12/06/18

A relação avós e netos


1. Durante o "decurso da vida" (Charlotte Bühler, A psicologia na vida do nosso tempo (p. 310-312), vão mudando estatutos e papéis que desempenhamos na família e na sociedade. Mais tarde ou mais cedo, seremos avós. Ao adquirirmos este estatuto e desempenharmos este papel, um dos principais objectivos será ajudar os filhos, ajudando os netos. Manter as tradições familiares, passar testemunho das memórias e histórias familiares são também objectivos da interacção de avós e netos.

2.  Na sociedade actual, os avós continuam a ter um papel essencial nesse processo educativo. Certamente que os avós actuais são diferentes dos avós do passado, como os pais actuais são diferentes dos do passado,  e os papéis que desempenham são igualmente diferentes, como é normal que aconteça dadas as mudanças  havidas  na família e sociedade. 
O papel dos avós é hoje ainda mais importante do que no passado, devido às alterações que aconteceram na sociedade e na estrutura da família, como as famílias monoparentais, famílias reconstituídas, e as alterações, algumas difíceis, verificadas na vida familiar: emigração,  prisão,  toxicodependência, incapacidade educativa dos pais ...

3. Essas diferenças sociais e familiares deveriam ter um acompanhamento por parte do sistema social e isso nem sempre acontece(u).
De facto, segundo um estudo de 2014*, “As limitações impostas às prestações sociais pagas aos pais e às mães que ficam em casa a cuidar dos filhos, as poucas oportunidades de trabalhar a tempo parcial e a escassa oferta de estruturas de acolhimento de crianças a preços acessíveis, levam a uma maior dependência das famílias.”
Ao mesmo tempo que os Governos querem manter por mais tempo os mais velhos no mercado, cortam nos apoios e prestações às famílias.  A "ginástica" que os pais têm que fazer para cuidar e educar os filhos  é mais complexa.

4. O apoio dos avós é essencial mas também difícil dado que o cuidado individualizado que é necessário ter é exigente, também para eles. Isto é, cada caso é um caso, e é preciso saber que não há avós em geral mas avós concretos: os avós do João, da Maria, do Francisco...
O apoio dos avós pode assumir aqui muitos significados que vão da ajuda financeira, a ajuda na educação, colmatando as lacunas deixadas pelos sistemas de apoio social. Os avós podem ser alternativa à ama, à creche ou ao "sozinho em casa".

5. Dão-se como adquiridas algumas competências dos avós, embora possa não ser bem assim. Diz-se que a grande vantagem no desempenho deste papel parece ser a disponibilidade. Não sei se alguma vez foi assim, mas muitos avós, depois da reforma, continuam a ter actividades suficientes para lhes ocuparem o tempo, tendo em conta a diversidade da oferta de actividades que existem actualmente. Hoje os avós têm uma  disponibilidade voluntária - é uma opção e uma principal prioridade. O tempo disponível dos avós não cai então do céu só porque  os avós estão reformados.

6. Também se afirma que  há como que uma autoridade natural que não precisa de se impor... e que vem da sua sabedoria, experiência, tranquilidade ou talvez apenas dos seus cabelos bancos, isto é, idade e autoridade seriam coincidentes.  Também não sei se foi ou é assim. Não é fácil lidar com os netos, tão diferentes uns dos outros, mas a responsabilidade é a mesma, o mesmo amor. Com a preocupação de dar uma particular atenção ao desenvolvimento individual.

7. Podem surgir várias dificuldades quando os avós têm este papel:
- A coabitação com o casal e netos pode ser fonte de conflitos;
- A interferência excessiva no papel dos pais e substituir-se a eles;
- A facilidade com que podem cair no laissez-faire: pouco preocupados com a criação de hábitos: na higiene, na  alimentação, na criação de regras, o uso em excesso do reforço positivo, embora muitas vezes se trate apenas de um velho cliché.

8. Também é verdade que a interferência excessiva no papel dos avós, desvalorizando ou desclassificando a sua acção, origina dificuldades nos relacionamentos,  insegurança, sentimento de incompreensão...

9. O problema da terceirização da educação dos filhos pelos avós, por outros familiares, pelas empregadas, é bem real nos tempos que correm. Há crianças que podem passar a semana, os tempos livres, as férias, sem terem contacto com os pais e isso pode tornar-se um problema. Digo pode porque também, nesta situação, cada caso é um caso. Sempre houve crianças que ficaram longe dos pais durante longos períodos, de escolaridade, por ex., devido a emigração ou outro motivo de separação. Provavelmente, o que mudou foi a dimensão do fenómeno.

10. De resto, cuidar dos netos é uma tarefa particularmente gratificante. A forma como nos aceitam, inocentemente,  como nos interpelam, como nos fazem ver a vida com outros olhos e com outra esperança, mesmo quando já temos algumas dificuldades, vale todo o cuidado que lhes dedicamos. Voltar a ser criança, brincar, ver o mundo com os olhos deles  é altamente compensador.
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* Estudo da Fundação Gulbenkian traçou o perfil dos avós em doze países da Europa  - reportagem da TVI24, 2014-09-20, Qual o papel dos avós nos dias de hoje?


01/06/18

Jogo e desenvolvimento psicológico

Atividades para crianças: férias criativa e divertida 


jogo finalidade em si (Janet)
jogo energia vital que ultrapassa as necessidades imediatas e estimula o crescimento (Huizinga)
jogo realização do ego do indivíduo (Claperède e M. Mead)
jogo contágio e incubação de valores sócio-culturais
jogo secreção da actividade psicomotora
jogo "loisir" recriação como meio de libertação das preocupações e cansaço
jogo"momento de cultura"onde a criança se encontra com todas as possibilidades de expressão
         corporal, estética, coreográfica, literária, teatral, desportiva, científica
jogo expressão de uma vitalidade mental e concretização de um dom psicomotor
jogo"écran" onde se projecta o que ocupa, ou que invade o espírito e sensibilidade da criança
jogo recapitulação na ontogénese da filogénese (Stanley Hall)
jogo expressão psicomotora e sociomotora
jogo factor de libertação e formação
jogo realização psicomotora que não tende para nenhuma finalidade senão ela própria
jogo obstáculo à solidão, eclosão extra-espacial
jogo relação com os outros, factor essencial ao desenvolvimento da personalidade
jogo caminho para a conquista da autonomia da criança
jogo "écran"do quotidiano
jogo contributo para a realização de frustrações, de complexos, de insuficiências, de dificuldades de
       aprendizagem, de dificuldades relacionais, de reacções regressivas, de tendências agressivas e
       anti-sociais (Anna Freud)
jogo meio terapêutico no âmbito das perturbações psicomotores como também na esfera de
        prevenção de dificuldades escolares
jogo meio de expressão e libertação de forças não utilizadas (Schiller-Spencer)
jogo exercício de preparação para a vida séria (Gross)
jogo agente de crescimento dos órgãos dado que estimula a acção do sistema nervoso (Carr)
jogo exercício de tendências geralmente não utilizadas (Konrad-Langue)
jogo é tudo isto
        mas não é só isto...

***
Todas as crianças do mundo deviam ter direito a brincar, hoje, dia da criança, e todos os dias, em vez de estarem a lutar pela sobrevivência.

Artigo 31
1. Os Estados Partes reconhecem à criança o direito ao repouso e aos tempos livres, o direito de participar em jogos e actividades recreativas próprias da sua idade e de participar livremente na vida
cultural e artística.
2. Os Estados Partes respeitam e promovem o direito da criança de participar plenamente na vida cultural e artística e encorajam a organização, em seu benefício, de formas adequadas de tempos livres e de actividades recreativas, artísticas e culturais, em condições de igualdade.

(Convenção sobre os Direitos da Criança - Adoptada pela Assembleia Geral nas Nações Unidas, em 20 de Novembro de 1989 e ratificada por Portugal em 21 de Setembro de 1990).



31/05/18

Narcisismo

Fala-se hoje muito de narcisismo relacionado com os comportamentos na sociedade actual, com personalidades do mundo da política e do espectáculo, que é levado ao extremo nas redes sociais. Basta ver o que se passa com a utilização do twitter e do facebook pelos dirigentes políticos e desportivos.
Mas estamos mesmo perante um mundo em que o narcisismo é uma das características principais, e que leva a que cada um tenha de si próprio a convicção de que nada de mais importante existe para além de si?
Podemos considerar o narcisismo como o mal do século e estamos perante uma geração de hipernarcisistas?
O narcisismo prejudica o desenvolvimento e é uma perturbação da personalidade?
O narcisismo leva ao culto da personalidade? E as redes sociais permitem que isso seja levado ao extremo?
Narcisismo, em termos simples, significa: "O amor excessivo por si próprio. Em psicanálise fala-se de narcisismo quando toda a energia da libido, primordialmente investida sobre o eu, e posteriormente, repartida entre o eu e os outros se desvia destes, em proveito exclusivo daquele. (Dicionário Temático Larousse - Psicologia, p. 179)
O narcisismo "não é uma doença, mas uma passagem obrigatória no desenvolvimento da criança". (Marc Olano, le cercle psy , nº 28, p. 17)
Freud distingue narcisismo primário e secundário 1. No narcisismo primário, o desenvolvimento da personalidade passa por um estado narcísico, precoce, em que o bebé ainda não se diferenciou claramente do exterior. Pouco e pouco a criança vai-se distinguindo dos outros, a começar pela sua mãe, e a compreender o seu carácter único.
No narcisismo secundário, o amor de si constrói-se a partir da imagem positiva que temos de nós próprios e que nos é reenviada pelos outros.
O narcisismo pode ser saudável ou patológico. O narcisismo saudável é o que encontra a dose certa, o equilíbrio, entre o amor de si próprio , suficientemente sólido, e a inveja de querer ir em direcção aos outros. O indivíduo sente-se bem na sua pele e ao mesmo tempo sente-se bem com os outros.
O narcisismo pode ser pouco saudável quer no caso de hipernarcisismo quer no caso de hiponarcisismo. Esta situação pode traduzir um narcisismo instável (Jean Cottraux, le cercle psy) que pode definir os altos e baixos da vida psicológica.
Nos hipernarcisistas tudo gira à volta do seu umbigo, são autosuficientes, egocêntricos, invejosos, susceptíveis... Pelo contrário, os hiponarcisistas subestimam-se, têm má auto-imagem, ficam bloqueados nas suas falhas, apenas pensam nos seus fracassos… o que os caracteriza é uma “ferida narcísica”. Confrontados com um contratempo, colapsam e têm a impressão de não servirem para nada. Qualquer piada ou falta de jeito... os altera. Podem manifestar acesso de raiva onde se confundem fúria, vergonha, angústia e culpabilidade. (Marc Olano)
O narcisismo patológico, perverso, ou perturbação de personalidade narcisista (DSM V), manifesta-se pelo menos por cinco características das nove seguintes:
- sentido grandioso da sua própria importância
- fantasias de sucesso ilimitado, de poder, de esplendor, de beleza ou de amor ideal
- imagina-se ser "especial", único
- necessidade excessiva de ser admirado
- pensa que tudo lhe é devido
- explora o outro nas relações interpessoais
- falta de empatia
- inveja muitas vezes os outros e crê que os outros o invejam
- comportamentos arrogantes e altivos

Será este quadro patológico que domina as nossas interacções sociais?
As redes sociais não inventaram o narcisismo contudo revelaram as suas formas mais excessivas. Apresenta-se Donald Trump como exemplo acabado de narcisismo (Cottraux). Mas a questão é se não será apenas um dos últimos exemplos narcisistas que têm passado pelo poder. O que dizer de Putin, na Rússia ou, na China, de Xi Jiping em que a nova ideologia será incorporada nos currículos escolares? Da Coreia do querido líder, aos ditadores de Cuba ou da Venezuela, o culto da personalidade, a húbris, mantém-se como sempre foi, mas agora com meios propagandísticos mais poderosos, com o controle dos media, designadamente da internet...
Um pouco por todo o lado, desde sempre, o narcisismo patológico tem levado muitas sociedades ao desmoronamento económico, social e ético.
E não estará em cada um de nós este padrão de admiração devolvido no espelho da nossa vaidade? 2
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1 Para aprofundar este tema.
2 Como explicar dois mil milhões de utilizadores do facebook (atingidos em 2017)? Porque "Eu selfie, logo existo"(Elsa Godart)?

25/05/18

Feiticeiros...

... da música.

Screamin' Jay Hawkins

Credence Clearwater Revival

Nina Simone

Katie Melua

Joss Stone

David Gilmore/Mica Paris


I put a spell on you
'Cause you're mine

You better stop the things you do
I ain't lyin'
No I ain't lyin'

You know I can't stand it
You're runnin' around
You know better daddy
I can't stand it cause you put me down

I love ya
I love you
I love you

I love you anyhow
And I don't care
if you don't want me
I'm yours right now

You hear me
I put a spell on you
Because you're mine

24/05/18

Fim do anonimato

Em 2015, a lei da adopção foi alterada de forma a que qualquer adoptado tem agora direito a saber quem são os pais biológicos. A informação pode ser pedida a partir dos 16 anos.
No caso da procriação medicamente assistida e da maternidade de substituição, o Tribunal Constitucional considerou inconstitucionais algumas normas. (Acórdão nº 225/2018)
Para os juízes do Tribunal Constitucional os termos dos contratos são demasiado vagos, as gestantes devem poder arrepender-se até à entrega da criança e, finalmente, rejeitam o anonimato dos dadores e da própria gestante de substituição. Reconhecendo que esta norma “não afronta a dignidade humana”, os juízes alertam para o facto de ser cada vez mais importante a questão do conhecimento das origens de cada ser humano e que, neste diploma, a opção seguida “de estabelecer como regra, ainda que não absoluta, o anonimato dos dadores no caso da procriação heteróloga e, bem assim, o anonimato das gestantes de substituição – mas no caso destas, como regra absoluta – merece censura constitucional”. (Observador, Rita Porto e Rita Ferreira)
Os juízes consideram que tal restrição, que faz com que a criança nascida através destas técnicas, não tenha previsto na lei o direito a conhecer nem os dadores, nem a gestante, é uma “restrição desnecessária aos direitos à identidade pessoal e ao desenvolvimento da personalidade das pessoas nascidas em consequência de processos de PMA com recurso a dádiva de gâmetas ou embriões, incluindo nas situações de gestação de substituição”.

Conhecer as nossas origens, saber quem são os nossos pais não é apenas a inscrição numa genealogia mas é um sentimento que nos liga aos progenitores e a uma família que contribui para a construção da nossa identidade e personalidade.
É uma informação fundamental para conhecermos quem somos como seres humanos em todas as dimensões.
Uma dessas dimensões da nossa origem diz respeito à saúde. Conhecermos essas origens do ponto de vista genético pode ser fundamental, em determinadas circunstâncias, para prevenção de doenças e para uma vida saudável.
A nossa vida social, cultural e relacional também pode ser afectada pelo desconhecimento de quem são os nossos progenitores.
Nos diversos países existem as mais diversas situações sobre o problema do incesto. A legislação portuguesa "nada diz sobre relações incestuosas entre adultos e com consentimento de ambos. Significa isto que, excluindo naturalmente os casos de abuso, o incesto não é crime."
No entanto o código civil impede o matrimónio no Artigo 1602.º (Impedimentos dirimentes relativos): São também dirimentes, obstando ao casamento entre si das pessoas a quem respeitam, os impedimentos seguintes:
a) O parentesco na linha recta;
b) A relação anterior de responsabilidades parentais;
c) O parentesco no segundo grau da linha colateral;
d) A afinidade na linha recta;
e) A condenação anterior de um dos nubentes, como autor ou cúmplice, por homicídio doloso, ainda que não consumado, contra o cônjuge do outro.

O direito ao conhecimento dos dadores em relação à procriação medicamente assistida (PMA) e no caso da gestação de substituição, ao conhecimento da identificação da gestante tem vindo a ser reconhecido.
O fim do anonimato não é apenas exigido pelas pessoas em geral mas também pelas pessoas que têm sido geradas por este processo. Finalmente, o anonimato tem vindo a ser questionado e abolido quer no caso da adopção, quer no caso da PMA.
O livro “O nome do meu pai é doador” *, refere uma pesquisa em que "foram ouvidos 485 adultos cujas mães recorreram a esperma doado. Dos entrevistados, dois terços gostariam de ter acesso aos dados do doador. Para 45% dos participantes, o modo como foram concebidos é razão de incómodo. A saúde também é afetada. Eles são duas vezes mais propensos a abuso de substâncias químicas quando comparados com quem conhece os pais biológicos. E têm uma vez e meia mais chances de apresentar distúrbios psicológicos".
E quais são os argumentos para se negar a uma pessoa o conhecimento de quem são os seus pais biológicos?
Finalmente, as pessoas que nasceram por este processo, podem ficar a conhecer a sua origem genética ou a conhecer a sua gestante.
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* Elas querem saber quem são seus pais
Mais alguns textos que colocam questões sobre este assunto, ou relevam o sofrimento de muitas pessoas que passaram por este processo:
- Dadores de esperma anónimos estão a ser descobertos
- Também há casos que acabam bem... mulher casa com o seu dador de esperma anónimo ("How I Met Your Father")