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22/08/10

Aberração pedagógica ...

Leio em DaNação (22-8-2010), de Luís Costa:

"Encerrar uma escola numa cidade — ou até numa aldeia que tem outros aglomerados populacionais muito próximos e com bons acessos — não é a mesma coisa que fechar uma escola numa aldeia situada nas montanhas, longe das estradas nacionais, longe da sede do concelho ou de outra localidade onde se constrói um centro escolar. No primeiro caso, será apenas uma questão de distância, uma diferença de minutos no percurso quotidiano das crianças, que não tem repercussões individuais nem sociais significativas. Neste contexto sim, valerá a pena andar mais um ou dois quilómetros para ter uma escola com melhores equipamentos. No segundo caso, tudo muda de figura. As distâncias são, na perspectiva da criança, esmagadoras: há o frio; há a neve; há o tempo de levantar e de sair de casa com o cantar do galo; há um local estranho cheio de estranhos, longe do regaço materno; há o tempo de chegar a casa com a aldeia já mergulhada nos mantos nocturnos; há uma violenta fissura rasgada na infância. Neste caso, a criança é literalmente arrancada como uma raiz e transplantada a seco. Neste caso, as repercussões do encerramento da escola — quer a nível individual quer a nível social — são arrasadoras. Neste caso, encerrar a escola é, a prazo, encerrar a aldeia, como quem corta um olmo com séculos de existência apenas para ganhar um lugar de estacionamento. Encerrar uma escola numa aldeia destas é um execrável acto político, uma aberração pedagógica e um crime social."

21/08/10

Fecho de escolas e desertificação

Leio no Expresso de 21 de Agosto:

"A medida do governo acelera a desertificação do mundo rural". (José Alberto Correia, prof. da Fac. Psicologia do Porto)

"A inexistência de escolas é limitante para uma família se instalar no meio rural". (Henrique Pereira dos Santos, arquitecto paisagista).

Escolas de pequena dimensão - alternativas

Leio no DN Portugal , de 18/5/2010

O encerramento das escolas com menor dimensão, inserido na reorganização da rede escolar, tem vindo a verificar-se desde o ano 2000. Até 2009, tinham sido encerradas mais de 2500 escolas, de acordo com o Ministério da Educação. O projecto pretende integrar as crianças dos meios mais isolados em escolas maiores que têm mais meios e podem aumentar as suas hipóteses de sucesso.

No entanto, o coordenador nacional do Projecto Escolas Rurais e director executivo do Instituto das Comunidades Educativas, Rui d'Espiney, alerta para as consequências negativas desta reforma. "Temos de ter em conta o factor do prejuízo evidente para as crianças, que têm de fazer longas distâncias para chegar à escola e chegam a passar 10 a 12 horas fora de casa", indica o especialista.

Por outro lado, Rui d'Espiney lembra que "a escola rural não é um factor de insucesso, como se acreditava". Estudos mostram que "a percentagem de insucesso escolar no Alentejo litoral rural é 1% superior ao da média das escolas urbanas. O que é uma percentagem irrelevante", explica o sociólogo.

Já a mudança dos alunos do meio rural para o meio urbano aumenta o insucesso destas crianças, indica Rui d'Espiney. A acrescentar a estes problemas, está o maior isolamento das populações.

“Protocolo chapéu” ou "protocolo barrete" ?

Leio no Correio da Manhã, de 21 de Agosto 

Câmaras estão arrependidas
O protocolo que determina o encerramento de escolas do 1º ciclo não está a ser respeitado por parte das Direcções Regionais de Educação (DRE), existindo cada vez mais municípios arrependidos de terem aceite as condições negociadas.
'Temos muitos munícipios arrependidos de terem assinado os protocolos com as direcções regionais de educação. Lamego, o mais afectado com o fecho da escolas, é um deles', afirma António José Ganhão, explicando: 'Existe um protocolo chapéu, entre associação de municipios e ministério, que prevê ser o ministério a assumir as despesas de deslocação dos alunos. As direcção regionais de educação andaram a negociar a seu bel-prazer'
Para já, a ANMP 'vai reavaliar o protocolo assinado em Junho e perceber quais as condições que não estão a ser cumpridas'. 'As direcções regionais de educação não podem negociar com os municípios sem respeitarem o que está estabelecido no protocolo que rege toda esta situação', acrescenta, sublinhando 'a necessidade de continuarem as negociações com o ministério até que tudo fique claro'.

13/08/10

Uma resolução e quatro recomendações

Foram publicadas no Diário da República, 1.ª série, n.º 155, 11 de Agosto de 2010, as resoluções da AR seguintes:
- Resolução da Assembleia da República n.º 92/2010 - Recomenda ao Governo que proceda a uma reavaliação do reordenamento da rede escolar estabelecida pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 44/2010, de 14 de Junho.
- Resolução da Assembleia da República n.º 93/2010 - Definição de critérios para o reordenamento do parque escolar do 1.º ciclo do ensino básico.
- Resolução da Assembleia da República n.º 94/2010 - Recomenda a criação de uma carta educativa nacional e a suspensão da aplicação da Resolução do Conselho de Ministros n.º 44/2010, de 14 de Junho, que define os critérios de reordenamento da rede escolar.
- Resolução da Assembleia da República n.º 95/2010 - Recomenda ao Governo critérios de qualidade no reordenamento da rede escolar.

1 - O que haverá de errado na Resolução do Conselho de Ministros n.º 44/2010 que necessite de quatro recomendações da AR ?
2 - Será que estas recomendações vão ter algum efeito prático ou tudo vai continuar na mesma ?

 

19/07/10

"Small is beautiful" (2)


Escola do 1º ciclo de S. Miguel d'Acha

A minha escola, a escola onde estudei, tem ainda 14 alunos. É uma das escolas que querem fechar. Não só com base na "teoria" "dos menos de 21 alunos" mas também porque o sr. presidente da Câmara não quer que continue aberta.
Mas os pais querem continuar perto dos seus filhos. Os pais querem que a escola não feche. A sua vontade conta para alguma coisa ?
Se os pais estivessem interessados em que os filhos fossem para Idanha-a-Nova, embora sabendo do disparate que estão a cometer, estaria calado. Mas não. Os pais destes alunos não querem ficar longe dos seus filhos.
Por isso assinei uma petição, com todo o empenho, para que a escola se mantenha em funcionamento.
Penso no que sentiriam os meus pais, se tivessem que ficar longe de mim durante todo o dia quando tinha 6 anos. Estou a pensar no que eu sentiria se ficasse longe deles todos os dias de escola e só os visse praticamente no fim-de-semana. 
Aprendi, aprendemos, numa escola rural, numa escola de aldeia. Muitos de nós são licenciados: advogados, juízes, médicos, psicólogos, técnicos, etc... Alguns não estudaram mais e a gente sabe porquê. Porque a escola não era para todos e não por falta de salas lindas e coloridas...
Dêem uma oportunidade às escolas pequenas. Dêem uma oportunidade aos pais e crianças que acham que é melhor manter abertas as escolas pequenas.
Já sabíamos que esta medida "dos menos de 21" não tinha fundamento científico, pedagógico e muito menos emocional ou afectivo.
Veja-se, por exemplo, Ramiro Marques no ProfBlog:
No Reino Unido e nos EUA opta-se cada vez mais pelo fecho das mega-escolas e distribuição de alunos e docentes por escolas de pequena dimensão. E isso é assim porque a investigação relaciona positivamente as escolas pequenas com:
Aproveitamento escolar
Clima da escola
Disciplina
Motivação dos alunos
Motivação dos professores
Segurança
O mayor de Nova Iorque não tem feito outra coisa nos últimos anos senão apostar nas charter schools e nas escolas de pequena dimensão. Há cada vez mais escolas pequenas que vieram substituir as mega-escolas.
Administradores escolares, professores e pais sabem que os alunos estão mais seguros nas escolas pequenas e que o clima que elas proporcionam é mais adequado ao ensino de qualidade.
Em Portugal, aposta-se no contrário.
O mesmo se passa com os mega-agrupamentos. Ao contrário de Portugal aí estão notícias que mostram que os mega-agrupamentos não são solução.

07/07/10

Homens e ratos

Muito do que sabemos sobre os homens baseia-se nas descobertas da neurobiologia do desenvolvimento animal.
Um dos assuntos que mais tem sido discutido refere-se à educação precoce.
A educação precoce baseia-se no desenvolvimento das ligações cerebrais na infância, nos períodos críticos ou sensíveis em que a experiência ocorre e nos ambientes enriquecidos que são fundamentais para o desenvolvimento do cérebro.
Alguns investigadores têm mostrado a importância da variedade de estímulos precoce.
Numa experiência laboratorial (1) com ratos , em labirinto, verificou-se:
- Como uma variedade de estímulos precoce é mais eficaz do que a mesma experiência mais tarde.
- Uma variedade de estímulos precoce era mais benéfica para as aptidões de aprendizagem de um labirinto do que a variedade de experiências de respostas precoces.
Foi realizada uma experiência (2) com doze pares de ratos gémeos, divididos em dois grupos distribuídos aleatoriamente, em que todos recebiam a mesma alimentação. Mas num dos grupos, os ratos eram criados em ambiente estimulante (escadas, rodas, brinquedos, “recreio”, os ratos saiam das gaiolas para explorar novos territórios, etc….) e no outro os ratos eram criados com estímulos extremamente homogéneos (gaiolas pouco iluminadas, raramente alguém lhes tocava…). Os resultados permitiram verificar que os cérebros dos ratos estimulados eram química e estruturalmente diferentes dos outros ratos irmãos.
Podemos concluir que o desenvolvimento do cérebro requer um ambiente enriquecido.
O problema é sabermos o que é um ambiente enriquecido.
Não existe na experiência com os ratinhos nada que indique que quanto mais rico o ambiente melhor. Nestas experiências o ambiente enriquecido no laboratório era mais parecido com o ambiente de um ratinho em liberdade.
Para os humanos, um ambiente enriquecido não será o ambiente normal do ponto de vista sensorial, social e afectivo ?
A variedade de estímulos deve ajustar-se ao momento de crescimento da criança (problema de ajustamento).
É necessário ser cuidadoso com a sobreexposição de estímulos. Um excesso de heterogeneidade de estímulos leva à frustração, um excesso de homogeneidade de estímulos leva ao tédio. Tanto num caso como no outro a criança rejeita a interacção com o ambiente sendo assim necessário que a criança tenha uma variedade óptima de estímulos o que leva ao interesse da criança e a um crescimento cognitivo contínuo.
Lê-se no preâmbulo do diploma (3) que decidiu extinguir as escolas pequenas que isso se devia à igualdade de oportunidades no acesso a espaços educativos de qualidade, promotores do sucesso escolar. Todos os alunos devem frequentar espaços dotados de refeitório, de biblioteca e de sala de informática, espaços adequados para o ensino do inglês, da música e da prática desportiva.
O sucesso depende então do enriquecimento ambiental.
Mas o que é o ambiente enriquecido ? Qual é o lugar do afecto ?
Os homens não são ratos e o ambiente enriquecido é o ambiente normal e livre onde existem estímulos normais e em doses normais mas em que o afecto desempenha o papel principal no desenvolvimento equilibrado do ser humano.

(1) Bernard Hymovitch
(2) David Krech
(3) Resolução do Conselho de Ministros n.º 44/2010

16/06/10

“Small is beautiful”

A ministra da educação Isabel Alçada recebeu uma pesada herança. Creio que alguns dos dossiers que herdou estavam e estão inquinados.  O do fecho das escolas com menos de 21 alunos parece-me um deles. O mesmo me parece quanto aos mega-agrupamentos.
No entanto, só o facto de ela falar e sorrir para as pessoas já indicia um estilo de gestão mais humano.
Fechar escolas com menos de 21 alunos (o “rigor” de 21 é interessante !) parece-me que apenas se justifica porque é necessário “encher” os parques escolares e os mega-agrupamentos.
Tal como no livro de Schumacher (1) um estudo da economia em que as pessoas também contam, na educação é preciso levar em consideração que as pessoas também contam, ou seja, as crianças e as suas famílias também contam.
Na acepção de Schumacher “a educação é o mais essencial de todos os recursos”. Mas “como a civilização ocidental se encontra em estado de crise permanente, não será extravagante sugerir que possa haver qualquer coisa de errado na sua educação.
Para Schumacher” a tarefa da educação seria, antes de mais e acima de tudo o mais, a transmissão de ideias de valor, do rumo a traçar às nossas vidas. Sem dúvida que também é necessário transmitir know-how, mas deve deixar-se isso em segundo lugar, porque, evidentemente, é assaz temerário colocar grandes poderes nas mãos das pessoas antes de haver a certeza de que elas têm uma ideia razoável do que hão-de fazer com eles.
Presentemente, não pode haver muitas dúvidas de que toda a humanidade se encontra em risco mortal, não porque tenhamos falta de know-how científico e tecnológico, mas porque tendemos a usá-lo de maneira destrutiva, sem bom senso nenhum. Ora mais educação só nos pode ajudar se criar maior soma de bom senso” (pag 71).
A intervenção educativa deve ser feita o mais precocemente possível e faz sentido que as tarefas da educação se façam dentro de ambientes variados do ponto de vista sensorial e em contextos enriquecidos do ponto de vista social. Mas também em contextos enriquecidos do ponto de vista afectivo.
A criança, aos 6 anos, tem já elevada autonomia para poder ser introduzida em ambientes mais desprotegidos do que até essa idade. Mas uma criança com 6 anos, retirada à família, diariamente, ficando sem o contacto dos pais excepto nos fins de semana, a pretexto da sua socialização, não parece que venha produzir vantagens importantes no seu desenvolvimento.
O afecto é a energia que faz funcionar as aprendizagens e o contexto tem que ser rico afectivamente para que tenhamos crianças saudáveis do ponto de vista da saúde mental.
Os estudos que conhecemos provam que assim é. Não há máquina nenhuma que posa substituir o afecto dos pais. Podem ter muitos brinquedos, muitos computadores e play-stations, muito inglês... mas nada tem a força do carinho dos pais.
A realidade é diversa e por isso as respostas não podem ser megalómanas nem monolíticas mas é necessário responder com a diversidade educativa.
É por isso que também em educação podemos dizer, contra a ideia dos mega-agrupamentos, que “small is beautifull”. Por isso, com toda a simpatia das pequenas coisas desejava que alguém pudesse introduzir bom senso nestes dossiers inquinados.

(1) Schumacher, E.F.(1980), Small is beautiful, Lisboa: Publicações D. Quixote.

25/05/10

As escolas pequenas

Primeiro fecharam as escolas com menos de cinco alunos, depois com menos de dez, depois vinte e já vão em cem alunos. Aqui  apresentam -se argumentos para não se concordar com isso.
"Um dos maiores erros cometidos em Portugal, nos últimos oito anos, foi o fecho das escolas de pequena e média dimensão. Só durante o consulado de Maria de Lurdes Rodrigues foram encerradas cerca de 4 mil escolas."

20/07/08

Educação escolar em casa e socialização

O problema das escolas que fecham vai novamente colocar-se. Algumas crianças deixarão de ficar perto das famílias, nas escolas da sua residência, para se deslocarem algumas dezenas de quilómetros para poderem frequentar a escola, noutra freguesia ou na sede do concelho.
A nossa opinião é a de que nem todas as escolas com menos de 10 alunos deviam fechar. Bem sei que estou a ir contra a corrente… mas não deixa de ser confrangedor assistir ao fecho de tantas escolas sem que se possa enveredar por soluções alternativas…
O que é interessante, é que em 1999, Ana Benavente então Secretária de Estado da Educação, duvidava também desta solução e referia nas Jornadas Pedagógicas do Pinhal “ que o fecho de escolas com menos de 10 alunos nem sempre é uma boa solução. Não é um bom princípio porque terra que perca a escola, nunca mais lá fixa nenhum casal jovem…Há aqui uma articulação necessária entre o desenvolvimento local e todas as questões do desenvolvimento”. [1]

Mas o que se fez? Nada. Continuou a vertigem do encerramento de escolas.

Estou convicto de que pelo menos se impõe fazer algumas perguntas, tendo como pano de fundo o bem-estar das crianças e o seu direito à educação.
- Não poderá haver alternativas ao fecho destas escolas ?
- Não será altura de se pôr em questão este conceito único de escola ?
- Não poderá haver alguma criatividade e inovação por parte dos pais e autarquias, por exemplo, para se encontrarem soluções que beneficiem as crianças ?

A argumentação para o encerramento das escolas não nos satisfaz. Insisto, mais uma vez, neste ponto. Para além de todas as preocupações que os pais levantam, e das respostas que ouvimos, pouco satisfatórias, há uma que merecia uma reflexão. Dizem: a questão é o problema da socialização das crianças.
Mas qual é o número de crianças necessário numa escola para que o processo de socialização das crianças não seja afectado?
É que não é verdade que estas crianças não se socializem.
E também não é verdade que estas crianças tenham piores resultados que as outras. E quando são piores, isso deve-se ao facto de a escola ter poucos alunos?

Estando em causa o processo de socialização, é preciso dizer que estudos, nos Estados Unidos, com adultos que tiveram Educação Escolar em Casa, mostraram:
· Com relação à capacidade dos estudantes universitários de pensar de modo crítico, os pesquisadores não constataram nenhuma diferença importante entre os que se formaram em escolas particulares, escolas públicas e educação escolar no lar.
· Um estudo envolvendo adultos que foram educados em casa constatou que nenhum estava desempregado e nenhum estava vivendo à custa dos serviços sociais do governo, 94% disseram que a educação em casa os preparou para serem pessoas independentes, 79% disseram que os ajudou a se relacionar com indivíduos de diferentes níveis da sociedade, e eles apoiaram fortemente o método de educação no lar.[2]

Hoje, o ensino em casa, ou ensino doméstico, começa a ter expressão em alguns países.
O ensino doméstico também é possível em Portugal, embora seja praticamente desconhecido
Não é, provavelmente, a resposta com mais condições para se desenvolver dado o nível de escolaridade dos pais nas aldeias com estes problemas.
Mas não poderá haver soluções que se enquadrem numa perspectiva comunitária envolvendo os serviços de educação, as autarquias e os pais?
Eu sei que este tema não está na ordem do dia. Mas este é um assunto que é necessário debater na sociedade portuguesa.

Carlos Teixeira


[2] http://www.nheri.org/Facts-on-Homeschooling.html
[1] Reconquista, 7 de Maio de 1999