Pelo sonho é que vamos, escrevia Sebastião da Gama. Quando olhamos para o
mundo rural e para a desertificação humana que o caracteriza vale a
pena continuar a sonhar. Há indícios de que a mudança se vai fazendo
à medida que se pretende ter qualidade de vida, um estilo de vida que
passa pelo mundo rural no que tem de mais identitário e original e pelo mundo urbano
no que tem de excelência na criatividade e modernidade.
Uma grande permeabilidade entre o meio urbano e o
mundo rural atenua diferenças e é uma inevitabilidade a
globalização da informação e comunicação: o vizinho mais próxima
encontra-se no teclado de um computador, temos a actualidade a ser debitada a todo o momento na internet,
acedemos aos serviços em segundos e com frequência estamos fisicamente
num mundo ou no outro. É um inconveniente mas também uma vantagem em
relação ao passado.
Um dos factores
que contrariam esta ideia é a tendência para seguir modas. Ao fazerem
isso, as pessoas que estoicamente continuam a querer viver em espaços
mais descentralizados como os espaços rurais, correm o risco de perderem
a sua identidade.
O problema, então, é quando todos vão realizando projectos semelhantes e as mesmas actividades. Foram as rotundas, as piscinas, os polidesportivos, os parques infantis, as universidades da 3ª idade ... agora temos as
feiras medievais, as festas das TVs, os festivais de verão...
Quando
afinal o que distingue é a identidade inscrita no património construído
e na cultura, nas tradições populares, na música, no artesanato, na
relações de vizinhança e entreajuda.

A estratégia da câmara municipal de Idanha-a-Nova
foi a aposta na música, fazendo parte da rede de cidades criativas da
UNESCO - organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a
Cultura.
Em Idanha
destacou-se a música e a ligação profunda a instrumentos tradicionais
como o adufe e a manifestações musicais populares e religiosas.
Neste contexto, decorreu, no concelho de Idanha
a 6ª edição do programa - "Fora do Lugar - Festival internacional de
músicas antigas". A identidade aberta à música intemporal com intérpretes
de todo o mundo.
Tive a oportunidade de estar em dois momentos "fora do lugar":
O
primeiro, “conversa mesmo ao pé”, com o professor Jorge Paiva, biólogo e
botânico da Universidade de Coimbra, com 84 anos de idade. Falou
da biodiversidade de uma forma encantadora e simples. E só quem sabe
muito consegue falar de forma simples de assuntos verdadeiramente
complexos.
Sem facciosismos, considera que todas os políticos de
todas as cores têm responsabilidade naquilo que estão a fazer ao mundo,
em que os negócios e a devastação das florestas por causas humanas, e a comunicação social que desenfreadamente noticia
durante imenso tempo os incêndios florestais.

Diz-nos que não são só as
fábricas apenas que estão a destruir o ambiente. Mais importante é a
devastação das florestas e da biodiversidade. Fala da necessidade da
biodiversidade e das plantas que podem conter a resposta para muitas
doenças da humanidade.
Jorge Paiva tem esperança em dias
melhores e por isso manda anualmente as boas festas aos políticos com a
fotografia de uma árvore de Natal especial.

O segundo momento foi o "concerto mesmo ao pé"-
Musick's Recreation, com Milena Cord-to-Krax, flauta, (Alemanha), Alex Nicholls, violoncelo, (Austrália) e César Queruz, tiorba, (Colômbia), apresentado num local “fora do lugar”, o Centro de Dia de S. Miguel d’Acha, sem dúvida uma ideia óptima que leva música de excelência a quem é capaz de apreciar, a pessoas idosas que merecem o melhor.
Não
faz parte do festival “fora do lugar”, mas podia, a exposição de
pintura na casa da cultura de S. Miguel d'Acha dedicada ao tema
"migração", com obras da colecção de Paulo Lopo: Gracinda Candeias, Júlio Pomar, Mário Cesariny, Lourdes
Castro, José de Guimarães, Joaquim Martins Correia, M. Helena Vieira da Silva, Manuel Cargaleiro, Nadir Afonso. Todos têm em comum o
facto de terem estado em algum momento das suas vidas noutro país.
Tem ainda em exposição uma obra de
Carlos Farinha
uma tela, de 2013, justamente
intitulada “Migração” que pelas suas dimensões (220X700 cm) ficou exposta na igreja de S. Miguel.
Podemos dizer, parafraseando Sebastião da Gama, que “pela cultura é que vamos”...