Notícias recentes deram conta do incêndio de grande dimensão que deflagrou na madrugada de 14 de Junho, num edifício, em Londres, uma torre residencial com mais de 20 andares, com vários dezenas de mortes e feridos.
O progresso que aparentemente se encontra nas grandes cidades (megalópoles), traz consigo problemas para os quais não há soluções, não são aplicadas soluções já conhecidas ou não são previstas, por negligência, por economicismo, etc. A segurança, p.ex., é muitas vezes a questão mais importante mas a que sofre mais com este tipo de atitudes.
Desde há muito que a ideia de progresso é discutida e, aparentemente, para algumas das situações consideradas de progresso, não foram criadas soluções para situações críticas como acontece em acidentes deste tipo, ou da energia nuclear ou do controle de organismos geneticamente modificados...
"O progresso é um mito renovado por um aparato ideológico interessado em convencer que a história tem destino certo e glorioso." (Gilberto Dupas)
Anselmo Borges em artigo que chama de “Uma sociedade ameaçada” escreve que "a actual sociedade europeia de que fazemos parte tem, na expressão do filósofo E. Husserl, uma nova "forma de vida", isto é, um horizonte novo de vivência, sentido e autocompreensão, a partir de três princípios fundamentais.
Trata-se de uma sociedade à qual foi possibilitado imenso bem-estar, derivando daí novas possibilidades de auto-realização e também um feroz individualismo, que apenas reivindica direitos ignorando deveres.
Por outro lado, as novas tecnologias têm um impacto decisivo nas sociedades, e não só no plano socioeconómico: mudam as mentalidades. Por exemplo, estar ligado à rede, navegando, afecta a vivência de si e do mundo. A concepção de espaço é outra, muda sobretudo a vivência do tempo.
…Paradoxalmente, a ligação global produz solidões penosas. Há um sentimento de quase omnipotência, seguindo-se daí que tudo o que é tecnicamente possível se deve realizar, sem perguntas de outro foro, ético, humanista. A satisfação imediata e o facilitismo são outras características de uma sociedade líquida 1 e mole, cujo deus é o dinheiro.
Desta forma de vida faz parte ainda a crítica religiosa, no sentido de um laicismo agressivo."
As questões ditas fracturantes parecem estar confi(n)adas ao lado dos autoproclamados progressistas, sendo que o lado do progresso é feudo da dita esquerda e todos os outros são vistos como anti-progressistas, contra a evolução, retrógrados e reaccionários.
A propaganda das grandes realizações socialistas era marcada pelo progresso em todas as áreas da vida, os planos quinquenais traziam o grande desenvolvimento económico, desporto e lazer para todos, igualdade para todos...
Alguns partidos políticos, autoconsiderando-se progressistas, constituiram a Aliançaprogressista. para a direcção da qual, recentemente, António Costa foi eleito.
A. Borges dá alguns exemplos deste progressismo actual, entre nós: a gestação de substituição, vulgarmente conhecida por barrigas de aluguer; a eutanásia; o animal "... que não é coisa mas não é pessoa” 2; a dificuldade de convivência com o esforço e com a avaliação (como terminar com os exames).
Ora aquilo que acontece é que estamos assistindo a grandes convulsões sociais e políticas, mais ou menos generalizadas: guerras, fome, injustiça, vagas de refugiados, emigração descontrolada, que provam que não há grande progresso quando os direitos humanos são afrontados de forma tão elementar.
Há questões que sempre devemos analisar perante aquilo que nos querem vender como progresso: "a quem o progresso serve, quais são os riscos e custos de natureza social, ambiental e de sobrevivência da espécie e que catástrofes futuras ele pode gerar."(G. Dupas)
Em Admirável mundo novo, 1946, Aldous Huxley coloca em epígrafe uma frase de Nicolas Berdiaeff: "As utopias são realizáveis. A vida vai em direcção às utopias. E talvez um século novo comece, um século em que os intelectuais e a classe culta sonharão com os meios de evitar as utopias e de voltar a uma sociedade não utópica, menos “perfeita” mas mais livre".
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1 Segundo Bauman, "modernidade líquida".
2 "Repensar o conceito de "pessoa". De acordo com o PAN, que cita estudos científicos, os animais
também são dotados de consciência, mas não têm o direito de ser
considerados como pessoas. O PAN defende, por isso, o reconhecimento no
Código Civil de um eventual terceiro tipo de pessoa, para além da pessoa
singular e da pessoa colectiva já existente.
Durante esta semana, a 5 de Junho, passa mais uma comemoração do dia mundial do ambiente. Como acontece com as comemorações de outros dias mundiais, desde o seu início, em 1974, o Dia Mundial do Ambiente tem servido para "sensibilizar, consciencializar, chamar a atenção, assinalar que existe um problema por resolver, um assunto importante e pendente na sociedade para que através dessa sensibilização os governos e os estados actuem e tomem medidas ou para que os cidadãos assim o exijam aos seus representantes" (ONU)
Passados 43 anos desde o início do dia mundial do ambiente podemos dizer que
os progressos não foram grandes. Por exemplo, a semana passada falámos do
problema ambiental relacionado com o Tejo, devido à poluição e à central
nuclear de Almaraz, e do significado ecológico e cultural para as populações que
vivem ou não na sua proximidade.
Não será por isso que as coisas deixam de ser o que são ou que o aquecimento
global deixará de se verificar se nada for feito. Também aqui tem que haver
alternativas e o importante é procurar chegar a acordo com todas as partes,
realizar estudos aprofundados sobre as suas causas e sobre o que cada estado
deve fazer e deve suportar para melhorar o estado do ambiente. Porque o ambiente é assunto que diz directamente
respeito à vida e à saúde das pessoas e não pode deixar de ser um problema
actual e para as próximas gerações.
Uma grande e boa surpresa foi a publicação (2015) da Carta encíclica Laudato
si, do Papa Francisco, sobre o ambiente e o cuidado da “casa comum”.
A questão inicial é "que tipo de mundo queremos deixar a quem vai
suceder-nos, às crianças que estão a crescer ?"
No fundo é uma questão geral sobre o sentido da vida e sobre os valores que a
fundamentam: « Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos? Que
necessidade tem de nós esta terra?»
Francisco refere vários aspectos da actual crise ecológica: As mudanças
climáticas, o acesso à água potável, a preservação da biodiversidade, a dívida
ecológica.
Foi também uma boa surpresa o livro
de Manuel Pinto Coelho, Chegar novo a
velho (2015) pela ligação que estabelece entre saúde ambiental e saúde
individual, física e mental. Pinto Coelho cita Francisco: “ a violência presente nos
nossos corações está também reflectida nos sintomas da doença evidente no solo,
na água, no ar e em todas as formas de vida” (p 154)
Nesta matéria, “a exposição ambiental às toxinas e metais pesados na nossa
sociedade está a tornar-se uma condição clínica cada vez mais significativa nos
dias que correm”.
Metais pesados como chumbo, mercúrio, arsénio, níquel, cádmio, alumínio e
muitos outros, ou toxinas presentes praticamente em todo o lado: centrais
eléctricas, automóveis, diesel, metalúrgicas e fundições, agricultura, esgotos,
produtos de cosmética… constituem graves perigos para a saúde.
Francisco sabe que não é fácil reformular hábitos e comportamentos mas a «mudança nos estilos de vida», das pessoas, governos e empresas, é o caminho.
Como em tantas outras situações, a educação e a formação são instrumentos centrais para essa mudança se concretizar.
Há esperança de que cada um de nós
comece por mudar a sua relação com o ambiente, nas pequenas coisas, como evitar
o desperdício de água, luz ou alimentos.
Como diz Francisco: «nem tudo está perdido, porque os seres humanos, capazes
de tocar o fundo da degradação, podem também superar-se, voltar a escolher o
bem e regenerar-se ».
Está a decorrer em Paris a cimeira do Clima que junta cerca de 190 países, com o objectivo de estabelecer compromissos que levem a estabilizar a emissão de gases com efeito estufa.
Este tipo de cimeiras começou em 1992, no Rio de Janeiro, ano em que foi finalizado o texto da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC).
Esta Convenção foi assinada e ratificada por mais de 175 países.
Em 1997, foi elaborado o Protocolo de Quioto com o objectivo de regulamentar a Convenção Climática e, assim, determinar metas específicas de redução de emissões dos principais gases causadores do efeito estufa. O Protocolo de Quioto só entrou em vigor em 16 de Fevereiro de 2005.
E o que que é que cada um de nós tem a ver com isso? Tudo, não apenas no sentido das alterações climáticas* mas no sentido de que a globalização também deve ser ecológica: o ar que respiramos não tem fronteiras, a poluição dos oceanos tem implicações na vida de todos os países, os produtos que consumimos são fabricados nas mais diversas partes do mundo com materiais e em condições que quase nunca respeitam a ecologia.
Tudo isto nos faz viver num mundo de insegurança e de ansiedade. Não são apenas as várias guerras, terrorismo, criminalidade, que geram essa insegurança, mas também a incerteza sobre os produtos de consumo, para a alimentação, para a saúde….
Um produto pode ter consequências adversas a três níveis, interdependentes (Goleman): Ao nível da geosfera (que incluí o solo, ar, água e clima); da biosfera (os nossos corpos e os das outras espécies assim como toda a flora terrestre) e ao nível da sociosfera (que incluí questões sociais tais como as condições de trabalho).
Felizmente, uma nova realidade está a acontecer: o poder está a passar das empresas produtoras e vendedoras para os consumidores e são estes que podem fazer a mudança.
O que mudaria nas empresas fabricantes de refrigerantes, cosmética ou vestuário se todos nós, sem excepção deixássemos de comprar os seus produtos? Há vários motivos que podem justificar essa atitude, como a exploração do trabalho infantil, a poluição da atmosfera ou a utilização de substâncias perigosas para a saúde.
É necessário, para consumidores e produtores, tornar absolutamente claro o impacto ecológico dos produtos que consumimos diariamente ("transparência radical", Goleman).
Desta forma, numa sociedade onde todos somos, inevitavelmente, consumidores poderemos travar flagelos como os desastres ambientais, a exploração de mão de obra ou a propagação de doenças incapacitantes ou mortais.
É por isso fundamental que cada consumidor tenha uma inteligência ecológica que permita travar a indiferença, o desinteresse, a ignorância ou má fé dos fabricantes dos produtos de consumo.
A inteligência ecológica permite anular ou pelo menos reduzir as ameaças e os danos para nós próprios, para a nossa saúde, para o ambiente e para o planeta.
O crescimento tem vindo a ser visto por alguns, gurus da economia, políticos de todos os quadrantes, principalmente os responsáveis pelos programas de ajustamento, pedintes de troicas e pecs, como a panaceia para resolver os nossos problemas (e os de todo o mundo). É o crescimento mágico, paraíso, a solução "milagrosa"...
A solução do crescimento mágico, tornado realidade-pesadelo, entre outros males, tem rebentado com o equilíbrio ecológico, tem imposto um desnivelamento cada vez maior entre norte e sul, leste e oeste, entre pobreza e riqueza: deslocalização de empresas e consequente desemprego, degradação de ecossistemas, migrações (mediterrâneo, sudoeste asiático), nacionalismos exagerados, guerras...
Por exemplo, o caso do crescimento de Detroit, teve como consequência a insolvência de Detroit. "Veio mostrar como tudo isto é imprevisível e de como tudo se pode desmoronar quando não é sustentável.
O que se passou com Detroit? A cidade que se tornou no século XX o maior centro mundial da indústria automobilística, na década de 1970, entrou em recessão económica, por causa da crescente concorrência de companhias japonesas produtoras de automóveis, e em 18 de Julho de 2013 a cidade declarou bancarrota, tornando-se a maior cidade dos Estados Unidos a declarar bancarrota.
O valor da dívida, adianta por seu lado o New York Times, não é consensual, variando as estimativas "entre os 18 biliões e os 20 biliões de dólares".
Automóvel - paraíso perdido é uma publicação já antiga (tr. port. de 1974), alertava para "as raízes de um fenómeno que, a nível individual, faz com que a generalidade das pessoas sintam que viver sem ter o direito reconhecido de coduzir um automóvel não é serem cicidadãos totais da sociedade industrial".
Em texto de Ricardo Abramovay, ninguém nega que "a conquista da mobilidade foi um ganho extraordinário, para as pessoas e para a sociedade. As cidades passaram a ser diferentes "e a sua influência exprime-se no próprio desenho das cidades. Entre 1950 e 1960, nada menos que 20 milhões de pessoas passaram a viver nos subúrbios norte-americanos, movendo-se diariamente para o trabalho em carros particulares. Há hoje mais de 1 bilião de veículos motorizados. Seiscentos milhões são automóveis."
"A produção global é de 70 milhões de unidades anuais e tende a crescer. Uma grande empresa petrolífera afirma em suas peças publicitárias: precisamos nos preparar, em 2020, para um mundo com mais de 2 biliões de veículos.
O realismo dessa previsão não a faz menos sinistra. O automóvel particular, ícone da mobilidade durante dois terços do século 20, tornou-se hoje o seu avesso."
Hoje existem mais de um bilião de veículos no mundo, e dentro de vinte anos, o número vai dobrar, em grande parte, consequência da China e do crescimento explosivo da Índia.
Os especialistas de transporte Daniel Sperling e Deborah Gordon explicam como chegamos a este estado, e o que podemos fazer sobre isso. Sperling e Gordon atribuem a culpa directamente à indústria automobilística, às políticas governamentais de visão curta e aos consumidores.
Alguns autores têm vindo a chamar a atenção para o problema do crescimento sustentável. Em vez disso, os políticos vêem/lêem empobrecimento, e em vez disso os economista do crescimento vituperam a austeridade. Quando passam à prática não têm alternativas: Hollande em França, Tsipras na Grécia nem sequer um compromisso conseguiu até esta data ...
No entanto, a austeridade continua a ser a má da fita. É assim que vários teóricos, gurus da economia e simpáticos crescimentistas (ver textos de Tavares Moreira no Quarta República) têm defendido a antiausteridade. De facto, são palavras doces para os ouvidos mas que a realidade desmente..
As universidades embandeiram em arco com esses representantes da antiausteridade que têm consigo a salvação. No meu pequeno país, mas grande em generosidade, Paul Krugman recebeu duma assentada, com grande pompa e circunstância, três galardões - Doutoramento Honoris Causa pelas Universidade de Lisboa,Universidade Técnica e Universidade Nova (2012).
"Reafirmou as suas posições de feroz adversário das políticas de austeridade, o que é simpático para os portugueses e nem tanto assim para o governo; mas reafirmou também que os salários deveriam descer entre 20 e 30%, o que inverte a ordem da simpatia. O que vale – e o que ele provavelmente não sabe - é que já não deve faltar muito para atingir esse desiderato. Valha-nos (mas pouco, porque dentro de poucos anos iremos querer muito ter salários como os deles) que também afirmou que Portugal não tem que reduzir os salários para os níveis chineses.
Ficava no ar um certo tom de contradição: como é que se pode ser contra as políticas de austeridade e defender reduções de salários?"
Por outro lado, Pickety "decretou" que "em Portugal a dívida vai ser reestruturada". Ora, ele é que sabe. E já agora, a folha de excel da troica não é melhor do que os palpites destes crescimentistas ? Isto não é meter-se onde não se é chamado ? A troica é que nos humilhava e os que dão palpites a torto e direito ?
O interessante disto tudo é que a austeridade iniciou-se em Portugal pelo governo PS mas esqueceram-se rapidamente. Em 30/09/2010: "O ministro da Economia, Vieira da Silva, defendeu hoje a importância das medidas de austeridade anunciadas pelo Governo, dizendo que são "fundamentais" para o crescimento económico do país. Julgo que é indiscutível para a maioria dos economistas, que a médio e longo prazo, estas medidas terão um feito positivo", declarou o governante, dizendo ter "a esperança" de que o aumento do IVA e o corte dos salários na Função Pública possam "gerar dinâmica na procura externa".
No final da sua intervenção, que marcou o início da conferência, Vieira da Silva abordou as medidas de austeridade anunciadas na quarta feira pelo Governo para reduzir a despesa pública, entre as quais se inclui a subida do IVA de 21 para 23 por cento e os cortes de 5 por cento na massa salarial da Função Pública.
"As metas que o Governo tem apontado para o crescimento económicos são muito prudentes, não fizemos estimativas baseadas na vontade, mas no realismo", afirmou o governante, justificando assim a convicção de que as previsões de crescimento económico serão concretizadas.
Sobre a contestação que as medidas anunciadas pelo Governo estão já a gerar entre os funcionários públicos e os sindicatos, Vieira da Silva declarou: "a contestação é algo que faz parte da vivência do regime democrático. Ao governo compete fazer o seu trabalho, que é tomar as medidas e chamar a tenção dos portugueses para os riscos que Portugal correria se não as tomasse".
De facto, há alternativas que não são as badaladas pelos simpáticos crescimentistas nem enredadas nas investigações dos peritos.
Aos países e às pessoas interessa a prosperidade, entendida como algo mais do que o crescimento económico, como refere Tim Jackson: “Definitivamente, não é apenas a capacidade económica de um país, medida pelo PIB”, diz. Segundo ele, quando buscam prosperidade, as pessoas almejam mais do que dinheiro: querem saúde, solidez na família, na comunidade em que vivem… “Todos propósitos que vêm sendo debilitados em nome do crescimento económico”, lamenta.
Um pequeno exercício sobre crescimento vs austeridade poderá indicar-nos como há crescimento virtuoso e austeridade virtuosa e crescimento vicioso e austeridade viciosa.
1. Mais crescimento e mais austeridade é o que conseguem fazer países com elevado crescimento mas onde a vida das pessoas continua cada vez mais difícil. A existência de matérias primas como o petróleo podia servir para levar mais bem-estar às pessoas e o que acontece é que, em muitos desses países, tudo mudou para pior, sendo a guerra com outros povos ou os conflitos internos que dominam este tipo de sociedades, normalmente não democráticas. Petróleo e paz dificilmente se conjugam.
2. Menos austeridade e mais crescimento é o que têm vindo a apregoar teóricos da economia e políticos crescimentistas de que na Europa os socialistas são um bom exemplo. E é o caminho que vai levar ao desastre: manter o "estado social" (quantas vezes simplesmente não passa de ostentação do estado: ppp rodoviárias, fundações, parque escolar...) com mais dívida.
3. Mais austeridade e menos crescimento tem sido o resultado das políticas aplicadas após a falência de alguns países como na Europa, que levam à necessidade de mais resgates.
4. Talvez reste a possibilidade de uma menor austeridade e de um crescimento menor desde que sustentados. Não vai ser possível continuarmos a viver neste mundo de recursos finitos do mesmo modo que o temos feito. A prosperidade é então uma coisa diferente de consumismo, de consumir para crescer, mas ter padrões de consumo ecológicos, produzir a preços acessíveis, regulados de forma equitativa para todos os países, sem trabalho infantil, sem trabalho sem regras, sem horários descontrolados... que levam à distorção de preços, a concorrência desleal, ao dumping, desemprego, ...
Pode haver "prosperidade sem crescimento".
"Prosperidade sem crescimento foi primeiro publicado em 2009 e colocou em linhas claras um debate de importância vital: para vivermos bem, para sermos «prósperos» e usufruirmos de bem-estar, será realmente necessário que haja crescimento económico? A resposta de Tim Jackson é taxativa: não."
"Mais do que crescimento interessa o florescimento e felicidade. Prosperidade quer dizer que as coisas vão bem para nós. Pergunte às pessoas o que isso significa na prática e elas falarão espontaneamente de sua família, relacionamentos, amigos, segurança. Ter um emprego decente. Sentir-se parte da comunidade. Participar de maneira significativa da sociedade. Prosperidade tem a ver com dar-se bem na vida. Significa florescer - no sentido amplo da palavra."
"O que quer que o futuro nos reserve, uma coisa está clara: a mudança é inevitável. Não existe um cenário confortador no qual simplesmente continuaremos do mesmo jeito. Os que esperam que a economia do crescimento conduza a uma utopia materialista vão se decepcionar. Simplesmente não temos a capacidade ecológica de realizar esse sonho. No final do século, deixaremos nossos filhos e netos com um clima hostil, os recursos naturais exauridos, a perda de habitats, a dizimação de espécies, a escassez maciça de alimentos, a migração em larga escala e a guerra quase inevitável.
"Assim, nossa única chance real é trabalhar para a mudança. Transformar as estruturas e as instituições que moldam o mundo social. Eliminar o pensamento imediatista que assolou a sociedade durante décadas. E substituí-lo por uma visão mais razoável de uma prosperidade duradoura."
"Porque, no fim das contas, a prosperidade vai além dos prazeres materiais. Ela transcende as preocupações materiais. Ela reside na qualidade de nossa vida e na saúde e felicidade de nossa família. Ela está presente na força de nossas relações e de nossa confiança na comunidade. Está evidente em nossa satisfação no trabalho e em nosso senso de significado e propósito compartilhados. Apoia-se em nosso potencial de participar plenamente da vida em sociedade."
"A prosperidade consiste em nossa capacidade de progredir como seres humanos - dentro dos limites ecológicos de um planeta finito. O desafio para nossa sociedade é criar as condições para que isso se torne possível. Essa é a tarefa mais urgente de nosso tempo."
Inelutavelmente, a Primavera já se manifesta por todo o lado.
"Aí vem o sol
e eu digo
está tudo bem
tem sido um longo, frio e solitário inverno
parece que se passaram anos desde o que houve aqui
os sorrisos retornando aos rostos
eu sinto que o gelo está lentamente derretendo
parece que se passaram anos desde que isso ficou claro
Aí vem o sol
está tudo bem."
Com a chegada dos novos media, a informação mudou substancialmente. Temos informações sobre os acontecimentos do mundo, na hora e em directo.
De tal forma é assim que temos dificuldade em apreender tudo o que se passa à nossa volta.
As ditaduras e os regimes totalitários utilizam estas novas formas de informação. Nesses regimes a informação é dominada pelo estado e os cidadãos são informados daquilo que o estado quer. É por isso que a internet não é livre nesses ambientes ou, praticamente, não existe.
O terrorismo sabe disso e uma das armas que utiliza é a divulgação de vídeos na net que tem como objectivo fundamental espalharem o terror e o medo.
Os regimes democráticos ficam expostos à possibilidade de exploração da informação para usos inadequados colocando em causa a liberdade de informação.
Como por exemplo a retirada de circulação de documentos técnicos com dados que poderiam fornecer pistas a terroristas para a produção de armas biológicas e químicas.
Na Europa, houve necessidade de fazer alterações ao Sistema de Informação Schengen. Com a possibilidade e trocas mais rápidas de informação entre Estados-membros e a apreensão dos documentos de suspeitos de terrorismo.
Surgem os sites tipo wikileaks (Julian Assange) que despejam informação secreta de vários países a nível de redes de informações, de estados que espiam outros estados (NSA, E. Snowden), de indivíduos que fogem aos impostos ou que lavam dinheiro (Swissleaks).
Excesso de informação ou informação deturpada*, seja como for, estamos sujeitos ao poder da informação que nos faz pensar, sofrer, desprezar, odiar…
Nos regimes democráticos continuamos a acreditar na informação que obedece à liberdade dos critérios jornalísticos. Mas o cidadão continua com fragilidades na compreensão de tanta informação sem saber aquilo que é relevante ou não, verdadeiro ou falso.
O jornalista J.L.Servan-Schneider descrevia esta grelha de análise (Psychologies, nº 229, Abril 2004, “l’info, notre intox”) que resumo a seguir:
A informação útil, a que pode ter consequências na nossa vida pessoal: descobertas médicas, instalação de um novo radar rodoviário, anúncio de uma greve de transportes.
A informação espelho, que põe em jogo pessoas como nós mergulhadas em acontecimentos fora do normal: avalanche destruidora, desaparecimento de crianças, poluição marítima. Esta informação é inquietante porque nos lembra que o perigo nos rodeia mas a maior parte do tempo ela tranquiliza-nos, hipocritamente, porque ao menos desta vez não é a nós que nos acontece.
A informação espectáculo, que triunfa com os grandes acontecimentos organizados: jogo de futebol decisivo, jogos do mundial ou do Europeu, casamentos de celebridades, noites de entregas de troféus, óscares…
A informação acontecimento, que nos oferece um momento único, impressionante e decisivo, como a queda das torres gémeas do World Trade Center, o famoso 11 de Setembro, da queda do muro de Berlim ou da estátua de Saddam.
Enfim, a informação emoção, que é simultaneamente imprevista e sem consequência directa na nossa vida mas turbulenta: é evidentemente a notícia de alguém de quem gostamos que nos reenvia pequenas nostalgias pessoais.
A selecção da informação é uma necessidade no nosso tempo. Mas essa selecção deve ser feita por cada um de nós.
Gentileza é a capacidade de perceber uma necessidade de alguém e ou retribuir algo que lhe foi feito, sem ser pedido. Ou seja, ser gentil é ter educação, ser delicado, amável, cordial, polido e ter urbanidade.
Ter um sorriso (1), um gesto para segurar a porta. Dizer com licença e obrigado…Pode ser um elogio ou ajudar a atravessar a rua…
Pode ser conversar, tentar dar ajuda ao outro através da confiança e da esperança, da partilha de experiências, de alertar para um perigo ou de uma proximidade que nos faz falta.
A gentileza é esta capacidade individual que faz falta na sociedade. Algumas pessoas com imagem pública não parecem estar muito preocupadas com comportamentos de gentileza. Pelo contrário, primam pela grosseria. (2)
Na política ouvimos essa linguagem grosseira a que não estávamos habituados e eu espero nunca me habituar. Parece até que estamos num concurso em que se procura superar o mais mal criado.
Com raras excepções temos líderes e ex-líderes que criam animosidade dando a entender que as ruas têm alguma solução para a crise.
A palavra cooperação está arredada das interacções sociais e nem sequer uma base de trabalho para um entendimento se consegue. O esforço do Sr. Presidente da República para um entendimento que punha os interesses do país acima dos interesses partidários não teve seguidores.
No futebol, que por mais fair-play que digam ter, assistimos a insultos e falta de respeito pelos colegas do mesmo ofício. Aliás, há quem vá ao futebol ou a outras manifestações apenas para criar desordem …
De facto, temos muitas iniciativas sobre a paz e sobre a não violência e parece que não diminui a agressividade na vida das pessoas.
A gentileza é um valor positivo, e por isso não tem boa imprensa. O espírito de cooperação, de compreensão e de bondade não dão de facto boa imprensa, ao contrário da contestação, desconfiança, maledicência, manifestações e protestos.
Mais uma vez, talvez possamos esperar alguma alteração vinda da escola. A escola pode ser um local onde podemos pôr em prática a gentileza. Ser gentil é ter educação na sala de aula e no recreio com os adultos e colegas. (3)
E é verdade que a maioria das crianças cultivam a gentileza: ajudam os mais pequenos, ajudam os mais frágeis, os que têm alguma deficiência...
No trabalho, nas empresas, a gentileza é um factor importante para beneficio pessoal mas também da própria empresa. Gentileza significa também mais produtividade. (4) Gentileza rima com riqueza.(5)
O dia mundial da gentileza teve início no Japão, na década de 1960 (Small Kindness Movement), para conter a onda de violência na Universidade de Tóquio. Se cada um fizesse uma pequena gentileza diária, a bondade seria sentida na comunidade, na cidade ou até no país. (6)
O dia 13 de Novembro é o dia da gentileza e da bondade.
Mas a gentileza é de todos os dias, começa em cada um de nós e não temos que ser santinhos ou diabinhos...
A propósito: Já hoje foi gentil com alguém ?
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(1) O Dia Mundial do Sorriso assinala-se a 28 de Abril. A data foi criada em 1963 por Harvey Ball, um artista de Worcester, Massachussets, que criou a imagem do smiley, reconhecida internacionalmente.
O consumismo faz esquecer o que nos interessa e leva-nos a comprar o que pensamos que queremos. Entra-se no supermercado para
comprar a e sai-se de lá com o alfabeto todo no saco. Muitos produtos que não precisamos e alguns que nem sequer são assim tão bons para a saúde.
Tem sido um enigma encontrar no supermercado iogurte natural sem
açúcar. Voltas e mais voltas, mil variedades de iogurtes: com sabores, com frutas, com frutos secos, de imensas marcas, marca branca, líquidos, para a prisão de ventre, para as defesas, para o colesterol, de todas as maneiras. Mas onde é que metem o raio dos iogurtes naturais ?
O marketing e merchandising fazem-nos esquecer aquilo que é mais importante: a saúde pessoal, a saúde ambiental. Embora, ultimamente, haja cada vez mais referências ao ecológico.
Mas, quando nos recordam isso, devemos ter cuidado. O greenwashing faz parte da simpatia com que nos impingem os produtos mesmo que pouco tenham de ecológico. O "ecológico" não é o que parece.(Goleman)
"Vivemos o nosso quotidiano imersos num mar de coisas que compramos, usamos e deitamos fora, desperdiçamos ou guardamos. Todas possuem uma história própria e o seu próprio futuro, estando os antecedentes e o fim em grande medida ocultos dos nossos olhos, uma rede de impactes deixados ao longo do caminho, desde o momento da extracção ou mistura dos seus ingredientes, durante o seu fabrico e transporte, passando pelas consequências discretas da sua utilização nas nossas casas e locais de trabalho, até ao dia em que a deitamos fora. E, no entanto, os impactes invisíveis de todas essas coisas podem constituir o seu aspecto mais importante." (Goleman, cap.1 - O preço oculto do que compramos, pag.10)
Vamos sabendo cada vez mais sobre aquilo que comemos, aquilo que nos cura e aquilo que nos mata.
Há assuntos que não podem continuar a ser ignorados como os referidos n' O livro negro do
açúcar.