19/01/17

Expectativas


O primeiro-ministro A. Costa tinha a expectativa de que os partidos de oposição (designadamente o PSD) aprovariam o aumento do salário mínimo nacional em troca do abaixamento da TSU.  
Na política do actual governo tem sido assim: dar com uma mão o que tira com a outra. Mais uma vez, para o primeiro-ministro, esta medida não tinha custos. Quem não percebe de economia sabe,  pelo menos, que a segurança social paga a despesa. Entretanto, o ministro da segurança social veio dizer que no ano passado a despesa correspondeu a 11 milhões de euros.
Na política internacional vive-se mais ou menos de expectativas. Trump, que amanhã será presidente dos Estados Unidos, tem a expectativa de que vai ter uma boa relação com Putin…
Na vida pessoal vivemos de expectativas. Eu tenho a expectativa de que um dia hei-de ganhar o euromilhões pois há vinte anos anos jogo todas as semanas sempre com a mesma chave.
E assim é feita a nossa vida de expectativa em expectativa. 
Também é fácil constatar que expectativas elevadas levam muito provavelmente ao fracasso. Pelo contrario expectativas baixas dão-nos a possibilidade de termos agradáveis surpresas.
O que acontece nos concursos das televisões got talent, voice de Portugal… mostra que se formulamos expectativas baixas, normalmente somos surpreendidos. Claro que só é surpresa porque criámos expectativas baixas, a partir da roupa, da cara, do corpo da idade, da postura, de preconceitos… que afinal pouco têm de essencial para o que é avaliado.
No trabalho psicológico com crianças ou adolescentes com dificuldades sociais e de de aprendizagem era frequente manifestarem grandes expectativas. Esperavam ter um futuro muito bom em que teriam uma grande vivenda, um grande automóvel… Mas também havia outros alunos que não queriam ouvir falar de futuro e não tinham qualquer expectativa. O que naquele momento a família e a escola pediam e queriam era que estudassem e tivessem bom comportamento. No entanto, estes alunos preferiam viver a sonhar com o futuro ou num presente vazio. 
Gerir as expectativas é uma das nossas grandes dificuldades. Podemos viver como se tudo nos fosse correr mal e então esperar pelo dia da morte ou viver como se fôssemos imortais como faz a gerontocracia que se mantém no poder até cair da tripeça.
Para algumas "teorias", "as expectativas não nos permitem viver em liberdade, aceitando o curso das coisas, já que acreditamos que pelo fato de desejarmos algo de verdade, seja aprovação, perfeição ou comodidade, isso tem que obrigatoriamente ocorrer. A realidade é que o que tiver que acontecer irá acontecer, estejamos ou não de acordo." (Viver sem expectativas)
É por isso que é muito importante ter pensamento positivo mas não é suficiente Como é importante ter auto-estima mas não como se fosse algo de mágico. Temos dentro de nós um pequeno ditador (eu devo ser, eu devo fazer…) que nos impõe expectativas muitas vezes excessivamente elevadas e, então, não podemos falhar sob pena de considerarmos que somos um fracasso.
Saramago dizia que (cito de cor) "aquilo que tiver que ser meu à mão me virá ter". Mais do que esperar o destino melhor será viver a vida como ela é.
E como este assunto tem pano para mangas, tenho a expectativa de voltar a ele na próxima semana.


17/01/17

"Nunca desistas"

Quando os pais e professores se interessam pelas crianças, então é possível lutar contra o sistema, incluindo os sindicatos de que fazem parte. O mais importante do sistema educativo são os alunos e não o resto. Infelizmente, a maior resistência à mudança vem das corporações. Esta realidade acontece não só na sociedade onde se desenrola o filme mas também em qualquer outro local, sendo particularmente acutilante no actual estado da educação nacional. 
A autonomia incomoda-os e é preciso viver sempre na sua dependência, no seu centralismo, na sua "entourage", desde a colocação de professores à "gratuitidade" dos livros e ao silêncio do "manifestódromo". 
A RTP passou, um destes dias, esta história de pais e professores que tomam a educação como responsabilidade sua. Então pode haver "esperança" para todas as crianças.

12/01/17

Da era do vazio à era da pós-verdade


Na tentativa de compreender o que se passa connosco e na sociedade, na família e na escola, no trabalho e no desemprego, no consumo e na informação, os investigadores das ciências sociais têm tentado criar conceitos e teorias sobre estas realidades.

A era do vazio (G. Lipovetsky,1983) trouxe-nos a ideia de vivermos numa época caracterizada pelo individualismo. “O direito de o individuo ser absolutamente ele próprio, de fruir ao máximo a vida é inseparável de uma sociedade que erigiu o indivíduo livre em valor principal e não passa de uma última manifestação da ideologia individualista; mas foi a transformação dos estilos de vida associados à revolução do consumo que permitiu este desenvolvimento dos direitos e desejos do individuo, esta mutação na ordem dos valores individualistas".(pág. 9)

A modernidade líquida (Zygmunt Bauman) é “a época actual em que vivemos... É uma época de liquidez, de fluidez, de volatilidade, de incerteza e insegurança. É nesta época que toda a fixidez e todos os referenciais morais da época anterior, denominada pelo autor como modernidade sólida, são retiradas de palco para dar espaço à lógica do agora, do consumo, do gozo e da artificialidade...  em que os referenciais que possibilitavam o desenraizamento e reenraizamento do velho no novo são liquefeitos e, assim, perdidos." Quando já não há tais referenciais, "a vida passa a ser entendida como projecto individual". Referências como "a classe, a religião, a família, a nacionalidade, a ideologia política, são transformadas por uma crescente tendência ao consumo, à transformação das relações sociais em mercadoria, portanto, da própria identidade em mercadoria. Isso pode ser visto principalmente no “processo de desregulamentação política, social e econômica que se manifesta na expansão livre dos mercados mundiais, no desengajamento coletivo e esvaziamento do espaço público”. *

A internet (era digital) é o veículo privilegiado da circulação da informação a nível mundial. Mas também o é para esse processo de desregulação. A utilização anónima por toda a espécie de criminosos e vigaristas: do terrorismo à pedofilia, da violência doméstica ao bullying digitais e às falsas informações de governos.  “…É assim a Internet: o maior espaço sem lei do Mundo.”

O conceito de pós-verdade** foi alimentado “ pela ascensão das redes sociais como fonte de informação e a crescente desconfiança face aos factos apresentados pelo poder estabelecido". ***
A pós-verdade “parte de um processo inédito provocado essencialmente pela avalanche de informações gerada pelas novas tecnologias de informação." Então “os especialistas em informação enviesada ou distorcida (spin doctors), aproveitaram-se das incertezas e inseguranças provocadas pela quebra dos paradigmas dicotómicos para criar a pós-verdade, ou seja, uma pseudo-verdade apoiada em indícios e convicções, já que os factos tornaram-se demasiado complexos”. 
A pós-verdade, ou seja a mentira, terá sempre a perna curta mas, enquanto circula, faz os seus estragos.
O que “vemos, ouvimos e lemos” já não é bem aquilo que “vemos, ouvimos e lemos”. Por isso, cada um de nós deve usar a liberdade por ser responsável e para discernir quando podemos estar a ser enganados... e "não podemos ignorar".

Bom ano de 2017.
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V. Siqueira, Zygmunt Bauman, a biografia de uma lenda viva; Modernidade Líquida, O Que É? T. O. Fragoso, Modernidade líquida e liberdade consumidora: o pensamento crítico de Zygmunt Bauman
** Depois de a revista “The Economist” a ter utilizado na sua capa de 10 de setembro, e de o “Oxford Dictionary” a considerar palavra do ano de 2016, ‘pós-verdade’ entrou na moda para caracterizar os tempos atuais. Porém, a expressão é antiga. Em 1992, foi utilizada por Steve Tesich, um dramaturgo, num ensaio e, em 2004, Ralph Keyes, um cientista político, escreveu um livro intitulado “A Era da Pós-Verdade”. Se Tesich referia o Watergate, Keyes apontava a segunda guerra do Iraque, motivada pela existência de armas de destruição maciça que nunca existiram. (Henrique Monteiro, Expresso)
*** Já temos palavra do ano: 'Pós-verdade'A era da pós-verdade...

26/12/16

Hoje apetece-me ouvir: Уральская рябинушка e...

Уральская рябинушка (tramazeira dos Urais)

Выхожу один я на дорогу

No dia 25 de Dezembro de 2016, o avião Tupolev Tu-154 da Força Aérea Russa, que voava de Sochi com destino à Síria, caiu no Mar Negro, após a descolagem. Entre as 92 pessoas que faleceram, 64 pertenciam ao Ensemble Alexandrov e iriam participar numa celebração de final de ano na base síria de Khmeimim.
A música coral russa que ouvia com frequência na infância sempre me interessou. Das canções da música folclórica russa, Уральская рябинушка, nesta versão, era a minha preferida, mais do que Калинка ou Катюша.
Mais tarde, Выхожу один я на дорогу, com música de Е.Шашина e texto do poeta  М. Лермонтов (Lermontov), passou para primeiro plano.
A música dos grandes coros sempre me fascinou, como a nostálgica canção dos barqueiros do Volga (Эй, ухнем! Οι λεμβούχοι του Βόλγα).
O coro do exército russo - Ensemble Alexandrov - é um símbolo do que foi e é a Rússia, a "arma cantante do seu exército" mas não deixa de ser interessante ouvir o coro cantar a Ave Maria, de Schubert ou o concerto que deram no Vaticano
O coro é muito mais do que essa "arma". A cultura da Europa não termina nos Urais. O povo russo é muito mais do que povo soviético e a música popular russa é universal. Como se pode ouvir nesta extraordinária interpretação de "olhos negros" (Очи чёрные) de Louis Armstrong.

  


22/12/16

A primeira vez

First Time Ever I Saw Your Face - Ewan McColl
Johnny Cash


The first time ever I saw your face,
I thought the sun rose in your eyes.
And the moon and stars were the gifts you gave,
To the dark and the endless sky, my love.
And the first time ever I kissed your mouth,
I felt the earth move through my hands.
Like the trembling heart of a captive bird
That was there at my command.
And the first time ever I lay with you,
I felt your heart so close to mine.
And I know our joy would fill the earth,
And last till the end of time, my love.
The first time ever I saw your face.


21/12/16

Hoje apetece-me ouvir: Vivaldi

 Vivaldi -  As quatro estações - O Inverno

Milagre do Natal

O Natal é uma época festiva com grande expressão para a família. Sendo diferente do passado na sua estrutura, nas suas funções, nem tudo gira à volta dela como então, a família, actualmente, é feita sobretudo da partilha de sentimentos e emoções, de laços que ligam as várias gerações, mesmo que a presença física dos seus elementos nem sempre aconteça. 
Para as crianças continua a ser o tempo de magia que sempre foi. Um tempo carregado de símbolos, onde se reforçam os laços de pertença, se sente a segurança de “tomar conta” em relação aos mais frágeis como as crianças ou os mais velhos. 
Apesar de em muitos locais continuar a haver guerra, insegurança e incerteza, problemas nas famílias – não há famílias perfeitas nem famílias sem problemas - as condições económicas e sociais melhoraram significativamente. 
A nível da saúde  e educação houve melhorias enormes em relação ao passado. A esperança de vida aumentou de tal forma que hoje se encontram ainda vivas, em muitas famílias, várias gerações. “Há apenas duzentos anos, a esperança de vida no mundo ocidental era de cerca de trinta anos” (Bruno Bettelheim, Bons Pais - o sucesso na educação dos filhos, p.516 ) O mito de que “antigamente era tudo muito melhor” não corresponde à realidade. A vida das famílias era bem mais dura do que é hoje. 

Por outro lado, a família teve que se adaptar à mudança das condições sociais, obrigando-a a um esforço maior no cuidado a dispensar aos seus vários elementos. 
Creio que foi nesse sentido, que o Papa Francisco pediu que “esta alegria (do Natal) deve ser partilhada com todos, mas de modo especial com os avós. Conversem muito com os vossos avós, também eles têm esta alegria contagiosa”, 
Pediu que os mais jovens saibam ouvir os idosos, que têm a “memória da história, a experiência da vida. Mas “Eles também precisam de vos ouvir, de entender as vossas aspirações e esperanças. Portanto, eis o trabalho de casa: conversar com os avós, ouvir os avós.” (Recepção no Vaticano a jovens da Acção Católica Italiana, em 19 dez 2016

Esta visão questiona alguns mitos como o de que “os pais educam e os avós estragam”. Claro que há excepções, mas os avós podem ajudar a estabelecer algum equilíbrio na família face à vida activa e agitada dos pais, aos seus padrões educativos muito exigentes ou demasiado laxistas. 
Os avós podem sentir-se úteis ao colaborarem na educação dos filhos. Este papel dos avós na educação e transmissão cultural ganha assim um relevo insubstituível nas interacções familiares. 
Em troca, eles apenas ficam reconhecidos pelo milagre da vida que continua nos filhos dos seus filhos: 

"Quando se olham os seus olhos, quando se escuta a sua voz 
É mais linda a manhã, alumia mais o sol 
Quando nos brindam com o seu sorriso quando nos dão a sua candura 
Jorra uma nascente de água fresca no coração 
Eles são o tesouro, eles são a alegria 
É por eles que a vida se torna mais doce, se vive melhor 

Os filhos são a bênção, o milagre do nosso amor 
ensinam-nos como amar, como abrir o nosso coração. 
são a essência do lar, um presente de Deus 

Eles são a esperança, eles são a ilusão 

Seu olhar sereno, a sua inocente verdade 
é um calor que enche de alegria a solidão 
Mensageiros da alma, semeadores de paz 
de um amanhã cheio de respeito e de liberdade."