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02/12/19

Psicologia da internet - o efeito de desinibição online

"Julgar que o computador serve para tudo é correr ao encontro de decepções e de catástrofes sem precedentes. Julgar que o computador não serve para nada, é renunciar a um arsenal de serviços a que nenhum observador de boa fé contestará o valor. O maior perigo para o homem será ceder ao seu temor pela máquina e começar a fugir, ao mesmo tempo, dos benefícios da tecnologia.”
“O desordenador é perigoso: tende a sobrevalorizar as estatísticas, as médias, as massas em detrimento do indivíduo e dos seus sentimentos. A felicidade não é codificável.”
“Em caso algum um computador poderia ser ridículo. Pelo contrário, em todos os casos, o homem torna-se ridículo quando destina uma máquina a fins ridículos.”
"O desencanto cresce mais depressa que o progresso. Após as delícias do possível, as brutalidades do real."
Continuam a  ser assim, as delícias e as brutalidades.

O computador trouxe enormes vantagens para a sociedade mas a evolução da comunicação digital é de tal modo avassaladora em todas as áreas da vida que, como seria de esperar, a mudança dos comportamentos das pessoas faz-se com dificuldades, desfasamentos e estão à vista os desequilíbrios de personalidade.
A internet cria uma "dinamização" da personalidade que leva as pessoas a inclinarem-se  para atitudes de maior risco e descontrolo calculado. O "efeito de desinibição online" define estas alterações  comportamentais. (C. Nabuco)
Passámos, assim, a ter uma vida offline e uma vida online. Vidas que coincidem ou que são completamente diferentes.
Alvin Toffler falava do homem modular. Conhecemos a pessoa apenas em alguns aspectos, alguns módulos, da sua vida. Conhecemos, p.ex., a pessoa no trabalho mas nada sabemos da sua vida familiar, das suas origens, das suas amizades e  intimidades...
Agora podemos acrescentar que nada conhecemos da sua vida online mesmo quando se trata dos nossos filhos ou pais, nossos familiares, amigos ou colegas de trabalho.

Então qual é a nossa realidade? A vida online será mais real do que a vida offline? Os perfis falsos, os sites e blogues com identidades falsas serão afinal mais verdadeiros relativamente à nossa personalidade? Acontece que  na vida online   a pessoa apresenta dimensões da sua personalidade que não suspeitávamos que existissem. É muitas vezes na vida online que nos surpreendemos com os gostos, os ódios, as ideias de uma pessoa   que manifestam o módulo mais profundo da sua realidade pessoal e de relação com os outros.

Como compreender então os perfis falsos criados para esconder uma identidade falsa ou até usurpação de identidade ?
"Até setembro deste ano (2019), o Facebook fechou mais de 5,4 mil milhões de contas falsas criadas na rede social, um aumento de mais de 2 mil milhões de utilizadores face aos números do ano passado. De janeiro a dezembro de 2018 a empresa removeu da sua plataforma principal 3,3 mil milhões de utilizadores falsos, o que representa um aumento de 157%." (Record)
É que na nossa vida online (C. Nabuco)  temos a “falsa percepção de que somos anónimos e não há limites ou regras associadas ao comportamento online.
É um processo de "desindividualização", ou seja, “um estado de dissipação da identidade real e que favorece o aparecimento de maior grau de insubordinação, agressividade e sexualidade exacerbada, se comparado ao que ocorre na vida concreta.” Portanto, o "efeito de desinibição online" desconstrói os ambientes formais e mais rígidos da realidade concreta… tornando as pessoas mais condescendentes e altamente plásticas em relação às transgressões”, passando a ter uma "personalidade eletrónica" (e-personality). (C. Nabuco)
A internet é um instrumento de informação e liberdade mas também de manipulação e  marketing, de propaganda e de ódio, que influencia a nossa vida  e inferniza a de muitas pessoas. A internet veio revelar varáveis da nossas personalidade. Veio mostrar a força da Sombra, de Jung,  arquétipo que revela o lado escuro da nosso psiquismo, ou a força do nosso inconsciente, como dizia Freud. São estas forças que mostram o que na realidade somos e que  determinam muitos dos nossos comportamentos.




https://www.record.pt/fora-de-campo/detalhe/facebook-fechou-54-mil-milhoes-de-contas-falsas-ate-setembro

01/11/19

A educação é o professor


Depois deste interregno das férias escolares de Verão e eleições legislativas,  o meu regresso  a estas crónicas de OPINIÃO, acontece após o regresso às aulas e a um novo ano lectivo.
Podia ter a esperança de que este ano lectivo começaria melhor, dada a experiência de anos anteriores e assim poder pensar numa  melhoria da situação educativa das nossas escolas.
O ano lectivo anterior acabou com  a crise na educação, devido, principalmente, à questão do direito dos professores à contagem de tempo de serviço  de 9 anos 4 meses e 2 dias que provocou entre os partidos alguma desorientação  e com o primeiro-ministro a ameaçar demitir-se, caso isso fosse aprovado na Assembleia da República.
Começámos este ano lectivo da mesma forma. Com este problema por resolver, assim como com os problemas habituais, como, por exemplo, escolas fechadas ou disfuncionais devido a falta de pessoal docente e não docente, o problema da indisciplina dos alunos em muitas escolas, e até com  alguma violência contra professores e funcionários…
Mantém-se o problema do amianto nos telhados de algumas escolas, o problemas da qualidade das refeições,  o problema da gratuitidade e da reutilização dos manuais escolares…
Mantém-se, principalmente, o problema do clima escolar e os problemas da relação pedagógica. 
O que se passa ?
O que desde há alguns anos está a acontecer é que, sendo a escola um reflexo da sociedade e os comportamentos dos alunos reflexo da comunidade em que a escola está inserida, não se deu a importância devida às mudanças nos processos de socialização.  A comunidade educativa – alunos, professores, pais e encarregados de educação - são diferentes  e a escola necessita de se adaptar a essa situação.
A começar pelas lideranças políticas que com as atitudes e medidas que tomam, têm importante influência na melhoria das condições que se vivem no quotidiano da escola.
O ministério da educação não pode silenciar a realidade. Se não podem ser corporativistas, também não podem ignorar o grande sofrimento por que estão a passar muitos docentes.
A questão dos recursos humanos da educação é crucial. Impressiona-me, anualmente, a colocação de professores e também de outros funcionários das escolas, pela burocracia, centralismo, injustiça,  que cria uma das maiores instabilidades no sistema educativo.
É necessário entender que o sistema educativo não é um conjunto de leis portarias e despachos, tabelas e fluxogramas... mas de pessoas e famílias concretas. As famílias dos professores, técnicos, pessoal não docente e as famílias dos alunos.
Não compreendo como é possível que os recursos humanos no sistema educativo tenham uma forma de colocação singular em toda a função pública.  Há professores e técnicos que passam dezenas de anos sem vinculação a uma escola, todos os anos têm de concorrer a um horário numa escola  e que leva à anormalidade de professores serem colocados a centenas de quilómetros da sua residência  porque se o não fizerem ficam no desemprego…
Este é um assunto que  exigiria também a flexibilidade dos sindicatos de forma a que fosse salvaguardado o essencial:
1. a vinculação o mais cedo possível a uma escola de forma a estabilizar a vida dos professores e das suas famílias.
2. e a existência de uma carreira em que dois aspectos fundamentais dela façam parte:
- que o mérito seja levado em conta por uma avaliação de desempenho justa e simples, radicalmente diferente da actual;
- que seja contado o tempo integral de serviço, não dependendo da táctica  política dos vários momentos, dos vários governos.
Aprendi, um dia, que a educação é o professor. É a mudança que falta fazer.
Será que há vontade ministerial e sindical para realizar esta mudança ?