24/05/17

"Normidável" ou "normopata"

Experiência de Asch

A psicologia social experimental permite conhecer mais profundamente o funcionamento mental das pessoas enquanto sujeitas a pressões do grupo a que pertencem.
Os  indivíduos ou grupos  tornam-se conformistas para evitar o conflito entre  opiniões diferentes (a da maioria e a do indivíduo ou grupo minoritário) e a rejeição pela maioria. (Solomon Asch) 1
O conformismo 2 pode resultar de vários factores como a falta  de informação, pressão da norma, atractividade do grupo maioritário, ou, ainda, do evitamento de sanções que são aplicadas aos desviantes ou inconformistas. Neste caso, de inconformismo, o indivíduo ou o grupo reage à submissão, não se conformando a crenças ou comportamentos do grupo.
A norma é "um conjunto de valores, regras, tradições e padrões  partilhados por um grupo social que regem as relações entre os seus membros" (Maxime Morsa, «Normidabe!!!» et si la norme nous voulait du bien?, le cercle psy,nº 23, p.80-83). Mas também pode acontecer que  não nos identificamos com aquelas regras, valores, tradições e padrões  do grupo.  É nisto que consiste este aspecto paradoxal da norma.
É importante ser aceite pelo seu grupo de pertença e não se pode ir contra as normas que ele defende. As normas são muito importantes no grupo de pares e ser excluído do grupo é, psicologicamente e fisicamente, desagradável.(M.Morsa)
Quando somos crianças e alunos uma das piores coisas que nos pode acontecer  é sermos excluídos do jogo do grupo. Muitas queixas aos professores e aos pais  acontecem porque "os meninos não querem brincar comigo...” ou, o que pode ser uma forma de bulling, quando os colegas combinam nunca passar a bola a um determinado aluno, excluindo-o dessa forma do grupo, quando é sempre o último a ser escolhido para a equipa, ou, quando muito, é, sistematicamente, obrigado a ficar a baliza.

É fundamental para o indivíduo ter um quadro de referência  e incluir o  grupo de pertença. Sem a norma viveríamos numa incerteza total e permanente o que tornaria a existência muito desconfortável. Imaginemos viver num mundo onde não se faça ideia do  que se considera como bem ou mal, aceitável ou não, valorizado ou não ... Não se pode começar tudo de novo todos os dias, a   norma tem um efeito informativo que nos permite agir. Felizmente ela é dinâmica e varia no tempo e no espaço, o que  significa que ela pode mudar  quando é infundada,  faz parte da construção da realidade e nós próprios participamos na sua construção. (M.Morsa)
Podemos estar então perante normas divergentes conforme o grupo social a que se pertence e dentro do próprio grupo social. 3
A normas são o quadro de referência para o individuo e grupo, e esse é o lado positivo, mas podem também levar ao conformismo que tem a força  negativa de avaliação e discriminação dos outros, ou de  normopatia, que leva a formas de pensar e de agir rígidas que não deixam a pessoa mudar mesmo perante a evidência da realidade e da verdade como acontecia com a experiência referida.
"A normopatia  diz respeito à ausência de subjetividade para reagir perante o que acontece à sua volta, numa atitude extrema de conformismo". M. Fontes, Knoow 4
Quando a norma é vivida desta forma, provavelmente, apenas traz sofrimento ao próprio e aos outros, como está a acontecer com a submissão a grupos de vários tipos, como grupos autoritários e terroristas.

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1 Para Asch, o conformismo corresponde a seguidismo, ou seja, o sujeito conserva a sua própria opinião mas assume publicamente a opinião da maioria.
Para Serge Moscovici o conformismo distingue-se do seguidismo, que é a vontade de parecer conforme à norma, o que constitui uma modificação aparente e superficial dos comportamentos, sem mudança real da convicção interna. (Wikipedia - Conformidade)
2 A quase uma terça parte das perguntas os sujeitos deram a resposta errada (32%).
3 As redes sociais são bem o exemplo de grupos de pertença onde cada um defende as normas do respectivo grupo social. Os estudos também indicam que temos tendência a sobrestimar o número de pessoas que estão de acordo com as nossas opiniões nas redes sociais. (M. Morsa)
4 Pierre Weil  refere o termo “normose”.

Bibliografia
Quão poderosa é a tendência para a conformidade social? Solomon Asch (1907-1996), O livro da psicologia, Marcador, p. 224-227
Maxime Morsa, «Normidabe!!!» et si la norme nous voulait du bien?, le cercle psy,nº 23, p.80-83

18/05/17

Atavismos culturais de esquerda


No último fim de semana, em especial no dia 13 de Maio, vários acontecimentos, como a visita do papa a Fátima, a vitória de Salvador Sobral no festival da Eurovisão, o tetracampeonato do Benfica, trouxeram à nossa vida colectiva algum colorido emocional e social, vivido genuinamente pelas pessoas em manifestações diversas, mas também aproveitado pelos políticos, principalmente candidatos a próximas eleições.
Embora os públicos destes eventos não sejam os mesmos, ainda que haja sobreposição em algumas situações, como acontece com portistas e sportinguistas que não tiveram um grande dia de felicidade, podemos dizer que a autoestima melhorou.
A coincidência destes sucessos nestas actividades relembram que há determinadas áreas da nossa vida colectiva que alguns insistem em ver como negativas.
Sou do tempo em que para criticar o regime político se cantava: “Paradas e procissões/Fátima, fados e bola/São as estas as distracções/De um povo que pede esmola” .
O jargão dos três “f”, “Fátima, fado e futebol”, tem hoje menos acrimónia e uma valoração diferente (o fado foi considerado património imaterial da humanidade). Já se percebeu que este país é muito mais do que estas “distracções” e também se percebeu, que não são as características nem as capacidade genuínas de um povo responsáveis pela sua sobrevivência com esmolas, ou resgates financeiros, mas a falta de capacidade para se auto-organizar, auto-governar e o desprezo pelos valores morais e espirituais. Basta olhar para o mundo para se perceber o que faz e quem faz a miséria das nações. Por isso, era tempo de nos livramos de atavismos culturais de esquerda e de todos os atavismos.
O importante era que as vitórias fossem uma aprendizagem para relevar o que são características positivas de um povo: a espiritualidade, a música, o desporto...
Talvez tenha sido na área da música que surgiu o mais inesperado: Uma música que resultou da criatividade de Luísa Sobral, arranjos de um músico vindo do jazz, Luís Figueiredo, e de uma interpretação limpa e simples onde o que releva é mesmo a música.
Não basta que haja uma melhoria da autoestima. Na realidade, as consequências desta vitória poderiam ser importantes se houvesse uma aposta na música de forma mais sedimentada, um projecto nacional que tornasse a música obrigatória em todos os anos de escolaridade do ensino básico e uma maior possibilidade de escolha no secundário.
Sabemos que a música tem grande importância no desenvolvimento do ser humano, em especial no desenvolvimento infantil. Temos informações suficientes para não podermos ignorar que:
- estudar música melhora as funções executivas do cérebro, responsáveis por capacidades como memória, controle da atenção, organização e planeamento do futuro. (Pesquisa da Universidadede Vermont, Estados Unidos)
- o contacto com a música, ainda que apenas como ouvinte, tem um grande impacto no desenvolvimento humano e prepara o cérebro para executar diferentes tipos de funções. (Elvira Souza Lima)
Por tudo isto, viva Fátima, viva o futebol, viva o fado e a música! Quando nos libertarmos dos atavimos de direita e de esquerda restará a cultura e todos os sucessos que conseguirmos obter serão vividos com felicidade, como fio condutor da nossa vida.

12/05/17

Hoje apetece-me ouvir: Arvo Pärt

 Arvo Pärt - Magnificat - King's College Choir


Talvez aqui.
Arvo Pärt - Magnificat - King's College Choir of Camridge

"A minha alma glorifica o Senhor
e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador.
Porque pôs os olhos na humildade da sua serva.
De hoje em diante, me chamarão bem-aventurada todas as gerações.
O Todo-poderoso fez em mim maravilhas. Santo é Seu nome.
A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem.
Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos.
Derrubou os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias.
Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia,
como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência, para sempre."

10/05/17

A fé, por estes dias de Maio




A fé, por estes dias de Maio, está fortemente presente na vida de muitas pessoas. Elas falam da fé nas peregrinações que decidiram fazer percorrendo os caminhos de Fátima. Para a maioria dos peregrinos esta aventura é devida à fé, para alguns, talvez, apenas à ideia de peregrinar.
A fé não é uma coisa que se compre nas igrejas, ou que se adquira estudando nos livros sagrados, ou nos outros, ou tampouco se dissolva com o ateísmo.
A fé tem uma origem e desenvolve-se ao longo da nossa vida e não é a mesma coisa quando somos crianças ou adultos. Com propriedade ouvimos algumas pessoas dizer que "o importante é crescer na fé".

Para a psicologia do desenvolvimento, de facto, a fé vai-se construindo e vai crescendo à medida que também as outras capacidades da nossa vida, cognitiva, emocional, social e moral se vai desenvolvendo. Tem crises e conflitos e pode passar por dúvidas ou parar num determinado estádio.
Em 1981, James Fowler, psicólogo e teólogo, publicou o livro Estádios da Fé - psicologia do desenvolvimento humano e a busca de sentido.
A fé para Fowler é entendida como "religiosa ou não religiosa: uma pessoa pode ter fé num deus, na ciência, na humanidade ou numa causa à qual atribui valor fundamental". (Papalia, D. e Olds, S., Desenvolvimento Humano, 7ª ed, Artmed, p 386-387)
Os estádios da fé estão na linha de pensamento de Piaget, desenvolvimento cognitivo, Kohlberg, desenvolvimento moral, Erikson, desenvolvimento psicossocial, Levinson, estádios da vida adulta, e Selman, desenvolvimento social.
Até aos dois anos de idade a criança depende de outras pessoas, adquire a confiança básica, aprende a linguagem e a ter autonomia em alguns aspectos.
A partir dessa altura, a fé desenvolve-se de acordo com os seguintes estádios:
Estádio 1: fé intuitiva-projectiva (de 18-24 meses a 7 anos): a criança esforça-se por compreender as forças que controlam o mundo. As crianças têm imagens poderosas, imaginativas muitas vezes apavorantes e às vezes duradouras de Deus, do céu, do inferno. São imagens das histórias contadas pelos adultos ou que vêem ou lêem. São muitas vezes irracionais, onde realidade e fantasia se confundem.
Estádio 2: fé mítica-literal (7 a 12 anos): as crianças estão no estádio das operações concretas e estão mais lógicas, tendem a interpretar os símbolos e histórias religiosas literalmente, enquanto adoptam as crenças e costumes da sua família e comunidade. Elas acreditam que Deus é justo e as pessoas ganham o que merecem.
Estádio 3: fé sintética-convencional (adolescência ou posteriormente): O adolescente é capaz de raciocínio abstracto. À medida que busca a identidade procura um relacionamento mais pessoal com Deus. A sua identidade ainda não tem bases seguras e procura os outros em busca de autoridade moral. A sua fé não é questionada e conforma-se aos padrões da comunidade.
Estádio 4: fé individual-reflexiva (desde os 20 anos.): os adultos que atingem este estádio pós convencional têm uma fé crítica, subjectiva e pessoal, independentemente da autoridade externa e das normas do grupo.
Estádio 5: fé conjuntiva (meia-idade e depois): as pessoas tornam-se mais conscientes dos limites da razão. Conhecem os paradoxos e as contradições da vida e lutam com os  conflitos entre a satisfação dos seus próprios desejos e o sacrifício pelo outro .
Estádio 6: fé universal (terceira idade): Vai para além das culturas e credos. Estádio socialmente proactivo e propositivo de ideias que rompem com o estabelecido. Fowler coloca neste estádio líderes espirituais e morais como Gandi, Luther King, Madre Teresa... (Papalia, D. e Olds, S., Desenvolvimento Humano, 7ª ed, Artmed, p 386-387)

Nunca o mundo precisou tanto de pessoas com estes níveis de desenvolvimento da fé, de líderes simples, humanos e lúcidos, para quem a vida de uma só pessoa vale a luta pela paz.

Hoje apetece-me ouvir: Zaz e...

Charles Aznavour - J'aime Paris au mois de Mai

Talvez aqui!

"J'aime Paris au mois de mai
Quand les bourgeons renaissent
Qu'une nouvelle jeunesse
S'empare de la vieille cité
Qui se met à rayonner

J'aime Paris au mois de mai
Quand l'hiver le délaisse
Que le soleil caresse
Ses vieux toits à peine éveillés"



Placido Domingo - La chanson des vieux amants 


"Mais, mon amour
Mon doux, mon tendre, mon merveilleux amour
De l'aube claire jusqu'à la fin du jour
Je t'aime encore, tu sais, je t'aime" 

Duas gerações, a cooperação das gerações, a sabedoria dos mais velhos, um património incalculável, a renovação: Qu'une nouvelle jeunesse/ S'empare de la vieille cité, em que os mais frágeis devem ser/ter cuidados porque não são descartáveis, porque um dia, ainda que no mês de Maio, todos seremos velhos amantes.

05/05/17

Primavera...

"Spring Waltz", de Chopin
que é "Mariage d 'amour", de Paul de Senneville

"Mariage d'amour" é uma peça de música para piano francesa, composta por Paul de Senneville, em 1987, e primeiramente tocada pelo pianista Richard Clayderman, do seu álbum "Lettre à ma Mère", em 1994. Mais tarde, o pianista George Davidson executou esta música no seu álbum "My Heart Will Go On", com uma versão ligeiramente diferente. Esta peça é por vezes erroneamente atribuída a Frédéric Chopin como Valsa da Primavera, devido a um upload no YouTube com o título errado."


Porém, há uma canção de Chopin, Wiosna (Primavera), (Op. 74, nº 2).

F. Chopin - Wiosna, Op.74, nº 2; soprano - Aleksandra Kurzak


... Apesar do engano, apesar do frio e da chuva...

Internet e dependência



A semana passada falámos das implicações dos videojogos no cérebro, falámos sobretudo dos efeitos benéficos. Terminámos a nossa conversa dizendo que os pais deviam controlar essas situações de jogo. Ora sabemos que não é fácil exercer esse controlo quando a Internet e os videojogos estão por todo o lado e o problema, mais genérico, refere-se a todo o mundo virtual.
Não podemos ignorar que videojogos e Internet podem criar dependência e emoções destrutivas, desadaptativas ou desorganizativas da personalidade.
O assunto tem vindo a ganhar relevo e “a indústria dos videojogos tem sido fortemente criticada pelos seus conteúdos mais violentos desde o massacre em Newtown (EUA)" e com a recente controvérsia gerada pelo jogo Baleia azul.
Entre nós, a controvérsia gerada com a comparação que Quintino Aires estabeleceu entre a dependência dos videojogos e a dependência da droga, vai certamente continuar.
Por seu lado Eduardo Sá, considera que “… a adição, como qualquer outra doença relacionada com os videojogos, poderá levar a comportamentos mais violentos e agressivos. Mas “os videojogos não conseguem, no entanto, mudar uma criança saudável a nível psicológico através dos seus conteúdos.” (Programa Falar Global).

Samuel Silva, ("Mais de 70% dos jovens portugueses com sinais de dependência da Internet", Público, 03/11/2014) refere alguns estudos realizados em Portugal. Em 2014, num estudo do ISPA, conduzido por Ivone Patrão, com jovens e adolescentes dos 14 aos 25 anos, envolvendo quase 900 inquiridos, verificou-se que “73.3% dos jovens portugueses mostra sinais de dependência do mundo digital; mostra também que 13% dos casos são graves, que se manifestam através dos comportamentos mais extremos ( isolamento e comportamentos violentos.
Os próprios jovens parecem ter noção disto, uma vez que mais de metade (52,1%) dos inquiridos se percepciona como “dependentes da Internet”.
As características destes jovens são as seguintes:
- grau elevado de importância conferido ao computador ou aos dispositivos móveis;
- sintomas de tolerância face ao uso;
- sintomas de abstinência face ao não uso (como irritabilidade, dores cabeça, agitação e por vezes agressividade) e, em casos mais extremos, recaída face às tentativas sucessivas para parar.
- quase um quarto dos jovens (22,1%) apresenta elevados níveis de isolamento social.
Na primeira fase do estudo tinha-se verificado que os jovens dependentes são sobretudo do sexo masculino, não têm relacionamento amoroso e frequentam o ensino secundário.

Outros estudos recentes (Faculdade de Ciência Sociais da Universidade Nova de Lisboa, Cristina Ponte, que liderou os projectos EU Kids Online e, mais recentemente, Net Children Go Mobile) confirmam os sinais de uma geração cada vez mais dependente da tecnologia;
 6% dos jovens admitem ter ficado “sem comer ou sem dormir por causa da Internet”, por exemplo;
 "Há uma pressão para estarem sempre ligados”.

Marisa Pinto ( "Dependência dos Jovens em Internet e Jogos Electrónicos", 13-9-2012) refere
Kimberly Young que aponta como típicos os seguintes comportamentos nestas pessoas com dependência da Internet:
- Preocupação excessiva com a Internet;
- Necessidade de aumentar o tempo online para ter satisfação
- Exibir esforços repetidos para diminuir o tempo de uso da Internet;
- Presença de irritabilidade e/ou depressão;
- Quando o uso da Internet é restringido, apresenta labilidade emocional (Internet serve como forma de regulação emocional);
- Permanecer mais online que o programado;
- Trabalho e relações sociais em risco pelo uso excessivo;
- Mentir aos outros a respeito da quantidade de horas online.
Refere também que Brown (1993) sugere como características centrais do uso excessivo dos jogos electrónicos:
- O jogo torna-se na coisa mais importante da vida do sujeito;
- Sensação de prazer e alívio quando está a jogar;
- Necessidade de jogar por períodos mais longos de tempo;
- O sujeito sente desconforto quando não pode jogar;
- Existência de conflito com outras pessoas, em actividades sociais e com ele próprio…
- Tendência para voltar a jogar excessivamente após uma interrupção.
A dependência destas tecnologias traz consigo consequências, como por exemplo:
- Má alimentação;
- Desregulamento dos sonos;
- Falta de convívio social;
- Não sair de casa;
- Troca da vida real pela vida “virtual”;
- Baixa auto-estima;
- Falta da prática de desporto.

Por isso, é importante estar atento aos sinais e trabalhar na prevenção.


26/04/17

Cérebro e jogo

Daqui  - Origem do Tetris

Discute-se muito se os videojogos e a Internet tem influência positiva ou negativa na  saúde mental dos utilizadores, ou dito de outra forma, se poderá ter efeitos benéficos sobre o cérebro, quando usada dentro de limites adequados, conjugando esta actividade com todos os outros aspectos da vida.

Na área dos videojogos, quase todos os dias surgem novidades, mas mesmo assim, os estudos existentes podem dar-nos indicações sobre a normalidade do comportamento ou sobre o seu disfuncionamento quando jogamos.
Do ponto de vista industrial e comercial, é um dos sectores em grande desenvolvimento. “A indústria dos videojogos vale mais do que a do cinema e música juntas e, só em Portugal, já existem quase cem empresas nesta área,”(Lisboa Games Week, (FIL), Lusa, 06/11/2015)
Por outro lado, "os avanços em campos como a nuvem, o streaming e a redução de hardware, que agora é capaz de oferecer potência dentro do tamanho de um telemóvel ou um tablet, são aspectos fundamentais que determinarão a evolução das consolas.”… “O software para consolas vai deixar de sê-lo nos próximos dois a três anos ( Michael Pachter, referido por Luís Alves)
cursos superiores de jogos digitais e multimédia, tanto no ensino privado como estatal.

Do ponto de vista da saúde mental, sempre houve pessoas viciadas em jogo. Nos casinos ou fora deles, os jogos de fortuna e azar, como bingo, máquinas caça-níqueis, jogos de cartas, lotaria, raspadinha e até bolsa de valores, podem causar compulsão. (Calcula-se em até 2% da população brasileira; entre 0,16 e 0,20 por cento da população potencialmente dependente, dados de há 10 anos). Todas essas formas de jogo continuam a existir e também os problemas daí resultantes.
Mas as tecnologias digitais, a que qualquer criança ou adolescente tem acesso, trouxeram outras formas de jogo e novos desafios. De facto, os jogos tradicionais foram em grande parte substituídos por estas novas formas de jogar e, como em geral acontece, os videojogos têm efeitos positivos e negativos no cérebro.
“Os videojogos têm sido associados ao comportamento violento e a perda de concentração nas crianças No entanto, estudos recentes mostram agora que têm efeitos neurológicos benéficos: potenciam a atenção e desenvolvem a coordenação “. (O cérebro e os videojogos, Lusíadas)
O problema está na sua utilização ser feita ou não na justa medida. E, certamente que a justa medida, será aquela em que sou eu que comando a máquina e não a máquina que tem domínio sobre mim.
Podemos resumir alguns dos efeitos positivos verificados em vários estudos (O cérebro e os videojogos, Lusíadas): Na ambliopia (Tetris, p.ex.); Melhores resultados na escola, entre os 6 e os 11 anos; Estimula a criatividade (estudo com alunos de 12 anos); Reforça a confiança; Estão também a ser desenvolvidos jogos terapêuticos para aumentar a atenção e minimizar a distracção.
Os efeitos negativos podem ser verificados a partir de casos individuais: A exposição abusiva a jogos violentos pode aumentar a possibilidade de aparecimento de pensamentos, sentimentos e comportamentos agressivos a curto e longo prazo; Os utilizadores de jogos violentos têm propensão para a ansiedade; Uma semana de videojogos violentos pode levar a uma diminuição da actividade no lobo frontal interior esquerdo do jogador em processos emocionais e, também, no córtex cingulado anterior, na execução de tarefas matemáticas; O excesso de horas de jogo conduz a diminuição da actividade do lobo pré-frontal o que pode causar mudanças de humor e comportamentos agressivos prevalecentes mesmo depois de desligar o jogo.  
Os pais devem, por isso, limitar o tempo que a criança ou adolescente dedica aos videojogos e terem todos os cuidados quando se trata de jogos violentos.
Jogar videojogos, sim, mas com conta, peso e medida.