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19/10/16

Silêncio e fala

José Tolentino Mendonça escreveu "o inapagável som do silêncio" (A Revista do Expresso, 3/9/2016) a partir da canção de Paul Simon “o som do silêncio” ela própria, inicialmente, votada ao silêncio, e que uma nova versão com os músicos de Bob Dylan deram origem ao sucesso que conhecemos.
"De facto, o mundo, este mundo que nos habituamos a identificar como estridente caixa sonora que nunca dorme, é atravessado por uma corrente de silêncios à espera de serem escutados. Há uma malha delicadíssima que segura silêncios milenares e recentes, silêncios indefinidos das profundezas e silêncios cuja morfologia se deteta na pele, silêncios siderais que abrem para o enigma dos grandes espaços e silêncios que costuram o mistério e a biografia do pequeno, do parcelar, do pessoal."

A nossa vida familiar e social é pontuada por crises normais e também por outras imprevisíveis. São crises de felicidade e crises de tristeza e luto. É nessas crises que se faz sentir com mais ou menos impacto o "som do silêncio".

Helena Sacadura Cabral em E nada o vento levou, conta algumas histórias de vida que são sublinhadas pelo silêncio:
1) o silêncio dentro de nós como, por exemplo, o silêncio no divórcio e separação:

"Nunca tinha reparado que no silêncio havia som, até que numa determinada noite percebi que ele existia mesmo. Tinha 30 anos e o meu marido acabava de levar os últimos livros da nossa casa. Tudo o resto já saíra... Passaram 50 anos e eu nunca mais esqueci o som do silêncio. Em especial daquele que veio, talvez, quem sabe?, de dentro de mim!" (p. 18)

2) e também a necessidade de silêncio dentro de nós que pode vir da meditação, da contemplação ou até do desejo pontual de vazio” (p. 47)

3) o silêncio que constrói o olhar: "Aprendemos na infância a ver com os olhos. Depois, à medida que vamos crescendo, vem a aprendizagem do olhar,que se faz com a nossa família, com os amigos e com aqueles que cruzam a nossa vida. Este olhar formata-se também nas ideologias que professamos - religiosas, sociais ou políticas - e que o irão inevitavelmente «condicionar»... O meu olhar, como o de outros, também se construiu através das artes, dos livros e do silêncio. Não se discute a importância dos dois primeiros. Mas dá-se menos valor ao silêncio, quando afinal, em muitos casos, os ultrapassa. É nesse silêncio que despojamos a vista de tudo o que é secundário e que conseguimos usá-la como se voltássemos a ser crianças." (p. 44)
4) o silêncio das palavras: "Todos os conhecemos, esses silêncios que falam encerrados num olhar, num gesto de ternura, numa mão que limpa uma lágrima, num abraço forte que se dá ou recebe e que mais não são do que formas de dizer a uma pessoa que a amamos e que não queremos vê-la sofrer. Ou, também, que ficamos felizes com a sua felicidade.
Sendo a palavra o meio de comunicar por excelência, o facto é que este tipo de gestos contém, dentro de si um mundo de silêncios que se sobrepõe a tudo o que poderia ser dito por palavras."(p. 95)

Mas há outros silêncios na vida familiar, originados ou acompanhados por fortes emoções como a vingança e a manipulação. Há pessoas que usam o silêncio para se vingarem ou para castigarem o marido, a esposa, os filhos.
O silêncio do casal passa muitas vezes pela prova do silêncio que começa com o que se chama “prender o burro” e acaba em comportamentos sado-masoquistas. Eu sofro em silêncio mas também te faço sofrer a ti.
É um jogo (Eric Berne) em que se procura permanecer em silêncio para ver quem cede primeiro e fala, como se o primeiro a ceder  fosse o derrotado.
Há silêncios tão complicados... quando resultam da vergonha e do medo da revelação de alguns comportamentos e acontecimentos problemáticos: o silêncio que envolve a violência doméstica, o abuso sexual e o silêncio da violência contra pessoas mais frágeis como as crianças e os idosos.
Os silêncios que violam os direitos humanos como certas tradições e os casamentos forçados ou as adopções forçadas. Estes silêncios não falam apenas, são silêncios que gritam. É preciso que alguém oiça. 

Voltando a Tolentino Mendonça: “O que ouvimos não esgota a extensão de tudo aquilo que neste momento nos está a ser dito. E pode mesmo acontecer que a parte mais significativa da conversa que cada um de nós mantém com a vida seja, neste momento, aquela que fica por escutar.”

15/10/16

Silêncio e fala


Há muitas formas de silêncio, de silenciar e de auto-silenciar. A espiral do silêncio é uma dessas formas.
A espiral do silêncio "é uma teoria da ciência política e comunicação de massa"  proposta, em 1977, pela cientista alemã Elisabeth Noelle-Neumann.
"Neste modelo de opinião pública, a ideia central é que os indivíduos omitem sua opinião quando conflitantes com a opinião dominante devido ao medo do isolamento. Os agentes sociais analisam o ambiente ao seu redor, e ao identificar que pertencem à minoria, preferem se resguardar para evitar impasses. Esse comportamento gera uma tendência progressiva ao silêncio denominado espiral, visto que ao não expôr essa ideia, o indivíduo automaticamente compactua com a maioria, assim, outras pessoas que compartilham dessa opinião também não a verbalizam. Quanto menor o grupo que assume abertamente a opinião divergente, maior o ônus social em expressá-la." (Wikipedia)

Uma boa análise do que é a espiral do silêncio é feita por Olavo de Carvalho (ou aqui) que com propriedade diz que "da internet para cima reina o silêncio" e de como certas organizações como o "foro de S. Paulo" faz parte dessa espiral do silêncio mesmo que mude de nome: "o foro de S. Paulo muda de nome como a KGB mudou de nome mais de 20 vezes", sempre para pior. E também de como quebrar a espiral do silêncio.

Outra forma de silenciar é o apolitismo.  Francis Wolff  "alertou para o seguinte paradoxo: assim que o povo oprimido por um tirano conquista a liberdade, usa-a para não se envolver na política.
O professor distinguiu o egoísmo do individualismo, salientando que este é um produto da sociedade democrática que favorece a “subjetivização” dos indivíduos e os permite realizar-se sem relação de dependência à comunidade. Para ele, isso faz com que as pessoas se excluam da vida pública. Como “não há vácuos de poder”, segundo Wolff, os cidadãos entregam seu poder de decisão a políticos profissionais, o que gera incompreensão e antipatia à classe política e acaba favorecendo os corruptos."


13/10/16

Silêncio e fala




O silêncio e a sua gestão são elementos da comunicação e por isso mesmo podemos dizer que o silêncio fala através dos seus significados. "É impossível não comunicar” é um dos princípios da Escola de Palo Alto. E sabemos por experiência própria que é assim, como refere uma canção de P. Simon e  A. Garfunkel “o som do silêncio” ("sound of silence"): "As Pessoas conversam sem falar/As pessoas ouvem sem escutar/Escrevem canções que vozes jamais compartilham/E ninguém ousou/ Perturbar o som do silêncio... E o sinal disse: As palavras dos profetas estão escritas nas paredes do metro/ E nas salas das habitações colectivas/ E sussurraram no som do silêncio "
Se o silêncio tem som, como diz a canção, então o silêncio não é silêncio, é comunicação e tem muitos significados. O silêncio pode ser confortável e desconfortável, suportável ou insuportável. Há um silêncio virtuoso e um silêncio vicioso. Há um silêncio saudável e um silêncio doentio.
Assim, o silêncio pode significar prudência, cautela, respeito como o silêncio da pessoa que é discreta, humilde e até hábil quando sabe o que deve dizer, como deve dizer e quando deve dizer. Ser reservado, por exemplo, pode significar que não se pode nem deve dizer tudo o que se pensa para não magoarmos o outro.
O silêncio é o campo onde se expressam as emoções de forma mais autêntica e intensa através da comunicação não verbal: o gesto, a expressão do rosto, o corpo, a alegria, as preocupações, o sofrimento...”. 
O silêncio ajuda-nos a ponderar, a reflectir, a entrar em contacto com os desejos mais profundos do coração humano e do conhecimento da nossa mente. É o silêncio do sábio. 

Mas há um silêncio vicioso, violento e devastador.
O silêncio que encobre e mente, como também diz outra canção “o silêncio é de ouro" ("silence is golden"), mas os meus olhos vêem… ele enganou-a tão bem, ela será a última a saber”. É a contradição entre o não audível, um silêncio dourado, e a desocultação que os olhos me dão.
O silêncio também pode ser censura, rejeição e provoca preconceitos sociais e estereótipos.
O silêncio pode ser sintoma de uma perturbação do carácter (o que anda sempre aos segredinhos, o hipócrita, o velhaco…).”
O silêncio do psicopata e dos poderosos totalitários, tiranos e empedernidos emocionalmente, insensíveis à dor e ao sofrimento do outro. O que se passa em Aleppo, na Síria, é a insensibilidade dos poderosos.
O silêncio das associações políticas e das associações secretas. É um silêncio que se compra ou que se cumpre por força da submissão à organização e à ideologia.
Os sindicatos deixam de fazer manifestações de rua e as reivindicações são loas ao poder. Os sindicatos servem para aprovar as políticas do poder a que eles também pertencem e para sublinhar as grandes realizações sociais do poder. O desemprego dos professores pode esperar, as condições das escolas podem esperar, a saúde das pessoas já não é tão urgente, a melhoria das condições de vida passa a ser uma grande conquista deles.
O silêncio fala quando se é cúmplice. Ficou famosa a frase de Martin Luther King: "o que preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem carácter, dos sem ética… o que me preocupa é o silêncio dos bons".

07/10/16

Fantasia


No tempo de Cavaco havia "forças de bloqueio", no de Guterres havia "coligações negativas". Na Grécia, houve "tróica" mas com Tsipras/Varoufakis passou a haver "instituições". Em Portugal, de vez em quando havia um "perdão fiscal", com Costa/Centeno/Andrade passou a haver "PERES" (Programa Especial de Redução do Endividamento ao Estado) que, dizem eles, não é um perdão fiscal.
Claro! Porque desde que "as vacas começaram a voar" não há "incoerência" nenhuma, passou a haver "versatilidade de opiniões". Até onde os levará a fantasia?

29/09/16

Esferográfica

117º Aniversário de Ladislao José Biro
László József Bíró 
(Budapeste, 29/9/1899 — Buenos Aires, 24/10/1985)
Inventou a moderna caneta esferográfica. Nasceu há 117 anos. Apresentou a sua primeira versão da caneta esferográfica na Feira Internacional de Budapeste, em 1931, e patenteou a invenção em Paris, em 1938.

Debates: "nem me explico, nem me entendes"


Como sabemos um  debate é uma forma de comunicação  e exposição  de ideias diferentes sobre um  tema entre duas ou mais pessoas que tem como finalidade  directa conhecer as posturas, bases e argumentos das partes em  discussão e, indirectamente, pode ter  um papel de aprendizagem e enriquecimento, pode eventualmente mudar de posição ou aprofundar e enriquecer a própria pessoa, ainda que não seja essa a finalidade ou o principal motivo de um debate.
Normalmente o debate  é formal, com um formato pré-estabelecido, assim como o tema específico a discutir, e tem um moderador.
No  mundo de informação e comunicação  em que vivemos há debates para tudo. Mas aquilo a que assistimos frequentemente é ao reforço das posições que os interlocutores já tinham antes do debate, não como resultado da discussão, mas pelo que acontece no processo de comunicação
Entre Donald Trump e Hillary Clinton houve esta semana  um debate formal, no contexto da eleição para a presidência dos Estados Unidos
O que acontece é que como este muitos debates  são  mais  compatíveis com aquilo que se chama  descomunicação. São um teste  para afirmar as diferenças, fraquezas e falhas,  quem ataca e quem fica à defesa e  para saber quem ganha ou quem perde.
O debate é supostamente sobre os conteúdos da comunicação mas aquilo que releva é a comunicação não-verbal, as emoções, o tom da voz. Porque  a comunicação faz-se desses aspectos e são estas informações não verbais que interessam mais aos espectadores.
Como refere Xavier Guix, "A comunicação não é algo que aconteça na realidade mas a realidade constrói-se na comunicação".
A complexidade de cada interacção vai depender de uma enorme diversidade de processos: semânticos, neurológicos, psicológicos, sociais e culturais.
Nestas  diferenças surgem frequentemente os conflitos  e, por isso, é tão complicado que as pessoas se entendam.
Segundo Xavier Guix, na comunicação entre duas pessoas podemos considerar a presença de vários princípios.
Há sempre intencionalidade, não fazemos nada porque sim mas temos sempre alguma intenção.
Cada pessoa é única mas  mesmo essa pessoa pode mudar, hoje não é a mesma pessoa que conheci há tempos atrás.  
As pessoas tem diferentes estilos afectivos, todos temos emoções, a expressão das emoções é universal mas o que não é igual é a velocidade, a expressividade, a intensidade e a latência da emoção.
A relação entre as pessoas é sistémica, a pessoa tem todo um mundo de pessoas, de informações e de vivências que fazem parte dela. Tem uma família, tem filhos e vivenciou contextos diversificados que a tornam ainda mais diferente.
A nossas decisões  e escolhas são  de alguma forma condicionadas pelas experiências que tivemos e pelas aprendizagens que fizemos. Vivemos uma espécie de “liberdade condicionada” que, no entanto, não se pode confundir com determinismo.
A relação é construtivista, cada um constrói as suas próprias verdades. E também construcionista. Temos uma personalidade que nos faz como somos mas essa maneira de ser não vem apenas do interior mas da relação com os outros.
São então estas duas pessoas que estão em debate e não apenas as suas ideias e propostas. Daí a dificuldade de comunicação entre elas. Ou seja quando falo contigo “ nem me explico nem me entendes”.

22/09/16

Hoje apetece-me ouvir: Sima Bina



Uma canção de embalar de que não é necessário entender rigorosamente nada para se perceber que um bebé se sentirá feliz quando sua mãe ou alguém por ela interage desta forma com ele.
As canções de embalar contribuem para o desenvolvimento das suas capacidades, reforçam a vinculação afectiva e dão a segurança de que o bebé precisa para um sono tranquilo.
Enquanto é proibida de cantar no seu país, Sima Bina continua a cantar por todo o mundo.

30/07/16

Acção psicológica "online"


O mundo da desinformação, contra-informação e propaganda online atrai cada vez mais indivíduos, grupos e empresas falsas. O mundo dos trolls serve para desestabilizar qualquer informação que não agrade ou para criar informação falsa.
As motivações e as metodologias fazem-nos pensar que ainda não vimos nada. Qual "psícola"? Qual 5ª divisão ?
Serve para compreender o putinismo e muito mais. 
Será que a verdade ainda importa? (Katharine Viner em 19/07/2016. Texto publicado originalmente no The Guardian , em 12/07/2016 sob o títuloHow Technology Disrupted The Truth).
________________
O site http://observatoriodaimprensa.com.br/monitor-da-imprensa/sera-que-verdade-ainda-importa/ já não está disponível.

02/03/16

“O hábito fala pelo monge”


Num pequeno texto inserido no livro Psicologia do vestir, Umberto Eco (5/1/1932 - 19/2/2016)  escreve sobre o vestuário.
O título já nos diz que se o hábito não faz o monge de certeza que "o hábito fala pelo monge".
Vivemos dias em que as alterações comportamentais de figuras públicas quanto ao seu vestuário e outros comportamentos sociais manifestam alterações evidentes aos padrões mais frequentes de comunicação nesse contexto.
A questão sempre existiu mas, recentemente, em algumas democracias europeias, principalmente naquelas em que para elementos de novos partidos, não sei se são partidos novos, a componente “o vestuário que fala” tem grande impacto mediático. 
Na Grécia, um primeiro ministro que não usa gravata e um ministro das finanças que se veste de maneira singular, faz-se transportar de mota, e deixa-se fotografar na sua luxuosa residência no centro de Atenas. Em Espanha, o líder de um desses novos partidos apresenta-se sem gravata e sem casaco, mas apresenta-se de smoking num festival de cinema….
Há ministros que se transportam de mota, e um presidente que a usa para visitar a namorada, outros preferem o carro eléctrico ou viajar em classe económica. Há deputados que usam brinco, outros rastas, outros barba e ou bigode…
Umberto Eco diz “o vestuário é comunicação”. E isso não é nada de novo “mas a semiologia veio aperfeiçoar esta tomada de consciência e agora permite-nos inserir a nossa noção de comunicabilidade do vestuário num quadro mais amplo, no quadro de uma vida e sociedade onde tudo é comunicação.” (p. 8)
Tudo é comunicação. O homem comunica através da linguagem verbal mas o homem comunica através de uma infinidade de outros sinais, os gestos das mãos, os movimentos dos olhos, as inflexões da voz …
Eco diz que "a roupa serve principalmente para nos cobrirmos com ela... (para proteger do calor ou do frio e para ocultar a nudez que a opinião pública considera vergonhosa)" mas isto "não supera os cinquenta por cento do conjunto. Os restantes cinquenta por cento vão da gravata à bainha das calças, passando pelas bandas do casaco e chegando até às solas dos sapatos - e isto se nos detivermos ao nível puramente quantitativo, sem estender a investigação aos porquês de uma cor ou de um tecido…" (p. 7)
Os sinais estão por todo o lado de diversas formas e devemos identificar o significado das mensagens que encontramos no contexto social e cultural do nosso quotidiano, como, p. ex., na condução rodoviária, na publicidade, na moda.
"A linguagem do vestuário tal como a linguagem verbal serve para identificar posições ideológicas segundo os significados transmitidos e a formas significativas que foram escolhidas para os transmitir”.(p. 17)
Apesar da sua importância, “os códigos de vestuário existem embora muitas vezes sejam fracos” porque mudam com uma certa rapidez… São extremamente flutuantes…" (p. 18 e p. 20), como vimos nos exemplos acima.
O que importa é que a sociedade “seja de que forma se constituir, ao constituir-se, “fala” . Fala porque se constitui e constitui-se porque começa a falar. Quem não sabe ouvi-la falar onde quer que ela fale, ainda que sem usar palavras, passa por essa sociedade às cegas: não a conhece: portanto não pode modificá-la.” (p. 20)

20/09/15

Heróis e vilões

Raspar um socialista..., Vasco Pulido Valente , 19/09/2015.
Quando se raspa um socialista acaba sempre por se encontrar um tiranete. No meio do espectáculo pouco edificante das prisões de Sócrates, ninguém perdeu tempo a discutir, ou a investigar, o papel do cavalheiro na imprensa e na televisão. Mas nem Mário Soares, no fim, escapou à regra de interferir na política editorial do “Diário de Notícias” de Mário Mesquita. Para gente tão penetrada da sua virtude e da sua razão a crítica é fundamentalmente um escândalo, que em democracia se tem de aturar - com conta peso e medida. Os processos para manter a canalha do jornalismo na ordem, ou pelo menos, numa ordem tolerável, são vários: a compra, a rápida promoção para a vacuidade, uma ou outra ameaça e, se nada disto der resultado, a calúnia e o despedimento das cabecinhas que persistem em “pensar mal”.

16/09/15

Heróis e vilões

1. Há uma comunicação social livre que mostra a realidade da vida das pessoas, por vezes contraditória com o poder e, por isso, sujeita a todas as formas de violência incluindo a morte.
"O Comitê de Proteção aos Jornalistas "afirma que, desde 1992, mais de mil jornalistas foram mortos, a maioria dos quais estava cobrindo política, guerra ou corrupção."

Daqui
Como consequência do seu trabalho, "os jornalistas expõem a corrupção, mudam as leis, reformam as práticas empresariais e melhoram vidas."
Em 2014, "66 profissionais foram assassinados e outros 178 foram presos, segundo um balanço anual publicado esta terça-feira pela organização não-governamental Repórteres sem Fronteiras (RSF)."
Estes jornalistas que todos os dias informam, em condições muitas vezes difíceis, são merecedores de admiração, verdadeiros profissionais que dão credibilidade e prestígio à sua profissão.
A sociedade necessita do seu serviço e deve reconhecer e agradecer o seu trabalho e esforço para podermos ter comunicação social livre e vivermos em regimes democráticos.

2. No entanto, também há promiscuidade entre jornalistas que comentam, interpretam e brincam com a informação e comentadores que informam, desinformam e puxam a "brasa à sua sardinha".
As notícias são tratadas como peças humorísticas e para o receptor, não se sabe onde  termina a informação e começa a interpretação ou o achincalhamento dos factos e das pessoas. No entanto,
“1. O jornalista deve relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público.” Código Deontológico do Jornalista
3. Há dependências, compromissos, favores, desfavores,  pressões, ameaças através de sms, grosseiras ou subtis, políticas, empresariais, que mostram a dificuldade em que trabalham alguns profissionais, e que acabam por favorecer o jornalismo-voz-do-dono.


4. Por isso, não sei se são injustas as opiniões sobre jornalismo. Como esta:  "O jornalismo que se faz em Portugal é um jornalismo de matilha" (Emídio Rangel, 10-2-2010, RTP, Programa "Directo ao assunto").  
Ou esta: "Como aves de arribação, os jornalistas desembarcam todos no mesmo lugar da crise aguda, e desembarcam assim que se torna crónica, gerando o desinteresse colectivo. A isto chama-se, no jargão, comportamento de matilha, responsável pela repetição ad nauseam das mesmas histórias, escritas e reescritas ao espírito do tempo. Nunca chegamos a ver a continuação do filme, e muito menos o fim." (Clara F. Alves, A Revista do Expresso, nº 2230, 25-7-2015 , "Pluma caprichosa - silly season"). 

5. As imbecilidades de "matar o mensageiro", como por ex., se passa nos regimes ditatoriais, onde o longo braço do poder dos ditadores silencia jornalistas em qualquer parte do mundo, mas também as outras técnicas mais soft, como a denominada comunicação social de referência, a uniformização da agenda informativa, o auto ou hetero silenciamento, como sabemos, também não são inócuas ou irrelevantes.

6. Como noutra profissão qualquer há heróís e vilões. Heróis são também os que não querendo ser uma coisa ou outra, desempenham com profissionalismo e competência o seu trabalho, confrontam as dificuldades e pressões dentro ou fora das redacções.

7. Não quero generalizar. Há comportamentos jornalísticos estranhos. Prefiro ficar com a imagem dos que são heróis.

07/09/15

Informação e manipulação

Resultado de imagem para wikipedia
Wikipedia expulsa 381 editores que manipulavam informação


"Editores expulsos iludiam a vigilância dos outros colaboradores porque funcionavam em rede: uns validavam o trabalho dos outros. Rede recebia dinheiro para promover pessoas e empresas.

A maior enciclopédia digital colaborativa do mundo, a Wikipedia, expulsou 381 editores que criavam e manipulavam artigos sobre pessoas e empresas a troco de dinheiro. O fundador da Wikipedia, Jimmy Wales, revelou ao jornal espanhol El País que baniram centenas de perfis devido a "fraude"."
...

03/07/15

Comunicação social livre


Joice Hasselmann:  liberdade de expressão e informação verdadeira. O regime democrático assim exige. 
Mensalão, petrolão e pouca vergonha... A corrupção não pode ter descanso.

19/05/15

Observador



Pelo direito à informação, pela liberdade de expressão, parabéns !

O “Observador coloca a liberdade no centro das suas preocupações e defende uma sociedade aberta, com instituições respeitadoras da lei e dos direitos individuais. Acreditamos que o desenvolvimento harmonioso tem de ser inclusivo e não deixar ninguém para trás.” Assumimos também “os princípios fundadores da Civilização Ocidental, derivados da antiguidade greco-romana do Cristianismo e do Iluminismo”.

02/12/14

Ética, moral e justiça

 

A ética é a ciência dos princípios da moral. A moral designa a aplicação desses princípios nos actos particulares da vida.
A moral é a ciência do bem e da acção humana.
“Hoje em dia a moral apresenta-se mais particularmente como uma teoria das relações com outrem uma filosofia da “comunicação” (M. Buber, E. Levinas): é na relação imediata com o rosto do outro que o homem faz originariamente a experiência dos valores morais (por exemplo, captar o olhar do outro é compreender que não o podemos constranger)”. (Larousse)

A ética e a moral andam juntas em toda a nossa vida. E é pela interacção das duas que podemos pautar os nossos comportamentos. A interacção entre a ética e a moral podem originar conflitos e por isso é necessário optar pela melhor decisão.
Um dos conflitos diz respeito ao relativismo cultural. O conceito de moral varia de acordo com as culturas e o período sócio-histórico? Então até onde pode ser aceitável o relativismo cultural? Há aspectos culturais que são aceitáveis mas “podemos aceitar estes aspectos sem aceitar toda a teoria" (J. Rachels) do relativismo cultural.
Por outro lado, o juízo moral depende do desenvolvimento do ser humano não sendo a mesma coisa para uma criança, adolescente ou adulto.
Acontece que muitos adultos têm juízo moral infantil. Não vão além do “bom rapaz, da boa rapariga”. Ou do “porreiro, pá”.
Recentemente foi notícia o facto de alguns trabalhadores da Câmara da Póvoa de Varzim, terem encontrado uns milhares de euros no lixo*, dinheiro que devolveram ao respectivo dono. O que devia ser um comportamento moral normal, foi notícia repetida em vários canais de televisão e em vários noticiários, o que pode querer dizer que não é o habitual no nosso comportamento.

Uma das áreas mais sensíveis é a da política. Haverá ética na política e nos negócios, e em particular nos negócios do estado?
Somos levados a pensar que em regra não é o que acontece. Se fosse assim, como se compreenderiam, em tantos locais do mundo, políticos metidos em negócios que revertem para beneficio próprio? Para que serviriam os offshores se houvesse ética na política e nos negócios?
Os gestores e os líderes políticos, devem ser os primeiros a agirem segundo princípios éticos. Mas todos os dias, pelas situações noticiadas, concluímos que não existe ética na política ou pelo menos em grandes sectores da política.
Todavia, não se pode aceitar uma política sem ética.
É, por isso, que a justiça, justa e independente, é indispensável para aplicar a legalidade, de forma ética, de acordo com os direitos universais do ser humano.
Política e negócios dizem respeito ao ser humano, à ética e à moral. Não deixa de ser caricato separar o comportamento ético dos dirigentes dos respectivos partidos como se isso não fosse relevante para a situação actual, principalmente quando se continua a defender os mesmos princípios, não houve um corte com o passado, ou dito de outra forma, não fizeram o luto de um tempo mentiroso e de uma actividade politica errada, que acabou por desembocar no falhanço político, à beira da bancarrota, com consequências para as pessoas: desemprego, incumprimento dos seus compromissos, as suas vidas alteradas e as expectativas frustradas.
Como dizia Sá Carneiro, a política sem risco é uma chatice e sem ética é uma vergonha.
____________________
* Corrigido (18-12-2014)
Nos tempos que correm, é caso de admiração social e política.

12/11/14

"O homem que assobia a mulher que passa"


Tudo é comunicação. A vida é comunicação. Independentemente da minha vontade, eu comunico ainda que não queira, mesmo que esteja em silêncio ou que me afaste das pessoas e viva no deserto. 
Há formas de comunicação que nos podem parecer estranhas porque elas dependem da cultura de cada povo. Há formas de comunicação que podem ser insultuosas, dependendo do contexto.
Dois terços da nossa comunicação é não verbal e apenas após o primeiro ano de vida estamos em condições de comunicar verbalmente.
Uma forma de comunicação não verbal que merece a concordância de uns e a discordância de outros é o comportamento de “assobiar a mulher que passa"
Como em toda a comunicação, há uma fonte do comportamento comunicacional, a mulher que passa, em que, sem falar, comunica, como no poema de Almada Negreiros. 
       Aquela que tem a forma do faz calar,
       Aquela que fala co’o andar,
       Aquela que sabe mentir,
       Aquela cujo olhar dá ilusão
       E que tem na voz o timbre dos repuxos;
                     J. de Almada Negreiros, Poesias
O assobio apreciativo muitas vezes é acompanhado de outros piropos ou de outras expressões, que entram no campo do assédio moral. 
Parece, no entanto, que este assunto merece uma análise mais detalhada. O que motiva um individuo a assobiar uma mulher?
A comunicação é um processo básico da vida. Torna-se indispensável ao estabelecimento de relações sócio-afectivas. Mas nem por isso é fácil expressarmos as nossas emoções. 
Como expressão da nossa organização psicológica, a comunicação, é, certamente, uma questão da personalidade do indivíduo.
Sabemos que o assobio admirativo dificilmente tem resultado. Então por que continua a verificar-se este comportamento ?
Há vários paradigmas psicológicos dos processos intrapsíquicos e relacionais que podem ajudar a compreender este comportamento.
Os paradigmas dos processos intrapsíquicos remetem-nos para a organização interna do psiquismo. A personalidade é constituída pelas instâncias (ego, id, superego) e põem em jogo desejos, motivações, outras necessidades do individuo.
Torna-se imperiosa a necessidade de comunicar. Há processos inconscientes na comunicação que foram socializados pelo super-ego e pelo princípio da realidade que impedem que esta comunicação seja simplesmente uma pulsão sexual primitiva.
A analise transaccional permite-nos analisar os estratagemas, jogos e motivações escondidas.
Provavelmente este individuo acredita que é uma maneira de se evidenciar perante outros e que o torna na vedeta do grupo. 
Este padrão comportamental tem origem na infância. Começa por ser a maneira de se evidenciar perante a família e os irmãos onde o jogo comunicacional tinha esse beneficio.
É também uma forma de relação sistémica, um comportamento que normalmente acontece em grupo, sendo necessário entender os aspectos do contexto, do enquadramento do grupo a que se pertence, da forma como é entendida a mulher nesse grupo e onde há trocas comunicacionais prévias, em relação às quais há aceitação por parte do grupo.
Podemos compreender o sentido deste comportamento a partir da nossa própria experiência, do contexto das normas sociais em que o assobio define uma situação de ambivalência de comunicação sexualizada mas simultaneamente lúdica e sem consequências a esse nível.
Mais uma vez o processo de socialização na escola e na família é decisivo para a comunicação sócio-afectiva, sexualizada e equilibrada, entre homens e mulheres. 

06/11/14

Ousar falar


Le cercle psy, nº 3 , hors-série,  dá voz às pessoas que sofrem de alguma difculdade a nível da sua personalidade. Sobre o assédio moral, um extracto do livro De la rage dans mom cartable, remete-nos para o testemunho de Noémya.


Noémya foi vítima de assédio moral durante toda a sua escolaridade. Viveu quatro longos anos de sofrimento, onde intimidação, insultos, agressões e rejeição foram o seu quotidiano, na indiferença geral do pessoal docente, acrescentando a cada dia um pouco mais de raiva na sua mochila ... Isto foi seguido por dez longos anos de depressão e fracassos profissionais, as consequências directas do fenómeno do assédio. Com espírito de luta, Noémya escapou graças à escrita, conseguindo colocar em palavras os seus problemas .... 
Durante três anos, ela fez da luta contra o assédio moral a sua luta pessoal. 

"Diz-se que há palavras que matam. Palavras que destroem do interior. A diferença com as agressões é que as palavras ficam...

...Para as vítimas de assédio escolar não há geralmente paragem. Todos os locais se tornam ansiogénicos. As salas de aula. O pátio do recreio. A cantina. O autocarro. A perseguição é permanente."


Para os que sofrem com esta situação,  mais importante  do que "guardar na mochila" todas estas agressões é ousar falar.

Respeito


Respeito é a atitude que consiste em não prejudicar o outro nem fisicamente através da violência, nem moralmente através do juízo (Larousse)
É esta atitude, respeito, que faz falta na nossa sociedade:  respeito por si próprio, pelos outros.
Mas o que falta em respeito sobra em assédio moral.
O assédio pode acontecer em vários aspectos e várias etapas da nossa vida.
No mundo do trabalho, leva ao constrangimento da pessoa, afecta a sua dignidade, criando-lhe um ambiente hostil e humilhante (mobbing).
O assédio pode assumir carácter sexual sob forma verbal, não verbal ou física.
O assédio é mais comum em relações hierárquicas autoritárias e assimétricas, isto é, da chefia em relação ao subordinado, em que o fracasso do subordinado é fabricado, um falso fracasso, com o objectivo de o destruir moralmente. Entre nós uma forma frequente deste  assédio é "por o trabalhador na prateleira”
O assédio é frequente na escola, normalmente falamos de bullying.
Hoje, o assédio é particularmente pernicioso nas redes sociais. A internet tornou-se um local preferido para a perseguição (cyberstalking). Tem a vantagem de funcionar no anonimato e na cobardia.
Há vários estudos sobre uso da internet para o assédio. Num deles, (Universidade East Carolina) nos Estados Unidos, perguntaram a 804 estudantes se já tinham usado as tecnologias de informação e comunicação para controlar os seus parceiros. Metade respondeu que sim, ao menos uma vez. 
A pesquisa também mostra que as mulheres são mais propensas ao abuso. Uma em cada quatro das entrevistadas afirmou que violava o e-mail de seus parceiros em comparação  apenas 6% dos homens.
O que leva uma pessoa a assediar alguém, chegando ao ponto de a prejudicar no trabalho, na escola  ou na sua vida ?
Há três tipos de personalidades reprováveis: personalidade maligna, personalidade narcísica e a personalidade paranóica (Piñuel, referido por Varela, P., Ansiosa-mente, pag.135)
Eventualmente pessoas comuns, como o caso de alguns adolescentes, podem manifestar episódios de perseguidores. Há um limite ténue entre a curiosidade sobre uma pessoa e o começo do assédio.
Como, no espaço  público, é difícil saber quando, para comportamentos que vão do piropo apreciativo ou ofensivo  à perseguição (stalking) e agressão física, se atingiu o limite.
Neste caso a vítima é quase exclusivamente feminina.
O piropo é, supostamente, uma expressão ou frase dirigida a alguém, geralmente para demonstrar apreciação física. 
Há quem ache que é uma questão cultural mas também discorde e ache que “não existe lado “positivo” no piropo” (Soledad Cutuli) 
Recentemente uma instituição sem fins lucrativos, a Hollaback realizou a seguinte experiência:
Uma actriz (Shoshana B. Roberts) andou durante dez horas em silêncio pelas ruas de Nova Iorque. Durante essas dez horas ouviu 100 comentários, desde piropos mais ou menos inócuos a outros mal educados, até ser acompanhada durante vários minutos.
A Hollaback refere que há entre 70 e 99% de mulheres que passa por uma experiência de assédio na rua, em determinada fase da sua vida.
O assédio sexual no espaço púbico, mesmo quando assume a forma de piropo, é sempre um comportamento injustificável mas obviamente que há uma grande diferença entre piropo e perseguição (stalking ou cyberstalking).
Aquilo que falta é que haja mais respeito nas relações entre seres humanos, no trabalho ou na rua. A educação pode dar uma ajuda.


15/05/14

Desenvolvimento da comunicação não verbal da criança

Menino curioso, apontando com dedo para cima


“A comunicação entre a criança e o cuidador começa muito antes desta pronunciar a primeira palavra.”Peixoto, V. (2007)

Nos primeiros meses de vida, os comportamentos vocais da criança são interpretados e respondidos de forma contingente pelo cuidador como tendo significado (a criança ainda não tem intenção comunicativa consciente). É através das respostas que o cuidador dá à criança, que os seus comportamentos podem ser usados para regular o comportamento dos outros. Os seus gestos e vocalizações passam de pré-intencionais a intencionais. Só mais tarde, com o aparecimento das primeiras palavras é que surge a comunicação simbólica.
O desenvolvimento pré-linguístico assenta em dois marcos essenciais:
· A mudança da comunicação pré-intencional para a comunicação intencional;
· A mudança da comunicação pré-simbólica para a comunicação simbólica.
Podemos identificar três períodos principais no desenvolvimento da comunicação:
·   A fase perlocucionária;
·   A fase ilocucionária;
·  A fase locucionária.
A fase perlocucionária ocorre desde o nascimento até aos 9 meses de idade, no qual o comportamento da criança afecta as respostas do cuidador. A criança ainda não produz sinais com a intenção consciente de atingir determinado objectivo, nem são dirigidos a um parceiro comunicativo. Nesta fase, são considerados actos não intencionais: a direcção do olhar, a expressão facial e os movimentos corporais.
A fase ilocucionária ocorre por volta dos 9 meses. Consiste na transição para a etapa onde a criança começa a usar gestos e sinais pré-verbais, para comunicar intencionalmente. Esta fase é caracterizada pela ocorrência da capacidade de coordenar a atenção e estabelecer momentos de atenção conjunta. Podemos referir-nos a “comunicação intencional” quando a criança tem consciência que o seu comportamento vai implicar uma reacção no seu interlocutor.
Por fim, na fase locucionária, por volta dos 12/13 meses, a criança inicia a comunicação intencional através de palavras.
Mesmo antes da criança começar a falar, os gestos cumprem uma função comunicativa muito importante na Aquisição e Desenvolvimento da Linguagem.
Os gestos são ações produzidas com a intenção de comunicar, usados pela criança com determinado significado. São usados simultaneamente com estabelecimento de contacto ocular com o adulto e podem ser acompanhados por vocalizações. Após produzir um gesto, a criança faz uma pausa para que o adulto compreenda e responda ao seu acto comunicativo.
O uso de gestos acelera a produção e compreensão de palavras nas fases iniciais de aquisição da linguagem e tem o poder de enriquecer as interacções pais-criança nos processos de comunicação precoce.
Num período mais precoce do desenvolvimento lexical da criança, os gestos são uma modalidade na aquisição de novo vocabulário.
Inicialmente, as palavras e gestos têm um desenvolvimento quase paralelo e têm uma representação equivalente no vocabulário da criança. Só mais tarde é que o papel dos gestos fica subordinado ao das palavras.
Entre os 8 e os 14 meses as crianças começam a exibir comportamentos mais efectivos para estabelecer referência. Começam por desenvolver gestos deíticos que marcam o seu foco de atenção e chamam a atenção do outro.
Entre os 12 e os 14 meses surge o apontar, dar, mostrar e tentar alcançar – momento de transição no desenvolvimento linguístico.
Por volta dos 16 e os 20 meses assistimos a um uso crescente da fala, pelo que a comunicação através dos gestos decresce.

Liliana Lucas
Terapeuta da fala

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Ref. Bibliográfica:
Peixoto, V. (2007). Perturbações da Comunicação – a importância da detecção precoce. Porto: Edições Universidade Fernando Pessoa.