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26/12/19

A colaboração Família-Escola

Têm vindo a ser assinaladas divergências  entre pais e professores sobre a escola. O tempo de permanência dos alunos na escola é uma delas (estudo da Universidade Católica)
Por outro lado, devido aos casos  de indisciplina e violência que têm acontecido nas escolas com mais frequência* do que o habitual, talvez devido a maior visibilidade ou à preocupação dos educadores, que dá relevo a este tipo de situações, transmite-se muitas vezes a ideia de que  a família educa e a escola ensina ou instrui.
Não me parece que faça sentido esta separação sobretudo na prática quotidiana da escola e da família.
Educar é função fundamental da escola e não apenas da família. Além disso, para educar, escola e família não são demais. Como diz o provérbio africano: “é necessário toda a aldeia para educar uma criança”.
É certo que a família perdeu o monopólio da educação e formação. Mas a família continua a fazer parte imprescindível da educação das crianças juntamente com a escola.
Também há professores que têm a expectativa de  que os filhos sejam educados e venham educados de  casa, que saibam portar-se na sala de aula, que saibam portar-se na à mesa,  que sejam capazes de interagir com os colegas sem encontrões, gritaria, correrias…

Partindo do princípio que a família deve ter um papel insubstituível  a desempenhar na educação dos filhos, temos que nos interrogar sobre que família estamos a falar. A realidade mostra-nos uma família diferente do passado. Actualmente, na família, parece que já ninguém encontra o seu lugar.
Há muitas crianças que não vivem em família mas em instituições. Há crianças que vivem em famílias maltratantes e violentas e a exposição à violência física e psicológica faz parte do seu quotidiano e da sua aprendizagem.
Há crianças que são abusadas sexualmente e sabemos que esse abuso é maioritariamente dentro da família.
Há crianças que vivem em famílias disfuncionais em que os pais não se entendem em relação ao essencial necessário aos filhos: o afecto.
Há crianças que  vivem com os avós ou outros parentes como recurso às dificuldades dos pais devido ao trabalho, à emigração…
Há crianças que vivem divididas entre a casa do pai e a casa da mãe e não são bem aceites num lado e no outro e muitas vezes são instrumentalizadas para favorecer e tomarem o partido de um ou outro.
Há crianças que são filhas de pai incógnito (aqui e aqui), que era uma coisa impensável depois do 25 de Abril.
Há crianças com dificuldades de toda a ordem…
Então quando dizemos que a criança vem educada de casa de que estamos a falar? O professor não foi contratado para educar mas para ensinar e instruir?
O que fazemos quando há crianças que têm à sua disposição apenas as suas competências para fazerem frente à vida hostil ou de dificuldades em que vivem e para as quais é muitas vezes na escola que encontram algum afecto e compreensão para as suas necessidades?
As instituições educativas intervêm desde muito cedo na escola. Muitas crianças passam grande parte da sua a vida desde pequenas na creche e depois jardim de infância
Passam muito mais tempo na escola do que em  família, ou seja, muitas aprendizagens são realizadas na escola: autonomia pessoal como vestir-se, alimentar-se, fazer a higiene, controlar esfíncteres, aprender a coordenação motora global e finaaprender a falar e comunicar, etc.
A aprendizagem da afectividade e da sexualidade, da interacção com os outros, da moralidade, da participação na sociedade não são apenas da família nem apenas da escola mas de toda a comunidade educativa.
Alem disso há que contar com  as aprendizagens dos pares e dos media que hoje têm à disposição como a internet.
 
Diez * descreve algumas formas de colaboração entre a família e a escola e dos aspectos mais específicos da escola ou da família.  Já aqui escrevi sobre o assunto. Há uma educação específica dos pais e a escola deve desempenhar também uma educação específica nos diversos programas do currículo, mas há também aspectos comuns, e é sempre  difícil estabelecer limites para a actuação de cada uma delas, como é o caso da 
- Educação corporal,
- Educação intelectual,
- Educação da afectividade,
- Educação da expressão,
- Educação para a liberdade,
- Educação para a vida comunitária.
Mesmo que alguma destas áreas não faça parte do currículo formal não podem ser excluídas do currículo escolar, informal, ou oculto.
Escola e família, cada uma delas tem áreas específicas de actuação mas ambas educam e ambas ensinam. O sucesso educativo, a não violência e a disciplina, dependem desta colaboração.
_______________________________________
* Diez, J.J., Familia – escola , uma relação vital, Porto editora, Porto, 1989.



https://www.mixcloud.com/RACAB/cr%C3%B3nica-de-opini%C3%A3o-de-carlos-teixeira-26-12-2019/



18/12/19

Carrapatoso - "Ó meu menino"

Eurico Carrapatoso - "Ó meu menino" de "Magnificat em Talha Dourada" (2005)
Soprano Angélica Neto
Grupo vogal Olisipo com direcção de Armando Possante 

Menino de Pias

Ponde em nós os Vossos olhos,
Misericórdia, amor!

Ó meu Menino,
Meu doce Jesus,
Ó meu Redentor,
Salvai-me, Senhor!

Ó meu Menino,
Sorrindo na dor,
Quem tudo sustém,
Do mundo Senhor.

Ó meu Menino,
Que pobre que estais,
Na gruta despido,
Por entre animais.

04/12/19

Educação especial e cidadania


Esta semana, no dia 3 de Dezembro de 2019, comemorou-se mais uma vez o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, sob o lema, “O futuro é acessível”, proposto pela ONU.
Entre nós o dia foi assinalado, em vários locais.
O Instituto Nacional para a Reabilitação - INR, comemorou este dia em parceria com a Câmara Municipal de Santarém, e contou com representantes do governo, município e instituições locais.*
Em Castelo Branco, foi comemorado pela Câmara Municipal, Agrupamentos de escolas e instituições ligadas à educação e apoio de pessoas com deficiência. **

Sabemos que estes dias são simbólicos e por isso parece que estamos a repetir os mesmos assuntos há anos e que não avançamos em concreto nas respostas às necessidades das pessoas com deficiência. Estas mudanças são lentas e faz sentido que este ritual anual seja realizado porque há muito para lembrar e para fazer.
O Secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que “a inclusão de pessoas com deficiência é um direito humano fundamental.” Neste aspecto, concordo inteiramente com ele.

A comemoração deste dia começou a ser feita de um modo mais relevante em Castelo Branco na Escola Afonso de Paiva, ** graças à Equipa de Educação Especial que nesta escola tem tido um papel insubstituível no apoio às crianças com deficiências e com dificuldades de aprendizagem.
Em 2013, a acção de formação em que participei, justamente para comemorar este dia, foi dedicada ao tema “Unidos nas diferenças para a cidadania”, na sequência do apelo do Secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, “Quebrem barreiras, Abram portas: Por uma sociedade inclusiva para todos.”
Na sessão comemorativa  deste dia no Agrupamento de Escolas Afonso de Paiva apresentei o tema "Educação especial e cidadania".
Resumidamente, a cidadania diz respeito a todos. A cidadania envolve direitos civis, políticos, sociais económicos, culturais...
Em termos psicológicos costumo dizer que os direitos humanos são a realização das necessidades humanas, como, por exemplo, foram definidas por Maslow.

A cidadania é um principio universal de inclusão e não pode haver discriminação de ninguém.
A cidadania é um principio de legitimidade política, de construção identitária e de um conjunto de valores.
É por isso que ao mesmo tempo somos cidadãos nacionais, europeus e do mundo e, simultaneamente, a cidadania dá-nos um sentimento de pertença  a uma comunidade de valores. Valores esses consagrados nas diversas declarações e convenções de organismos internacionais como a ONU.
A Convenção sobre os direitos das pessoas com deficiência, de 2006, que, em Portugal, foi adoptada pela Resolução nº 56/2009, da Assembleia da República, refere, no que diz respeito à educação, que os "estados partes reconhecem o direito das pessoas com deficiência à educação ... e asseguram um sistema de educação inclusiva a todos os níveis e uma aprendizagem ao longo da vida.”
Penso que já todos estamos convictos deste princípio. Porém, a nossa prática e a das instituições não são de forma a que sejam garantidos esses elementares direitos nas oportunidades, nos espaços e nas barreiras físicas e psicológicas, nas barreiras curriculares, nas barreiras profissionais e de emprego… direitos a que todas as pessoas, com ou sem deficiência, devem poder  aceder.
Basta dar uma volta pela nossas cidade e constatar como temos tratado as acessibilidades e a eliminação de barreiras arquitectónicas, para as pessoas com dificuldades de locomoção, nas ruas e passeios, nas habitações, nos transportes, onde não cabem cadeiras de rodas ou carrinhos de bebé … ou como os ratios de pessoal são insuficientes para trabalhar com as crianças nas escolas, quando se pretende um sistema unificado de ensino. ***
A inclusão é um processo. É feita todos os dias e a todo o momento. Não é para começar amanhã. É para fazer agora que é quando o futuro começa.
_____________________________
* Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, da Secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência, Ana Sofia Antunes, do Presidente do INR, Humberto Santos, e do Presidente da Câmara Municipal de Santarém, Ricardo Gonçalves. Evento apoiado pela APPACDM de Santarém e pela Associação de Desporto Especial do Distrito de Santarém.
** Este projecto passou a ser gerido pela autarquia albicastrense que refere "que esta data é assinalada em conjunto com os agrupamentos de escola do concelho". Assim, cada agrupamento escolar irá ter um momento próprio relacionado com a efeméride, juntando-se também instituições que cuidam de pessoas com deficiência."
*** David Rodrigues refere duas vias para os sistemas educativos: um sistema alternativo e um sistema unificado de ensino. São medidas opostas ou complementares? Dito de outra maneira: qual o papel das instituições face à escola, e vice-versa, qual o papel dos currículos alternativos face ao currículo geral?





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02/12/19

Psicologia da internet - o efeito de desinibição online

"Julgar que o computador serve para tudo é correr ao encontro de decepções e de catástrofes sem precedentes. Julgar que o computador não serve para nada, é renunciar a um arsenal de serviços a que nenhum observador de boa fé contestará o valor. O maior perigo para o homem será ceder ao seu temor pela máquina e começar a fugir, ao mesmo tempo, dos benefícios da tecnologia.”
“O desordenador é perigoso: tende a sobrevalorizar as estatísticas, as médias, as massas em detrimento do indivíduo e dos seus sentimentos. A felicidade não é codificável.”
“Em caso algum um computador poderia ser ridículo. Pelo contrário, em todos os casos, o homem torna-se ridículo quando destina uma máquina a fins ridículos.”
"O desencanto cresce mais depressa que o progresso. Após as delícias do possível, as brutalidades do real."
Continuam a  ser assim, as delícias e as brutalidades.

O computador trouxe enormes vantagens para a sociedade mas a evolução da comunicação digital é de tal modo avassaladora em todas as áreas da vida que, como seria de esperar, a mudança dos comportamentos das pessoas faz-se com dificuldades, desfasamentos e estão à vista os desequilíbrios de personalidade.
A internet cria uma "dinamização" da personalidade que leva as pessoas a inclinarem-se  para atitudes de maior risco e descontrolo calculado. O "efeito de desinibição online" define estas alterações  comportamentais. (C. Nabuco)
Passámos, assim, a ter uma vida offline e uma vida online. Vidas que coincidem ou que são completamente diferentes.
Alvin Toffler falava do homem modular. Conhecemos a pessoa apenas em alguns aspectos, alguns módulos, da sua vida. Conhecemos, p.ex., a pessoa no trabalho mas nada sabemos da sua vida familiar, das suas origens, das suas amizades e  intimidades...
Agora podemos acrescentar que nada conhecemos da sua vida online mesmo quando se trata dos nossos filhos ou pais, nossos familiares, amigos ou colegas de trabalho.

Então qual é a nossa realidade? A vida online será mais real do que a vida offline? Os perfis falsos, os sites e blogues com identidades falsas serão afinal mais verdadeiros relativamente à nossa personalidade? Acontece que  na vida online   a pessoa apresenta dimensões da sua personalidade que não suspeitávamos que existissem. É muitas vezes na vida online que nos surpreendemos com os gostos, os ódios, as ideias de uma pessoa   que manifestam o módulo mais profundo da sua realidade pessoal e de relação com os outros.

Como compreender então os perfis falsos criados para esconder uma identidade falsa ou até usurpação de identidade ?
"Até setembro deste ano (2019), o Facebook fechou mais de 5,4 mil milhões de contas falsas criadas na rede social, um aumento de mais de 2 mil milhões de utilizadores face aos números do ano passado. De janeiro a dezembro de 2018 a empresa removeu da sua plataforma principal 3,3 mil milhões de utilizadores falsos, o que representa um aumento de 157%." (Record)
É que na nossa vida online (C. Nabuco)  temos a “falsa percepção de que somos anónimos e não há limites ou regras associadas ao comportamento online.
É um processo de "desindividualização", ou seja, “um estado de dissipação da identidade real e que favorece o aparecimento de maior grau de insubordinação, agressividade e sexualidade exacerbada, se comparado ao que ocorre na vida concreta.” Portanto, o "efeito de desinibição online" desconstrói os ambientes formais e mais rígidos da realidade concreta… tornando as pessoas mais condescendentes e altamente plásticas em relação às transgressões”, passando a ter uma "personalidade eletrónica" (e-personality). (C. Nabuco)
A internet é um instrumento de informação e liberdade mas também de manipulação e  marketing, de propaganda e de ódio, que influencia a nossa vida  e inferniza a de muitas pessoas. A internet veio revelar varáveis da nossas personalidade. Veio mostrar a força da Sombra, de Jung,  arquétipo que revela o lado escuro da nosso psiquismo, ou a força do nosso inconsciente, como dizia Freud. São estas forças que mostram o que na realidade somos e que  determinam muitos dos nossos comportamentos.




https://www.record.pt/fora-de-campo/detalhe/facebook-fechou-54-mil-milhoes-de-contas-falsas-ate-setembro