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09/02/12

Onde começa a disciplina

De vez em quando reaparece no debate social (Expresso, Revista, 28/1/2012) o problema da indisciplina na escola. No entanto, a indisciplina diz respeito ao próprio funcionamento da escola.
O assunto é reaberto sempre que acontece mais um episódio lamentável de agressão a um professor, ou um episódio mais marcante de indisciplina entre os alunos.
A questão é que se parte do princípio de que o problema da indisciplina é dos alunos. E, portanto, é necessário disciplinar os alunos e acrescentar penalizações ao seu estatuto.
Claro que a escola serve também para disciplinar os alunos. Mas o que se passa é que o problema é outro, isto é, o que está a acontecer é que as agressões são feitas pelos pais dos alunos. E isto são casos de polícia e não problemas de disciplina.
Quando a indisciplina vem de dentro da escola, sabemos que ela faz parte da aprendizagem e é transversal a todas as épocas.
Quando um encarregado de educação agride um(a) professor(a) o problema não é de indisciplina na escola. Mas a associação é imediata.
Que fazer? Surgem algumas ideias peregrinas. Como por exemplo, aquela ideia de punir monetariamente os pais cujos filhos faltam à escola, como é o caso dos Açores. 
Pior ainda a ideia de a escola, no caso de infracção disciplinar grave, poder reter um aluno numa sala, transformando-a momentaneamente em prisão.
Parece-me que há muito a fazer, antes de seguirmos estas metodologias, de efeito, provavelmente, perverso.
A começar pela educação dos pais.
Do Reino Unido vêm indicações preocupantes do que está a acontecer:  
Então o que podemos esperar dos alunos ? Chamamos os pais para tomarem conta dos filhos quando não têm competências para isso ?
Por outro lado, a escola é responsabilizada por medidas e contextos educativos que não dependem dela.
Se o aluno é obrigado a estar na escola quando não quer lá estar, provavelmente aumentará a indisciplina.
Não parece que, após um numero de faltas injustificadas que dariam lugar a retenção, o Plano individual de trabalho (PIT) resulte em mudança de atitude.
Quem está no terreno sabe que isso não funciona.
Não haver várias percursos curriculares pode aumentar o desinteresse e a indisciplina. Os CEF, PCA e TEIP, são a prova de que há alunos que não conseguem sucesso doutra forma.
Se se adoptam respostas pouco estruturadas do ponto de vista organizacional e dos recursos humanos, como as AECs, a dimensão recreativa não é corrigida mas aumentada. 
O que está aqui em questão é uma mudança mais profunda da sociedade e da família e as consequentes respostas educativas. Não seria melhor que toda a sociedade mudasse alguma coisa para que a escola pudesse ser mais disciplinada ?
Claro que é melhor assobiar para o lado que é como quem diz a escola que resolva, se necessário que  castigue os alunos, porque os encarregados de educação nem para isso têm tempo.

27/10/11

As emoções do avesso

alfazema - lavanda - erva do amor

As emoções fazem parte da nossa vida e constituem o mundo complexo da nossa vida psicológica.
São padrões de resposta a certos estímulos como os instintos, outras emoções especialmente as mais primitivas e actividades cognitivas. (Pedro Luzes)
Há muitas emoções. Podemos dizer que há mais palavras para descrever as emoções do que emoções propriamente ditas. Muitas vezes trata-se de tonalidades que as emoções podem apresentar.
Há as emoções primárias que são inatas. Como o medo, amor, raiva ou ira, felicidade e tristeza.
Há ainda as emoções secundárias que se aprendem como resultado de processos individuais, sociais e culturais.
A nossa vida do dia a dia ou da vida dos outros a que de alguma forma assistimos pelos meios de comunicação social, fazem com que muitas dessas emoções negativas sejam vivenciadas com alguma preocupação.
Mas não precisamos de trazer exemplos do mundo para evidenciarmos que é assim. Cá por casa, as medidas violentas do governo despertam nas pessoas diversos sentimentos e emoções.
Saber lidar com as nossas emoções é sempre importante principalmente quando vivemos debaixo de stress como no tempo presente.
Desde logo saber distinguir aquilo que é a expressão legítima dessas emoções e aquilo que é a manipulação das nossas emoções.
Por isso, é importante conhecer onde nascem as emoções.
A raiva pode nascer da falta de atenção dos pais aos filhos, desinteressando-se dos problemas que os venham a atingir. Ao longo do desenvolvimento, a criança sente-se desamparada e passada para segundo plano.
Erramos quando damos preferência a um dos filhos. Não nos podemos admirar que surjam ciúmes, desinteresse da escola, falha na auto-estima e, por vezes, aparece a agressividade descontrolada no jardim de infância ou no 1º ciclo.
Pode ainda ter respostas mais desajustadas como o desejo de vingança. Desejamos que algo de mal aconteça a essa pessoas. E às vezes passamos à prática.
Ou invejamos aquilo que as outras pessoas possuem. Achamos devemos ter o que os outros têm.
Surgem sentimentos morais como a indignação que às vezes é apenas  imaturidade moral, porque não somos capazes de nos colocarmos na pele do outro mas apenas queremos ter o que os outros têm.
Descobrir e expressar os sentimentos é sem dúvida importante para a nossa vida. Mas garantir o equilíbrio das nossas emoções é crucial para a nossa saúde mental.
A raiva é a resposta aos desequilíbrios internos ou externos. Às vezes volta-se para dentro de nós ou pode voltar-se para os outros de forma violenta.
A manifestação da raiva não é boa ou má em si. No entanto, se for excessiva, a manifestação da raiva pode levar-nos ao descontrolo o que acontece frequentemente quando estamos em grupo, podendo levar a extremos que ultrapassam  todos os princípios éticos.
Se a raiva e as outras emoções negativas levam a evitar ou enfrentar a ameaça, as emoções positivas, como a alegria, satisfação, gratidão e amor aumentam a flexibilidade do pensamento e do comportamento.
O ideal, o “número mágico” da felicidade seria 75% de emoções positivas e 25% de emoções negativas. (Fredrickson).
O que acontece é que parece que a nossa vida emocional anda virada do avesso: tantas emoções negativas para tão poucas positivas…

12/09/11

Mundo maravilhoso

Tirada daqui

Enquanto estávamos de férias, vários acontecimentos violentos deram-nos a oportunidade de pensar sobre o que está a acontecer na nossa sociedade, como foi o que se passou na Noruega, Inglaterra, Líbia, Síria...
O ser humano continua a mostrar-nos facetas perturbadoras e, provavelmente, ainda não assistimos a tudo o que de mais violento pode fazer.
Será que podemos ser optimistas relativamente ao mundo em que queremos viver ?
Pelo menos, vivemos num tempo em que podemos compreender melhor o que se passa connosco e à nossa volta.
Muitos milhares de crianças e jovens vão iniciar o novo ano lectivo. Alguns pela primeira vez.
Este simples comportamento de ir a escola é em si mesmo um momento de esperança.
Porque o que está em jogo quando se vai à escola não é apenas a transmissão de conteúdos ligados à cultura. O que está em jogo diz respeito ao ser humano integral: É sobretudo a oportunidade de desenvolver e modificar o cérebro. O mundo da educação é este mundo maravilhoso que permite que se modifique o cérebro de cada criança. É disso que trata a escola embora alguns pais e educadores possam não ter consciência disso quando entregam o seu filho à responsabilidade do sistema educativo.
Face a um mundo violento, mesmo que os comportamentos violentos não sejam generalizados, com casos extremos e graves,  poderemos fazer alguma coisa ?
Temos de facto esta  grande vantagem de poder levar os filhos à escola. Mas será que a escola está virada para esta perspectiva ?  A escola já percebeu o papel fundamental que lhe cabe nesta modificação dos comportamentos e das emoções ?
Os decisores políticos oscilam entre a transmissão e a aquisição de conteúdos e a aquisição de equilíbrios emocionais.
No entanto, as coisas não estão assim separadas. Ao tornarmos as crianças mais inteligentes já estamos a melhorar o seu comportamento, reduzindo o risco da agressividade violenta, e a melhorar as suas respostas à frustração e à provocação.
Por outro lado, a escola tem um papel fundamental na prevenção dos maus tratos infantis que como sabemos, são indicados pelos investigadores como um factor determinante que leva mais tarde os jovens e os adultos à violência.
Por isso, prevenir os comportamentos de violência  começa na prevenção  dos maus tratos infantis.
O trabalho de socialização na família e na escola é igualmente importante para prevenir comportamentos violentos no futuro.
As condições politicas e sociais e dos valores educativos das escolas contam mas elas têm que ser vistas também na perspectivas das modificações cerebrais resultantes de factores a que não damos importância.
“O governo e a sociedade querem uma saída fácil, e uma saída fácil é dizer que todos estes  problemas (delinquência e psicopatia)  são económicos ou sociais”. (1)
Por cá temos os comentadores do costume que continuam a justificar com os factores sociais e económicos o que se passou na Noruega, Inglaterra...
Mas sabemos bem que a realidade é outra e mesmo nas sociedades mais desenvolvidas, mais equilibradas socialmente ou mesmo num mundo utópico existirão psicopatas, como nos casos referidos.
Também a história está cheia de situações dessas. Quando um psicopata atinge elevados cargos na sociedade, na policia, no exército… podemos prever grandes estragos como está a acontecer. Não é apenas uma questão política. 
A escola é o local onde, todos os dias, se trabalha na prevenção destas situações. Não há necessidade de recorrer a intervenções especiais ou projectos especiais. Tem que ser uma escola onde os professores percebam que estão realmente a modificar o cérebro das crianças a nível cognitivo e emocional.
É, por isso, à escola e aos professores que compete criar as bases para esse mundo maravilhoso em que queremos viver. Esta é a melhor forma de construir o futuro porque nesta, como noutras matérias, infelizmente, os resultados da recuperação dos  psicopatas não é satisfatório.

(1) Punset, E., (2006) - El alma está en el cerebro, Madrid: Santillana Ediciones Generales, S.L.

04/06/11

Violências dentro e fora da escola


A escola, como as outras instituições sociais, são lugares de violências. Devo, no entanto, clarificar: como dizia Freud, a educação é repressão, e, por isso, a criança vai passar por algumas dificuldades no acesso à civilização e à cultura que é veiculada  pela sociedade  e pela família mas, principalmente, pela escola.
Por outro lado, as mudanças sociais, económicas e culturais que se verificaram têm tido repercussão em tudo o que se passa na escola, principalmente no que se refere à autoridade.
No filme “os quatrocentos golpes” (François Truffaut, 1959), o protagonista tem treze anos. Na escola arranja problemas com os professores. Em casa, os pais são indiferentes ou ausentes e já não sabem o que fazer com ele. Falta à escola. Vive de mentiras. As instituições pouco podem fazer pela sua inadaptação.  
Nos anos 50, a violência vinha da escola, da família e das instituições contra  crianças e adolescentes. Já nessa altura não havia respostas fáceis para os problemas da vida.  Hoje, as coisas são mais ou menos assim: continua a não haver respostas fáceis para os problemas da vida, incluindo, a violência na escola, ou um pouco além dos seus muros.
Com a diferença de que hoje, na maioria das vezes, a violência vem de alunos contra alunos e de alunos contra professores. A violência psicológica que não é fácil de definir existe todos os dias na sala de aula.
Hoje, chamamos bullying, a muita desta violência. O bullying, foi definido por Olweus (1991), afirmando que «um aluno está a ser provocado/vitimado quando ele ou ela está exposto,  repetidamente e ao longo do tempo, a acções negativas da parte de uma ou mais pessoas ». Considera-se uma acção negativa quando alguém intencionalmente causa, ou tenta causar, danos ou mal-estar a outra pessoa . Esse repetido importunar pode ser físico, verbal , psicológico  e/ou sexual.O bullying pode ser conduzido por um indivíduo – o provocador ou agressor – ou por um grupo, e o alvo do bullying pode também ser um  indivíduo – a vítima – ou um grupo.
Há alunos que transformam a vida escolar num inferno. Há professores que são acusados de tudo. Ao professor não é permitido errar. O professor não pode ter um deslize. O professor fica imediatamente culpado quando o aluno faz queixa ou quando o encarregado de educação apresenta queixa superiormente.
Estamos nos antípodas d'os quatrocentos golpes” no que se refere à autoridade do professor. Porém a violência hoje não é menos chocante.
Basta a queixa para ser considerado culpado. Bem se podem escrever relatórios. Bem se pode basear a actuação na legislação… o professor tem que provar que fez tudo certo. Tem que justificar todos os seus comportamentos. Tem que justificar porque é que é que não se esforçou para que o aluno não tivesse negativas. Porque não mudou os comportamentos do aluno.
Podíamos estudar, pelo menos, o que se passa para compreendermos como a nossa vida quotidiana pode ser tão violentada  com estes casos em que vamos sendo envolvidos, de uma forma ou de outra, se não é hoje é amanhã.
Que fazer ? A autoridade da escola deve ser revista. Não uma autoridade como há 50 anos mas uma autoridade democrática onde tem que haver um líder que é o professor porque é ele que deve ter a autoridade informal mas também a autoridade formal que lhe é conferida  pelo poder democrático do estado.

03/12/10

Disciplina

Um dos problemas que mais afecta a escola e a sala de aula está quase sempre relacionado com problemas de comportamento: a indisciplina. São alunos que têm dificuldade em distinguir entre a sala de aula e o recreio, entre a sua vontade e a dos outros, entre os seus limites e os limites dos outros.
Não é fácil lidar na escola e na sala de aula com alunos indisciplinados. O que se faz com um aluno que, por exemplo, no tempo de uma aula, vai à casa de banho, fala constantemente com os colegas, mexe, lê, escreve no trabalho do colega, mexe na colega, põe a cabeça no ombro da colega, levanta-se várias vezes da cadeira, diz, inclusive, que é hiperactivo e que toma medicação, desculpabilizando de alguma forma o que está a acontecer, faz intervenções descontextualizadas...
Este comportamento é suficiente para rebentar com qualquer tentativa de haver uma aula com um mínimo de aproveitamento. Imagine que são dois alunos com estas características ou  imagine que ainda tem alunos com outros problemas...
Normalmente, são alunos com comportamento de manipulação do ambiente da sala de aula, dos colegas e dos professores mas que não estando classificados como comportamento patológico, são destruidores da relação pedagógica e de um ambiente favorável às aprendizagens.
Falando com professores, sujeitos a este quotidiano, verifico que muitas vezes é difícil encontrar estratégias que funcionem com estes alunos.
É fácil sugerir as estratégias que vêm nos manuais. Mas o desfasamento das soluções vindas de psicólogos e técnicos que não estão no terreno, na escola, a milhas da realidade, faz com que não sejam eficazes.
Os professores têm que lidar e ultrapassar, diariamente, o problema. Não é um projecto, não é um programa sobre disciplina ou uma intervenção pontual sobre o assunto.
A compreensão deste fenómeno não pode excluir a participação dos pais que estão de boa fé e querem compreender o que se passa com os filhos porque a disciplina começa em casa e começa desde muito cedo.
Com alguma experiência, de alguns anos, já não me atrevo a propor simplesmente ao professor: tem que arranjar estratégias.
Sabemos que esse problema não se resolve de uma vez. A educação destes alunos faz-se todos os dias e é um projecto a longo prazo e com muitas repetições.
Perante alunos desobedientes, que apresentam aqueles comportamentos ou outros e que pura e simplesmente não ouvem o que se diz, alguns professores podem ter a tentação de quererem resolver o problema com medidas drásticas.  Mero engano. Estas medidas nada resolvem.
Fico apreensivo e lamento quando um professor diz que perdeu a cabeça e tomou medidas dessas. Mas, não concordando, também tenho cada vez mais dificuldade em julgá-lo.
Brazelton, fala-nos de formas de disciplinar as crianças e do que vale a pena experiementar, do que pode ser útil utilizar e do que é inútil experimentar.
Vale a pena experimentar:
- Os avisos podem ajudar a crianças a estabelecer limites em relação a actividades de que não quer prescindir.
- O silêncio às vezes é a melhor estratégia.
- Ir fazer uma pausa num determinado lugar da sala.
- Repetir as coisas da forma certa, dar a oportunidade a criança de fazer bem.
- Reparar o mal feito: pedir desculpa, pagar o que partiu, devolver o que roubou, repetir a acção de forma correcta.
- Planear alternativas dado que muitos comportamentos problemáticos são previsíveis e podem ser discutidos previamente.
- O humor pode ser uma forma agradável de ajudar a criança a controlar o seu comportamento
Algumas vezes é útil:
- Retirar os brinquedos.
- Cancelar convites para brincar ou adiar actividades agradáveis
- Proibir televisão ou jogos de computador
- Ignorar o mau comportamento
- Sair de cena - a criança pode gostar de ficar sozinha sem a presença do adulto.
- ter uma tarefa adicional para reparar o que fez errado.
- Suspensão da mesada
São inúteis medidas como:
- Castigos corporais
- Vergonha, humilhação.
- Lavar a boca com sabão.
- Comparar as crianças umas com as outras.
- Suprimir comida ou usá-la como recompensa.
- Deitar mais cedo ou fazer uma sesta extra.
- Retirar o afecto, ameaçar com o abandono.

(Brazelton, T. B. e Sparrow, J. D. (2008). A criança e a disciplina, 10ª Ed., Queluz de Baixo: Editorial Presença.)

04/11/10

“Deixem a escola em paz”

Por uma cultura de paz e de não violência

 
M. Filomena Mónica (1) escreveu um artigo "deixem os professores em paz" que pode ser extensivo a toda a escola.
"Há 30 anos ... O ambiente que ali se respirava reflectia a cultura que as crianças traziam de casa: mesmo quando não livresco, o ethos era hierárquico".
A escola, hoje, é diferente da escola de há alguns anos. O papel do professor também é diferente. Mas dentro das diferenças o que deve permanecer? Creio que no fundamental a escola deveria continuar a respirar cultura e hierarquia.
Infelizmente não é o que está a acontecer nas escolas concretas, no terreno.
Algumas estatísticas não traduzem a profundidade do fenómeno da indisciplina, da falta de respeito e da violência.
Alguns profissionais, principalmente os professores já não ligam, não respondem ao questionários sobre indisciplina e violência, não falam sobre o assunto, vão vivendo e vivenciando, às vezes sozinhos, o drama de terem que suportar situações de grande stress e esgotamento.
Fragilizados, alguns são maltratados verbalmente outros chegam a ser batidos por alunos e por encarregados de educação.
O professor é apenas uma parte do sistema mas por isso mesmo o ambiente escolar deve ser sensível às necessidades dos profissionais que ali trabalham. É por eles que começa a humanização da escola. Se forem tratados com violência todo o sistema se ressente.
O que se percebe é que as leis não são de molde a por travão à violência escolar mas ao contrário têm servido para que a acção dos professores seja neutralizada, deixando-os em situações de conflito e às vezes situações humilhantes.
Por exemplo, sabemos que muita da indisciplina acontece nas áreas de enriquecimento curricular (aec's) e provavelmente ela contamina todo o ambiente da escola e da parte lectiva propriamente dita.
Sabemos que muita da indisciplina acontece nos intervalos, no refeitório, sem que se tomem medidas para melhorar esta situação.
E o que se faz com alunos entre os 15 e os 20 anos ou mais que não concluíram o ensino básico ?
É legitimo reter uma criança na escola quando os pais acham que pela sua cultura uma criança não deve ficar na escola quando entra na adolescência ? Se é, que medidas se tomam ?
Além disso, o que choca é que, actualmente, são, ou pelo menos parece que são, os alunos e os encarregados de educação quem dita as regras mesmo nos níveis mais baixos de escolaridade.
Sabemos que as regras devem ser discutidas com os alunos pelo menos com os mais velhos e com os encarregados de educação e uma vez aprovadas devem ser aceites e cumpridas.
O que pensar quando se chega ao ponto em que os encarregados de educação querem que os professores  usem determinadas pedagogias e métodos de ensino porque acham que os seus educandos assim é que aprendem.
A escola é reflexo da cultura que se traz de casa. Se há trinta anos era assim, hoje também o é. Muitas destas situações reflectem uma cultura menos letrada, muitos pais têm níveis de literacia muito baixos, e, o que é mais relevante e preocupante, aparentam níveis de moralidade abaixo do desejável.
Não podemos confundir valores morais com regras convencionais. Estas podem ser alteradas mas os valores nunca o poderão ser, sejam os pais de uma ou outra cultura, letrados ou não.

 (1) Mónica, M. F. (2008). Vale a pena mandar os filhos à escola ? , Lisboa: Relógio d'Água.

09/05/10

Violência na escola: não há respostas fáceis

O fenómeno da violência tem vindo a preocupar os cidadãos e em particular os educadores.
Esta preocupação tem desencadeado em Portugal como no estrangeiro atitudes de reacção excessiva provocando atitudes de autoritarismo ou de justificação absoluta.
Um dos perigos da reacção excessiva é o da histeria que tem acompanhado o fenómeno.
Somos particularmente sensíveis à violência que envolve crianças… Mas o perigo é o de agirmos antes de pensar e continuarmos a reagir ou reagir excessivamente, em vez de tentarmos prevenir as situações de violência.
Para James Garbarino, que escreveu sobre o problema o livro Lost Boys, a questão que se coloca é: existem maneiras de poder identificar alunos potencialmente violentos ?
Para Garbarino há 4 coisas a ter em conta:
1. tudo está dependente de uma série de factores: e não há maneira de saber o que para certos adolescentes pode canalizar a sua raiva ou frustração para actos violentos;
2. o risco é cumulativo. É a acumulação de factores de risco que leva ao comportamento violento do tipo “ a gota que faz transbordar a água do copo”;
3. os adolescentes conseguem lidar com uma série de riscos ambientais mas a sua resistência diminui em cada perigo adicional introduzido.
Garbarino fala de 5 factores que dificultam esta resistência ou resiliência:
a) irá ocorrer em 100% das pessoas que foram submetidas a abuso e negligência;
b) vivem nas áreas empobrecidas e mais violentas;
c) estão entre 13 e 15 anos de idade;
d) são do sexo masculino;
e) estão sujeitos a tratamento racista.
4. um vazio espiritual leva à sensação de não estar ligado a nada, de não ter limites para o comportamento e não ter reverência pela vida.
Temos crianças “órfãs” na escola parecendo que não fazem parte da comunidade: são crianças deixadas sozinhas pelos pais que trabalham, que já não estão ligadas à igreja, à escola… às instituições.
Com o acesso a armas, à violência dos vídeo jogos e da imagem visual…fica facilitado o caminho para a violência.
Podemos perguntar:
- Como podemos ter escolas seguras ?
- O que se passa hoje nas escolas de forma a fazê-las particularmente vulneráveis à violência ?
- O que podemos dizer aos nossos filhos sobre o assunto ?
Não há respostas fáceis.
Um seguro escolar é aquele em que a comunidade está envolvida com estudantes não intimidados.
O que se passa é que não tem havido sintonia dos professores entre si, entre pais e professores…
Quais são os limites da segurança da escola ? Dizer que a escola é responsável e ignorar o que se passa na rua ou no parque de estacionamento do outro lado da rua não é certamente uma resposta.
Comunidade, escolas e pais devem estar em sintonia relativamente à resolução do problema da violência na escola.

14/05/09

O cyberbullying e os adolescentes

               
É uma evidência que os adolescentes utilizam as novas tecnologias da informação, principalmente o telemóvel.
Mas será que os adolescentes também utilizam as novas tecnologias para praticar cyberbullying ?
O cyberbullying consiste, entre outros aspectos, em utilizar o e-mail e o telemóvel para enviar mensagens ofensivas e intimidar os colegas.
Os pais passaram a ter mais uma preocupação com os filhos embora muitas vezes não tenham consciência disso, porque também nestes casos e nesta idade os pais não são as pessoas mais requisitadas para os adolescentes contarem os seus problemas…
Num estudo recente [1] com alunos do básico e secundário com vista a determinar se utilizam o telemóvel e o e-mail para intimidar e em que medida o fazem, foi posto em evidência que os alunos do básico e secundário utilizam as tecnologias da informação (telemóvel, e-mail, etc.) para praticar cyberbullying.
Esta prática ocorre, mais frequentemente, no sexo feminino: 45% admite já ter enviado mensagens ofensivas; enquanto que, para o sexo masculino, é de 35%, ao contrário do bullying que é, mais frequente, no sexo masculino.
Os sentimentos envolvidos na prática de cyberbullying são a raiva, sendo mais relevante, no sexo feminino, 38% refere sentir raiva no envio de mensagens ofensivas, enquanto que para o sexo masculino, é de 16%.
O desprezo, a alegria e a tristeza são também sentimentos, muito presentes, na prática de cyberbullying.
O telemóvel é o meio mais utilizado (variando entre 74% e 85%) para praticar cyberbullying.
O envio de mensagens é feito, quase sempre, individualmente, com percentagens, em média, a rondar os 70%.
As raparigas são as principais vítimas do cyberbullying, apenas 33% referiu que nunca recebeu qualquer mensagem ofensiva.
A raiva e a indiferença são os sentimentos dominantes em quem é vítima de cyberbullying.
Os amigos são os melhores confidentes para quem sofre de cyberbullying independentemente do género ou nível de escolaridade mas é o sexo masculino que mais confia nos amigos (87%); apenas 4% admite informar os Pais/Encarregados de Educação, enquanto que para o sexo feminino 29% admite contar aos Pais/Encarregados de Educação.
Pode-se concluir, assim, que a maioria das vítimas de cyberbullying não informa nem procura os adultos (Li, 2005); os pais, raramente, tomam conhecimento e os professores nunca são informados.
Os problemas de cyberbullying têm aumentado, drasticamente, nos últimos tempos, sem dúvida, devido à massificação das novas tecnologias.
Não devemos nem podemos ficar indiferentes à forma como as novas tecnologias são utilizadas, uma vez que a sua utilização indevida tem consequências negativas para o desenvolvimento social dos adolescentes e perturba o clima relacional na escola, na turma e nos grupos sociais em que estão inseridos.

[1] Beirão, Maria do Céu & Martins, Maria José D. - Cyberbullying e emoções na adolescência - Escola Secundária Mouzinho da Silveira & Escola Superior de Educação de Portalegre.
                            

29/03/09

Indisciplina 3

Chegam-nos notícias confrangedoras:
"Uma professora de Geografia da Escola Secundária Fontes Pereira de Melo, no Porto, foi anteontem agredida "à bofetada e dentada" pela avó de um aluno de 15 anos, que frequenta o 10º ano do curso profissional de Turismo. A docente vai apresentar queixa à polícia amanhã.
A agressão à docente, de 53 anos, foi presenciada por vários alunos e aconteceu mesmo à porta da escola, quando a professora foi surpreendida pela encarregada de educação. A vítima preparava-se para sair num passeio de estudo ao Palácio de Cristal.
"A senhora começou a berrar e de um momento para o outro agrediu a minha colega. Deu-lhe duas bofetadas e uma dentada", disse ao CM Paulo Teixeira Sousa, professor de Matemática naquela escola".
[1]
Este é apenas mais um exemplo do que configura a doença da educação deste país.
Será que a culpa também é dos professores quando são agredidos?
Alguns sádicos podem dizer: Se eles apanham, eles lá sabem porquê. A culpa é dos próprios professores.
Tal como podemos dizer tout court se os alunos não aprendem a culpa é dos professores, mesmo que haja um ex-ministro da educação que nos venha dizer que “difícil é sentá-los”.
Começa de facto a ser preocupante ser tão dificil dar uma aula, em algumas turmas, dado que o lugar do recreio e da sala de aula não têm distinção.
Em que o tempo útil de trabalho e aprendizagem pode ser de 5 ou 10 minutos e o restante de tentativa para pôr ordem na sala. O nível de indisciplina não permite fazer as aprendizagens e só com muito esforço, por parte dos educadores, professores e alunos interessados, isso é conseguido.
Há resultados estatísticos que dizem que as coisas não estão assim tão más. Mas esses resultados estão longe de traduzirem toda a realidade das escolas.
Os resultados estatísticos não são de fiar tal como os relatórios made in OCDE, feitos por encomenda.
As verdades de média têm a sua importância mas os fenómenos que se passam nas franjas também nos deviam preocupar, uma vez que a educação é para todos.
O prof. Amaral Dias acabou de publicar Carne e lugar, onde põe o dedo na questão da cultura deste nosso tempo.
“Emergem novas formas de prazer, que reificam a excitação em si mesma, para não falar já do impressionante número de crianças hipercinéticas ou hiperactivas. Aumentam, num crescendo inquietante, as personalidades com escassa capacidade reflexiva, ou seja aquelas cujo pensamento não se sedimenta na experiência vital, tendo por isso pouquíssima função psicanalítica da personalidade. No nosso quotidiano, confrontamo-nos mais com humanos dominados por interesses basculantes e superficiais, em que a procura permanente de divertimento e prazer se sobrepõe à capacidade de vincular”.[2]
Sem esta capacidade de me vincular, de nos vincularmos, a educação vai continuar a ser um parque de diversões de onde vai emergindo alguma pequena e às vezes grande violência.

[1] Correio da Manhã, 23 de Março , 2009.
[2] Dias, C.A. (2009), Carne e Lugar, Coimbra : Almedina.

23/11/08

Mobbing ou ... emprateleirar

Sabem com certeza o que é o mobbing
É uma palavra bonita por fora, em inglês e tudo, mas é também uma palavra muito feia por dentro.
Traduzido em português quer dizer, mais ou menos, uma grande sacanice que o chefe do serviço ou o superior hierárquico faz ao subordinado.
As vezes o fracasso não existe de modo nenhum mas pode ser fabricado por algumas pessoas para outro e atribuem-lhe o fracasso como se fosse uma característica sua.
Também se chama assédio psicológico no trabalho e tem vindo a ser investigado desde os anos 80.
Mas em que consiste o mobbing ?
Consiste em destruir moralmente um trabalhador dentro do próprio âmbito laboral.
Trata-se de criar à volta do trabalhador um clima de vazio e desprezo que vai gerando um desgaste psicológico que por sua vez, vai conduzindo à auto-exclusão, que é o objectivo pretendido.
Todos os comportamentos que são exercidos mesmo que aparentemente neutros são perversos e dirigem-se à devastação psicológica , moral e laboral da vítima.
As principais actividades são:
- Alterar a comunicação da vítima com os outros
- Curto-circuitar os seus contactos sociais instrumentais
- Desacreditar a vítima
- Reduzir ao máximo a sua ocupação laboral
- Atentar contra a sua saúde física e psíquica…
Quem pode ser vítima de mobbing ?
Qualquer trabalhador que provoque inveja. São mesmo pessoas que podem ter qualidades que são invejadas:
- Pessoas éticas
- Independentes
- Muito trabalhadoras
- Queridas pelos outros
- Cooperantes
- Com uma vida familiar e pessoal satisfatória.
E quem são os assediadores ?
Costuma ser uma pessoa cobarde, mentiroso, sentido grandioso dos seus próprios méritos, sem remorsos e cruel.
O mobbing costuma fazer grandes estragos na personalidade do trabalhador, tais como: depressão, irritabilidade, somatizações, fadiga, insónia, ansiedade, stress pós-traumático, etc…
Enquanto esta situação não for penalizada legalmente, e provavelmente não o será tão cedo dado que interessa ao sistema político, na medida em que sempre pode emprateleirar, como se diz em bom português, os trabalhadores do partido que acabou de perder as eleições, que por sua vez, já tinham substituído ou emprateleirado os que as tinham perdido anteriormente. Mas nestes fluxos e refluxos, são apanhados excelentes trabalhadores que pouco têm a ver com estas marés.
Se é um desses trabalhadores e, enquanto não houver alterações legislativas que levem a penalizar o mobbing, pode fazer o seguinte:
- Manter-se em boa forma física e psicológica
- Reforçar a confiança em si próprio
- Não cair em provocações
- Procurar apoio efectivo junto da família e amigos
- Realizar actividades fora do trabalho…
Não nos podemos deixar vencer pelo mobbing e, principalmente, não nos podemos esquecer que a adversidade é sempre uma oportunidade para mudar, ter êxito, dar valor ao que realmente importa, etc. . [1]

[1] Texto baseado em Pilar Varela - Ansiosa-mente, A Esfera dos Livros

10/04/08

(In)disciplina, delinquência ...


“O ditado popular «Quem rouba um tostão, rouba um milhão» é falso
Claro que alguns jovens delinquentes reincidem na idade adulta, tornando-se bandidos e divorciam-se por completo da sociedade. Para esses, o provérbio está certo, mas os reincidentes, segundo as estatísticas mais pessimistas, constituem apenas 25 a 30% dos jovens associais.
Existe uma tendência para a sedação do comportamento dito associal e a maior parte dos jovens marginais acabam mais dia menos dia por «encaixar-se». A proporção aumenta quando se aplicam aos jovens tratamentos que visam a longo prazo o desabrochar da personalidade, em vez duma supressão imediata das perturbações. E a simples comparação do número anual dos delitos, mais de mil vezes superior ao número dos crimes de sangue, deveria tranquilizar os pais que pensam do seu filho: hoje é ladrão, amanhã será assassino”.

S. Tomkiewicz e col. – Adaptar, marginalizar ou deixar crescer, A Regra do Jogo , pag. 86

06/04/08

(In)disciplina

 
“… A indisciplina constitui hoje, juntamente com o insucesso escolar, o problema mais grave que a escola de hoje enfrenta em todas os países industrializados.”

A indisciplina “ ao quebrar as normas da aula e da escola, interfere altamente no processo pedagógico, pois, para alem de afectar a aprendizagem do aluno, tira tempo útil ao professor compromete a sua performance e obriga-o a desempenhar papéis que ele não gostaria de desempenhar.
Daí a fadiga e outras perturbações psicossomáticas, daí os sentimentos de impotência, frustração, irritação e desejo de fuga à tarefa que afectam muitos docentes”

M. T. Estrela, Relação Pedagógica, Disciplina e indisciplina na Aula, pag. 98

(In)disciplina

"É verdadeiro o seguinte provérbio: usado na língua popular boema : uma escola sem disciplina é um moinho sem água.
Efectivamente se se tira a água a um moinho, ele pára necessariamente, assim também se na escola falta a disciplina , tudo afrouxa.”
“Com efeito, que é a disciplina senão um processo adequado de tornar os discípulos verdadeiramente discípulos”.

Coménio, Didactica Magna, Pag 401

“Um óptimo método de regular a disciplina é-nos ensinado pelo Sol, o qual ministra às coisas que crescem:
1.sempre, luz e calor;
2. frequentemente, chuva e vento;
3. raras vezes, raios e trovões, embora estas coisas tenham também a sua utilidade”.

Coménio, Didactica Magna, Pag. 405

“Houve até um grupo de mestres ingleses que fizeram um protesto público declarando que, se fossem abolidos os castigos, eles seriam demitidos de seus ofícios porque não poderiam educar sem castigos.
Oh! Os castigos ! não me ocorreu que fosse uma instituição indispensável, dominante na vida de toda a humanidade infantil. Todos os homens crescem sob esta humilhação.”

Montessori, M. - Formação do Homem

“Surge uma pergunta irreverente:
-- Por que deve uma criança obedecer?
A minha resposta é:
-- Ela deve obedecer para satisfazer o desejo adulto de poder. Se não fosse por isso por que deveria uma criança obedecer ?
--Bem –diz você – ela pode molhar os pés se desobedecer à ordem para se calçar, pode mesmo rolar de um rochedo abaixo, se não obedecer ao grito do pai.
Sim, a criança deve obedecer quando a questão é de vida e morte. Mas quantas vezes a criança é castigada por ter desobedecido em questão de vida e morte ? Raramente, se chegou a sê-lo. Geralmente abraçam-na, dizendo:
-- Meu tesouro ! Graças a Deus, nada te aconteceu !
A criança é castigada , quase sempre, pelas coisas pequenas”

A. S. Neil, Liberdade sem medo

28/03/08

A INDISCIPLINA (2)


Temos vindo a falar da indisciplina…
Mal sabíamos nós que seria aberta a caixa de Pandora através do YouTube e passaríamos toda a semana a olhar para o umbigo da Escola.

A verdade é que os alunos não são como muita gente tem dito.
As crianças não são como muita gente acha que são.
Os professores não são anjos nem demónios
Os ministros são como sempre foram
Para a ministra da educação 1000 ou 100000 professores “são muitos”.
O poder é o que sempre foi.
Não é verdade que as medidas educativas sejam adequadas. Mas este problema não é de hoje.
Aconteceu aliás um milagre em Portugal porque, com menos professores, tivemos melhores resultados.
Pois é, esses desmancha-prazeres dos sindicalistas vêm agora falar em qualidade do ensino... Que bom que era uma sociedade democrática sem sindicatos, não era ? ! Pois era. Mas se calhar não era sociedade democrática.

Não acho que os culpados sejam:
Os pais
As crianças
Os professores
Os conselhos executivos
Os psicólogos
A ministra da educação
Os sindicatos
A legislação
A sociedade
O telemóvel
Os media
A pobreza
A riqueza
O Benjamin Spock
O Berry Brazelton
O(s) currículo(s) …

Pelo contrário, acho que é com todos estes factores que se faz a educação e é aí que, no fundo da caixa, podemos encontrar a esperança. Ou seja, apesar de todos os males de que a escola enferma, é também nela que reside um futuro melhor. Aliás, o título de um livro de Benjamin Spock é, precisamente “Um mundo melhor para os nossos filhos”.

Acho que fez muito bem Armando Leandro quando centrou um problema particular na sua justa dimensão, enquadramento legal e também no campo dos valores sociais, como o valor da autoridade.
Não acho que os problemas de indisciplina se resolvam com castigos exemplares, como diz um representante de um Associação de País do Porto e se ouve por aí…
Não acho que o pequeno delito conduza necessariamente ao grande crime como acha o Sr. PGR.
Não acho que se psicologizou excessivamente a escola, como referiu o psiquiatra José Gameiro.

O trabalho da educação está a fazer-se todos os dias nas escolas pelos alunos, professores, técnicos, incluindo alguns psicólogos, auxiliares de educação, etc.
Por isso das nossas escolas, públicas e privadas vão sair óptimos alunos, óptimos filhos e cidadãos responsáveis.
Estão dentro delas os futuros profissionais que vão permitir que o país funcione: médicos, educadores, engenheiros, arquitectos, terapeutas, carpinteiros, polícias, canalizadores, investigadores … todos os profissionais que irão cuidar de nós quando formos velhos, dos nossos filhos ou dos nossos netos, que irão construir as nossas casas, que irão proteger-nos…

É por isso que estou preocupado com a educação e com os fenómenos com ela relacionados como a indisciplina ou com outras coisas mais modernas como a disrupção escolar ou o bullying, como agora se diz, mas que é a mesma coisa.

É por isso que eu e os professores trabalhamos todos os dias na escola para ajudar a ultrapassar esses problemas. Sublinho professores porque são as melhores pessoas da nossa sociedade e por isso lhes confiamos os nossos filhos para fazerem aquilo que de mais nobre existe: ajudar uma criança a crescer, cognitiva e emocionalmente, e ajudá-la a tornar-se independente e autónoma, objectivo principal da educação. Como diz Brazelton: “é tão excitante aprender qualquer coisa sozinho, sem a ajuda dos pais” e, já agora, dos professores.

Voltando atrás…
O que são castigos exemplares ? São, certamente, um abuso. E provavelmente enquadram-se no que podemos chamar de maus tratos. Por que deve haver castigos exemplares ?
Eu pensaria que todo o cidadão é sujeito de direitos e deveres e que seria sancionado pelas infracções cometidas.
Então quando é que devemos aplicar castigos exemplares ? Quem é que decide ? Onde estão esses castigos exemplares, foram definidos por quem ? Foram aprovados por quem ?
Não será que devemos apenas aplicar castigos ? Os castigos que devem ser aplicados são os que estão previstos na lei e nos regulamentos da escola aprovados democraticamente nas suas instâncias, designadamente no Conselho Pedagógico. E, mesmo assim, tem sempre que se submeter à lei e aos princípios universais dos direitos humanos e dos direitos da criança (1959 – Declaração dos Direitos da Criança,1989 – Convenção dos Direitos da Criança e 1999 – A lei 147 – lei de promoção e protecção dos direitos da criança).
Não há lugar a castigos exemplares, porque isso será a falta de justiça. Não há lugar a subjectividade nesta matéria. Em parte nenhuma da sociedade mas muito menos na escola. As instituições escolares devem funcionar. O Conselho de turma disciplinar é para isso que serve.

É a modelagem ? Para que todos vejam como são punidos os que se portam mal ? Haverá modelagem pela humilhação ? Pedagogia da humilhação ? Orelhas de burro ? A fila dos burros? Exposição na entrada da escola com um cartaz ao pescoço? Chibatadas em público ? Espancamento no gabinete ? Prisão ?

Quanto à delinquência que vai originar a grande criminalidade faz-me pensar na Crónica dos bons malandros, do Mário Zambujal. Mas sabemos que nem sempre assim acontece e o contrário também é verdade.

A escola psicologizada ? É exactamente ao contrário. “É necessária toda a aldeia para educar uma criança”. Isto é, é preciso usar os recursos ao nosso dispor para que possamos levar a cabo as tarefas da educação.
A verdade é que não há uma verdadeira rede de serviços de psicologia e orientação, no terreno…
Tenho defendido inclusive a presença na escola de outros profissionais, designadamente: técnicos de serviço social e animadores sócio-culturais, dentro de ratios que se justifiquem.

O que faz falta é que as escolas sejam dotadas do número de psicólogos que seja razoável e nem sequer falo em parâmetros internacionais ou mesmo nas dotações que estão previstas na lei a nível nacional.
Podíamos começar por um ratio de 1 psicólogo/1000 alunos.
Sobre a necessidade do trabalho dos psicólogos na escola, parece uma evidência a necessidade de consulta psicológica e de orientação escolar para os alunos.
Dispenso-me de falar do sofrimento na infância, na invisibilidade dos maus tratos às crianças (Barudy) com que frequentemente me cruzo na vida de muitas crianças com quem trabalho.
Não é necessário falar nas crianças com NEE que estão nas escolas. Merecem tudo o que possamos fazer por elas. Devolvem-nos em dobrado a força para vermos o quotidiano com outra luz e optimismo.
Não vale a pena falar dos alunos que saem da escola e são integrados na sociedade depois de muito trabalho dos professores e dos psicólogos, de terem feito sofrer colegas, professores e a própria família … porque o inferno não são só os outros…há problemas individuais a resolver, devidamente contextualizados, obviamente.

Mas “a dor da gente não vem nos jornais” como diria Amaral Dias, e também não vai aparecer no YouTube Os media têm essa dupla faceta: fazem parte da transparência da sociedade da informação mas isso não quer dizer que não traga muito sofrimento para as pessoas visadas.

Não vale a pena falar nos problemas de aprendizagem que são característicos dessa aprendizagem e que hoje são vistos com outro olhar, graças também ao trabalho dos psicólogos.

Mas viva o YouTube porque numa sociedade democrática há opinião para tudo. Hoje há opinião sobre tudo. Hoje há milhares de opiniões diferentes sobre uma mesma coisa.
Hoje felizmente há opinião. Pode ser cretina ou inteligente. Mas o importante é que ela exista.
Que bom que era uma sociedade democrática onde a liberdade de expressão fosse amordaçada, não era ? ! Pois era, mas se calhar não era uma sociedade democrática.
Foi devido ao trabalho dos meus professores que sou quem sou. E como dizia Cecília Meireles:
"Há pessoas que nos falam e nem as escutamos,
há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam
mas há pessoas que simplesmente aparecem em nossa vida
e nos marcam para sempre".
Finalmente, acho que vamos descobrir a esperança no fundo da caixa de Pandora… E de repente começaremos a dizer: obrigado professores do meu país pelo trabalho que têm feito!
A escola não é a vida. Mas o que dela resulta, o saber, a cultura, é um instrumento para a experiência da vida. Os problemas da escola e da aprendizagem com todas as contradições inerentes estão presentes nestes versos de Cecília Meireles. E, assim, faz todo o sentido a frase de Brazelton…


ALUNA
Conservo-te o meu sorriso
para, quando me encontrares,
veres que ainda tenho uns ares
de aluna do paraíso...

Leva sempre a minha imagem
a submissa rebeldia
dos que estudam todo o dia
sem chegar à aprendizagem...

- e, de salas interiores,
por altíssimas janelas,
descobrem coisas mais belas,
rindo-se dos professores...

Gastarei meu tempo inteiro
nessa brincadeira triste;
mas na escola não existe
mais do que pena e tinteiro!

E toda a humana docência
para inventar-me um ofício
ou morre sem exercício
ou se perde na experiência...

Carlos Teixeira