"Renata Gomes acaba de passar um ano na universidade de Jerusalém, onde foi premiada pelo seu trabalho na investigação das doenças do coração. Trabalhou com judeus e com árabes, e os seus colegas pensam que a cientista pode vir a ser o próximo Prémio Nobel."
21/11/16
16/11/16
Alcochete forever
O Tejo visto do restaurante Alfoz, em Alcochete.
Há sítios extraordinários, de paz, de felicidade. A paisagem é deslumbrante mesmo num dia
cinzento que não deixa vislumbrar a ponte Vasco da Gama. Tempo agradável
para este Outono, quente, como os sentimentos dos que amamos. Momentos
inesquecíveis quando estamos com quem mais gostamos. Mesmo
que não seja forever é, pelo menos, sempre repetível.
"O sonho do século"
Há mais de cem anos, Sigmund Freud fez importantes descobertas sobre o psiquismo. A história da psicanálise começa em Abril de 1886 quando Freud se instala em Viena como especialista de doenças “nervosas” depois de ter trabalhado em Paris com Charcot.
Perante a ineficácia dos tratamentos (electroterapia,
hidroterapia, hipnotismo) aplicados a muitos doentes que não sofriam de lesões
orgânicas, descobriu a psicanálise como método
de estudo do comportamento humano, teoria do comportamento e método de
tratamento.
Muitos comportamentos e doenças
psicológicas passaram a ser compreendidas e vistas de outra maneira. Um dos casos que se tornou célebre foi o de Anna O.
que sofria de diversas perturbações (vómitos, incapacidade de beber água,
esquecimento da língua materna, paralisias).
Entretanto, verificou-se grande evolução no tratamento das doenças nervosas mas os problemas psicológicos do ser humano continuam
a ser actuais, como acontece nas neuroses, casos borderline e psicoses.
Giorgio Abraham, em O sonho do século, fez um retrato do que foi e é a psicanálise e das evoluções que entretanto
se verificaram.
A profunda reflexão sobre o inconsciente,
feita por Freud, veio dar-nos a real dimensão do que é a nossa vida
psicológica. Provavelmente, o inconsciente não é o
dono tirânico e despótico da nossa vida psicológica mas é “uma parte submersa
do ser interior que contém as nossas forças mais genuínas e poderosas” (p 21)
Freud viveu em Viena até 1938 quando, após o Anschluss (anexação
da Áustria pela Alemanha) e em razão de
sua etnia judaica
se refugiou em Inglaterra.
Freud sofreu os momentos angustiantes
vividos antes da 2ª guerra mundial mas,
falecido em Londres em 23 de Setembro de 1939,
a guerra tinha começado em 1 de Setembro do mesmo ano, não viria a saber da violência de que seres humanos seriam
capazes, nos anos seguintes e, posteriormente, com o disseminar das guerras,
durante a guerra fria ou com o terrorismo bárbaro, sem regras e sem humanidade, em que não se respeitam convenções nem tratados internacionais e os assassinos podem exibir os
seus crimes nos media.
Esperávamos outro futuro. Seria preocupação suficiente para a
nossa vida, conviver com o sofrimento insuportável da morte, da doença física e
psíquica. Podíamos ter dado uma oportunidade à paz. Podíamos
pensar que provavelmente a tarefa principal do ser humano fosse procurar por todos
os meios o bem-estar (Seligman). Mas, pelo contrário, “... a violência não faz poupança." (pag.107).
Os conflitos internos explicam os conflitos externos. As forças destrutivas
podem ser controladas pelos mecanismos de defesa. “Talvez a raíz profunda da violência
seja uma forma de pressa excessiva, um sinal da nossa incapacidade de espera,
uma inquietação perante o futuro, a expressão plena do medo da morte.” (p.108) Não evoluímos nesse sentido, pelo contrário as novas possibilidades
tecnológicas deram oportunidades de agir a crueldade em limites a que antes
não tinha chegado.
“O sonho do século”, as descobertas de Freud, as novas descobertas, como as das neurociências, as novas terapêuticas, a
compreensão dos conflitos internos, da angústia, e do tratamento das doenças psicológicas, mostram que o horizonte, apesar de tudo, está aberto. As bases lançadas por Freud para
a compreensão do psiquismo continuam a dar-nos esperança de que o ser humano há-de,
alguma vez, viver "um século de sonho".
|
13/11/16
Hoje apetece-me ouvir: Sting
Sting - "Fragile"
"Perhaps this final act was meant
To clinch a lifetime's argument
That nothing comes from violence
And nothing ever could
For all those born beneath an angry star
Lest we forget how fragile we are"
"Talvez este acto final tenha acontecido
Para fixar uma reflexão sobre a existência
Que nada vem da violência
E nada jamais poderia
Para todos os nascidos sob uma estrela furiosa
Para que não nos esqueçamos quão frágeis nós somos"
Na noite de 13-11-2015 o Bataclan sofreu um atentado terrorista quando decorria um concerto da banda norte-americana Eagles of Death Metal.
Passado um ano, Sting, no Bataclan, afirma: "Não os esqueceremos".
11/11/16
Hoje apetece-me ouvir: Leonard Cohen
"Meu grande sacana"
"Uma pessoa tem de morrer. E até a morrer foste um senhor. Pouco antes de
morrer - sabemos agora - percorreste o mundo para cantar as
tuas canções a quem quisesse ver-te a cantá-las. E melhor do que
em qualquer outra altura da tua vida. Tu foste daqueles que melhoram
à medida que se aproximam da morte. Aproximaste-te devagarinho, sem
ser a medo, como se a morte fosse a última mulher. Cantaste-lhe a
canção do bandido - nunca ninguém será capaz de cantá-la melhor do que
tu - a ver se ela ia na tua cantiga. Deitaste-te com ela na esperança
que ela te esquecesse. And yet e, no entanto (aqui sinto-te a sorrir)
ela deu cabo de ti à mesma." (Miguel Esteves Cardoso, Público,
"Hineni"
" Hineni, hineni
" Hineni, hineni
I'm ready, my lord"
Alguma vez estamos preparados?
09/11/16
Madrid
"ISTO É MADRID
Madrid é como uma ex-colegial, uma adolescente rebelde que quebrou as fronteiras do hedonismo, mas que acabou por crescer e se tornar sofisticada, sem nunca esquecer como se divertir. É uma cidade tão à vontade nas discotecas e bares que preenchem as ruas com a sua banda sonora como nos grandes salões da alta cultura. É verdade que a capital espanhola não tem o impacto imediato de Roma, Paris ou até daquela outra cidade um pouco mais acima, Barcelona. A arquitetura é belíssima, mas não se vê nenhum Coliseu, Torre Eiffel, nem qualquer excentricidade pensada por Gaudí para fotografar, para que depois possa voltar para casa e dizer aos seus amigos: «isto é Madrid». Contudo, esta cidade é um conceito, uma forma de viver o presente, à qual pode ser difícil resistir. São muitos os cartões de visita que caracterizam Madrid: galerias de arte assombrosas, uma vida noturna dinâmica e incessante, a sofisticação e variedade da vida que flui pelas ruas ou que repousa nas praças da cidade, a sua extraordinária e relativamente recente transformação em cidade da moda por excelência de Espanha, o florescimento do panorama musical, com espetáculos de flamenco e jazz, um banquete de bons restaurantes e bares de tapas; e uma população especialista na arte de aproveitar as coisas boas da vida. Não é que outras cidades não tenham algumas destas coisas, só que Madrid tem-nas para dar e vender. Costuma-se dizer que Madrid é a cidade mais espanhola de Espanha e sem dúvida de que é, de longe, a cidade europeia mais apaixonante. São poucos os madrilenos originários desta cidade, pelo que é possível que Madrid seja a capital europeia mais acolhedora e recetiva. Esta ideia pode ser resumida naquela única frase que se ouve frequentemente: «Se está em Madrid, então é de Madrid». Não é que o deixem arrebatado com calorosas boas-vindas, mas se se encontrar num bar ou perdido e a precisar de indicações, rapidamente o farão sentir-se como um deles. Num ápice, sem perceber bem como, vai aperceber-se de que nunca mais quer deixar Madrid." (lonely planet)
Humanização e empatia *
A semana passada descrevemos alguns estudos psicológicos sobre comportamentos anti-sociais e cruéis.
Não podemos deixar de referir os trabalhos de Hanna e António Damásio sobre
este assunto.
Nos casos de adolescentes estudados
por Hanna Damásio em que houve
lesões cerebrais na infância, “ao contrário do que acontece com os doentes em
que a lesão aparece na idade adulta, estes doentes têm frequentemente, problemas com as
autoridades, são presos por roubos e por outros casos de delinquência. O perfil
neuropsicológico é basicamente idêntico ao dos doentes em que a lesão começa na
idade adulta (os testes psicológicos são normais) mas as emoções são anormais"... A diferença aparece
nos testes que medem o comportamento social, (juízo moral ), "o que se passa com os indivíduos que tiveram uma lesão
durante a infância nunca ultrapassa o nível pré-convencional (compreendem
apenas a punição e obediência, interesses, nível de crianças com menos de 9 anos) e são portanto claramente anormais."(p.28)
Para Hanna Damásio “uma lesão cerebral, colocada em certos sectores, leva em
adultos até então normais, à ruptura do comportamento social normal. Essas
mesmas lesões, mas adquiridas na infância, impedem o desenvolvimento de
comportamentos sociais normais, nunca existem. Tanto nos adultos, como nas
crianças, o problema parece dever-se a um defeito de processos emocionais.” (p.28)
Por exemplo, “…os sistemas podem funcionar mal devido a defeitos de
desenvolvimento… de causa genética, ou serem devidos a um ambiente afectivo
deficitário. O ambiente afectivo deficitário, pode tomar várias formas, desde o abandono da criança, à violência
física ou cultural, e a deficiências nutritivas.”(p 28)
Para António Damásio, as emoções são vistas num quadro
complexo de regulação da vida, com muitos níveis, que começa com a regulação de
nível metabólico com reflexos básicos e
respostas imunitárias . A vida , de um modo geral, é regulada primeiro por
formas inteiramente automáticas mas que são de facto transmitidas pelo genoma e
depois por formas que podem ser deliberadas.
Outros níveis são: Comportamentos
de dor e prazer, Pulsões e motivações, Emoções.
No topo das emoções estão as emoções sociais.
"Para além das emoções
básicas tais como o medo ou a zanga, a tristeza ou alegria existem emoções
sociais p. ex. a simpatia e a compaixão", Damásio fala de “estimulo emocionalmente competente” (EEC) para desencadear essas emoções. "No caso da
simpatia e compaixão o EEC é o sofrimento
do outro individuo. O sentimento que se lhe segue é o que tem como consequência o conforto e o
re-equilíbrio do outro ou do grupo. (p. 34)
Para António Damásio aquilo
que chamamos comportamento ético e aquilo que
é, de facto, o foco do debate de hoje, em relação ao Bem e ao Mal, é não
só o resultado da riqueza que o genoma nos dá mas sim, também, o resultado da
enorme capacidade de termos sentimentos
em relação às emoções.” (p. 36)
“É esta descoberta (que é
a de que de que outro individuo pode também
sofrer) que nos leva à verdadeira
empatia aquilo que nos leva a pensar não
só no nosso sofrimento e na nossa própria alegria mas também no sofrimento e
na alegria do outro e dos outros e, gradualmente, alargar esse reconhecimento não
só ao nosso grupo estrito, o próprio e o grupo familiar mas também a um grupo
muito mais alargado que no seu ideal, atinge a humanidade inteira.” (p. 37)
Então os dados da
investigação chamam a atenção para a forma como encaramos alguns comportamentos anti-sociais e cruéis mas também para a melhor forma de compreendermos as
nossas emoções e expressarmos sentimentos resultantes. Ou seja sobre a
melhor forma de nos comportarmos e educarmos as crianças.
____________________
* O Suplemento Especial do Boletim OA
(Ordem dos Advogados), nº 29, é dedicado à conferência "O cérebro entre o
bem e o mal" (28-10-2003). Dos artigos destaco as comunicações de Hanna Damásio: “O cérebro
e as alterações do comportamento social” e António Damásio: “A neurobiologia da
Ética: sob o signo de Espinosa”.
Subscrever:
Mensagens (Atom)









