21/08/18

Checoslováquia: 50 anos depois

Smetana - Die Moldau (Rio Moldava)

1. 50 anos da invasão soviética da Checoslováquia. Após seis meses de reformas anti-regime, a União Soviética acabou com a 'Primavera de Praga' de 20 para 21 de Agosto de 1968.
2. O sonho de A. Dubcek e dos que acreditavam que era possível um "socialismo com rosto humano", foi rapidamente destruído pela linguagem do totalitarismo - a violência.

3. "Cândida Ventura recorda-se de uma reunião "penosa e tensa", em que não tomou a palavra, como o momento em que Flausino Torres rompe com Cunhal - uma ruptura definitiva que marcaria o isolamento em que viveu o resto da sua vida." (José Manuel Fernandes, "Uma viagem à Praga dos dias da invasão pela mão de quem aí os viveu", Observador, 17 Dezembro 2015)

4. "Os estilhaços da Primavera de Praga fizeram sentir-se em Lisboa e atingiram Cunhal pela defesa que fez da União Soviética e que constituíram uma surpresa face às posições que tinha tomado até então. "Muito antes da invasão havia uma simpatia genuína de Cunhal em relação a Dubcek. O Avante! publicou vários artigos que podem ter passado pelas mãos de Cunhal - alguns, pelo estilo, podem ser do próprio Cunhal - que são bastante simpáticos e elogiosos para a Checoslováquia. "São artigos do mais aberto sobre o que se estava lá a passar até ao momento em que a União Soviética decidiu invadir o país. A partir daí, os comunistas portugueses são mais papistas do que o Papa", afirma Pacheco Pereira, autor de uma completa biografia do dirigente histórico do PCP.
Pacheco Pereira não tem dúvidas em afirmar: "Há um isolamento grande dos soviéticos e quem quebra esse isolamento é o Partido Comunista Português e o Partido Comunista Cubano." Pelas vozes de Álvaro Cunhal e de Fidel Castro, "dois casos de reviravolta completa"." DN, 21-8-2018

5. "Actualmente, Vladimir Putin tenta repetir a política de “soberania limitada” de Leonid Brejnev, dirigente soviético que ordenou a entrada de tanques em Praga." ("Tropas soviéticas em Praga: libertadores ou ocupantes?", José Milhazes, Observador)

6. "Um dos preceitos mais enraizados e mais geralmente admitidos é o de acreditar que os homens possuem em si qualidades imutáveis: há homens bons ou maus, inteligentes ou estúpidos, enérgicos ou apáticos, e por aí adiante. Ora, os homens não são assim. Podemos, apenas dizer que um homem é mais vezes bom que mau, mais vezes inteligente que estúpido, mais vezes enérgico que apático, ou o contrário; mas classificar um homem, como sempre fazemos, de bom ou inteligente e um outro de mau ou estúpido é um erro. Também os rios, todos de água, são umas vezes mais estreitos, outros rápidos, outros largos ou calmos, transparentes ou frios, caudalosos ou tépidos. Ora, os homens são como os rios. Cada um traz consigo a semente de todas as qualidades humanas, de que revela, em certos passos, umas características, noutros, outras, chegando mesmo, em certas ocasiões, a mostrar-se sob uma forma completamente oposta à sua natureza íntima, que, não obstante, mantém." (Leon Tolstoi, Ressurreição)

7. "...O recurso filosófico que Tolstoi disponibilizava não estava na violência, mas na sua filosofia naturalista, pacifista, cultivando hábitos simples, refugiando-se sempre nos braços da natureza como um sábio eremita. Acreditava que as grandes transformações não viriam de revoluções, mas através das transformações morais e individuais..." ("Ressurreição").

8. Os homens são como os rios. A humanidade seria mais feliz se em vez de revoluções os homens optassem por ressurreições.

20/08/18

Sobriedade

 
Demi Lovato (20/8/1992) - Sober
 
I got no excuses
For all of these goodbyes
Call me when it's over
'Cause I'm dying inside
Wake me up when the shakes are gone
And the cold sweats disappear
Call me when it's over
And myself has reappeared

I don't know, I don't know, I don't know, I don't know why
I do it every, every, every time
It's only when I'm lonely
Sometimes I just wanna cave
And I don't wanna fight
I try and I try and I try and I try and I try
Just hold me, I'm lonely

Momma, I'm so sorry, I'm not sober anymore
And daddy, please forgive me for
the drinks spilled on the floor
To the ones who never left me
We've been down this road before
I'm so sorry, I'm not sober anymore

I'm sorry to my future love
For the man that left my bed
For making love the way I saved for you
inside my head
And I'm sorry for the fans I lost
Who watched me fall again
I wanna be a role model
But I'm only human

I don't know, I don't know, I don't know, I don't know why
I do it every, every, every time
It's only when I'm lonely
Sometimes I just wanna cave
And I don't wanna fight
I try and I try and I try and I try and I try
Just hold me, I'm lonely

Momma, I'm so sorry I'm not sober anymore
And daddy, please forgive me
for the drinks spilled on the floor
To the ones who never left me
We've been down this road before
I'm so sorry, I'm not sober anymore
I'm not sober anymore

I'm sorry that I'm here again
I promise I'll get help
It wasn't my intention
I'm sorry to myself



Sobriedade

03/08/18

Hoje apetece-me ouvir: Kathia Buniatishvili

Khatia Buniatishvili
Haydn - Concerto para piano e cordas (0:00-17:43)

"... Khatia Buniatishvili coloca o ser humano no centro de sua arte."

Talvez aqui.  (15-2--2019)

31/07/18

Brincar, brinquedos e felicidade


Brincar é fundamental para o desenvolvimento da criança nas diversas áreas da personalidade.
Noutra ocasião, dissemos que brincar, jogar, era uma actividade relacional, factor essencial ao desenvolvimento da personalidade.
Também dissemos que "jogo é o caminho para a conquista da autonomia da criança; "jogo é o écran do quotidiano, ou como entendia Anna Freud, jogo é o contributo para a realização de frustrações, de complexos, de insuficiências, de dificuldades de aprendizagem, de dificuldades relacionais, de reacções regressivas, de tendências agressivas e anti-sociais"

Quando era criança, os brinquedos eram escassos, e tinham que ser fabricados por nós próprios, pelos companheiros, pelos pais e havia brinquedos que todos podíamos ter: bola, bilharda, berlinde, pião... O Bonanza marcava pontos na TV e, na escola, jogávamos à bola ou aos cowboys... Os companheiros de jogo eram quase sempre os que viviam na mesma rua ou nas ruas próximas. A TV, a do café, da Casa do Povo ou do salão da paróquia...
Daqui
Quando, um dia me ofereceram um Borgward Isabella, lembro-me de ter ficado muito feliz…

Hoje não há semelhança com a diversidade de brinquedos, comprados, a imensa variedade de bonecos, de colecções, de jogos electrónicos, de DVD ou com as histórias fantásticas das séries da Netflix, embora, à mistura, haja muita treta de pedagogia duvidosa... e podemos não conhecer os companheiros de jogo.
Brincar, nem antigamente é que era bom pela escassez que aguçava o engenho, nem o é actualmente pela abundância em que pode tornar-se menos activo. Tanto num caso como no outro qualquer brinquedo pode estimular a criatividade, o desenvolvimento psicomotor, a imaginação, os sentidos, o pensamento, a inteligência, as emoções.
Na minha infância, brincar deixava-nos felizes, tal como vemos acontecer com as crianças deste tempo, o mesmo sentimento de felicidade.

Mas, na realidade o que fazia e faz mesmo felizes as crianças? Brincar é relação com o outro mas com os pais, em primeiro lugar.
Fico apreensivo quando, num inquérito de 2016, se fica a saber que os pais inventam desculpas para não brincarem com os filhos, devido ao trabalho. O estudo conclui que 74% dos pais portugueses acham difícil dizer aos filhos que não têm tempo para brincar com eles. (1)
Daqui

Noutro estudo, (Katya Delimbeuf, texto, Carlos Esteves, infografia) as respostas parecem apontar para aquilo que, de tão óbvio, se tende a esquecer: é no tempo passado com a família e nos momentos de brincadeira que as crianças encontram a felicidade.
No estudo, mais de metade dos pais (51,89%) acredita que a origem da felicidade dos filhos está no tempo passado com os pais e familiares, e 34,56% no tempo de brincadeira.
"O afecto ocupa um lugar-chave na felicidade dos mais novos: 33% defendem que é quando os filhos se sentem "ouvidos e queridos" que são mais felizes. Na mesma linha, 14% defendem que é fundamental reforçar a autoestima das crianças "elogiando-as e incentivando-as quando fazem algo bem."

Em 2013, um relatório da UNICEF  que servia para medir a felicidade e o bem-estar em 29 países, incluindo Portugal, concluía que as crianças mais felizes eram as holandesas. Porquê? "Primeiro, os bebés holandeses dormem mais horas; as crianças trazem poucos ou nenhuns trabalhos de casa na escola primária; a liberdade é incentivada desde cedo, podendo os miúdos ir sozinhos de bicicleta para a escola, ou brincar na rua sem supervisão; fazem refeições em família regularmente; passam mais tempo com os pais que nos outros países europeus; não têm uma cultura materialista — brincam com objetos em segunda mão; e, numa nota curiosa, comem cereais de chocolate ao pequeno-almoço."(2)
Neste estudo, Portugal encontrava-se a meio da tabela, no 15º lugar entre 29. Mas nem todas as razões das crianças holandesas parecem adequadas às nossas crianças, felizmente, como, p. ex., ir sozinho de bicicleta para a escola...

Enfim, o melhor presente que os pais podem oferecer aos filhos é estarem presentes, como aqui já dissemos, e brincar com eles é igualmente crucial. Como refere Mário Cordeiro "Os pais são, ainda, o brinquedo favorito do bebé" (O grande livro do bebé - O primeiro ano de vida, pg. 302. (3)

Nas férias não pode haver a desculpa do trabalho. Se houver essa tentação, desligue-se (4) do trabalho e brinque com os seus filhos que, pelos vistos, é a melhor maneira de eles serem felizes.
________________
1. O inquérito foi promovido pela marca de sumos TriNa para assinalar o Dia da Família. Foram inquiridos 410 pais de norte a sul do país, com filhos entre os seis e os 12 anos.
2. Estudo de uma marca de brinquedos (Imaginarium), que entrevistou 1131 pais portugueses de crianças dos 0 aos 8 anos.
3. Ver o Cap. 10 sobre "Brincar".
4. O direito a desligar-se. A discussão já chegou ao parlamento mas, enquanto não se decide, decida você.

26/07/18

Da beleza e da feiura

1. Os comportamentos de assédio sexual, que acontecem fora dos estádios ou dentro deles, não se podem confundir com a questão de proibir ou evitar filmar "mulheres atraentes" sob pena de entrarmos em mais um plano inclinado onde a proibição passa a chamar-se censura.
Por outro lado, é claro que focar "mulheres atraentes" não pode desfocar-nos  do importante: a luta, legal e policial,  cada vez mais necessária, e enquanto houver uma vítima desta prática. 
É ainda uma questão de educação para valores éticos e morais ou para relativismos culturais (a que nem sequer o poder judicial é alheio) em que os primeiros não podem tolerar os segundos porque não respeitam aqueles valores, os valores universais dos direitos humanos.

2. Nem sempre as piores expectativas se confirmam. Poderá ser uma excepção, mas é uma boa experiência que mostra o caminho a seguir: "Como aprendi a amar os homens frequentando estádios de futebol".

3. Podíamos continuar a colocar imagens  consideradas, subjectivamente, de pessoas atraentes (Vão proibir estas imagens?): pessoas do público do estádio, atletas de várias modalidades,  políticos, artes, música, cinema, teatro...  sendo que a gravidade está em começar a proibir "não se sabe bem o quê atraente" e acabar por proibir qualquer imagem contaminada com o rótulo de "tudo o que seja atraente" em qualquer actividade.
Mais grave ainda se o propósito estiver bem definido: levar à proibição de mulheres frequentarem estádios de futebol, como acontece aqui (ou aqui e aqui), e, onde a FIFA não se sente incomodada pela ausência de liberdade das mulheres para assistirem a um jogo de futebol.

4. O que é uma "mulher atraente"? Porquê mulher e não homem atraente ou pessoas atraentes ?
Bom, parece que a  internet está cheia de gente que sabe o que isso é. Há até curso para homem e para mulher ficar atraente, respectivamente, para mulher e para homem. Os clichés são os que já se conhecem.
Coisas que os homens acham atraente em uma mulher (de acordo com a ciência) ; A visão masculina de uma mulher atraente ; Descubra quando uma mulher é atraente para os homens; 19 qualidades que tornam um homem atraente para mulheres.

5. Mas tudo se baralha quando não sabemos o que escolher: a Bela ou o Monstro.   O problema é que  depois de se "informar" talvez continue com as mesmas dúvidas que já tinha. Ou seja, com que critérios se pode tomar uma medida, que será referência da FIFA, para ser aplicada pelos realizadores de programas de futebol?

6. O que é a beleza ? O que é a beleza feminina ? Não é a mesma coisa nem para os homens nem para as mulheres. Nem hoje nem ao longo de 28000 anos.

7. Beleza ou feiura são caminhos subjectivos que dependem do olhar de cada um e dos padrões culturais que o influenciam, das subculturas e das modas a que cada um se submete ou converte, que cada um pensa que corresponde à sua forma de beleza ou de feiura, mesmo quando a feiura é procurada deliberadamente por algumas pessoas, tal como a beleza, havendo sempre subjacentes diversos objectivos motivacionais: evidenciar-se por ser diferente, evidenciar-se pelo estranho, liderar grupos de fãs,  jovens ou não, tirar vantagens como objecto de consumo, afirmar-se como modelo de imitação, modelo sexual (sex symbol), modelo de sucesso,  ou esperto videirinho...

8. Beleza e feiura são uma construção cultural, em que os atributos considerados belos ou feios constituem a representação social de beleza ou feiura. Assim, são valorizados certos traços considerados esteticamente belos ou feios num determinado espaço e num tempo em que o consumo impõe as suas regras.
Para Umberto Eco, a beleza nunca foi algo de absoluto e imutável, mas assumiu rostos diferentes segundo o período histórico e a região; não só no que diz respeito à beleza física (do homem, da mulher, da paisagem), mas também em relação à beleza de Deus ou dos Santos ou das ideias...



9. A beleza, afinal, depende da atribuição de cada um, é a existência das coisas "que simplesmente existem", como no poema de Alberto Caeiro, ou "a graça da vida em toda a parte", como no de Miguel Torga.


Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas.

Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das coisas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.
Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!

“O Guardador de Rebanhos”. Alberto Caeiro.


À Beleza

Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.

És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.

És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.

És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço...
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.

Miguel Torga, «Odes», 1946, Antologia poética, 2ª ed. aumentada, Coimbra, 1985, pg.83-84