01/11/17

Para um sistema de saúde (2)


Alguns subsistemas de  saúde

O sistema de saúde em Portugal é constituído por uma rede de equipamentos e serviços de saúde, composta de vários subsistemas de saúde que concorrem para a protecção da saúde de todos os cidadãos.
Em 1979, "foi instituída uma rede de instituições e serviços prestadores de cuidados globais de saúde a toda a população, financiada através de impostos, em que o Estado salvaguarda o direito à proteção da saúde." Foi, assim, criado o Serviço Nacional de Saúde (SNS). (Lei n.º 56/79, de 15 de Setembro)
No entanto, em paralelo, existem outros subsistemas privados de saúde que têm acordos e convenções com hospitais, clínicas e médicos privados, tais como: subsistema dos seguros de saúde; subsistemas complementares de saúde, como a ADSE; subsistemas de seguradoras - acidentes de trabalho, viação/pessoas e vida; convenções com empresas, associações e outras entidades.
Alguns destes equipamentos e serviços são parcerias público-privadas (PPP), isto é, equipamentos e serviços de saúde concessionados pelo estado à gestão privada.
Inclui ainda acordos com IPSS que desenvolvem actividades no âmbito da saúde, como é o caso das misericórdias que respondem por actividades hospitalares, de cuidados continuados, de cuidados paliativos...
Há áreas que são praticamente asseguradas por privados como é o caso da medicina dentária. ("Os Seguros de saúde privados no contexto do sistema de saúde português", p.7)
E deve-se ainda referir o importante contributo dado pelas farmácias ao sistema de saúde.

Toda esta rede de cuidados de saúde significa que a assistência na saúde de muitos cidadãos é efectuada pelo SNS e/ou por outro subsistema de saúde. "A coexistência no sistema de saúde de serviços públicos com serviços e entidades privadas justifica que o SNS não preste a totalidade dos cuidados… 76% da população tem como único pagador o SNS, os restantes 24% utilizam outros sistemas… (14% da população está abrangida pela ADSE, 5% pelo SAMS (trabalhadores bancários). Com excepção da ADSE, nenhum outro sistema é auto-sustentável, confinando o SNS aos maiores níveis de cuidados." ("O sector da saúde em Portugal: funcionamento do sistema e caracterização sócio-profissional", p.8)
Quando pelo menos um quarto da população tem outro subsistema de saúde que não o SNS, não deixa de ser curioso que todos os cidadãos sejam obrigados a ter médico de família  do SNS, mesmo que não queiram ou que nunca tenham necessidade de ter outro médico de família para além daquele que sempre foi o seu médico.Tudo isto é contraditório e chocante quando sabemos que faltam mais de mil médicos de família para suprir as necessidades que existem, ou seja cerca de um milhão de cidadãos não têm médico de família.

O que podemos concluir é que temos governos que não confiam nos médicos, que gostam de sobreposições e redundâncias de serviços e não sabem articular serviços.
Dois exemplos ajudam a perceber o que se passa: as baixas por doença e as listas de espera para consultas e exames clínicos.
Se uma pessoa faz uma intervenção cirúrgica num hospital particular, porque tem um seguro de saúde, apenas no centro de saúde, em consulta com o/um médico de família, mesmo que não lhe tenha sido atribuído, pode validar a baixa por doença.

Há milhares de situações como esta em que os doentes estão sujeitos à burocracia do SNS, via centro de saúde. Não seria mais fácil se a baixa fosse declarada pelo próprio médico do doente ou pelo médico que fez a cirurgia, fosse de que subsistema fosse?
Só encontro uma explicação para não ser assim: a desconfiança dos médicos que não são considerados responsáveis pelo estado e passam baixas fraudulentas. Ora acontece que... com a burocracia do actual SNS "um quinto das baixas médicas controladas estava apto para o trabalho".(Público)

Algumas populações continuam com dificuldade de acesso ao centro de saúde e a consultas externas especializadas ou exames de diagnóstico nos centros hospitalares. Marcar uma consulta no SNS, centro de saúde ou hospital, é um verdadeiro tormento.
Como é possível ainda acontecer que haja cidadãos que têm que aguardar à porta do centro de saúde pela marcação de uma consulta ?
Incapacidade, atraso, ou apenas por maldade se pode fazer isto aos cidadãos mais desprotegidos.
Qualquer funcionário com um mínimo de capacidade saberia resolver esta situação.
Infelizmente continuamos a ouvir notícias destas (p.ex. "Chegar "às quatro da manhã" ao centro de saúde para ter consulta") sobre o pior de nós mesmos.

Desde o início, o problema do SNS foi o despesismo (A história secreta do SNS). Mas também o mau funcionamento que cria dificuldades injustificadas aos doentes, pela
- desconfiança na deontologia profissional dos médicos pois tem necessidade de confirmar por outro profissional o acesso a baixas por doença. Preferência pela burocracia, duplicações e redundâncias quando os médicos dos subsistemas particulares e privados podiam ser os médicos de família de muitos cidadãos que o não têm, podiam comprovar o que se passa com os seus doentes;
- incapacidade de gerir um simples acesso a consultas e exames clínicos obrigando os doentes a intermináveis listas de espera ou a estarem em bicha a horas impróprias, em condições climáticas igualmente impróprias para marcação de consulta.
Assim, os centros de saúde/estado não sabem gerir, articular, poupar... de forma a que a assistência na saúde se traduza num funcionamento eficiente e eficaz.
Com o actual governo foi-se ainda mais longe: a cativação de verbas do sector da saúde torna o SNS, cada dia que passa, mais disfuncional para quem nele trabalha ou dele necessita.


25/10/17

Marcelo: o alfabeto do coração

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1. A dor de Marcelo. A dor de cada um de nós. "A nossa dor neste momento não tem medida". Marcelo decidiu dar importância às pessoas, lá onde elas têm as suas circunstâncias e o seu sofrimento. E sabemos como é difícil ao poder reconhecer e dar importância às pessoas que sofrem, para além dos lindos discursos de solidariedade.
Não é de agora mas o comportamento de Marcelo ainda nos surpreende pelo espontâneo e genuíno sentimento de compaixão, que contrasta com o calculismo de alguns políticos. São centenas de abraços que, parece, nunca o cansam. É importante a abreacção. É importante que a dor de cada pessoa tenha uma expressão: de choro, desabafo e sentimento.
Não é necessário concordar com tudo o que Marcelo fez ou faz. No essencial é com grande inveja que tenho visto a capacidade de um homem expressar um comportamento genuíno, de ser pessoa aqui e agora, de ser gente com gente na frente, de se meter no fato e nos factos do outro.
Excesso de exposição ou a mais profunda solidariedade? Marcelo não tinha necessidade de estar em grande parte das coisas em que tem estado... Mas ainda bem que o tem feito. O contacto, o toque das emoções com os mais frágeis, idosos, crianças, sem abrigo, e agora com as vítimas dos incêndios tem sido apaziguador do conflito interior de quem ficou com nada do trabalho de uma vida inteira. É ainda uma tomada de consciência da incapacidade que foi manifestada pelo executivo de ao menos pedir desculpa e tomar medidas expeditas para minimizar ocorrências semelhantes.

2. Marcelo diz que devemos ter uma "visão panorâmica": "cada um na sua casa pensa que tem melhor visão do que os outros", referia Marcelo no cimo de uma colina, num destes dias de calamidade.
É esta visão que um político deveria ter sempre para poder ser político. Nesta discussão sobre os incêndios ouvimos todas as opiniões e as suas contrárias. São os eucaliptos, a desertificação, a falta de limpeza das matas, o desordenamento, a falta de meios, de comunicações, de vigilância… Por isso uma metodologia panorâmica parece ser a melhor para encontrar soluções mais do que a solução.

3. Marcelo tem o seu estilo próprio. Poderá haver pessoas que exprimem sentimentos de compaixão de outra forma. No entanto, este estilo é de enaltecer vinda do PR ao lidar com uma tragédia como esta. Podia ou deveria servir de modelo para os políticos que com distância e frieza trataram o assunto e que não deixa de evidenciar um contraste chocante com a realidade das pessoas.
Marcelo mostrou solidariedade e compaixão com a compreensão que fez do estado emocional das outras pessoas. A compaixão usa a delicadeza para com aqueles que sofrem e alivia o sofrimento de outro ser humano.
James Doty criou o “alfabeto do coração” para ser usado como um exercício de meditação. O alfabeto do coração inclui: Compaixão, Dignidade, Equanimidade, Perdão, Gratidão, Humildade, Integridade, Justiça, Bondade e Amor.
Marcelo diz que gosta de tratar as pessoas assim porque gostou da compaixão dos outros quando em sofrimento. Não é mais do que “tratar os outros como gostávamos de ser tratados por eles”.
O alfabeto do coração também inclui:
A dignidade que todo o ser humano deve ter.
Equanimidade, a serenidade encontrada entre os altos e baixos dos acontecimentos.
Saber perdoar aqueles que falharam .
Gratidão por tudo o que conseguimos obter.
Humildade porque não é melhor nem pior do que outros.
Ter integridade, ou seja, orientar as suas acções pela honestidade.
Ter justiça para com aqueles que são mais vulneráveis.
Bondade pelo reconhecimento da humanidade do outro.
E, finalmente, o Amor que contém e liga tudo.

20/10/17

Orçamento «tira do "lete" e põe no "caféi"» - parte 3

Como nos dois orçamentos anteriores já toda a gente percebeu a esperteza da coisa. Tira-se de um lado e põe-se no outro, dá-se com uma mão para tirar com a outra. Tira-se dos mesmos de sempre,  daqueles onde pensam que ainda há qualquer coisa para tirar.
Entretanto, vai-se anunciando aumentos de pensões, descongelamento de carreiras na função pública,  vinculação de professores, a baixa de impostos *, etc. que vão ser pagos com a substituição por impostos indirectos em determinados produtos, combustíveis, recibos verdes...
 
O governo minoritário de Costa, assim nos vai iludindo. Costa vive de tacticismos. Não tem qualquer estratégia política.** Ganhou o silêncio ou passividade dos sindicatos, partidos e associações dominadas pelas ditas esquerdas unidas, incluindo as que sofrem de doença infantil, em troca "esqueceu" qualquer tipo de reforma estrutural que pudesse ajudar a melhorar e consolidar o futuro. Dito de outro modo, "quem não tem uma estratégia vai fazer parte da estratégia de alguém". (Toffler)
Não veio o diabo de que falava Passos Coelho (quer dizer, excluindo esse "pormenor" da dívida) mas, inesperadamente***, veio o inferno dos incêndios, que pôs a nu a verdadeira natureza (crueza) deste governo,  as fragilidades de que falou o Presidente Marcelo e o desprezo pelos mais frágeis quando com um orçamento travestido de reversões e cativações,  sentem bem as dificuldades em todos os sectores, como na Saúde, por ex. ...
 ________________________
* "Nos últimos dias gerou-se a ideia de que a proposta de OE2018 baixará os impostos. Trata-se, a meu ver, de uma ideia falsa. E é falsa porque na realidade os impostos vão aumentar. Aumentam em termos nominais e aumentam também em termos reais.
Analisemos, primeiro, o incremento nominal. Ora, segundo consta da página 199 da proposta de OE2018, o aumento dos impostos indirectos equivalerá a 1098 milhões de euros em 2018 (+4,6% face a 2017) e compara com uma redução de 225 milhões de euros nos impostos directos (-1,2% face a 2017). Há, portanto, um aumento líquido de 873 milhões de euros na receita fiscal do Estado.
Em cima destes 873 milhões, teremos ainda outros impostos de diferentes níveis da administração pública que vão elevar a variação positiva da receita fiscal para 1184 milhões (+2,4% face a 2017, conforme p.32).
Passemos agora ao incremento real, para observar o seguinte: não obstante o rácio da carga fiscal (aqui entendido como receitas fiscais mais contribuições fiscais em percentagem do PIB) baixar de 37,9% para 37,7% do PIB, a verdade é que a receita corrente aumenta de 42,7% para 42,8% do PIB (p.32) e, tão ou mais importante ainda, a receita estrutural aumenta de 43,0% para 43,6% do PIB (p.31). Moral da história, a receita aumenta, quer em termos nominais, avaliada em euros de 2018, quer em termos reais, avaliada enquanto receita corrente e estrutural em percentagem do PIB de 2018."
...
Pedro Arroja, "A falsa ideia de que baixam os impostos", Eco.


** A menos que seja esta: "A estratégia do actual governo é a de conseguir um círculo virtuoso de crescimento, emprego, moderada consolidação orçamental, descida de juros, descida do peso da dívida. Na fase de transição, em que ainda estamos, onde é necessário requalificar os serviços públicos e aumentar o investimento, a redução do peso do Estado, deverá ser moderada, e devida, não a cortes de despesa, mas a um crescimento pouco abaixo do crescimento do PIB. Temos defendido que até terminar o período de consolidação orçamental, não há margem para reduções significativas de impostos."
Paulo Trigo Pereira: "OE2018: a estratégia, os compromissos e… os incêndios".

*** Houve muitos avisos, a começar pelos do IPMA.

18/10/17

Taxas e taxinhas: TMPC

"Faço minha esta pergunta
FACE A ESTAS DECLARAÇÕES DO SECRETÁRIO DE ESTADO
“Têm de ser as próprias comunidades a ser pro-activas e não ficarmos todos à espera que apareçam os bombeiros e os aviões para resolverem os problemas. Temos de nos auto-proteger – é fundamental.”
Acabou-se a Taxa Municipal de Protecção Civil?" Helena Matos,18 Outubro, 2017
 
Recebi, hoje, a respectiva. Também "faço minha esta pergunta".



"Parece-me que a única resposta possível a este desafio é óbvia: temos que nos autoproteger, sim, mas destes políticos que nos desertam e nos deixam cada vez mais sozinhos nas nossas aflições." Laurinda  Alves, "Autoproteja-se o senhor!", Observador.


17/10/17

Mogli

Fim-de-semana. Boa altura para estar com os netos e fazer o programa deles. Brinquedos, livros infantis, brincadeiras, parque infantil, cd's e dvd's, músicas e estórias que vamos vendo n vezes. E é garantida a diversão também para os adultos. Desta vez é a história de Mogli que também contei aos meus filhos, em livro e cassete*. Agora em dvd ganha diferente interesse, digo eu. Uma das músicas mais divertidas é cantada por Louis Prima, o tal de "Sing, sing,sing", "Eu quero ser como tu".



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* Mogli, Clássicos Disney, Difusão Cultural. Adaptação do texto de António Avelar de Pinho.

12/10/17

Hoje apetece-me ouvir: The Ray Conniff Singers

The Ray Conniff Singers - Somebody Loves Me
You're the cream in my coffee - Letra e música Ray Henderson, Lew Brown, Buddy DeSylva
Ray Conniff - 6/11/1916-12/10/2002


 You’re the cream in my coffee,
You’re the salt in my stew;
You will always be my necessity--
I’d be lost without you.

You’re the starch in my collar,
You’re the lace in my shoe;
You will always be my necessity--
I’d be lost without you.

Most men tell love tails,
And each phrase dovetails.
You’ve heard each known way,
This way is my own way.

You’re the sail of my love boat,
You’re the captain and crew;
You will always be my necessity--
I’d be lost without you.

You give life savor,
Bring out its flavor;
So this is clear, dear,
You’re my worcestershire, dear.

You’re the sail of my love boat,
You’re the captain and crew;
You will always be my necessity--
I’d be lost without you.

Circulatura do quadrado


Na quadratura do círculo, perdão, de 29-3-2012,  às tantas, o tema era Sócrates.
A. Costa ( presidente da CM de Lisboa): " o passado não interessa" (isto é, falar de Sócrates).
Pacheco Pereira: " e você (Costa) tem um pequeno problema: foi o seu braço direito".

Ontem, Sócrates foi acusado pelo MP.

08/10/17

Mãe e filhos


1. É importante falar, escrever e fazer a divulgação da relevância  para o desenvolvimento da relação da mãe com os filhos. Esta interacção privilegiada, a vinculação 1, coloca em relevo o importante papel que a mãe assume nesse desenvolvimento.  É um comportamento inato dos primatas e em particular dos humanos.
"Embora o conhecimento esteja longe de ser definitivo 2, a investigação permitiu já concluir que os laços que se estabelecem entre mãe e filho constituem o primeiro modelo de relacionamento humano do bebé, potenciando uma sensação  de segurança e de autoestima positiva. Além de que a resposta dos pais aos sinais do bebé também pode influenciar o desenvolvimento social e cognitivo do bebé. Não há, contudo, uma fórmula mágica: é uma experiência pessoal e complexa que não pode ser forçada." (p. 16)
Este processo de vinculação começa muito antes do parto e continua depois do nascimento. De facto, "quando o parto acontece, já se pode dizer que os dois se conhecem, sendo reconhecido que a ligação afetiva que se estabelece durante a gestação é um dos processos mais importantes desses nove meses. É verdade que essa intimidade é sensível a um conjunto de variáveis, nomeadamente a idade da mãe, o apoio familiar e social recebido, o contexto da própria gravidez. Mas também é verdade que, após o nascimento é fundamental consolidar os laços que se começaram a gerar durante a gestação." (p.15)

Há situações, em que por diversas circunstâncias (falecimento, separação forçada pela guerra, acidentes, doença...) a mãe não está presente, e a vinculação é feita a pessoas de referência da criança... Mas esta é uma situação inultrapassável e não há outra resposta mais adequada para o desenvolvimento adequado e seguro da criança.
A adopção surge também como uma dessas possibilidades em que o superior interesse da criança passa por este tipo de resposta, sendo preferível  à institucionalização, p ex..


A partir dos anos 50 do século passado, a psicologia passou a dispor de um conjunto de dados resultante da investigação animal e humana que fundamentaram com segurança este processo de interacção.
Há alguns anos, R. Zazzo recolheu em livro a opinião de vários especialistas sobre  a vinculação. A mudança conceptual que vinha trazer em relação à necessidade primária que a vinculação representava, mostrava uma perspectiva diferente da  relação mãe-filho.  Ficava em questão quer o conceito da psicanálise enquanto defensora de que essa vinculação era secundária em relação à necessidade primária de alimentação, como o do behaviourismo que seria secundária em relação ao reforço.


Para Bowlby (O vínculo mai-filho e a saúde mental, Galiza editora) "a vinculação não é exclusiva da nossa espécie já que existe igualmente tal como o demonstraram outros autores (como Harlow, Hinde e Lorenz) na primeira infância de muitos mamíferos e algumas aves." (p.13)
A teoria da vinculação (apego) é um modo de conceptualizar a tendência dos seres humanos a estabelecerem fortes vínculos afectivos com outros seres particulares e de explicar as múltiplas formas de aflição emocional e transtorno da personalidade que compreendem a ansiedade, a ira a depressão e o desapego emocional a que dão lugar a separação e a perda não desejadas" (p. 27)
O DSM caracteriza a Perturbação reactiva de vinculação da primeira infância e início da segunda infância. (No Brasil, "Transtorno de apego").

2. A gestação de substituição, aprovada em conselho de ministros, (Decreto Regulamentar n.º 6/2017- DR n.º 146/2017, Série I, de 2017-07-31) 3 certamente tem muito a ver com o que se disse antes  e os senhores deputados devem ter ponderado o assunto, seriamente. De facto, a mãe é indispensável para o desenvolvimento da criança. Por isso, para este efeito há necessidade
"d) De uma declaração de psiquiatra ou psicólogo favorável à celebração do contrato de gestação de substituição".
 Apesar do risco, parece compreensivo que haja situações excepcionais em que a gestação de substituição tenha  lugar.

Por outro lado, há cláusulas que não se sabe como vão ser resolvidas, na prática, e como vai ser feito o seu controlo, como:
"k) A gratuitidade do negócio jurídico e a ausência de qualquer tipo de imposição, pagamento ou doação por parte do casal beneficiário a favor da gestante de substituição por causa da gestação da criança, para além do valor correspondente às despesas decorrentes do acompanhamento de saúde efetivamente prestado, incluindo em transportes".

3. Seja como for, o DR estipula as condições da gestação de substituição. Fora destas situações e fora dos limites impostos, trata-se de um negócio que nunca deixará de ser outra coisa senão a compra e venda de crianças.

4. O caso Cristiano Ronaldo, como escreve H. Raposo ou Isabel Stilwell, tendo em conta os direitos da criança a ter uma família não cabe nesta situação porque a legislação portuguesa não o permitiria. Mas a moral também não.  
Podemos ser fãs de Ronaldo, apreciar as suas atitudes e comportamentos nas diversas  situações desportivas, reconhecer a sua caridade ou filantropia para com os outros, nomeadamente as atitudes relativamente a crianças com dificuldades de saúde ou outra ordem, acompanhá-lo até ao fim do mundo, porém, o nosso caminho tem, necessariamente, que acabar aqui. Como Saramago, "até aqui cheguei", mas não daqui em diante.4

5. Do ponto de vista psicológico, qualquer situação deste tipo, configura uma situação de risco de vinculação. Ou seja, uma situação de risco em relação aos direitos da criança.

___________________
1. Maria Rita Silva, «Mãe e filhos: uma relação única», PH, nº 15, Maio-Junho 2017.

2. Discute-se a questão da vinculação e critica-se que "La relation mère-enfant devient le seul objet de l’évaluation, elle est donc réalisée indépendamment de la relation paternelle (ici les absents n’ont pas toujours tort), de l’environnement familial élargi et du contexte culturel, économique et social dans lequel l’enfant a évolué." Le cercle psy
" Surtout diverses enquêtes, dont celles qui ont servi de base à la notion de résilience, montrent que bon nombre d’individus mal partis déjouent tous les pronostics. Inversement, d’autres tournent mal alors qu’ils ont bénéficié d’un soutien parental sans faille. L’attachement sécure est un atout, pas une baguette magique. Ni sans doute un ingrédient indispensable." J.- F. Marmion, Le cercle psy

3. A designação  "barrigas de aluguer" mostra bem que a natureza deste negócio não se coaduna com a letra ou o espírito do normativo  (Decreto Regulamentar n.º 6/2017DR).

4. Mesmo com a militância política de Saramago é necessário reconhecer-lhe a grandeza moral de condenar o regime cubano. De facto, quando "O governo cubano executou na sexta-feira passada três homens sumariamente condenados por assaltar uma balsa com o propósito de fugir para os EUA" , Saramago escreveu: "Até aqui cheguei. De agora em diante, Cuba seguirá seu caminho, e eu fico onde estou. Discordar é um direito que se encontra e se encontrará inscrito com tinta invisível em todas as declarações de direitos humanos passadas, presentes e futuras. Discordar é um ato irrenunciável de consciência." 16 de Abril de 2003, Folha de S. Paulo.

29/09/17

Obrar

Depois de várias tentativas eleitorais em que nos prometeram mudanças, "agora é que é", ou  como na colocação do "maior mastro do mundo" (Deolinda), os programas eleitorais continuam a ser lindos e megalómanos mas, na realidade, as prioridades da actividade municipal continuam a ser:
Obrar.  De norte a sul. Vira o país em estaleiro e  ninguém tem descanso com o barulho dos martelos pneumáticos e retroescavadoras, incluindo trabalho aos sábados, trabalho até mais tarde, para que a 1 de Outubro tudo pareça pronto a inaugurar; o que não se fez em quatro anos, ou mesmo em oito, faz-se agora da noite para o dia; com dinheiro ou sem ele, o importante é apresentar obra que se veja porque sem obra autarca fica invisível. É uma espécie de absolvição para todas as "irregularidades": "corrupto  mas com obra feita".
Praça das Flores, Lisboa
Vangloriar-se. Revêem-se na obra feita, publicitada em cartazes que inundam avenidas e rotundas. Concorrem para oferecerem mais obras e serviços gratuitos, livros, infantários, casas ... a gratuitidade em todo o lado.
Gostam de dar o nome a ruas, estádios de futebol, bibliotecas... e sonham ser comendadores.
Enquanto assim for, situação e oposição, os que saem e os que entram,  estão bem uns para os outros e, sem dúvida, que: "El postito portugués/Solo es grandito en pequenez".
Denunciar. É este o tempo preferido para denunciar os que estiveram antes ou querem ficar agora,  surgem denúncias ligadas a "irregularidades": "revelações" sobre os  escândalos maiores, mais pequenos, indícios...
"Sacrificar-se". Pelos outros. No entanto, não quiseram que a  lei da limitação de mandatos os libertasse desse pesado sacrifício. Afinal, foi esclarecido, a lei só se referia à mesma autarquia e, passado um ano de nojo, poderiam voltar a sacrificar-se, e foi o que aconteceu este ano com alguns veteranos das autarquias que estão dispostos a ficar até caírem da tripeça. Três mandatos de sacrifício a somar a outros três, para terminarem não como comendadores mas como santos.
Falir e taxar.  É o que acontece a alguns municípios, porque tudo vai continuar na mesma. Sabemos, no entanto, quanto custa a gratuitidade a quem paga  impostos: IRS (9% dos cidadãos paga 70% deste imposto), IMI, Taxas e taxinhas...
Desleixar.  Falta de passadeiras, falta de locais nos passeios para passagem de cadeiras de rodas, carrinhos de bebé, pessoas com dificuldades de mobilidade...
Quinta das Conchas, Lisboa
A mistura de irresponsabilidade município/munícipes. Nojento é como se pode descrever o estado de algumas ruas, lixo por todo lado, restos de obras, pedras que saltaram do sítio, papeleiras estragadas e insuficientes, parques infantis inseguros, árvores cortadas sem serem repostas, troncos das árvores e jardins desleixados que servem de lixeira/estrumeira aos cães dos munícipes que gostam de animais, mas também gostam de deixar os dejectos na rua deles e dos outros, que gostam tanto de animais que os abandonam, porque só os abandona quem os tem, e vagueiam pela cidade.
Garantir. O futuro dos familiares e amigos fica assegurado. Tudo boa gente, tudo gente que se vai sacrificar para liderar as autarquias e ficar a obrar para a comunidade, se bem que obrem mais para os próprios e respectivos familiares e amigos.
Votar? "A esperança é a última a morrer"?
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Sobre o assunto acabei de ler "Tu és a revolução", de Clara F. Alves, "Pluma caprichosa", A revista do Expresso, nº 2344, de 29/9/2017.

21/09/17

As minhas serigrafias: Artur José

Artur José - Composição


Técnica: Serigrafia
Suporte: Papel Fabriano D5 GF 210g; Dimensão da Mancha: 41,6x34 cm; Dimensão do Suporte: 70x50 cm
N.º de cores: 20
Data: 1994
Nº de Exemplar: 29/200

"Nasceu em Lisboa no ano de 1931 e morreu na mesma cidade em 2010. Nas artes-plásticas, destacou-se principalmente pelo seu trabalho como ceramista. Como reconhecimento do seu trabalho a sua obra foi diversas vezes distinguida: Prémio “Sebastião de Almeida”; Prémio Casa da Imprensa, em Cerâmica; 1ª. Medalha “VIII Salão da Primavera”, “X Salão da Primavera”, “XI Salão de Outono” e no “XV Salão da Primavera” (J.T.C.S.); 2º. Prémio em Cerâmica na “II Exposição Antoniana” (J.T.C.S.); 2º. Prémio de Salão (1º. em Cerâmica) no “XI Salão de Primavera” e “X Salão de Outono” (J:T:C:S:); 1º Prémio no “III Salão Motivos da Costa do Sol” (Casino do Estoril). Realizou diversas exposições individuais em Portugal e no estrangeiro e, participou em várias colectivas, destacando-se em países como o Brasil, o Japão, Angola e França. Está representado em colecções de museus na Suíça e nos E.U.A e na “Casa de Portugal” em Estocolmo; faz parte de colecções particulares em países tão diferentes como a Alemanha, o Brasil, a Suécia ou a Nigéria. Em Portugal o seu trabalho encontra-se no Museu do Azulejo e na Caixa Geral de Depósitos, entre outras instituições e colecções."