11/03/18

A balada das pessoas felizes

Zaz e G. Lenorman
Há sempre um motivo para te cantar a balada das pessoas felizes

Notre vieille Terre est une étoile
Où toi aussi tu brilles un peu
Je viens te chanter la ballade
La ballade des gens heureux
...
Tu n'a pas de titre ni de grade
Mais tu dis "tu" quand tu parles à dieu
...
Journaliste pour ta première page
Tu peux écrire tout ce que tu veux
On t'offre un titre formidable
La ballade des gens heureux
...
Toi qui a planté un arbre
Dans ton petit jardin de banlieue
...
Il s'endort et tu le regardes
C'est ton enfant il te ressemble un peu
On vient lui chanter la ballade
La ballade des gens heureux
....
Toi la star du haut de ta vague
Descends vers nous, tu verras mieux
...
Roi de la drague et de la rigolade
Rouleur flambeur ou gentil petit vieux
...
Comme un choeur dans une cathédrale
Comme un oiseau qui fait ce qu'il peut
...

08/03/18

Mulher

PENSAMENTO

Sobre a Igualdade - como se isso me prejudicasse, dar aos outros
              as mesmas oportunidades e direitos que a mim próprio -
              como se isso não fosse indispensável aos meus próprios
              direitos que os outros possuam o mesmo.

Walt Whitman, Folhas de erva, p.248

Dores há muitas...



Na universidade ensinaram-nos que o homem é um ser  biopsicossocial. Com o tempo aprendi que era necessário acrescentar a estes factores que também é um ser cultural e espiritual.
Em relação a qualquer comportamento, também em relação à dor, cada pessoa tem comportamentos diferentes, de acordo com esses factores.  E como dissemos a semana passada, a dor tem sempre uma característica subjectiva. Cada pessoa percepciona e exprime a sua dor influenciada pela sua personalidade, pela sua cultura e pela sua crença religiosa.
Já todos estamos habituados a ouvir dizer os responsáveis pela saúde que as pessoas recorrem indevidamente às urgências e que deviam ser atendidas  noutras estruturas  designadamente os centros de saúde.
De facto, em 2016, os dados do SNS, mostram que quase metade dos casos, 40%, (6,4 milhões de episódios),  foram consideradas falsas urgências (pulseiras verdes, azuis e brancas) e portanto não deviam acabar nos hospitais  Esta percentagem tem-se mantido estável desde 2013 e é na  região de Lisboa e Vale do Tejo que esta realidade tem mais peso, acima dos  45%.
Se é verdade que estes  são os resultados estatísticos, a sua compreensão não deve ser  assim tão linear, e é necessário  perceber o que acontece com o sofrimento das pessoas.
Salvo raríssimas excepções, ninguém iria a uma urgência se não necessitasse  e se não acreditasse que essa é a melhor maneira de responder aos seus problemas de saúde, às suas dores, ao seu mal-estar.
Se os serviços de saúde primários, funcionassem bem,  particularmente em termos preventivos, talvez o panorama se alterasse. Ora sabemos que não é assim.  
Por que será que as pessoas continuam a manter o mesmo comportamento  de recurso às urgências? São culpados de se sentirem doentes?
Será que podemos  considerar razoável  listas de espera intermináveis para uma consulta externa  de especialidade ?
Podemos  considerar razoável que os centros de saúde  tenham “horário de função pública”?
Será razoável a organização e gestão das consultas externas, com todos os doentes presentes  à mesma hora da manhã,  com  consultas muitas horas depois?
Será razoável  a burocracia de que já aqui falamos em relação às baixas médicas e que mostram a desconfiança do  estado nos profissionais de outros subsistemas de saúde?
Será razoável a incapacidade para realizar um sistema expedito, interactivo e humanizado  de marcações de consultas  que hoje os meios tecnológicos permitem? 
Mas, mais importante do que tudo isso, é que se trata de seres humanos em sofrimento  envolvendo as suas características pessoais, sociais, culturais e espirituais que recorrem ao serviço de urgência a pedir ajuda.
Sabemos que ao longo da nossa vida a dor é nossa companheira de viagem. Ela vai aparecer, às vezes inesperadamente, outras vezes vai-se insinuando devagarinho, todos os dias, algumas dores, um sintoma novo, um mal-estar que não compreendemos…
É impossível viver sem emoções, é impossível separar  a mente e o corpo e uma não existe sem o outro. A  interacção entre  o físico e o psíquico constitui uma unidade  inseparável  (A. Damásio)  e  muitas das pessoas que procuram  ajuda na  urgência médica queixam-se sobretudo de problemas de saúde em que os aspectos somáticos e psíquicos se combinam (doenças psicossomáticas).
Não se trata de um aspecto estar a influenciar o outro mas de "uma doença que resulta da interacção de condições somáticas e psicológicas que coexistem numa pessoa em concreto”.
Não é, por isso, tão evidente a decisão de quando se deve recorrer ou não a uma urgência mas quando se pede ajuda é este ser humano concreto que precisa ser ajudado.
_________________________
Enciclopédia da Psicologia, Tomo 3, Oceano, 1999. Cap. 20. Compreender e controlar o stress; Cap.21 - A dor. Cap. 22 - As somatizações; Cap. 23 - Estar e ser doente; Cap. 24. Medicina psicossomática.

04/03/18

Chuva... Chuva...

Zaz - La pluie
A chuva no Domingo, mas neste doce Portugal e em Março 




Jorge Palma -  A chuva cai




Erik Satie - Sob a chuva

02/03/18

Dores há muitas...

Aped
The International Association for the Study of Pain






“A dor é um fenómeno complexo que envolve emoções e outros componentes que lhe estão associados…; a dor é um fenómeno subjectivo, cada pessoa sente a dor à sua maneira…; não existem ainda marcadores biológicos que permitam caracterizar objectivamente a dor; não existe relação directa entre a causa e a dor; a mesma lesão pode causar dores diferentes em indivíduos diferentes ou no mesmo indivíduo em momentos diferentes, dependendo do contexto em que o indivíduo está inserido nesse momento; por vezes existe dor sem que seja possível encontrar uma lesão física que lhe dê origem." (International Association for the Study of Pain)

Todos sabemos que o direito à saúde e bem-estar é um direito humano (Artigo 25.º, nº 1, da Declaração universal dos direitos humanos). Daqui resulta o direito a estar doente, a ser compreendido na sua doença e procurar tratamento para as suas dores e sofrimento. 
No entanto, esta situação nem sempre parece evidente. É o caso das doenças psicológicas que nem sempre são vistas como doenças e isso justifica a secundarização deste sofrimento: “não tem nada”, “são manias”, “isso passa”… 
Nem sempre é evidente o sofrimento, o mal-estar, o desconforto, a tristeza, a desmotivação, a dor física difícil de descrever, que todos os dias nos incomoda e não nos deixa ânimo para conseguirmos fazer o nosso trabalho ou podermos ser socialmente úteis. São dores reais e sofrimentos sistematicamente desvalorizadas que não são levados em conta para se obter o direito à saúde e bem-estar. 

Na minha experiência, raro é o dia em que não sinta estas sensações/emoções/dores. Tornou-se mais assídua a consulta aos vários médicos especialistas. A procura de um diagnóstico, ocupa-nos uma boa parte do tempo. Muita pesquisa na internet, para baralhar, muitas conversas com familiares e amigos sobre alimentação saudável, dieta alcalina ou ácida... leitura várias, há sempre alguém que conhece um caso idêntico ao nosso ou pior do que o nosso... 
O diagnóstico tarda e a incerteza torna-nos mais ansiosos o que só prejudica tudo. Sabemos que o psíquico e o somático andam sempre juntos a “brincar” um com o outro e ambos são responsáveis pelo sofrimento do indivíduo. 



A dor é um sinal vital e a sua intensidade pode ser registada através de escalas de avaliação. Em 2003, a equiparação da dor a 5º sinal vital significa, concretamente, que se considera como boa prática clínica, em todos os serviços prestadores de cuidados de saúde, a avaliação e registo regular da intensidade da dor, à semelhança do que já acontece há muitos anos para os 4 sinais vitais, nomeadamente a frequência respiratória, frequência cardíaca, pressão arterial e temperatura corporal. (Circular normativa Direcção Geral de Saúde , dia 14 de Junho de 2003, institui a “Dor como 5º Sinal Vital”). 
A obrigatoriedade da avaliação e registo da dor tem uma enorme importância, dado que, sobretudo por motivos culturais, a dor é ainda inúmeras vezes subestimada, escondida, negada e, consequentemente, negligenciada, tanto pelos doentes como pelos profissionais de saúde. 
Por outro lado, tornando a dor visível não é possível ignorá-la, sendo imperioso estabelecer uma estratégia terapêutica adequada ao seu controlo, o que vai contribuir decisivamente para melhorar a qualidade de vida dos doentes e reduzir a morbilidade…(APED)

Em 2018, assinala-se ano o Ano Global para a Excelência da Educação em Dor. Tratar ou aliviar a dor é dos maiores desafios da medicina e da sociedade.

21/02/18

Contra o espírito do tempo 2


Marco Aurélio foi imperador romano durante 19 anos. O império  era marcado por guerras na parte oriental contra os partas, e na fronteira norte, contra os germanos.  Foi considerado o último dos cinco bons imperadores, é lembrado como um governante bem-sucedido e culto, dedicou-se à filosofia, especialmente ao estoicismo, e escreveu uma obra, Meditações.
O estoicismo é um movimento filosófico que surgiu na Grécia Antiga por Zenão, no início do século III a.C.. Valoriza o conhecimento e a razão  e desvaloriza os sentimentos externos e as emoções. É uma filosofia mas também um modo de vida e mais do que o individuo diz interessa como se comporta.

O que está em questão são os problemas psicológicos de cada pessoa sujeita ao stress e ansiedade, aos estilos de vida que sempre resultam da interacção entre os homens e dos homens com a natureza e o universo. Era assim há dois mil anos na cultura greco-romana como é assim, actualmente, em todas as culturas. Ultimamente, por aqui me perco porque é o melhor sítio para me encontrar, aprendendo todos os dias, meditando com os sábios, procurando obter a serenidade que é a busca mais conforme à natureza e à razão. 

Meditações, de Marco Aurélio, onde  encontro mais semelhanças do que diferenças com as tão na moda meditações de atenção plena (mindfulness), é de uma actualidade fascinante. Mostra que a cultura greco-romana tem muito mais a ensinar do que aquilo que ensinam nas escolas. Provavelmente, a filosofia e a importância dos pensadores que hoje nos fazem meditar sobre a nossa verdadeira natureza e sobre o que  é importante na nossa vida seria um bom contributo terapêutico contra as perturbações de ansiedade.
Epicteto, Marco Aurélio, Epicuro, os estóicos ou os epicuristas, por caminhos diferentes, contra o prazer ou pela sua busca, têm muito a ensinar sobre a felicidade,  sobre a forma de melhorarmos o nosso modo de vida e procurarmos uma sociedade de bem-estar.
O primeiro livro de Meditações podia ser considerado o livro da gratidão. Aí, M. A. agradece aos seus familiares, aos seus mestres e aos deuses tudo o que aprendeu, a sua personalidade, a virtude,  a inteligência, os modelos que teve.  Inicia assim o primeiro ponto: “Aprendi com o meu avô o carácter e a retidão.”
A Razão governa “a natureza (que) é flexível e dócil”. “És dotado de razão?  «Sou.» Então porque não usá-la? Não é tudo o que desejas? Que a razão faça o seu papel?”
O homem faz parte da natureza, o homem vive na presença da morte, que é desfazer-se nos elementos que o compõem, e, por isso, o que é a fama ? O que é o elogio? O que é belo não é sempre belo, sem precisar  de elogio?
Porque será que as pessoas acumulam bens desnecessários? Nos dias em que vivemos, podíamos perguntar: porque se generalizou a corrupção que quase sempre envolve milhões, se, afinal, “somente o necessário” é aquilo que interessa ao homem?  “A maior parte das coisas que dizemos e fazemos não são necessárias. Se conseguires eliminá-las terás mais tempo e tranquilidade. Pergunta-te a cada momento: «Isto é realmente necessário?» (p. 43)

14/02/18

Contra o espírito do tempo

Somente o necessário. O extraordinário é demais. Ou como diz o Eclesiastes (1,2): "Mαταιότης ματαιοτήτων, τα πάντα ματαιότης". "Vaidade das vaidades , tudo é vaidade".

O livro da selva - Bare necessities  - O necessário - Mogli e Balu

Pais com autoridade


As famílias ao longo das várias gerações confrontam-se sempre com o problema da  educação dos filhos 1, procurando conseguir uma  vida psicologicamente equilibrada num contexto de  bem-estar.
A questão é particularmente importante quando as crianças são desobedientes e  indisciplinadas e, ao contrário de pensar que a autoridade é um dom da natureza, um talento particular, e que não há nada a fazer, o  pedagogo ucraniano Anton Makarenko 2  defende que  a autoridade pode ser organizada em cada família. 3 O problema é que os pais organizam esta autoridade em bases erradas.
Podemos resumir alguns desses tipos errados de  autoridade:
A autoridade opressiva, é a espécie de autoridade mais terrível . O pai manifesta toda a sua cólera por qualquer coisa, mesmo sem importância, anula o papel da mãe, leva as crianças a afastarem-se, fomenta a mentira infantil, a cobardia e a crueldade.
 A autoridade distante  mantém as criança à distância e interage o menos possível, as ordens são transmitidas pela mãe que funciona como intermediária.
A autoridade vaidosa ou arrogante, os pais consideram-se as pessoas mais importantes da sociedade  e transmitem aos filhos esta ideia arrogante.
autoridade pedante.  Uma ordem transforma-se em lei.  As crianças não podem perceber que o papá se enganou e que não tem firmeza. Mesmo que esteja errado mantém o que disse….
autoridade racional. Neste caso os pais enchem a vida da criança de sermões, de conversas edificantes e discursos enjoativos…
autoridade afectuosa é uma forma de autoridade muito difundida  mas  errada e perigosa. As palavras de ternura, os beijos, as carícias, os testemunhos de afecto chovem literalmente sobre a criança. Esta autoridade  pode fazer egoístas, hipócritas e mentirosos. E muitas vezes as primeiras vítimas deste egoísmo são os pais.
A autoridade afável. Neste caso a obediência depende das  concessões, doçura, bondade dos pais. O pai e a mãe são o anjo bom. Uns pais de ouro. Temem toda a espécie de conflito, preferem a paz do lar, prontos a qualquer sacrifício desde que tudo vá bem. Nesta família as crianças começam muito cedo a mandar nos pais.
A autoridade amigável. Para os pais os filhos são os seus  amigos. Claro que os pais são amigos dos filhos  mas devem continuar a manter  a autoridade educativa. Se esta amizade for  levada ao extremo, são as crianças que  começam a educar os pais.
A autoridade corrupta é a forma mais imoral de autoridade, aquela onde a obediência se compra pura e simplesmente com prendas e promessas...
Esta atitude não se pode confundir com as formas de encorajamento, prémios por realizarem uma actividade realmente difícil, para recompensar bons estudos mas não quando se trata de cumprirem o seu dever como no trabalho escolar, p.ex.
Em geral, a educação será errada quando os pais não se preocupam em adquirir qualquer espécie de autoridade... Um dia punem o filho por um aspecto sem importância, no dia seguinte fazem-lhe uma declaração amorosa, a seguir punem de novo...
Também é errado o pai optar por um tipo de autoridade e a mãe por outro. Os filhos neste caso aprendem a ser diplomatas e a andar com rodeios entre o pai e a mãe.
Também acontece que há  pais que não têm qualquer atenção aos filhos e apenas pensam na sua tranquilidade.
Para Makarenko a verdadeira autoridade dos pais numa família deve basear-se, em primeiro lugar, na sua condição de cidadania, de pai e de ajuda e, em segundo lugar, na responsabilidade porque respondem pelos filhos face à sociedade e, por outro lado, essa responsabilidade é também exigida aos filhos.
__________________________
1 Pais com autoridade. Baumrind definiu vários estilos parentais.
2 Anton Makarenko, Oeuvres en trois volumes, Le livre des parents - Articles sur l'éducation - III, Ed. du Progrès, Moscou (“O livro dos pais - Artigos sobre a educação”). No artigo "Sobre autoridade dos pais" (p. 369-378) descreve vários tipos de autoridade parental e coloca a questão sobre a verdadeira autoridade dos pais e como se organiza.
3 Após a chamada revolução de Outubro, na Rússia, Makarenko refere "família soviética". O que é interessante é que a educação dos filhos e o bem-estar da família é idêntico em qualquer parte do mundo e tem extraordinária actualidade.

12/02/18

"A nova gramática do fascismo"

"Saiu discretamente na sexta-feira passada (Lei n.º 4/2018, de 9 de Fevereiro), sob a designação de "regime jurídico da avaliação de impacto de género de actos normativos", e entra em vigor a 1 de Abril...  A "avaliação", prévia ou sucessiva, destina-se a que os actos normativos do Estado (Central, Regional, do Governo e do Parlamento) "ponderem", antes de serem produzidos (e "entre outros" aspectos), "a incidência do projecto de acto normativo nas realidades individuais de homens e mulheres, nomeadamente quanto à sua consistência com uma relação mais equitativa entre ambos ou à diminuição dos estereótipos de género que levam à manutenção de papéis sociais tradicionais negativos".