28/02/17

Hoje apetece-me ouvir: Saint-Saëns

Saint-Saëns - Le carnaval des animaux (1886)



A suíte é composta por 14 movimentos:
I - Introdução e Marcha Real do Leão (0;00)
II - Galinhas e Galos (2;00)
III - Hemíonos (Animais velozes) (2;42)
IV - Tartarugas (3;22)
V - O Elefante (5;25)
VI - Cangurus (6;58)
VII - Aquário (7;52)
VIII - Personagens de orelhas compridas (9;58)
IX - O cuco nas profundezas dos bosques (10;35)
X - Pássaros (12;41)
XI - Pianistas * (13;52)
XII - Fósseis (15;16)
XIII - O Cisne (16;41)
XIV - Final (19;41)


"Pre-mortem", pensar antecipadamente...



23/02/17

Ler para crescer

Creio que a maioria de nós começou por ouvir histórias em casa, lidas ou contadas oralmente. No meu tempo de criança não abundavam os livros e ainda menos os livros infantis. Não é conversa fiada aquela de que o primeiro livro que ouvimos ler, ou lemos, foi a Bíblia. Era de facto o que havia. Além disso, talvez houvesse um ou outro livro escolar, que os pais sabiam de cor.
Ao contrário do que se diz agora, os livros escolares não eram para deitar fora porque serviam para os irmãos e primos mais novos, não eram para deixar mais ou menos em estado lastimável porque havia a preocupação de os estimar e também não eram para outros alunos carenciados porque eram totalmente pagos pelos pais.
Os livros e os livros escolares carregam o peso individual da pertença e, acima de tudo, contam histórias pessoais, algumas de espanto outras de tristeza, de sucesso e de fracasso, de louvores e castigos, aonde podemos voltar sempre que assim o entendermos. 
Em muitas casas são ainda hoje os livros que existem. Na minha era assim.
A pouco e pouco a biblioteca foi-se construindo chegando, hoje, a vários milhares de exemplares, sendo a maioria das áreas de que gostamos, no meu caso, obviamente, da psicologia.
Os livros são de facto companheiros inseparáveis , insubstituíveis. ... e fizeram parte do meu crescimento.
Foi assim que cresci com os livros de histórias da Bíblia ou da história do país, contadas ou lidas pelos pais.
Foram, juntamente com os companheiros, os primeiros professores e mestres que tratavam da sexualidade, do amor, da existência, da fé, do Mundo e do que está para lá do mundo.

"São raros os instrumentos educativos que possuem tantas virtudes como o livro. Ele é para os mais pequenos assimilável a um brinquedo que estragam e maltratam….” e até comem…
Eu tenho alguns, em parte comidos, em parte com garatujas e outros desenhos que os tornam, para mim, ainda mais valiosos…
As crianças muito pequenas começam por ter imensa curiosidade em relação aos livros: folheiam, apontam as imagens, nomeiam e imitam os sons das imagens e gostam dos conteúdos afectivos das personagens, os bons e os maus. 
Gostam que lhes contem histórias, lidas ou não nos livros, com mais ou menos liberdade mas não pensem em mudar muito o conteúdo porque depressa elas dizem que não é assim.
Gostam de recontar as histórias mesmo que seja completando as deixas de quem lhes estiver a ler.
“A diferença entre o objecto real e a imagem que ela representa vai dar origem à representação simbólica do mundo. 
Entre os 18 meses e os 2 anos o desenho representa qualquer coisa que ela pode reconhecer e que o texto conta uma historia,  é um verdadeira mudança que se opera e é a verdadeira entrada na linguagem.”
Em crianças com grande atraso de desenvolvimento, esta capacidade não está adquirida e não fazem esta distinção… 
A criança começa por apontar uma imagem,  em seguida nomeia a imagem,  posteriormente, os pormenores dessa imagem e, finalmente, é capaz de recontar a história, com acções e minúcias 1.
E, assim, a criança está cada vez mais embrenhada no mundo relacional “que lhe abre o acesso ao processo de filiação permitindo uma inscrição na cultura”
Os afectos estão aqui presentes e “a qualidade da narrativa reflecte aquela (relação), segura, insegura ou evitante, das primeiras ligações mãe-criança ou criança-pais... a voz da mãe, a sua música, as mímicas que a criança pode ler no seu rosto, a troca de olhares, numa palavra o prazer do jogo à volta da leitura dum livro são experiências sem fim concreto, mas sem as quais o desenvolvimento da criança não será o mesmo.”
Ou seja, o fim é o crescimento e, então, é necessário, ler para crescer 2.
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1. Os testes de maturidade para a leitura e escrita contêm uma prova deste tipo, onde os critérios de avaliação se baseiam no número de acções e minúcias que a criança é capaz de reproduzir.
2. Anne-Claire Thérizols, "Lire pour grandir", le cercle psy,  nº 23 , pag 46-49.

16/02/17

Logoterapia: A vida tem sentido


A relação paciente-terapeuta é de extrema importância no trabalho psicológico, na psicoterapia. “Esta relação entre as duas pessoas é o aspecto mais significativo do processo terapêutico, um factor mais importante que qualquer método ou técnica . ("Instrumentos y técnicas de logoterapia")
Assim acontece em várias abordagens psicológicas, como nas três escolas de psicoterapia austríacas: a psicanálise de S. Freud, a psicologia individual de A. Adler e a logoterapia de V. Frankl.
"Para a Logoterapia, a busca de sentido na vida da pessoa é a principal força motivadora no ser humano... a é considerada e desenhada como terapia centrada no sentido. Vê o homem como um ser orientado para o sentido". (Frankl). De facto, o homem sempre procurou dar um sentido à sua vida, à sua existência e ao seu sofrimento.


A falta de sentido significa o vazio existencial, ter que viver a vida como se fosse um absurdo, como defendem alguns filósofos.
O niilismo existencial, por outro lado, argumenta que a vida não tem sentido objectivo, propósito ou valor intrínseco… para o niilismo existencial um único ser humano ou mesmo toda a espécie humana é insignificante, sem propósito e irrisória a ponto de não mudar em nada a totalidade da existência. Dada esta circunstância, a própria existência — toda a acção, o sofrimento e sentimento — é, em última instância, sem sentido e vazia. 
Pelo contrário, esse sentido da vida, começa muito cedo. E essa perspectiva de existir com sentido, coloca-nos num futuro onde sabemos que se situam os nossos interesses, enquanto motivação, e aquilo que podemos fazer por nós e pelos outros.
Claro que se coloca com mais acuidade em determinados momentos da vida, como quando temos que fazer face a situações de crise, desde a escolha de um curso, uma profissão ou a perda de um familiar. Estas escolhas, ou decisões, motivam para a vida e dão sentido às nossas actividades.

No momento em que se discute a eutanásia, a informação e o debate sinceros são necessários, apesar da complexidade do tema.
A psicologia, na relação psicólogo-paciente, oferece-nos esta possibilidade de procurar um sentido, uma intervenção onde se poderão encontrar perspectivas para uma resposta a um problema ético tão crucial.
A experiência de V. Frankl, nas circunstâncias mais adversas da vida, onde o sofrimento atingia as formas mais deshumas de existência, mostra que é possível dar um sentido à vida e ao sofrimento.
“O sentido é algo que não inventamos mas sim que descobrimos e devemos ser nós próprios a encontrá-lo”… “O ser humano, diz-nos V. Frankl, tem dois potentes recursos psicológicos que lhe permitem suportar as situações mais dolorosas e seguir em frente: a capacidade de decisão e a liberdade de atitude”. “Não estamos à mercê do nosso ambiente nem dos acontecimentos, pois somos nós que decidimos como deixamos que nos moldem.” (O livro da psicologia, Marcador, DK, p.140)
Assim, a vida tem sentido até ao fim.

14/02/17

As minhas serigrafias: Jorge Calero

Jorge Calero - Nectar - 1997

Técnica: Serigrafia
Suporte: Papel Fabriano D5 GF 210g; Dimensão da Mancha: 45x30 cm; Dimensão do Suporte: 70x50 cm
N.º de cores: 23
Data: 1997
Nº de Exemplar: 19/200



"Nasceu em Cali, Colômbia, a 25 de Junho de 1960. Entre 1980 e 1984 frequentou o Curso Superior de Artes Plásticas na Escola "Angel Maria Valencia", Cali. Em 1983 tirou os Cursos de Serigrafia e Foto-Serigrafia no Museu de Arte Moderna "La Tertulia", de Cali, e em 1984 o Curso de Gravura em Metal, com o Mestre Helio Salcedo. Concluiu o Curso de Estética Contemporânea na Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa, 1989. E em 1991 o Curso de Arte Portuguesa do Século XX, no Ar.Co, Lisboa. Foi, durante três anos, impressor de serigrafia no atelier "Corporación Prografia" de Cali e professor de artes plásticas na Universidade Livre de Cali (1986) e no Colégio Idea (1987). Reside em Portugal desde Janeiro de 1988 e tem realizado várias exposições em território nacional assim como internacional."

As minhas serigrafias: Renato Rodyner

Renato Rodyner - "Gato" - 1996

Técnica: Serigrafia
Suporte: Papel Fabriano D5 GF 210g; Dimensão da Mancha: 45,6x38 cm; Dimensão do Suporte: 70x50 cm
N.º de cores: 39
Data: 1996
Nº de Exemplar: 37/200


"Nasceu em 1962 em Porto Alegre, Brasil. Durante os anos 70 e 80 frequentou o Centro de Desenvolvimento de Expressão (RGS – Brasil) e participou em várias exposições. Vive em Portugal desde 1990 onde, além de trabalhar como pintor, é também jornalista. Está representado em várias coleções públicas e privadas.
Desde 1974 no Brasil e a partir de 1990 em Portugal que tem participado em exposições individuais e coletivas."


A diferença és tu


Chantal Chamberland - What a Difference a Day Made

A versão de Dinah Washington  não está disponível.  Mas hoje, dia dos namorados, nem governo, nem oposição, nem ninguém faz a diferença... A diferença és tu. Como sempre.

08/02/17

Incerteza, ansiedade e o sentido da vida

A incerteza está sempre presenta na nossa vida. Por falta ou por excesso de informação, como nos dias de hoje, os acontecimentos políticos e sociais exercem maior influência na nossa vida psicológica 
As perturbações de ansiedade podem desenvolver-se a partir de um conjunto de factores de risco biológico, de personalidade e também da incerteza que envolve os acontecimentos da vida (life events). A dificuldade em tolerar a incerteza favorece o aparecimento da ansiedade.
É, por isso, que se recorre a defesas como a racionalização e a negação da incerteza que leva as pessoas a quererem saber o seu futuro: o que vai acontecer à sua relação, ao seu dinheiro, o que vai acontecer aos filhos… Têm necessidade de saber o que dizem as cartas ou procuram outras formas de adivinhar o futuro, pensando reduzir a incerteza na sua vida.
No entanto, continuamos sem poder de controlo nestas situações. E, desde logo, a ansiedade e o sofrimento podem ser reduzidos se deixarmos de querer saber e de controlar o futuro.
Há muitos anos, Epicteto, filósofo grego, que foi levado para Roma, ainda jovem, como escravo, fazia a distinção entre aquilo que é da nossa responsabilidade e o que não é. O problema é que queremos controlar aquilo que não tem a ver connosco e não está na nossa mão poder resolver.
Dizia Epicteto: “Das coisas existentes, algumas são encargos nossos; outras não. São encargos nossos o juízo , o impulso , o desejo , a repulsa – em suma: tudo quanto seja acção nossa. Não são encargos nossos o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos – em suma: tudo quanto não seja acção nossa. 
Por natureza, as coisas que são encargos nossos são livres, desobstruídas, sem entraves. As que não são encargos nossos são débeis, escravas, obstruídas, de outrem.” (O Encheirídion de Epicteto)
Todos passamos por crises existenciais em que questionamos o sentido da vida. 
São crises provocadas por eventos importantes da vida, como casamento, divórcio, perdas pela morte de familiares, acidentes, relações familiares difíceis, crises da idade: adolescência, meia idade, velhice.
Viktor Frankl, médico psiquiatra, diz-nos, pela sua experiência, que “nos campos de concentração os mais aptos a sobreviver eram os que tinham uma tarefa a cumprir após a sua libertação.” “Apenas o sentimento
de ter uma missão, uma “vocação” a realizar dá sentido à vida, mesmo nos momentos de maior desespero”.
("Les psys face à la question existentielle")
“Há três caminhos principais através dos quais se pode chegar ao sentido na vida. O primeiro consiste em criar um trabalho ou fazer uma acção. O segundo está em experimentar algo ou encontrar alguém; em outras palavras, o sentido pode ser encontrado não só no trabalho, mas também no amor”
“O mais importante, no entanto, é o terceiro caminho para o sentido na vida: mesmo uma vítima sem recursos, numa situação sem esperança, enfrentando um destino que não pode mudar, pode erguer-se acima de si mesma, crescer para além de si mesma e, assim, mudar-se a si mesma. Pode transformar a tragédia pessoal em triunfo. “(Viktor E. Frankl, Em busca de sentido - Um psicólogo no campo de concentração)
Ter um sentido na vida é fundamental para ultrapassar o sofrimento que resulta da incerteza e da ansiedade.