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18/03/20

"Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso."

O 3 de Maio de 1808 em Madri, Francisco de Goya
"Os fuzilamentos de três de Maio", de Francisco de Goya, 1814, Museu do Prado, Madrid.

História das Artes


“Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso."
É assim que começa o poema de Jorge de Sena. Um espantoso poema sobre a crueldade de alguns homens  e também sobre a humanidade de outros.
É um poema sobre Goya e a sua pintura onde mostrou compaixão por aqueles  que, em Espanha,  foram fuzilados pelo exército de Napoleão quando das invasões francesas e da guerra peninsular.
A revolução francesa trouxe à sociedade  os princípios  de "liberté, égalité, fraternité"...  mas será difícil encontrar um tempo que negasse de forma tão eloquente este slogan. Este tempo produziu  Napoleão, que primeiro se mostrou a favor do rei mas depois a favor do jacobinismo e da revolução. Um tempo que trouxe logo a seguir a opressão de outros povos para além do próprio povo, como se pode concluir da aventureira invasão da Rússia em que dos 600 000 soldados que a fizeram, regressaram apenas 30 000.
A  guerra peninsular com todas as atrocidades cometidas em Espanha e em Portugal, como aconteceu, por exemplo, em Castelo Branco e na Beira Baixa*,  produziu esta crueldade de que "fala" a pintura de Francisco de Goya ou a poesia de Jorge de Sena mas ao mesmo tempo, a compaixão para com os inocentes e os que não aceitam o invasor.
Os exércitos de Napoleão ocuparam a Espanha, mas no dia 2 de maio de 1808 os cidadãos de Madrid levantaram-se contra os franceses. 
Este levantamento levou o  exército francês a executar uma terrível vingança, matando os que se revoltaram e aqueles que nada tinham feito.
Foi este acontecimento que Goya, em 1814, homenageou no quadro "Os fuzilamentos de 3 de Maio", uma forma de denunciar os comportamentos desumanos, impiedosos, injustos e terríveis praticados pelos franceses.

De vez em quando surge na história um ditador que acha que pode construir impérios à custa da ocupação de outros países e da crueldade para com as pessoas.
Todos os  impérios têm pés de barro e acabam por desaparecer mas parece  que nada aprendemos  com as lições da história. 
Nos nossos dias, como em tantos outros momentos da história, podemos dizer "Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso".
A imprevidência dos governos, a imprudência e o desleixo das pessoas, já é quadro suficientemente assustador, como o que vivemos actualmente a nível da saúde mundial, para perturbar a nossa felicidade.
Isto bastava para terminar  com devaneios imperiais, domínios geográficos e territoriais, as guerras, a imensidão de refugiados, o tráfico de homens, mulheres e crianças, o tráfico de armas, o tráfico de drogas... 
Pelo contrário: Nem liberdade, nem igualdade e muito menos fraternidade.

Mas, apesar destes horrores, talvez haja  esperança como Jorge de Sena nos dá a entender:
“E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.”



CARTA A MEUS FILHOS
Sobre os fuzilamentos de Goya

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

08/03/20

8 de Março: Reflectir, honrar e agir



Dia Internacional da Mulher: Porque é que ainda se celebra este dia?
"É um dia em que todos devemos refletir acerca do progresso a nível de direitos humanos, e honrar a coragem e determinação das mulheres que ajudaram e continuam a ajudar a redefinir a história, local e globalmente."
"Apesar de todos os avanços relativos aos direitos das mulheres, nenhum país atingiu a igualdade plena entre homens e mulheres."
Mas há uns piores do que outros: Professor condenado à morte por ensinar que as mulheres têm direitos assim como os homens.

Sobre o 8 de Março, escrevi, em 2017:  8 de Março: Mitos e realidade.


04/03/20

A Sonata de Kreutzer

Beethoven - Sonata Nº 9. Op.47. Kreutzer.
(Anne-Sophie Mutter - Lambert Orkis)
   
0:49 - I. Adagio sostenuto – Presto  
16:29 - II. Andante con variazioni 
34:59 - III. Presto



A Sonata para violino n.º 9, em lá maior, op. 47, de Ludwig van Beethoven (1770-1827) foi inicialmente dedicada a George Bridgetower, que chegou a Viena no início de Abril de 1803. Porém, consta que devido a uma forte discussão sobre o aspecto duma mulher… Beethoven, furioso, desistiu da oferta que tinha feito a «Bridgetower», e acabou por dedicar a Sonata a um seu grande amigo, violinista, Rodolphe Kreutzer.


Em 1889, Lev Tolstói (1828-1910), publicou uma história breve intitulada "A Sonata Kreutzer", que é uma análise dos comportamentos da época - que no fundo são intemporais - no que diz respeito às relações homem-mulher, ao divórcio, e ao fluir das paixões e das emoções de forma desequilibrada e violenta.
"A Sonata de Kreutzer" é um diálogo que acaba por ser um monólogo que ocorre durante uma viagem de comboio, em que estas relações são abordados por Pózdnitchev, o narrador, com uma visão bastante pessimista sobre a vida conjugal. 


Capa: Relógio D´Água Editores sobre pormenor de Kreutzer Sonata (1901)
de René François Xavier Prinet

No capítulo 23, vem a descrição sublime feita por Tolstói da influência da música no despertar do ciúme, em que mostra, pormenorizadamente, a relação-ligação do pianista Trukhatchévski com a violinista Lisa, mulher de Pózdnitchev, quando interpretam a Sonata Kreutzer.
Tolstói descreve, neste capítulo, o poder hipnotizador da música e os sentimentos terríveis que desperta em Pózdnitchev, sentimentos que até aí não tinha sentido.

As causas do ciúme são diversas, dependem da personalidade da pesssoa ciumenta, que alimentando-se da desconfiança, tortura a sua mente, mesmo com grande sofrimento psíquico.Do ponto de vista psicogenético, as causas do ciúme estão relacionadas com a infância, com a fase fálica do desenvolvimento psicossexual, em que a frustração inerente ao complexo de Édipo, é o fundamento de todos os ciúmes.
Muitos outros sentimentos fazem parte do ciúme: o sentimento de inferioridade, baixa autoestima, sentimento de injustiça, e medo inconsciente da perda do objecto amado.

O Manual Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM), define o subtipo Ciúme na Perturbação delirante (F22.0) quando o tema central do delírio do sujeito é que o seu cônjuge ou amante lhe é infiel. Esta crença surge sem causa evidente e é baseada em inferências indirectas suportadas por pequenas “evidências” (por exemplo, vestuário desarrumado ou manchas nos lençóis) que são guardadas e utilizadas para justificar as ideias delirantes. O sujeito pode tomar medidas extremas para evitar a suposta infidelidade.
O sujeito com ideias delirantes de ciúme, geralmente, confronta o cônjuge ou amante e tenta interferir na infidelidade imaginária (por ex.: restringindo a autonomia do cônjuge, seguindo-o secretamente, investigando o amante imaginário, atacando o cônjuge).



As causas do ciúme também podem estar associadas a algum quadro psiquiátrico como nos casos de alcoolismo (ciúme delirante), ou associado ao uso de outras substancias psicoativas; pode ainda estar associado a psicoses funcionais e aos transtornos ansiosos (particularmente ao transtorno obsessivo-compulsivo), e do humor (ciúme obsessivo).

As consequências do ciúme patológico são descritas por Tolstói numa complexidade de relacionamentos do casal e o narrador manifesta desde o início uma visão pessimista da vida e baixo nível de satisfação com a vida: o noivado horrível, um trabalho de Sísifo e a desgraça de ter filhos.
Em geral, como consequência, o ciúme leva à insatisfação e ao termo do relacionamento conjugal, ao adultério, à insatisfação no casamento, à violência doméstica... como já aqui vimos há algumas semanas.(Ciúme e violência doméstica)
Hoje ficamos a perceber como a complexidade do assunto requer que se pense esta violência doméstica com mais rigor, evitando tratar o assunto em termos demagógicos ou de campanha eleitoral.

________________________________________________
Obs.:

1. A capa do livro: Uma das obras mais conhecidas de René-Xavier Prinet, A Sonata de Kreutzer, fez 
parte, em 1901, da exposição «A Arte francesa contemporânea», em Stuttgart, onde foi vendida ao príncipe regente da Baviera.

2 . No capítulo 23, explica como "a música provoca um efeito sublime na alma" ou, pelo contrário...
«O almoço foi como outro qualquer, enfadonho, cheio de convencionalismos. A música começou bastante cedo. Ah, como eu me lembro tão bem de todos pormenores do sarau; parece que estou a vê-lo pegar no estojo, a abri-lo, a tirar uma colchinha bordada por uma senhora qualquer, a extrair o violino e a começar a afiná-lo. Vejo a minha mulher a sentar-se ao piano com um ar de fingida indiferença a encobrir, eu bem via, uma grande timidez (a timidez que o medo da sua inépcia, sobretudo, lhe provocava); portanto, sentou-se com ar fingido, começaram os habituais lás no piano, o pizzicato do violino, a instalação da pauta. Depois olharam um para o outro, olharam para as pessoas que se sentavam, trocaram umas palavras, e começou. Ela deu o primeiro acorde. A cara dele ficou séria à escuta, rigorosa, simpática, e depois, com o arco nos dedos cuidadosos, tocou nas cordas e respondeu ao piano. E começou...»
Pózdnichev parou, depois emitiu várias vezes o seu barulhinho habitual. Queria continuar, mas fungou e voltou a parar.
— Estavam a tocar a Sonata de Kreutzer, de Beethoven. Conhece o primeiro presto? Conhece? — exclamou. — Ooh!... Esta sonata é uma coisa terrível. Precisamente esta parte. E a música em geral. O que é isso? Não compreendo. O que é a música? O que ela nos faz? E por que é que faz o que faz? Dizem que a música provoca um efeito sublime na alma... Mentira, absurdo! Provoca um efeito, um efeito terrível (estou a falar de mim), mas não sublime. Não age na alma de modo sublime nem humilhante, mas de modo excitante. Como lhe hei-de explicar? A música faz-me esquecer de mim próprio, da minha verdadeira situação, transporta-me para outro espaço qualquer que não é o meu: a música parece que me faz sentir o que na verdade não sinto, que me faz compreender o que não compreendo, parece que com a música, posso fazer o que na verdade não posso. Explico-o assim: o efeito da música é como o do bocejo ou do riso; não tenho sono mas bocejo quando olho para alguém a bocejar; não tenho motivos de riso mas rio quando ouço alguém a rir-se.
«A música transfere-me de imediato para o estado de espírito do músico quando a compôs. Fundo-me na alma dele e, juntamente com ele, transporto-me de um estado para o outro, mas não sei por que o faço. O homem que compôs, digamos, esta Sonata de Kreutzer, Beethoven, sabia o porquê desse seu estado, um estado que o levou a praticar determinados actos, logo um estado que tinha sentido para ele mas que, para mim, não tem qualquer sentido. Por isso a música apenas excita, mas não determina. Bom, se tocam uma marcha militar, os soldados marcham, a música aqui determina alguma coisa; se tocam uma dança, dançamos, e tudo está definido; cantam uma missa, comungamos, também está definido. Mas aqui apenas há a excitação, e não se torna claro o que devemos fazer neste estado de excitação. Por isso a música é tão assustadora, por isso causa tantas vezes um efeito pavoroso. Na China, a música é uma prerrogativa do Estado. E tem de ser assim. Pode admitir-se que alguém hipnotize quem lhe apeteça, uma ou muitas pessoas, e depois faça com elas o que quiser? Sendo o hipnotizador, ocasionalmente, um homem imoral?
«Pois bem, este meio terrível cai nas mãos de qualquer um. Por exemplo, esta Sonata de Kreutzer, o primeiro presto. Será admissível tocar este presto num salão, no meio de senhoras decotadas? Ouvem, batem palmas, depois comem gelados e falam de um novo boato qualquer. Estas coisas apenas devem ser tocadas em circunstâncias importantes, significativas e quando é necessário realizar determinadas acções importantes que correspondam a esta música. Ouvir e fazer precisamente o que a música sugeriu. De outro modo solta-se uma energia e um sentimento que não correspondem ao lugar nem ao momento, e não se manifestam, o que não deixa de ser nocivo. A mim, pelo menos, esta peça influenciou-me terrivelmente; parecia que se me revelavam sentimentos e possibilidades absolutamente novos, desconhecidos para mim até àquele momento. Parecia que a minha alma me falava: isto é assim, não é como pensaste e como viveste antes. Não sabia que coisa nova me era dada a conhecer, mas a consciência do novo estado era muito feliz. As mesmas pessoas, incluindo ele e ela, eram-me reveladas a uma luz muito diferente.
«Depois do presto tocaram o andante, excelente mas banal, nada novo, com variações vulgares, e o final, então, foi mesmo fraco. Depois, a pedido dos convidados, tocaram ainda uma elegia de Ernst e algumas outras pequenas peças. Tudo muito belo, sim, mas não me produziu sequer a centésima parte daquela primeira impressão. Tudo o que ia acontecendo na música já vinha ofuscado por aquela primeira impressão. Senti-me leve e alegre durante todo o serão. Quanto à minha mulher, nunca antes a vira como naquela noite: os olhos brilhantes, a expressão rigorosa e significativa enquanto tocava e, quando acabou, o ar terno, o sorriso fraco, humilde e deliciado. Eu via tudo isso mas não lhe atribuía outro sentido senão o de que ela experimentava as mesmas sensações que eu, de que também para ela se revelavam, como que surgidos das névoas da memória, sentimentos novos nunca antes experimentados. O serão acabou da melhor maneira, todos os convidados partiram.
Lev Tolstói, A sonata de Kreutzer, Relógio D'Água, pags 89-92.

3. Da história da Sonata consta a censura que foi feita tanto na Rússia como nos EUA.
De facto, o breve romance "A Sonata a Kreutzer" foi proibido na Rússia pelos censores, mas uma versão mimeografada foi amplamente divulgada. Em 1890, o Departamento Postal dos Estados Unidos proibiu o envio de jornais contendo partes serializadas da obra. Isto foi confirmado pelo Procurador-Geral dos Estados Unidos no mesmo ano. Theodore Roosevelt chamou Tolstói de "pervertido sexual". A proibição da sua venda foi revogada pelos tribunais de Nova York e Pensilvânia em 1890.

4. O ciúme na literatura tem sido tratado por vários escritores, que descrevem este sentimento, entre eles, Tolstói n' A Sonata de Kreutzer.
No entanto, uma referência especial é sempre feita a Otelo de Shakespeare. Otelo é influenciado pela inveja de Iago, que trama uma cruel vingança, insinuando a Otelo que sua mulher e Cássio o traíam.
Otelo, a partir destas insinuações, passou a desconfiar da fidelidade da jovem com muita facilidade, através de “evidências” que, na realidade, não chegavam a ser motivos para tamanha desconfiança.
Este ciúme patológico, estes delírios de ciúme deram origem ao que se designa como a Síndrome de Otelo.






26/02/20

Estrada Nacional 2

A desertificação, o despovoamento e o abandono do chamado “interior” tem vindo a ser concretizado desde há muito tempo pelos diferentes governos que nos têm desgovernado.
Mas “agora sim , damos a volta a isto”*, como diz a canção dos Deolinda. 
Temos o maior governo da democracia que soma cerca de 70 ministros e secretários de estado  para todos os gostos mas principalmente para combaterem a desertificação e o abandono:
Ministra da coesão territorial, Secretário de Estado da Conservação da Natureza, das Florestas e do Ordenamento do Território, Secretário de Estado Adjunto e do Desenvolvimento Regional, Secretária de Estado da Valorização do Interior, Secretário de Estado da Agricultura e do Desenvolvimento Rural. 

John Steinbeck em “Vinhas da ira”, dá-nos um retrato do sonho americano desfeito  e sem esperança.  Conta a história  de uma família (Joad), que parte do Oklahoma em direcção à Califórnia em busca desse sonho, que como muitas outras famílias, após a Grande Depressão de 1929, as fracas condições económicas, as intempéries,  a incapacidade  de pagar os empréstimos aos bancos... tem que deixar as suas cidades,  as suas quintas em busca de algo melhor.
Fogem pela mítica Route 66 **, até à Califórnia em busca de trabalho e de melhores salários onde, afinal, o afluxo de muitos trabalhadores  não lhes vai permitir melhorar a situação.

Manhattan Transfer - ROUTE 66

Esta mesma estrada é um dos assuntos centrais do filme Cars, da Pixar (2006) , que é muito mais do que um filme para crianças, e da cidade fictícia de Radiator Springs simbolizando vários lugares reais da histórica Route 66
Uma excelente imagem da desertificação após a construção da Interstate 40 porque Radiator Springs deixou de ser passagem obrigatória para todos os que utilizavam a Route 66 e  levou a cidade, onde Faísca McQueen foi “cair”, ao abandono e ao marasmo.



Por cá temos a EN2  com 738,5 quilómetros *** que o escritor Afonso Reis Cabral (Ler, p. 116-127) percorreu a pé. Sendo a estrada nacional com mais longo percurso, torna-se fascinante percorrê-la, visitando o Portugal profundo: 11 distritos, 8 províncias, 4 serras, 11 rios e 32 concelhos.

Talvez inspirado por esta “aventura”, o sr. primeiro ministro não quis deixar de fazer campanha eleitoral à conta da EN 2.  
"Estamos brevemente a iniciar uma nova etapa na caminhada que iniciámos há quatro anos. E sempre que se inicia uma nova etapa é bom voltar ao quilómetro zero para ganhar inspiração para o que há a fazer nos quilómetros a seguir", afirmou António Costa, que hoje dedicou o dia à EN2, que atravessa o país entre Chaves e Faro, recusando-se a falar sobre outros assuntos da atualidade nacional.
... O também primeiro-ministro elogiou o projeto da Rota da N2, lançado em 2014, e disse que é "preciso relembrar que há mais país para além do país" que se vê "nas áreas de serviço"...

Como nas Vinhas da ira, como em Cars, o progresso conseguido não é definitivo. As autoestradas têm este reverso da medalha, a desertificação dos locais por onde passava a antiga estrada com curvas e contracurvas mas com tempo para apreciar a beleza da paisagem, e a falta de contrapartidas para as populações locais.
Por outro lado, o desenvolvimento passa pela coesão territorial, pelo equilíbrio inter-regional e local, passa pela manutenção das infraestruturas no seu conjunto nacional em todos os sectores, em todas as cidades, vilas e aldeias. De contrário, não há Eldorado que nos valha.

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António Costa arranca com iniciativa "Governo mais próximo" em Bragança
**Route 66 é uma rodovia histórica que foi construída na década de 1920 e atravessava sete estados dos EUA (Illinois, Missouri, Kansas, Oklahoma, Texas, Novo México, Arizona e Califórnia) com um percurso de 3.940 km.  Em 1985  foi substituída pela Interstate 40.
*** É a terceira mais extensa estrada nacional de todo o Mundo, apenas superada pela Route 66 (3.939 quilómetros), nos Estados Unidos, e a Ruta Nacional 40 (5.194 quilómetros), na Argentina.

  

https://www.mixcloud.com/RACAB/crónica-de-opinião-de-carlos-teixeira-27-02-2020/


22/02/20

Não muda nada !

Planos

Para quem conhece cursivamente a história portuguesa do século XIX e do século XX, a crise em que estamos metidos não é novidade. De quando em quando, o País tem uma crise de nervos e resolve que se quer «modernizar». «Modernizar» significa, muito precisamente, «viver tão bem como na Europa». Mas, para «viver tão bem como na Europa», é preciso cumprir uma pequena formalidade: ganhar dinheiro, coisa que antigamente se chamava «fomento» e hoje se chama «desenvolvimento económico». As receitas para o «desenvolvimento» foram sempre duas. Primeiro, obras públicas (estradas, pontes, caminhos de ferro); e, a seguir, educação. Só que está ainda por provar a eficácia destas duas panaceias. Claro que as «modernizações» trouxeram algumas modestas melhorias. Em contrapartida, criaram, ou alargaram, uma classe média com uma camadinha de verniz «civilizado» e ambições na vida. E essa classe média, quando a «modernização» em curso afocinhou, não perdeu o seu legítimo apetite e bramiu contra os governos, que lhe anunciavam vacas magras. O Estado entrou, então, em cena, para directa ou indirectamente a sustentar e garantir o sossego da Pátria. Tirando Salazar (que tinha a PIDE), Portugal andou, por isso, à beira da falência (ou faliu mesmo), desde pelo menos 1834. Como agora, éramos famosos pelas nossas dívidas, pelo alto risco do nosso crédito, pela desorganização das nossas finanças, pela nossa inconcebível incapacidade administrativa e pela nossa luxuriante burocracia. No fundo, nada mudou, excepto a dimensão da classe média e a subordinação à paternal autoridade de Bruxelas. Há, aqui em casa, duas prateleiras de livros com planos maravilhosos para nos salvar desta velha praga. Nunca evidentemente esses planos passaram do papel.

Vasco Pulido Valente, "Planos", Crónica "Faz de conta", DN,  23-6-2001.

20/02/20

Morrer


Lev Tolstói descreve assim o sofrimento no processo de morte de Ivan Iliitch:
Piotr, traz-me cá o medicamento. - «E depois porque não? Talvez o medicamento ajude.» Pegou na colher, tomou-o. «Não, não ajuda. Tudo isto é um disparate, uma ilusão» - concluiu mal sentiu o sabor familiar, demasiado doce e desesperado. «Não, já não consigo acreditar. Mas a dor, para que é esta dor, que ela desapareça ao menos por um minuto.» «E gemeu. Piotr arrepiou caminho. – Não, vai e traz o chá.
Piotr saiu. Ivan Iliitch, sozinho desatou aos gemidos, não tanto pela dor, pavorosa, como pela angústia. « Sempre a mesma coisa, dias e noites sem fim. Que isto seja mais rápido. Mais rápido o quê? A morte, as trevas. Não, não. Tudo é melhor do que a morte!» (Lev Tolstói, A morte de Ivan Iliitch”, p. 72)

A morte é um assunto que diz respeito a todos. É um processo natural, inerente à condição humana. Morrer é um processo previsível mas quase sempre inesperado e que não depende de nós. A morte de qualquer ser humano é sempre uma perda com a complexidade que a envolve e tem o seu tempo próprio para acontecer.
A questão que se coloca é se deverá ser acelerada pelo próprio ou por outra pessoa a seu pedido. No primeiro caso trata-se de suicídio. A outra situação, actualmente em discussão, requer a necessidade de algumas clarificações conceptuais. (Wikipedia)
Eutanásia é o acto intencional de proporcionar a alguém uma morte indolor para aliviar o sofrimento causado por uma doença incurável ou dolorosa. Geralmente a eutanásia é realizada por um profissional de saúde mediante pedido expresso da pessoa doente. (1)
A eutanásia é diferente do suicídio assistido, que é o ato de disponibilizar ao paciente meios para que ele próprio cometa suicídio.
A eutanásia pode ser classificada em voluntária e involuntária. É voluntária quando é a própria pessoa doente que, de forma consciente, expressa o desejo de morrer e pede ajuda para realizar o procedimento. Na eutanásia involuntária a pessoa encontra-se incapaz de dar consentimento para determinado tratamento e essa decisão é tomada por outra pessoa, geralmente cumprindo o desejo anteriormente expresso pelo próprio doente nesse sentido.
A eutanásia pode também ser activa e passiva. A eutanásia activa é o ato de intervir de forma deliberada para terminar a vida da pessoa. A eutanásia passiva consiste em não realizar ou interromper o tratamento necessário à sobrevivência do doente.
Distanásia é o prolongamento artificial do processo de morte e por consequência prorroga também o sofrimento da pessoa. Muitas vezes o desejo de recuperação do doente a todo custo, ao invés de ajudar ou permitir uma morte natural, acaba prolongando sua agonia. O tratamento é inútil. Não visa prolongar a vida, mas sim o processo de morte"
Ortotanásia significa morte pelo seu processo natural. Neste caso o doente já está em processo natural da morte e recebe uma contribuição do médico para que este estado siga seu curso natural. (2)

Outro aspecto não consensual tem a ver com a Constituição.
Jorge Miranda, não tem dúvidas: "legalizar a eutanásia "fere flagrantemente" a Constituição… sejam quais forem as circunstâncias e as intenções". Porque, argumenta, de acordo com o artigo 24º,1º, sobre a inviolabilidade da vida, "ninguém pode dispor da sua vida, como ninguém pode alienar a sua liberdade ou o respeito por si mesmo".
E Jorge Miranda soma-lhe "uma segunda inconstitucionalidade por omissão, por o Estado não conferir exequibilidade plena às normas constitucionais sobre direitos económicos. sociais e culturais", ou seja, "não defender a plena realização do SNS, incluindo cuidados paliativos e cuidados continuados".

A eutanásia é também um retrocesso civilizacional. (3) Tanto mais num tempo em que o conhecimento científico e os meios postos à disposição do ser humano, como os cuidados paliativos (4), podem ajudar a que no morrer haja menos sofrimento.
A aprovação da eutanásia é a instauração de um controle da vida pelas mais diversas razões, mesquinhas ou supostamente humanitárias mas ainda assim insuficientes para que a vida seja deixada ao poder de outros mesmo que pedida pela pessoa que a pretende.
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(1) Entre os motivos mais comuns que levam os doentes terminais a pedir uma eutanásia estão a dor intensa e insuportável e a diminuição permanente da qualidade de vida por condições físicas
Entre os fatores psicológicos estão a depressão e o medo de perder o controlo do corpo, a dignidade e independência.
(2) Desta forma, diante de dores intensas sofridas pelo paciente terminal, consideradas por este como intoleráveis e inúteis, o médico deve agir para amenizá-las, mesmo que a consequência venha a ser, indirectamente, a morte do paciente.
(3) Mesmo que deputados do BE digam o contrário... há outras opiniões, como esta, e até esta ...
(4) “Os cuidados paliativos definem-se como uma resposta activa aos problemas decorrentes da doença prolongada, incurável e progressiva, na tentativa de prevenir o sofrimento que ela gera e de proporcionar a máxima qualidade de vida possível a estes doentes e suas famílias. São cuidados de saúde activos, rigorosos, que combinam ciência e humanismo.”