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05/09/17

10 anos de "Educar em Diálogo"

  http://3.bp.blogspot.com/-grU5hLd1UOY/TslEkLurQyI/AAAAAAAAAuM/e6uWGXaxx9k/s980/DSC01466%2Bblog%2Bicon%2Ba.jpg
  
10 anos de "Educar em diálogo". O objectivo inicial foi o de trazer algumas ideias sobre  a educação que na altura passava por caminhos controversos e autoritários, com uma ministra da educação, Maria de Lurdes Rodrigues, que tinha dos professores a ideia de que eram o fracasso do sistema educativo e que era preciso ensinar-lhes as boas maneiras para serem professores. Muitos projectos eram os do regime "socrático": novas oportunidades, "magalhães", parque escolar, avaliação de desempenho altamente burocratizada, a divisão entre professores e professores titulares, a escola a tempo inteiro (AEC), as alterações do DL 3/2008 e as escolas de referência, a CIF, o número mágico de 1,8% de crianças com NEE, com a exclusão de muitas do apoio da educação especial, o encerramento de escolas rurais e de pequena dimensão... (A crise na educação)
O que mais chocava era a atitude arrogante do poder, em particular  num sector onde o diálogo,  como método,  devia ser o caminho para tomar decisões e  melhorar a educação.

03/07/17

Hoje apetece-me ouvir: Les choristes

Les choristes (Os coristas) - Vois sur tom chemin
Filme * de Christophe Barratier, 2004; Música de Bruno Coulais


Vois sur ton chemin/ Vê no teu caminho
Gamins oubliés égarés/ Crianças  esquecidas perdidas
Donne leur la main/ Dá-lhes a mão
Pour les mener/ Para os conduzir
Vers d'autres lendemains/ A outros amanhãs
...


* Passou há alguns dias na RTP1

29/08/16

Livros escolares emprestadados


A complexidade da gratuitidade dos manuais escolares, o que são "manuais escolares", o negócio dos manuais escolares, livro único e proselitismo ideológico através dos manuais escolares, estão bem retratados no texto de Helena Matos "Manuais escolares: abram-nos por favor!" (Observador, 03 Abril 2016516)

Sobre o negócio dos manuais escolares, "O negócio dos manuais escolares está a abanar", dá uma ideia dos interesses em jogo. E há sempre outros interesses e interesses outros...

Não parece que a reutilização dos manuais vá por em causa o negócio, devido ao tempo de vida dos manuais (seis anos) uma vez que o próprio ME já referiu ( "Reutilização de manuais escolares será escassa, admite Ministério da Educação"). Além disso, a gratuitidade geral dos livros levará onze anos (!) a implementar e porque há outras formas de obter receita, como, para já, os vários livros de apoio, os manuais híbridos, os e-manuais... E depois quem consegue saber o que vai acontecer com este ME nos próximos anos? O que se vai passar daqui a onze anos?
As alternativas que se têm encontrado também não são satisfatórias: manuais ficarem na escola, bolsa de manuais escolares...
A alternativa chegará com a escola digital. O negócio deixará de ser papel impresso para ser outra coisa...
Enquanto essa mudança não chega, pais, livreiros, câmaras municipais... bem podem esperar sentados! "Ao SOL, o ministério garante que isso (os livros emprestadados) vai acontecer «de forma gradual, durante a presente legislatura». Para o efeito, encontra-se constituído um grupo de trabalho que reúne representantes governamentais e da administração pública da Educação, Economia e Assuntos Parlamentares, bem como do Conselho de Escolas e associações representativas dos pais e encarregados de educação, autarquias locais e editores e livreiros. Segundo nota enviada pelo ministério, este grupo tem como missão «a definição do programa de aquisição e reutilização de manuais escolares bem como o âmbito e ritmo da sua  implementação». (Sol, 8/7/2016). Sugiro ao grupo de trabalho um capítulo sobre a sala de aula do futuro e o fim dos manuais escolares !

28/08/16

Livros escolares emprestadados

No tempo em que os livros eram reutilizados...


"A Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) disse esta quinta-feira que muitas famílias estão a comprar os livros para o 1.º ano de escolaridade, este ano disponibilizados gratuitamente, devido à obrigação de os devolverem bem conservados.
Porém, segundo os diretores escolares, a maioria dos encarregados de educação está a levantar os livros nos estabelecimentos de ensino ou as guias para os receber diretamente nos estabelecimentos comerciais.
O Estado assume este ano, pela primeira vez, a despesa com os manuais escolares de todos os alunos do 1.º ano, sob um termo de responsabilidade em que os encarregados de educação se comprometem a devolver os livros no final do ano letivo para poderem ser usados por outras crianças no ano seguinte..." (Observador)

Esta é daquelas ideias (medidas) políticas que parecem excelentes e à, primeira vista, quase todos estão de acordo. Começou por ser defendida pelo CDS e depois pelo BE. 
Finalmente, pelo PS: "Alexandra Leitão, secretária de Estado Adjunta e da Educação, disse, em entrevista ao Diário de Notícias, que o corte nos contratos de associação vai permitir que todos os alunos do 1º ciclo, incluindo os do privado, recebam manuais escolares. "Dar manuais gratuitos a todo o 1.º ciclo custa 12 milhões. Estamos a falar em poupar o dobro disso", garante a secretária de Estado da Educação." (Económico)

Não deixa de ser curioso, trocar verbas de livros escolares pela "poupança" dos cortes dos contratos de associação dos colégios.  

Outra curiosidade é que o pagamento dos livros do 1º ciclo, e não só, já era comparticipado para muitos alunos: "Os auxílios económicos relativos aos manuais escolares de aquisição obrigatória consistem na cedência dos livros respectivos ou no reembolso, total ou parcial, das despesas comprovadamente feitas pelos agregados familiares com a sua aquisição." (DR, N.º 42 , 2 de Março de 2009 )
Mais curioso ainda é saber como faz sentido, para um governo dito socialista, que mesmo alunos com pais com elevados rendimentos não paguem os livros escolares... 
Algum sentido já se encontra no contributo para a burocratização da ASE que em 3872 escolas (2015), vai ter que distribuir, recolher e avaliar as condições em que os livros emprestadados aos alunos se encontram para voltar a distribuir...
Já era assim. " A não restituição dos manuais escolares, nos termos dos números anteriores, ou a sua devolução em estado de conservação que, por causa imputável ao aluno, impossibilite a sua reutilização, impede a atribuição deste tipo de apoio no ano letivo seguinte." (DR, N.º 148, 31 de Julho de 2015). Mas  a lista dos alunos "carenciados" vai aumentar muito.

Ora acontece que a experiência tem levado a concluir que a grande maioria dos livros ficam sem condições (escritos, sujos, riscados, sublinhados...) de serem reutilizados.
Por isso, os pais não fazem mais do que prevenirem aquilo que já se prevê. Estão a pagar os livros porque já sabem o que lhes vai acontecer.

17/09/14

Monsanto, Lapa do lobo...


Tenho vindo a defender a continuação da actividade das escolas de pequena dimensão.
Infelizmente há uma visão diversa, errada, autoritária, relativamente a este assunto, e que pode ser tudo menos reformista.
Vale a pena dizer, novamente, que fechar escolas não pode entrar na perspectiva de reforma da administração.

A reorganização dos serviços do estado faz sentido, é necessária, apesar das mudanças que provoca na vida das pessoas e das deficiências com que são executadas. 
O encerramento dos governos civis, a reorganização de serviços de saúde, das freguesias, tribunais, etc. é uma tarefa difícil e, normalmente, há sempre resistência dos interessados. 

O encerramento de escolas é outra coisa. Embora tenha aspectos comuns como a desertificação, etc., nas escolas  há crianças muito pequenas, de 5/6 a 9/10 anos, que têm de fazer deslocações diárias, ao sol, à chuva, de vários quilómetros, longe dos pais o dia inteiro... 

Monsanto, Lapa do Lobo são dos últimos casos a virem na comunicação social. Oiçam os pais, que apenas estão interessados no bem-estar dos seus filhos.
Oiçam também os autarcas.
Pelo menos isso. Já que as crianças, infelizmente, são o que menos importa nestas histórias. 


16/02/12

Waiting for superman


Waiting for superman (2010), desta vez, uma “verdade conveniente” necessária à análise  e ao debate sobre as preocupações dos pais e dos educadores com o caminho que leva a educação.
Não sei se as charters schools, com financiamento público e gestão privada, resolvem o problema.
Os pais deveriam ter possibilidade de escolha, deveriam poder optar por escolas de qualidade.
Mas, públicas ou privadas, não deveria haver escolas de qualidade para todas as crianças?
Mas, públicas ou privadas, de facto, “não pode haver excelentes escolas sem excelentes professores” (Davis Guggenheim).
Podíamos começar, talvez, por uma reparação pública aos professores, aos excelentes professores que tivemos.
  

18/11/11

Motivação de sucesso: o melhor prémio


O ME anterior instituiu prémios pecuniários para os melhores alunos do ensino secundário.
O actual ministro acabou com o prémio pecuniário individual atribuindo esse valor à escola para dotação de recursos educativos.
Discutiu-se muito sobre o actual ministro ter acabado com a verba de 500 euros para o melhores alunos do ensino secundário.
Podemos concordar que o timing foi de facto desajustado. Para além disso, não vejo motivo para não terminar com o prémio pecuniário individual.
Alguns "indignados" resolveram, mesmo assim, dar o prémio não do seu próprio bolso mas através da angariação de fundos ou de organizações que contribuíssem para a entrega dos prémios reparando o que no seu entender foi uma tremenda injustiça.
O que é interessante é que alguns foram pedir essas verbas a instituições que directa ou indirectamente dependem do estado.
Cada um é livre de fazer o que entenda. Os "indignados" fizeram muito bem e espero que o continuem a fazer nos próximos anos ! Mas seria mesmo bonito se dessem os prémios do seu próprio bolso !
Porém, entendo de outro modo: sou favorável à existência do dia do diploma ou o dia da graduação que em si próprio é o reconhecimento social de uma competência adquirida pelas novas gerações. Mas o prémio de mérito não passa necessariamente pelo dinheiro nem o reconhecimento social depende disso.
Atribuir prémios pecuniários não é de facto a melhor maneira de educar.
E o que pensar de atribuir prémios apenas às competências cognitivas ? Por que não há prémios para o esforço, para os comportamentos e atitudes cívicas e para a solidariedade ? Porque não há prémios de mérito para os alunos do 9º ano ? Ou para os alunos da universidade ?
Parece por isso uma medida ao acaso e até mesmo arbitrária.
A motivação de sucesso é essencialmente uma motivação intrínseca, isto é, o que motiva o sujeito para a realização da tarefa é o sentimento de competência e autodeterminação (Deci) que lhe proporciona a realização dessa mesma tarefa.
A tarefa do aluno é trabalhar para conseguir realizar as suas tarefas com sucesso sem necessitar de outros prémios como os pecuniários.
Precisamos de pessoas que lutem pela superioridade num campo apenas do interesse da realização e não pela recompensa material.
Não é de somenos importância acrescentar que os resultados do secundário são os que conhecemos do ranking mas também sabemos que esses resultados dependem de explicações e de outros factores não considerados.
É por isso que alguns alunos apresentam apenas motivação extrínseca e ganhar dinheiro é a finalidade da vida.
É por isso que é tão importante saber o que nos motiva. E é importante que o façamos desde cedo.
Se soubermos aprender que a motivação é o fundamental da vida podemos compreender a frase de Confúcio: “Descobre o que gostas de fazer e nunca mais precisas de trabalhar.”

04/11/11

Escola pública, explicações privadas: o que o ranking não avalia

A realidade da escola estatal tem sido mistificada de vários modos. O ranking das escolas do ensino secundário é disso um exemplo. Aquilo que aparece no ranking não são os resultados da escola estatal, são os resultados da escola estatal mais os resultados das explicações. Normalmente a comunicação social não fala disso.
Um grupo de investigadores da Universidade de Aveiro, no âmbito de um estudo sobre este assunto, em Portugal, destaca alguns aspectos desse estudo:
- percentagem  elevada de alunos do ensino secundário que recorrem a explicações;
- percentagem de procura superior nos grupos de maior poder económico e com habilitações académicas mais elevadas;
- oferta mais elevada nos meios urbanos do que nos rurais;
-  procura mais elevada nas disciplinas que conduzem a cursos superiores com melhor estatuto social e maior empregabilidade.

"Os resultados de uma investigação de Costa, Ventura e Neto-Mendes (2003) em quatro escolas secundárias mostraram que na escola mais bem colocada no ranking nacional, 72% dos estudantes usufruíram de explicações, enquanto na escola mais mal posicionada  no ranking menos de metade dos alunos tiveram apoios para além das aulas." *

Não deixam de ser interessantes os motivos do recurso às explicações, apresentados no gráfico seguinte incluído no trabalho de T. Silveirinha *



09/06/11

Mal-entendidos


Mal-entendidos é um "título ambíguo"  que (também) pode definir mais ou menos o que tem acontecido na educação.
Às vezes dá a impressão que não estamos interessados na mesma coisa que o ministério da educação ou na mesma coisa que os pais… promovendo uma espécie de luta continua em vez de uma  cooperação permanente entre uns e outros.
Veja-se o que se passa com a avaliação de desempenho docente, com o estatuto do aluno e a questão da (in)disciplina, a violência na escola e à volta dela…
Não quero dizer que não haja conflitos em assuntos complexos que resultam da própria complexidade do ser humano e da sua compreensão. Refiro-me apenas aos objectivos essenciais da educação em relação aos quais devíamos  estar de acordo.
Parece às vezes que as pessoas que mais mal fazem à educação são os ministros da educação... ou os professores.
Falamos frequentemente da interacção escola-família mas estamos longe de ultrapassar as desconfianças entre uma e outra.
O livro de reclamações virou queixa directa para o ministro. Cada queixa parece significar ter razão.
Quem tem que se justificar é a escola. Mesmo quando é difícil à escola fazer mais. A escola (os seus profissionais) não pode queixar-se de que não há recursos. Não pode queixar-se de que não há meios. Não pode queixar-se tout court.
Outro mal-entendido diz respeito às próprias intervenções pedagógicas. Questionam-se metodologias, formas de ensinar, comportamentos e atitudes do professor…
É, por isso, que “ Mal- entendidos” é um livro claro, justo, objectivo e honesto.
As dificuldades são apresentadas com clareza e honestidade. No estado actual dos nossos conhecimentos, há verdades que têm que ser ditas aos pais.
Sabemos que há processos psicológicos que são difíceis de elaborar. Há lutos complexos. O filho dos sonhos não é o mesmo da realidade. E esta é uma realidade dura de enfrentar.
Por isso, o caminho mais fácil é a culpabilização do sistema educativo, isto é, dos professores.
"Se o meu filho não aprende a culpa é do professor". Aí está um bode expiatório à mão de semear, quando, às vezes, o responsável é apenas a lotaria genética que faz com que tudo seja diferente em cada uma das crianças que ensinamos.
“Cada criança é uma história por contar” e os professores têm a grande responsabilidade na sua educação:
“Para compreender uma criança temos de voltar ao país das memórias, reviver o que ficou para trás, habitar de novo medos de que nos esquecemos. Olhar com olhos de espanto, chamar filha a uma boneca, e replicar o milagre da criação dando-lhe voz. Para a compreender temos de voltar a pele do avesso, reduzir a dimensão do corpo na medida inversa em que cresce o sentimento.”
As histórias em geral têm um fim feliz mas "para muitas crianças a sua história pode não terminar bem".

20/01/11

A escola é a solução


"A escola tem muitos problemas. Mas a escola não é o problema. A escola é a solução."

Comunicação de José Antonio Caride Gómez (Universidade de Santiago de Compostela), A Pedagoxia Social nas instituições escolares: Realidades e desafios do futuro, Colóquio na ESE de Castelo Branco.

30/12/10

PIB/FIB

Falar de felicidade nos tempos de crise profunda que correm parece ser uma tarefa arriscada. Apesar disso, desejamos boas festas e próspero ano novo aos nossos familiares, amigos ou simplesmente conhecidos.
Tem vindo a opor-se Felicidade Interna Bruta (FIB) ao Produto Interno Bruto (PIB). Ou seja, para além do crescimento económico e do desenvolvimento material, o verdadeiro desenvolvimento de uma sociedade humana depende também do desenvolvimento espiritual, complementando-se e reforçando-se mutuamente. Os quatro pilares da FIB são a promoção de um desenvolvimento socio-económico sustentável e igualitário, a preservação e a promoção dos valores culturais, a conservação do meio-ambiente natural e o estabelecimento de uma boa governação.
Não sei se a fórmula será esta. Sabemos que as emoções e os sentimentos negativos, como a tristeza, a angústia e a raiva influenciam a saúde.
Os psicólogos, desde há cerca de vinte anos, falam da "psicologia positiva" (Seligman) que visa determinar o peso das emoções positivas no equilíbrio físico e mental.
O estudo de pacientes deprimidos, procura respostas para compreender quais são as raízes da felicidade.
Hoje a depressão é dez vezes mais frequente do que era em 1960.
Além disso, a depressão atinge pessoas cada vez mais cedo.
Algumas pessoas procuram a felicidade no dinheiro e no poder de compra.
É evidente que uma situação financeira confortável ajuda. Mas é um erro pensar que, quanto mais dinheiro, mais satisfação. Especialmente se, para consegui-lo, se sacrificam outros aspectos. (Seligman)
A riqueza tem uma baixa correlação com o nível de felicidade. Os ricos são, em geral, só um pouco mais felizes que os pobres.
Nos Estados Unidos, enquanto o rendimento aumentou 16% nos últimos trinta anos, o número de indivíduos que se consideram muito felizes caiu de 36% para 29%.
Quanto ao poder de compra verifica-se que há países muito pobres, como o Bangladesh, por exemplo, que têm, na média, menos pessoas felizes que países como os Estados Unidos, mas também é verdade há países onde as pessoas têm um poder de compra quase quatro vezes maior do que outros e são menos felizes.
Portanto, a felicidade não está necessariamente associada a mais dinheiro ou a mais poder de compra.
O problema é que muitas pessoas têm tudo para serem felizes e não o são, isto é, há pessoas que quanto mais têm mais querem.
Essas pessoas acumulam bens materiais, realizações e sucessos. Passam a encarar o status e o conforto que alcançaram como se fosse um dado da natureza.
Com isso, começam a ficar insatisfeitos e a querer sempre mais. É claro que tal atitude causa frustração. Por esse motivo, lidar com a felicidade pode ser tão difícil quanto enfrentar a infelicidade.
Vejamos o que acontece com os ídolos com pés de barro,do nosso tempo ou do passado.
Pode acontecer que a felicidade não seja vista como uma caraterística da personalidade "eu sou feliz” ou “eu não sou feliz”, mas como uma felicidade momentânea que vai perdendo o seu impacto.
O grande desafio é manter o nível constante de felicidade.
Quem ganha a lotaria ou o euromilhões, após esta euforia momentânea, regressa ao seu nível básico de felicidade.
Também é verdade que quando passamos por um acontecimento muito triste também somos capazes de regressar a esse nível básico de felicidade.
Para o novo ano, como Seligman, proponho que a conquista da felicidade seja um exercício diário, feito com gentileza, originalidade, humor, optimismo e generosidade.

(Entrevista a Martin Seligman, VEJA on-line, Edição 1844, 10 de Março de 2004)

24/11/10

personalidade-base


«A maior desgraça da nossa história, a infeliz campanha de Alcácer Quibir, em que desapareceu D. Sebastião, com a élite militar do seu tempo, não passou de um grande sonho vivido, de trágicas consequências. Mas a história está cheia de curiosos episódios, como o do Magriço e os Doze de Inglaterra, que vão defender em torneio umas damas ultrajadas por cavaleiros ingleses, a comprovar o fundo de sonhador activo do Português. Além disso, o desprezo pelo pelo interesse mesquinho e o gosto pela ostentação e pelo luxo nunca nos permitiram o aproveitamento eficaz das grandes fontes de riqueza exploradas. Os tesouros passavam pelas nossas mãos e iam-se acumular nos povos mais práticos e bem dotados para capitalizar, como os Holandeses e os Ingleses. Soubemos traficar, mas faltou-nos sempre o sentido capitalista. No século XVI, quando Lisboa era o grande empório do Mundo, sob o brilho do luxo já se ocultava a miséria. Gil Vicente descreve os fidalgos cobertos de rendas e brocados, com a sua corte de lacaios, mas sem dinheiro para comer. Ao contrário dos povos burgueses do Norte e Centro da Europa, o nosso luxo não é um requinte que resulte do conforto, é-lhe quase oposto; é mero produto da imaginação, e não dos sentidos. Ainda hoje temos as camas mais duras da Europa e as ruas estão repletas de automóveis de luxo. São poucas as casas ricas com aquecimento e muitas delas não têm uma sala de estar. Mas essas mesmas casas têm salas de visitas ou até salões de baile cheios de porcelanas da Índia e da China. As pessoas modestas, cujas casas são despidas do mínimo conforto, andam nas ruas vestidas com elegância ou com luxo. Um pequeno empregado de comércio, de pouco ilustração e educação, faz mais figura na rua do que um intelectual alemão ou suíço de boa família e com recursos. Da mesma maneira, qualquer empregadita, que mal ganha para se alimentar, anda vestida impecavelmente e pela última moda.» (pg.31-33)

17/11/10

Deixar de fumar

O problema da mudança de comportamento no caso do tabagismo tem vindo a merecer importância na nossa sociedade. Até há um dia do não fumador .
Este progresso deve-se à intervenção de várias pessoas e instituições que a partir dos anos 80 lutaram para que houvesse uma mudança substancial no consumo de tabaco como Fernando de Pádua e Manuel Barão da Cunha.
Fizeram-se progressos extraordinários e as estratégias que então definíamos para estas situações no campo da modificação dos comportamentos de risco para a saúde não estão ultrapassadas.
As medidas legislativas têm necessariamente quatro vertentes: medidas legislativas educativas/formativas, informativas, proibitivas, punitivas. Estas medidas devem estar em interligação com a investigação e com a avaliação.
Esta parece-me ser ainda hoje a metodologia para qualquer projecto de alteração de comportamentos prejudiciais à saúde.
A legislação proibitiva e punitiva sofreu grande alteração. Mas verificamos que às vezes ficamos apenas nas medidas legislativas proibitivas e punitivas.
Continuo a estar preocupado com o que acontece nas escolas. Apesar de ser proibido fumar nas escolas, isso não tem tradução directa no comportamento dos alunos. O consumo de tabaco pelos pré-adolescentes e adolescentes não abrandou. A medida proibitiva do consumo de tabaco na escola não reduziu drasticamente o comportamento tabágico.
A grande maioria dos consumidores inicia-se na escola, ou do outro lado do portão da escola. O que não é novidade uma vez que é na escola que passam o dia e é na escola que está um dos factores de pressão mais importantes para começar e continuar a fumar: os pares.
Sabemos também que a educação para a saúde, após tanto estudo realizado, continua a ter pouco significado e pouco impacto na modificação dos comportamentos.
É que mudar comportamentos é a tarefa mais difícil da educação. E não é apenas com medidas legislativas proibitivas e punitivas que isso se resolve.
O que fazer nas escolas ? O que fazer com os alunos ?
Foi positivo terem acabado as salas de fumo para os trabalhadores. Mas fumar ao portão da escola não é a melhor modelagem que podemos ter .
Se para alguns pais é sempre uma surpresa serem informados destes comportamentos dos seus filhos, noutros casos poderão, eventualmente, até ser incentivados em casa.
Há alguns pais que dão dinheiro para a compra de tabaco. Ou, o que é o mesmo, dão dinheiro para o lanche que, sabem ou desconfiam, terá outros fins, dado que não há qualquer controlo em relação a isso.
Há pais que não exercem a modelagem em casa em relação ao tabaco como em relação a outros comportamentos. ...
Então como mudar os comportamentos? Será que queremos mesmo mudar?

15/11/10

Medos e afectos

Casa-Museu Afonso Lopes Vieira
A. tem vindo a mostrar comportamentos pouco racionais na escola e em casa. Situando-se intelectualmente acima da média, tem vindo a sentir dificuldades no desempenho escolar. Mas o pior é quando está numa situação em que tem que se sujeitar aos comentários e às eventuais criticas dos outros. Acaba por falhar na realização e não é capaz do nível de desempenho que à partida deveria atingir.
O problema é tanto maior quanto esta situação é origem de comportamentos também desajustados na família revelando-se na sua incapacidade para ficar sozinho e dormir sozinho, atrapalhando a vida familiar.
Tem também conversões somáticas como vomitar.
Quando se aproxima a situação de ter que ficar sozinho, tudo aparece de novo reactivando estes comportamentos.
Pesquisando sobre o que se passa com os seus medos podemos verificar que eles se enquadram no âmbito do:
- medo do falhanço e da crítica
- medo do perigo, morte e ferimentos
e ainda medo do desconhecido.
Parece, assim, que estamos perante uma perturbação de ansiedade generalizada.
Nesta situação, ansiedade e preocupação estão associadas a alguns sintomas bastando estar um presente no caso das crianças.
Esses sintomas são os seguintes:
- Agitação, nervosismo ou tensão interior
- Fadiga fácil
- Dificuldade de concentração ou esquecimentos devidos a ansiedade
- Irritabilidade
- Tensão muscular
- Perturbação do sono (dificuldade em adormecer ou dormir).
Não podemos aligeirar esta situação não dando relevo a estes comportamentos.
O que acontece para além desses sintomas, é um verdadeiro sofrimento por parte das crianças que manifestam esta perturbação.
Embora os sintomas possam ser físicos a sua origem é psicológica. No entanto, é necessário saber se nada tem a ver com problemas físicos. Além disso, não se pode limitar a descartar o doente com um diagnóstico de “crise de ansiedade” como se isso não tivesse importância.
E muito menos de que se trata de um menino mimado ou que faça o próprio sentir-se pouco racional, desclassificando-o e pensando que é descontrolado dos nervos.
A intervenção psicológica é aqui fundamental e alguém deve conseguir explicar por que razões o seu sistema nervoso reagiu de forma exagerada.
Mas, então, como é que se explica «racionalmente» uma crise de ansiedade generalizada ?
O A. fez uma apreciação exagerada da situação. Por isso é necessário
- reconduzir a ansiedade da criança a uma situação mais real para reduzir a importância dos medos.
- perceber que está a chamar a atenção para a sua vida familiar.
- que há um sofrimento imenso que é preciso ajudar a ultrapassar.
- Compreender que o nosso tipo de vida, cheio de stresse e de raivas, produz dentro de nós medos, como aqueles que se escondem debaixo da cama do A..
Cortar o círculo vicioso do medo é difícil, mas fundamental. Não se consegue apenas com ansiolíticos. É necessária a ajuda de um psicoterapeuta que através do trabalho interior pode levar a uma vida normal, mesmo que o medo do medo não desapareça completamente.
Este trabalho interior passa pela família que novamente está no centro desta situação.
O medo de perder as pessoas do afecto pode ser o problema essencial.
E então estamos no campo da perturbação de ansiedade de separação.
Enfrentar os medos é o caminho de quem é mais forte do que o próprio medo e com a ajuda dos técnicos e da família é possível ultrapassar.

12/11/10

Nem direitos adquiridos nem compromissos assumidos?

Parece que não ficará pedra sobre pedra no final desta tristíssima governação.
O “estarmos de tanga”, de Barroso e o “estarmos no pântano”, de Guterres, verdades como punhos que nos doeram e doem mas que são honestas, correctas e realistas, virou farsa completa. Um fim de ciclo arrepiante para quem ainda tem valores.
Os valores dos compromissos assumidos.
Os direitos adquiridos já não existem. E a qualquer momento cada cidadão espera (o) pior.
Houve tempos em que a palavra bastava. Hoje, o compromisso pode estar escrito, timbrado, selado e avalizado que pode ir para o lixo quando a parte mais forte, o estado, isto é, o governo, assim o entende.
Transferiram serviços para as autarquias como o serviço não docente da educação.
Assinaram acordos. Assumiram compromissos.
Para quê? Acusam-se mutuamente de que um deve ao outro e outro diz que está tudo pago.
O que se passa com a gestão de pessoal é um pesadelo.
Agora é a ADSE. O trabalhador fica dependurado com os recibos dos médicos porque a autarquia diz que não é com ela. E a ADSE diz que o trabalhador é da autarquia.
Os resultados da avaliação de desempenho são letra morta.
Os recursos humanos da educação são cada vez mais escassos...
Este povo trabalhador, ordeiro, respeitador, com valores, perdeu os direitos adquiridos e, pelos vistos, também já não merece os compromissos assumidos.

04/11/10

“Deixem a escola em paz”

Por uma cultura de paz e de não violência

 
M. Filomena Mónica (1) escreveu um artigo "deixem os professores em paz" que pode ser extensivo a toda a escola.
"Há 30 anos ... O ambiente que ali se respirava reflectia a cultura que as crianças traziam de casa: mesmo quando não livresco, o ethos era hierárquico".
A escola, hoje, é diferente da escola de há alguns anos. O papel do professor também é diferente. Mas dentro das diferenças o que deve permanecer? Creio que no fundamental a escola deveria continuar a respirar cultura e hierarquia.
Infelizmente não é o que está a acontecer nas escolas concretas, no terreno.
Algumas estatísticas não traduzem a profundidade do fenómeno da indisciplina, da falta de respeito e da violência.
Alguns profissionais, principalmente os professores já não ligam, não respondem ao questionários sobre indisciplina e violência, não falam sobre o assunto, vão vivendo e vivenciando, às vezes sozinhos, o drama de terem que suportar situações de grande stress e esgotamento.
Fragilizados, alguns são maltratados verbalmente outros chegam a ser batidos por alunos e por encarregados de educação.
O professor é apenas uma parte do sistema mas por isso mesmo o ambiente escolar deve ser sensível às necessidades dos profissionais que ali trabalham. É por eles que começa a humanização da escola. Se forem tratados com violência todo o sistema se ressente.
O que se percebe é que as leis não são de molde a por travão à violência escolar mas ao contrário têm servido para que a acção dos professores seja neutralizada, deixando-os em situações de conflito e às vezes situações humilhantes.
Por exemplo, sabemos que muita da indisciplina acontece nas áreas de enriquecimento curricular (aec's) e provavelmente ela contamina todo o ambiente da escola e da parte lectiva propriamente dita.
Sabemos que muita da indisciplina acontece nos intervalos, no refeitório, sem que se tomem medidas para melhorar esta situação.
E o que se faz com alunos entre os 15 e os 20 anos ou mais que não concluíram o ensino básico ?
É legitimo reter uma criança na escola quando os pais acham que pela sua cultura uma criança não deve ficar na escola quando entra na adolescência ? Se é, que medidas se tomam ?
Além disso, o que choca é que, actualmente, são, ou pelo menos parece que são, os alunos e os encarregados de educação quem dita as regras mesmo nos níveis mais baixos de escolaridade.
Sabemos que as regras devem ser discutidas com os alunos pelo menos com os mais velhos e com os encarregados de educação e uma vez aprovadas devem ser aceites e cumpridas.
O que pensar quando se chega ao ponto em que os encarregados de educação querem que os professores  usem determinadas pedagogias e métodos de ensino porque acham que os seus educandos assim é que aprendem.
A escola é reflexo da cultura que se traz de casa. Se há trinta anos era assim, hoje também o é. Muitas destas situações reflectem uma cultura menos letrada, muitos pais têm níveis de literacia muito baixos, e, o que é mais relevante e preocupante, aparentam níveis de moralidade abaixo do desejável.
Não podemos confundir valores morais com regras convencionais. Estas podem ser alteradas mas os valores nunca o poderão ser, sejam os pais de uma ou outra cultura, letrados ou não.

 (1) Mónica, M. F. (2008). Vale a pena mandar os filhos à escola ? , Lisboa: Relógio d'Água.

29/10/10

O desordenador


Era de esperar, com tantos Magalhães, e-escola, e-escolinha, tantos computadores e-professor, e-oportunidades, com o PTE, em suma, com tantos computadores era de esperar  que as contas batessem bem.
Não.
Os computadores não são os verdadeiros responsáveis mas quem acredita nos progressos das ilusões: as ilusões sociais, as ilusões técnicas, as ilusões da segurança,  mas o mundo continua com a sua crueldade, a sua corrupção, a sua  insegurança...

"Julgar que o computador serve para tudo é correr ao encontro de decepções e de catástrofes sem precedentes. Julgar que o computador não serve para nada, é renunciar a um arsenal de serviços a que nenhum observador de boa fé contestará o valor. O maior perigo para o homem será ceder ao seu temor pela máquina e começar a fugir, ao mesmo tempo, dos benefícios da tecnologia.”

“O desordenador é perigoso: tende a sobrevalorizar as estatísticas, as médias, as massas em detrimento do indivíduo e dos seus sentimentos. A felicidade não é codificável.”

“ Em caso algum um computador poderia ser ridículo. Pelo contrário, em todos os casos, o homem torna-se ridículo quando destina uma máquina a fins ridículos.”

 "O desencanto cresce mais depressa que o progresso. Após as delícias do possível, as brutalidades do real."
Por isso, as contas bateram mal.

28/10/10

A resposta vem no dia seguinte

Sumaúma (Mosteiro dos Jerónimos - Lisboa)

O sistema educativo parece não ter maneira de estabilizar.
A extinção da Área projecto e do Estudo acompanhado porque feita sem qualquer processo democrático de apoio à decisão tem vindo a dar origem a mais instabilidade.
Principalmente, porque são áreas extintas devido a problemas financeiros, embora o executivo diga que é devido a razões pedagógicas e de falta de resultados.
Mas quem introduziu as chamadas novas áreas curriculares (NAC) no currículo? Um governo socialista. Quem é que as vai extinguir? Um governo socialista.
A Área projecto veio substituir a Área-Escola, uma coisa que nunca funcionou em condições e que gastava rios de dinheiro. Lembram-se ?
Sempre defendi que estas NAC não faziam qualquer sentido, com excepção da cidadania ou formação cívica que devia ser uma área disciplinar como qualquer outra, se bem que ela própria seja transversal e também seja tratada nas outras disciplinas.
E concordei ainda menos quando vieram tirar tempo lectivo às artes: à Educação musical e à Educação visual (EVT e EV), à História...
O que agora havia a fazer não seria extinguir mas que fosse reposta a situação anterior e devolver às artes os tempos que lhes foram tirados.
As artes são, em muitas situações, não apenas importantes para a formação integral do aluno, para o ser cultural que cada um de nós é mas também são  estratégicas e motivadoras para as outras aprendizagens.
Foi gastar à tripa-forra com a escola a tempo inteiro e com as novas áreas curriculares tornando o currículo cada vez mais extenso e disperso.
Agora corta-se. A paixão da educação deu lugar à desilusão.
Quanto ao Estudo acompanhado parece que não acaba mas vai ser reformulado. Também aqui era fácil perceber. O que faziam os alunos com níveis  4 e 5 no Estudo acompanhado? Agora propõe-se o estudo acompanhado apenas para os alunos com dificuldades de aprendizagem. Vamos ver como se organiza.
A sociedade que foi posta de parte com estas medidas, como aliás aconteceu com as actividades de enriquecimento curricular (AEC's), não me parece que esteja preparada para dar resposta  imediata a este problema, isto é, às horas que os alunos vão deixar de ter no currículo. Muitos dos tempos livres foram desmantelados. O desporto e as artes que deviam ser cada vez mais desenvolvidos não o foram porque os alunos já chegam exaustos a casa com a escola a tempo inteiro.
Moral da história:  Às vezes lutamos e não conseguimos nada nem que alguém nos oiça.
Às vezes sem fazermos nada, as coisas acontecem.
É por isso que não vale a pena vivermos a instabilidade que os outros nos querem transmitir, porque, afinal, quase sempre, a resposta vem no dia seguinte.