nossa vida.
O poder das emoções na nossa vida é imenso, para não dizer que são elas que comandam a nossa vida e nos fazem tomar decisões. Sermos felizes ou não depende delas. As emoções podem dar qualidade de vida ou tirá-la.
O medo, por exemplo, é importante porque ajuda na nossa sobrevivência. Por outro lado, pode deixar-nos pouca qualidade de vida quando nos invade a ponto de deixarmos de ser capazes de fazer a nossa vida social. O medo faz-nos sofrer por antecipação e vivenciar situações desagradáveis que nunca vão acontecer. 

O Natal é tempo de emoções fortes porque está mais presente a força dos laços familiares. A solidão e a tristeza são mais fortes. A recordação de momentos felizes e de momentos infelizes (lembrança encobridora) é mais profunda. Os símbolos de Natal estão por todo o lado e a mesa de Natal concentra todas as emoções deste tempo. Como no poema de David Mourão-Ferreira, "Ladainha dos póstumos Natais"(Cancioneiro de Natal): 
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido
… 
O Natal é uma óptima oportunidade para mudar alguma coisa na nossa vida. É um bom momento para deixarmos de expressar as emoções negativas e destrutivas, em nós próprios, no nosso corpo e com os que nos são próximos, os filhos, os amigos, os colegas de trabalho... 
Mudar, dando relevo às emoções positivas e em especial à alegria e à gratidão. 
A alegria é uma emoção positiva que provoca bem-estar, satisfação e sentimentos positivos. A alegria vem da satisfação das necessidades do ser humano (Maslow) desde as necessidades mais básicas até à auto-realização. 
A gratidão, é uma força de carácter (Seligman), é uma sensação de agradecimento, relacionada com a alegria, em resposta ao recebimento de um presente tangível ou a um momento de bem-estar e de paz que estamos a viver. 

Desejo a todos um bom Natal. 

21/11/16

Portugal +

http://sicnoticias.sapo.pt/mundo/2016-11-20-Portuguesa-distinguida-em-Israel-por-investigacao-sobre-doencas-cardiacas
"Renata Gomes acaba de passar um ano na universidade de Jerusalém, onde foi premiada pelo seu trabalho na investigação das doenças do coração. Trabalhou com judeus e com árabes, e os seus colegas pensam que a cientista pode vir a ser o próximo Prémio Nobel."

04/11/16

Humanização e empatia *


Deolinda - "Sem noção" ("Dois selos e um carimbo") 
Música e letra - Pedro Silva Martins; Voz - Ana Bacalhau

"Tu não tens a noção de mim
e perdeste a noção de ti"

Podemos dizer que temos duas maneiras de explicar os comportamentos humanos, e o mesmo acontece para a crueldade  humana: uma que se baseia na biologia e outra que relaciona esses comportamentos com a situação em que a pessoa esteve e está envolvida.
Então, se o comportamento for determinado por factores biológicos ou sociais, as pessoas cruéis  não são responsáveis pelos seus actos?
Têm sido feitos estudos e experiências psicológicas que podem ajudar nessa resposta compreensiva.
É bem conhecida a experiência de Stanley Milgram (1963)1, feita com voluntários. Na situação experimental, um voluntário desempenha o papel de professor que ensinava  determinadas respostas e outro voluntário o papel de  estudante (na verdade um ator disfarçado) que as devia aprender. O professor devia punir os erros com pequenos choques eléctricos, que deveriam aumentar a cada erro. Os resultados mostraram que  65% das pessoas chegaram a aplicar o nível máximo de choque, mesmo ouvindo as dores do aluno/actor.
Jerry Burger (2008) replicou o estudo e obteve  os mesmos resultados. 
Philip Zimbardo (1971)2 simulou as condições de uma prisão com voluntários (sem nenhum indicativo de empatia baixa) dividindo-os aleatoriamente entre guardas e presos. Os guardas eram livres para fazer o que fosse necessário para manter a ordem. O estudo, programado para durar 2 semanas, terminou depois de 6 dias, com prisioneiros com depressão e descontrole emocional após serem vítimas do sadismo dos guardas... 
Podia concluir-se que cada um de nós (e não apenas os que têm problema de empatia baixa) pode ser levado a cometer atrocidades. O ambiente pode levar as pessoas a serem cruéis.  "Não é então  uma questão de ser bom ou mau,  a situação é que exerce a maior influência nos casos de crueldade”,
Simon Baron-Cohen 3 fez a revisão de mais de 300 estudos sobre o assunto (Science of Evil). O que está por trás de um acto de crueldade é um mau funcionamento das partes do cérebro ligadas à empatia **.
As pessoas, então, cometeram actos cruéis não porque escolheram, mas porque têm empatia baixa, que pode ser resultado da biologia da pessoa ou da sua experiência de vida quando era criança, factores pelos quais ela não pode ser responsabilizada.
Isto é,  fazer o mal pode não ser uma questão de livre-arbítrio. As pessoas cometeram actos de crueldade não porque escolheram, mas porque apresentaram uma deficiência no cérebro”.
Bhismadev Chakrabarti descobriu que há genes relacionados com a empatia e achou uma área cerebral, o giro frontal inferior, sempre mais ativa em pessoas com alto Quociente Emocional.   Para ele, "o nível de empatia,  não é determinado no momento do nascimento. Há uma interação de fatores sociais com causas genéticas que ainda estão a ser  investigadas”. Mas pelo facto de ter estas característica biológicas e genéticas  "não significa automaticamente que a pessoa será empática.” 
Susan Fiske (desde 2006) 4 realizou estudos com  scanners cerebrais e mostra como o ambiente modifica a forma como as pessoas percebem as outras. “As pessoas naturalmente inibem a violência contra outros que categorizam como seres humanos. Então, é preciso que a outra pessoa seja ‘desumanizada’ dentro da cabeça para que isso ocorra”, explica Fiske.
"Quando os voluntários viram fotografias de indivíduos de baixo status social, como mendigos, viciados em drogas ou até imigrantes, ativaram padrões cerebrais relacionados à visão de objetos e não com aqueles padrões ativados quando vemos seres humanos. Ou seja, nesse caso, a empatia não funcionaria para prevenir uma agressão."
"... isso explica o que acontece dentro da cabeça de pessoas que agridem mendigos ou que se deixam levar por um preconceito estimulado pelo Estado para praticar torturas e genocídios. Os discursos e a opinião do grupo dominante podem ser influências importantes nesse caso."

Pode concluir-se que não se retira a culpa dos praticantes de atrocidades mas apenas se mostra que não é uma simples questão de ser mau.
E voltamos ao princípio:  “Os atos de crueldade são muito complexos. Há fatores biológicos, ambientais, genéticos, sociais e políticos. A nova teoria em meu livro sugere que um mau funcionamento das partes do cérebro ligadas à empatia, por razões biológicas ou sociais, é o que está por trás de um ato de crueldade." (B-C)
Portanto, o homem terá que aprender a ser humano. Não exclui a responsabilidade dos seus actos mas aprender é coisa de educação, de ajuda e de terapia.
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* Nota: Este texto é baseado em "De onde vem o mal?", de Tiago Mali e Guilherme Rosa, Galileu.
**Empatia (Carl Rogers) significa a capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela. Consiste em tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente outro indivíduo.
1 Experiência de Stanley Milgram - "The Milgram Experiment, Saul McLeod (2007)
2 Experiência de Ph Zimbardo - "Stanford Prison Experiment", Saul McLeod (2008, actualizado em 2016)
3 Conferência de Simon Baron-Cohen sobre empatia.
4 From Dehumanization and Objectification, to Rehumanization: Neuroimaging Studies on the Building Blocks of Empathy