12/10/17

Circulatura do quadrado


Na quadratura do círculo, perdão, de 29-3-2012,  às tantas, o tema era Sócrates.
A. Costa ( presidente da CM de Lisboa): " o passado não interessa" (isto é, falar de Sócrates).
Pacheco Pereira: " e você (Costa) tem um pequeno problema: foi o seu braço direito".

Ontem, Sócrates foi acusado pelo MP.

08/10/17

Mãe e filhos


1. É importante falar, escrever e fazer a divulgação da relevância  para o desenvolvimento da relação da mãe com os filhos. Esta interacção privilegiada, a vinculação 1, coloca em relevo o importante papel que a mãe assume nesse desenvolvimento.  É um comportamento inato dos primatas e em particular dos humanos.
"Embora o conhecimento esteja longe de ser definitivo 2, a investigação permitiu já concluir que os laços que se estabelecem entre mãe e filho constituem o primeiro modelo de relacionamento humano do bebé, potenciando uma sensação  de segurança e de autoestima positiva. Além de que a resposta dos pais aos sinais do bebé também pode influenciar o desenvolvimento social e cognitivo do bebé. Não há, contudo, uma fórmula mágica: é uma experiência pessoal e complexa que não pode ser forçada." (p. 16)
Este processo de vinculação começa muito antes do parto e continua depois do nascimento. De facto, "quando o parto acontece, já se pode dizer que os dois se conhecem, sendo reconhecido que a ligação afetiva que se estabelece durante a gestação é um dos processos mais importantes desses nove meses. É verdade que essa intimidade é sensível a um conjunto de variáveis, nomeadamente a idade da mãe, o apoio familiar e social recebido, o contexto da própria gravidez. Mas também é verdade que, após o nascimento é fundamental consolidar os laços que se começaram a gerar durante a gestação." (p.15)

Há situações, em que por diversas circunstâncias (falecimento, separação forçada pela guerra, acidentes, doença...) a mãe não está presente, e a vinculação é feita a pessoas de referência da criança... Mas esta é uma situação inultrapassável e não há outra resposta mais adequada para o desenvolvimento adequado e seguro da criança.
A adopção surge também como uma dessas possibilidades em que o superior interesse da criança passa por este tipo de resposta, sendo preferível  à institucionalização, p ex..


A partir dos anos 50 do século passado, a psicologia passou a dispor de um conjunto de dados resultante da investigação animal e humana que fundamentaram com segurança este processo de interacção.
Há alguns anos, R. Zazzo recolheu em livro a opinião de vários especialistas sobre  a vinculação. A mudança conceptual que vinha trazer em relação à necessidade primária que a vinculação representava, mostrava uma perspectiva diferente da  relação mãe-filho.  Ficava em questão quer o conceito da psicanálise enquanto defensora de que essa vinculação era secundária em relação à necessidade primária de alimentação, como o do behaviourismo que seria secundária em relação ao reforço.


Para Bowlby (O vínculo mai-filho e a saúde mental, Galiza editora) "a vinculação não é exclusiva da nossa espécie já que existe igualmente tal como o demonstraram outros autores (como Harlow, Hinde e Lorenz) na primeira infância de muitos mamíferos e algumas aves." (p.13)
A teoria da vinculação (apego) é um modo de conceptualizar a tendência dos seres humanos a estabelecerem fortes vínculos afectivos com outros seres particulares e de explicar as múltiplas formas de aflição emocional e transtorno da personalidade que compreendem a ansiedade, a ira a depressão e o desapego emocional a que dão lugar a separação e a perda não desejadas" (p. 27)
O DSM caracteriza a Perturbação reactiva de vinculação da primeira infância e início da segunda infância. (No Brasil, "Transtorno de apego").

2. A gestação de substituição, aprovada em conselho de ministros, (Decreto Regulamentar n.º 6/2017- DR n.º 146/2017, Série I, de 2017-07-31) 3 certamente tem muito a ver com o que se disse antes  e os senhores deputados devem ter ponderado o assunto, seriamente. De facto, a mãe é indispensável para o desenvolvimento da criança. Por isso, para este efeito há necessidade
"d) De uma declaração de psiquiatra ou psicólogo favorável à celebração do contrato de gestação de substituição".
 Apesar do risco, parece compreensivo que haja situações excepcionais em que a gestação de substituição tenha  lugar.

Por outro lado, há cláusulas que não se sabe como vão ser resolvidas, na prática, e como vai ser feito o seu controlo, como:
"k) A gratuitidade do negócio jurídico e a ausência de qualquer tipo de imposição, pagamento ou doação por parte do casal beneficiário a favor da gestante de substituição por causa da gestação da criança, para além do valor correspondente às despesas decorrentes do acompanhamento de saúde efetivamente prestado, incluindo em transportes".

3. Seja como for, o DR estipula as condições da gestação de substituição. Fora destas situações e fora dos limites impostos, trata-se de um negócio que nunca deixará de ser outra coisa senão a compra e venda de crianças.

4. O caso Cristiano Ronaldo, como escreve H. Raposo ou Isabel Stilwell, tendo em conta os direitos da criança a ter uma família não cabe nesta situação porque a legislação portuguesa não o permitiria. Mas a moral também não.  
Podemos ser fãs de Ronaldo, apreciar as suas atitudes e comportamentos nas diversas  situações desportivas, reconhecer a sua caridade ou filantropia para com os outros, nomeadamente as atitudes relativamente a crianças com dificuldades de saúde ou outra ordem, acompanhá-lo até ao fim do mundo, porém, o nosso caminho tem, necessariamente, que acabar aqui. Como Saramago, "até aqui cheguei", mas não daqui em diante.4

5. Do ponto de vista psicológico, qualquer situação deste tipo, configura uma situação de risco de vinculação. Ou seja, uma situação de risco em relação aos direitos da criança.

___________________
1. Maria Rita Silva, «Mãe e filhos: uma relação única», PH, nº 15, Maio-Junho 2017.

2. Discute-se a questão da vinculação e critica-se que "La relation mère-enfant devient le seul objet de l’évaluation, elle est donc réalisée indépendamment de la relation paternelle (ici les absents n’ont pas toujours tort), de l’environnement familial élargi et du contexte culturel, économique et social dans lequel l’enfant a évolué." Le cercle psy
" Surtout diverses enquêtes, dont celles qui ont servi de base à la notion de résilience, montrent que bon nombre d’individus mal partis déjouent tous les pronostics. Inversement, d’autres tournent mal alors qu’ils ont bénéficié d’un soutien parental sans faille. L’attachement sécure est un atout, pas une baguette magique. Ni sans doute un ingrédient indispensable." J.- F. Marmion, Le cercle psy

3. A designação  "barrigas de aluguer" mostra bem que a natureza deste negócio não se coaduna com a letra ou o espírito do normativo  (Decreto Regulamentar n.º 6/2017DR).

4. Mesmo com a militância política de Saramago é necessário reconhecer-lhe a grandeza moral de condenar o regime cubano. De facto, quando "O governo cubano executou na sexta-feira passada três homens sumariamente condenados por assaltar uma balsa com o propósito de fugir para os EUA" , Saramago escreveu: "Até aqui cheguei. De agora em diante, Cuba seguirá seu caminho, e eu fico onde estou. Discordar é um direito que se encontra e se encontrará inscrito com tinta invisível em todas as declarações de direitos humanos passadas, presentes e futuras. Discordar é um ato irrenunciável de consciência." 16 de Abril de 2003, Folha de S. Paulo.

29/09/17

Obrar

Depois de várias tentativas eleitorais em que nos prometeram mudanças, "agora é que é", ou  como na colocação do "maior mastro do mundo" (Deolinda), os programas eleitorais continuam a ser lindos e megalómanos mas, na realidade, as prioridades da actividade municipal continuam a ser:
Obrar.  De norte a sul. Vira o país em estaleiro e  ninguém tem descanso com o barulho dos martelos pneumáticos e retroescavadoras, incluindo trabalho aos sábados, trabalho até mais tarde, para que a 1 de Outubro tudo pareça pronto a inaugurar; o que não se fez em quatro anos, ou mesmo em oito, faz-se agora da noite para o dia; com dinheiro ou sem ele, o importante é apresentar obra que se veja porque sem obra autarca fica invisível. É uma espécie de absolvição para todas as "irregularidades": "corrupto  mas com obra feita".
Praça das Flores, Lisboa
Vangloriar-se. Revêem-se na obra feita, publicitada em cartazes que inundam avenidas e rotundas. Concorrem para oferecerem mais obras e serviços gratuitos, livros, infantários, casas ... a gratuitidade em todo o lado.
Gostam de dar o nome a ruas, estádios de futebol, bibliotecas... e sonham ser comendadores.
Enquanto assim for, situação e oposição, os que saem e os que entram,  estão bem uns para os outros e, sem dúvida, que: "El postito portugués/Solo es grandito en pequenez".
Denunciar. É este o tempo preferido para denunciar os que estiveram antes ou querem ficar agora,  surgem denúncias ligadas a "irregularidades": "revelações" sobre os  escândalos maiores, mais pequenos, indícios...
"Sacrificar-se". Pelos outros. No entanto, não quiseram que a  lei da limitação de mandatos os libertasse desse pesado sacrifício. Afinal, foi esclarecido, a lei só se referia à mesma autarquia e, passado um ano de nojo, poderiam voltar a sacrificar-se, e foi o que aconteceu este ano com alguns veteranos das autarquias que estão dispostos a ficar até caírem da tripeça. Três mandatos de sacrifício a somar a outros três, para terminarem não como comendadores mas como santos.
Falir e taxar.  É o que acontece a alguns municípios, porque tudo vai continuar na mesma. Sabemos, no entanto, quanto custa a gratuitidade a quem paga  impostos: IRS (9% dos cidadãos paga 70% deste imposto), IMI, Taxas e taxinhas...
Desleixar.  Falta de passadeiras, falta de locais nos passeios para passagem de cadeiras de rodas, carrinhos de bebé, pessoas com dificuldades de mobilidade...
Quinta das Conchas, Lisboa
A mistura de irresponsabilidade município/munícipes. Nojento é como se pode descrever o estado de algumas ruas, lixo por todo lado, restos de obras, pedras que saltaram do sítio, papeleiras estragadas e insuficientes, parques infantis inseguros, árvores cortadas sem serem repostas, troncos das árvores e jardins desleixados que servem de lixeira/estrumeira aos cães dos munícipes que gostam de animais, mas também gostam de deixar os dejectos na rua deles e dos outros, que gostam tanto de animais que os abandonam, porque só os abandona quem os tem, e vagueiam pela cidade.
Garantir. O futuro dos familiares e amigos fica assegurado. Tudo boa gente, tudo gente que se vai sacrificar para liderar as autarquias e ficar a obrar para a comunidade, se bem que obrem mais para os próprios e respectivos familiares e amigos.
Votar? "A esperança é a última a morrer"?
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Sobre o assunto acabei de ler "Tu és a revolução", de Clara F. Alves, "Pluma caprichosa", A revista do Expresso, nº 2344, de 29/9/2017.

21/09/17

As minhas serigrafias: Artur José

Artur José - Composição


Técnica: Serigrafia
Suporte: Papel Fabriano D5 GF 210g; Dimensão da Mancha: 41,6x34 cm; Dimensão do Suporte: 70x50 cm
N.º de cores: 20
Data: 1994
Nº de Exemplar: 29/200

"Nasceu em Lisboa no ano de 1931 e morreu na mesma cidade em 2010. Nas artes-plásticas, destacou-se principalmente pelo seu trabalho como ceramista. Como reconhecimento do seu trabalho a sua obra foi diversas vezes distinguida: Prémio “Sebastião de Almeida”; Prémio Casa da Imprensa, em Cerâmica; 1ª. Medalha “VIII Salão da Primavera”, “X Salão da Primavera”, “XI Salão de Outono” e no “XV Salão da Primavera” (J.T.C.S.); 2º. Prémio em Cerâmica na “II Exposição Antoniana” (J.T.C.S.); 2º. Prémio de Salão (1º. em Cerâmica) no “XI Salão de Primavera” e “X Salão de Outono” (J:T:C:S:); 1º Prémio no “III Salão Motivos da Costa do Sol” (Casino do Estoril). Realizou diversas exposições individuais em Portugal e no estrangeiro e, participou em várias colectivas, destacando-se em países como o Brasil, o Japão, Angola e França. Está representado em colecções de museus na Suíça e nos E.U.A e na “Casa de Portugal” em Estocolmo; faz parte de colecções particulares em países tão diferentes como a Alemanha, o Brasil, a Suécia ou a Nigéria. Em Portugal o seu trabalho encontra-se no Museu do Azulejo e na Caixa Geral de Depósitos, entre outras instituições e colecções."



05/09/17

10 anos de "Educar em Diálogo"

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10 anos de "Educar em diálogo". O objectivo inicial foi o de trazer algumas ideias sobre  a educação que na altura passava por caminhos controversos e autoritários, com uma ministra da educação, Maria de Lurdes Rodrigues, que tinha dos professores a ideia de que eram o fracasso do sistema educativo e que era preciso ensinar-lhes as boas maneiras para serem professores. Muitos projectos eram os do regime "socrático": novas oportunidades, "magalhães", parque escolar, avaliação de desempenho altamente burocratizada, a divisão entre professores e professores titulares, a escola a tempo inteiro (AEC), as alterações do DL 3/2008 e as escolas de referência, a CIF, o número mágico de 1,8% de crianças com NEE, com a exclusão de muitas do apoio da educação especial, o encerramento de escolas rurais e de pequena dimensão... (A crise na educação)
O que mais chocava era a atitude arrogante do poder, em particular  num sector onde o diálogo,  como método,  devia ser o caminho para tomar decisões e  melhorar a educação.

10/08/17

Confiança básica

 ...
"Olha-me. Nunca me irei embora; mesmo quando já cá não estiver, basta-te abrir pernas e braços, pôr o peito para cima e fechar os olhos, dessa vez fecha os olhos, para me veres onde estou: aí dentro. Quando essa cabeça quiser pensar em nada, que serei eu dentro de ti, fecha os olhos. Nós os dois aqui, um ao lado do outro, a boiar no mar calmo de olhos postos no céu imenso.

A extraordinária relação pai-filho que nasce nas pequenas coisas da vida, da aprendizagem do quotidiano, da confiança básica (E. Erikson), do amor profundo entre dois seres. Muito gratificante. 
Obrigado AAA. 
Partilhei no facebook.

09/08/17

Vinho, mulheres e canções


Valsa "vinho, mulheres e canções"
Orquestra Sinfónica da Rádio de Hamburgo - Dir. de Gudolff Rendel

Talvez aqui.
 


O título da valsa de Johan Strauss só por si, e para os dias que vão correndo, é um tratado do politicamente incorrecto, talvez, até um insulto, para os fracturantes de pacotilha.
É muito mais do que versar sobre a vida desregrada, a que Jeroen Dijsselbloem se referia, como o caminho a evitar, é o encantamento da vida - o principio do prazer.
Embora Dijsselbloem seja do norte disse o que se pode aplicar a todos os povos de todas as geografias, como a ele próprio.  O azar dele foi tê-lo feito de forma focada nos europeus do sul quando isso também é coisa dos europeus do norte, como aqui se vê.
Também já não era o tempo próprio para isso. Quer dizer, foi aqui que nos trouxe o retrocesso em que estamos.

Por estes dias de embandeirar em arco, aliás o nosso querido presidente Marcelo já começou a travar tanta exuberância, principalmente depois das desgraças dos incêndios e de  Tancos, o país que todos procuram pelo sol, pela comida, pela simpatia das pessoas, afinal também tem defeitos. Nada que surpreenda o que refere, no Labirinto da saudade, Eduardo Lourenço: "somos um povo de pobres com mentalidade de ricos". Como as críticas são "de casa", podem dizer o que pensam e o que entendem sobre  a choldra ignóbil, apropriada ao "estado a que chegámos".
Mas não fomos sempre assim ? Podemos voltar ao passado, por altura dos descobrimentos, quando se criticava aqueles que comiam pão-de-ló com sardinha  assada. Mas isso eram outros tempos?

Resta-nos a verdadeira paixão pela música, autêntica evolução no campo da igualdade de direitos. 
Como referia E. Cintra Torres a propósito de "Duetos imprevistos".  "A arte aprende-se. Os compositores, diz-nos Duetos, não são apenas homens do seu tempo: têm as paixões do momento e de sempre. Tal como eles, os dois apresentadores estão sempre à mesa comendo e bebendo (como Bruckner), falando das apaixonadas e do seu papel na música (Liszt, o Strauss das valsas), e procurando também assim recriar o seu amor pela música, religiosa, popular ou o que seja. No écrã, recriam-se pulsões dos compositores: vinho, mulheres e canções (Wein, Weib und Gesang: é o título de uma valsa de Strauss)."