1. A capa do livro: Uma das obras mais conhecidas de René-Xavier Prinet, A Sonata de Kreutzer, fez
parte, em 1901, da exposição «A Arte francesa contemporânea», em Stuttgart, onde foi vendida ao príncipe regente da Baviera.
2 . No capítulo 23, explica como "a música provoca um efeito sublime na alma" ou, pelo contrário...
«O almoço foi como outro qualquer, enfadonho, cheio de convencionalismos. A música começou bastante cedo. Ah, como eu me lembro tão bem de todos pormenores do sarau; parece que estou a vê-lo pegar no estojo, a abri-lo, a tirar uma colchinha bordada por uma senhora qualquer, a extrair o violino e a começar a afiná-lo. Vejo a minha mulher a sentar-se ao piano com um ar de fingida indiferença a encobrir, eu bem via, uma grande timidez (a timidez que o medo da sua inépcia, sobretudo, lhe provocava); portanto, sentou-se com ar fingido, começaram os habituais lás no piano, o pizzicato do violino, a instalação da pauta. Depois olharam um para o outro, olharam para as pessoas que se sentavam, trocaram umas palavras, e começou. Ela deu o primeiro acorde. A cara dele ficou séria à escuta, rigorosa, simpática, e depois, com o arco nos dedos cuidadosos, tocou nas cordas e respondeu ao piano. E começou...»
Pózdnichev parou, depois emitiu várias vezes o seu barulhinho habitual. Queria continuar, mas fungou e voltou a parar.
— Estavam a tocar a Sonata de Kreutzer, de Beethoven. Conhece o primeiro presto? Conhece? — exclamou. — Ooh!... Esta sonata é uma coisa terrível. Precisamente esta parte. E a música em geral. O que é isso? Não compreendo. O que é a música? O que ela nos faz? E por que é que faz o que faz? Dizem que a música provoca um efeito sublime na alma... Mentira, absurdo! Provoca um efeito, um efeito terrível (estou a falar de mim), mas não sublime. Não age na alma de modo sublime nem humilhante, mas de modo excitante. Como lhe hei-de explicar? A música faz-me esquecer de mim próprio, da minha verdadeira situação, transporta-me para outro espaço qualquer que não é o meu: a música parece que me faz sentir o que na verdade não sinto, que me faz compreender o que não compreendo, parece que com a música, posso fazer o que na verdade não posso. Explico-o assim: o efeito da música é como o do bocejo ou do riso; não tenho sono mas bocejo quando olho para alguém a bocejar; não tenho motivos de riso mas rio quando ouço alguém a rir-se.
«A música transfere-me de imediato para o estado de espírito do músico quando a compôs. Fundo-me na alma dele e, juntamente com ele, transporto-me de um estado para o outro, mas não sei por que o faço. O homem que compôs, digamos, esta Sonata de Kreutzer, Beethoven, sabia o porquê desse seu estado, um estado que o levou a praticar determinados actos, logo um estado que tinha sentido para ele mas que, para mim, não tem qualquer sentido. Por isso a música apenas excita, mas não determina. Bom, se tocam uma marcha militar, os soldados marcham, a música aqui determina alguma coisa; se tocam uma dança, dançamos, e tudo está definido; cantam uma missa, comungamos, também está definido. Mas aqui apenas há a excitação, e não se torna claro o que devemos fazer neste estado de excitação. Por isso a música é tão assustadora, por isso causa tantas vezes um efeito pavoroso. Na China, a música é uma prerrogativa do Estado. E tem de ser assim. Pode admitir-se que alguém hipnotize quem lhe apeteça, uma ou muitas pessoas, e depois faça com elas o que quiser? Sendo o hipnotizador, ocasionalmente, um homem imoral?
«Pois bem, este meio terrível cai nas mãos de qualquer um. Por exemplo, esta Sonata de Kreutzer, o primeiro presto. Será admissível tocar este presto num salão, no meio de senhoras decotadas? Ouvem, batem palmas, depois comem gelados e falam de um novo boato qualquer. Estas coisas apenas devem ser tocadas em circunstâncias importantes, significativas e quando é necessário realizar determinadas acções importantes que correspondam a esta música. Ouvir e fazer precisamente o que a música sugeriu. De outro modo solta-se uma energia e um sentimento que não correspondem ao lugar nem ao momento, e não se manifestam, o que não deixa de ser nocivo. A mim, pelo menos, esta peça influenciou-me terrivelmente; parecia que se me revelavam sentimentos e possibilidades absolutamente novos, desconhecidos para mim até àquele momento. Parecia que a minha alma me falava: isto é assim, não é como pensaste e como viveste antes. Não sabia que coisa nova me era dada a conhecer, mas a consciência do novo estado era muito feliz. As mesmas pessoas, incluindo ele e ela, eram-me reveladas a uma luz muito diferente.
«Depois do presto tocaram o andante, excelente mas banal, nada novo, com variações vulgares, e o final, então, foi mesmo fraco. Depois, a pedido dos convidados, tocaram ainda uma elegia de Ernst e algumas outras pequenas peças. Tudo muito belo, sim, mas não me produziu sequer a centésima parte daquela primeira impressão. Tudo o que ia acontecendo na música já vinha ofuscado por aquela primeira impressão. Senti-me leve e alegre durante todo o serão. Quanto à minha mulher, nunca antes a vira como naquela noite: os olhos brilhantes, a expressão rigorosa e significativa enquanto tocava e, quando acabou, o ar terno, o sorriso fraco, humilde e deliciado. Eu via tudo isso mas não lhe atribuía outro sentido senão o de que ela experimentava as mesmas sensações que eu, de que também para ela se revelavam, como que surgidos das névoas da memória, sentimentos novos nunca antes experimentados. O serão acabou da melhor maneira, todos os convidados partiram.
Lev Tolstói,
A sonata de Kreutzer, Relógio D'Água, pags 89-92.
3. Da história da Sonata consta a censura que foi feita tanto na Rússia como nos EUA.
De facto, o breve romance "A Sonata a Kreutzer" foi proibido na Rússia pelos censores, mas uma versão mimeografada foi amplamente divulgada. Em 1890, o Departamento Postal dos Estados Unidos proibiu o envio de jornais contendo partes serializadas da obra. Isto foi confirmado pelo Procurador-Geral dos Estados Unidos no mesmo ano. Theodore Roosevelt chamou Tolstói de "pervertido sexual". A proibição da sua venda foi revogada pelos tribunais de Nova York e Pensilvânia em 1890.