16/11/16

Alcochete forever

 O Tejo visto do restaurante Alfoz, em Alcochete.

Há sítios extraordinários, de paz, de felicidade. A paisagem é deslumbrante mesmo num dia cinzento que não deixa vislumbrar a ponte Vasco da Gama. Tempo agradável para este Outono, quente, como os sentimentos dos que amamos. Momentos inesquecíveis quando estamos com quem mais gostamos. Mesmo que não seja forever é, pelo menos, sempre repetível. 
E depois... o local tornou-se mítico pelas anedotas dos políticos...

"O sonho do século"


Há mais de cem anos, Sigmund Freud  fez importantes descobertas sobre o psiquismo. A história da psicanálise começa em Abril de 1886 quando Freud se instala em Viena como especialista de doenças “nervosas” depois de ter trabalhado em Paris com Charcot.
Perante a ineficácia dos tratamentos (electroterapia, hidroterapia, hipnotismo) aplicados a muitos doentes que não sofriam de lesões orgânicas, descobriu  a psicanálise como método de estudo do comportamento humano, teoria do comportamento e método de tratamento.
Muitos comportamentos  e doenças psicológicas passaram a ser compreendidas e vistas de outra maneira. Um dos casos que se tornou célebre foi o de Anna O. que sofria de diversas perturbações (vómitos, incapacidade de beber água, esquecimento da língua materna, paralisias).
Entretanto, verificou-se grande evolução no tratamento das doenças nervosas mas os problemas psicológicos do ser humano continuam a ser actuais, como acontece nas neuroses, casos borderline e psicoses.
Giorgio Abraham, em O sonho do século, fez um retrato do que foi e é  a psicanálise e das evoluções que entretanto se verificaram.
A profunda reflexão sobre o inconsciente, feita por Freud, veio dar-nos a real dimensão do que é a nossa vida psicológica. Provavelmente, o inconsciente não é  o dono tirânico e despótico da nossa vida psicológica mas é “uma parte submersa do ser interior que contém as nossas forças mais genuínas e poderosas” (p 21)
Freud viveu em Viena até 1938 quando, após o Anschluss (anexação da Áustria pela Alemanha)  e em razão de sua etnia judaica se  refugiou em Inglaterra.
Freud sofreu os  momentos angustiantes vividos antes da 2ª guerra mundial mas, falecido em Londres em  23 de Setembro de 1939, a guerra tinha começado em 1 de Setembro do mesmo ano,  não viria a saber da violência de que seres humanos seriam capazes, nos anos seguintes e, posteriormente, com o disseminar das guerras, durante a guerra fria ou com o terrorismo bárbaro, sem regras e sem humanidade, em que não se respeitam convenções nem tratados internacionais e os assassinos podem exibir os seus crimes nos media.
Esperávamos outro futuro. Seria preocupação suficiente para a nossa vida, conviver com o sofrimento insuportável da morte, da doença física e psíquica. Podíamos ter dado uma oportunidade à paz. Podíamos pensar que provavelmente a tarefa principal do ser humano fosse procurar por todos os meios o bem-estar (Seligman). Mas, pelo contrário,  “... a violência não faz poupança." (pag.107). 
Os conflitos internos explicam os conflitos externos. As forças destrutivas podem ser controladas pelos mecanismos de defesa. “Talvez a raíz profunda da violência seja uma forma de pressa excessiva, um sinal da nossa incapacidade de espera, uma inquietação perante o futuro, a expressão plena do medo da morte.” (p.108) Não evoluímos nesse sentido, pelo contrário as novas possibilidades tecnológicas deram oportunidades de agir a crueldade em limites a que antes não tinha chegado.
“O sonho do século”, as descobertas de Freud,  as novas descobertas, como as das neurociências, as novas terapêuticas, a compreensão dos conflitos internos, da angústia, e do tratamento das doenças psicológicas, mostram que  o horizonte, apesar de tudo, está aberto. As bases lançadas por Freud para a compreensão do psiquismo continuam a dar-nos esperança de que o ser humano há-de, alguma vez, viver "um século de sonho". 

13/11/16

Hoje apetece-me ouvir: Sting

Sting - "Fragile"

 "Perhaps this final act was meant
To clinch a lifetime's argument
That nothing comes from violence
And nothing ever could
For all those born beneath an angry star
Lest we forget how fragile we are"

"Talvez este acto final tenha acontecido
Para fixar uma reflexão sobre a existência
Que nada vem da violência
E nada jamais poderia
Para todos os nascidos sob uma estrela furiosa
Para que não nos esqueçamos quão frágeis nós somos"

Na noite de 13-11-2015 o Bataclan sofreu um atentado terrorista quando decorria um concerto da banda norte-americana Eagles of Death Metal.
Passado um ano, Sting, no Bataclan, afirma: "Não os esqueceremos".

11/11/16

Construir

Reconquista, 7/7/2016




O que restava da "metalúrgica" já não existe, com excepção das chaminés. Finalmente!
Na capa do Reconquista de 7/7/2016, apresentava-se o projecto de renovação daquela zona.

Hoje apetece-me ouvir: Leonard Cohen

Leonard Cohen (21/9/1934-10/11/2016)

"Meu grande sacana"
"Uma pessoa tem de morrer. E até a morrer foste um senhor. Pouco antes de morrer - sabemos agora - percorreste o mundo para cantar as tuas canções a quem quisesse ver-te a cantá-las. E melhor do que em qualquer outra altura da tua vida. Tu foste daqueles que melhoram à medida que se aproximam da morte. Aproximaste-te devagarinho, sem ser a medo, como se a morte fosse a última mulher. Cantaste-lhe a canção do bandido - nunca ninguém será capaz de cantá-la melhor do que tu - a ver se ela ia na tua cantiga. Deitaste-te com ela na esperança que ela te esquecesse. And yet e, no entanto (aqui sinto-te a sorrir) ela deu cabo de ti à mesma." (Miguel Esteves Cardoso, Público,



 "Hineni"
Hineni, hineni
I'm ready, my lord"

Alguma vez estamos preparados?

09/11/16

Madrid


"ISTO É MADRID 
Madrid é como uma ex-colegial, uma adolescente rebelde que quebrou as fronteiras do hedonismo, mas que acabou por crescer e se tornar sofisticada, sem nunca esquecer como se divertir. É uma cidade tão à vontade nas discotecas e bares que preenchem as ruas com a sua banda sonora como nos grandes salões da alta cultura. É verdade que a capital espanhola não tem o impacto imediato de Roma, Paris ou até daquela outra cidade um pouco mais acima, Barcelona. A arquitetura é belíssima, mas não se vê nenhum Coliseu, Torre Eiffel, nem qualquer excentricidade pensada por Gaudí para fotografar, para que depois possa voltar para casa e dizer aos seus amigos: «isto é Madrid». Contudo, esta cidade é um conceito, uma forma de viver o presente, à qual pode ser difícil resistir. São muitos os cartões de visita que caracterizam Madrid: galerias de arte assombrosas, uma vida noturna dinâmica e incessante, a sofisticação e variedade da vida que flui pelas ruas ou que repousa nas praças da cidade, a sua extraordinária e relativamente recente transformação em cidade da moda por excelência de Espanha, o florescimento do panorama musical, com espetáculos de flamenco e jazz, um banquete de bons restaurantes e bares de tapas; e uma população especialista na arte de aproveitar as coisas boas da vida. Não é que outras cidades não tenham algumas destas coisas, só que Madrid tem-nas para dar e vender. Costuma-se dizer que Madrid é a cidade mais espanhola de Espanha e sem dúvida de que é, de longe, a cidade europeia mais apaixonante. São poucos os madrilenos originários desta cidade, pelo que é possível que Madrid seja a capital europeia mais acolhedora e recetiva. Esta ideia pode ser resumida naquela única frase que se ouve frequentemente: «Se está em Madrid, então é de Madrid». Não é que o deixem arrebatado com calorosas boas-vindas, mas se se encontrar num bar ou perdido e a precisar de indicações, rapidamente o farão sentir-se como um deles. Num ápice, sem perceber bem como, vai aperceber-se de que nunca mais quer deixar Madrid." (lonely planet)

Anexos



Estação da CP/Refer de Castelo Branco. Algo está a mais nesta fotografia. O que é? Lindo, não é? O painel de azulejos passado-futurista, realizado pela escola  Afonso de Paiva, mostra o edifício original.

Humanização e empatia *


A semana passada descrevemos alguns estudos psicológicos sobre  comportamentos anti-sociais e cruéis.
Não podemos deixar de referir os trabalhos de Hanna e António Damásio sobre este assunto.

Nos casos de adolescentes  estudados por Hanna  Damásio  em que houve lesões cerebrais na infância, “ao contrário do que acontece com os doentes em que a lesão aparece na idade adulta, estes doentes  têm frequentemente, problemas com as autoridades, são presos por roubos e por outros casos de delinquência. O perfil neuropsicológico é basicamente idêntico ao dos doentes em que a lesão começa na idade adulta (os testes psicológicos são normais) mas  as emoções são anormais"... A diferença aparece nos testes que medem o comportamento social, (juízo moral ), "o que se passa com os indivíduos que tiveram uma lesão durante a infância nunca ultrapassa o nível pré-convencional (compreendem apenas a punição e obediência, interesses, nível de crianças com menos de 9 anos) e são portanto claramente anormais."(p.28)
Para Hanna Damásio “uma lesão cerebral, colocada em certos sectores, leva em adultos até então normais, à ruptura do comportamento social normal. Essas mesmas lesões, mas adquiridas na infância, impedem o desenvolvimento de comportamentos sociais normais, nunca existem. Tanto nos adultos, como nas crianças, o problema parece dever-se a um defeito de processos emocionais.” (p.28)
Por exemplo, “…os sistemas podem funcionar mal devido a defeitos de desenvolvimento… de causa genética, ou serem devidos a um ambiente afectivo deficitário. O ambiente afectivo deficitário, pode tomar várias formas, desde o abandono da criança, à violência física ou cultural, e a deficiências nutritivas.”(p 28)
Para António Damásio, as emoções são vistas num quadro complexo de regulação da vida, com muitos níveis, que começa com a regulação de  nível metabólico com reflexos básicos e respostas imunitárias . A vida , de um modo geral, é regulada primeiro por formas inteiramente automáticas mas que são de facto transmitidas pelo genoma e depois por formas que podem ser deliberadas.
Outros níveis são:  Comportamentos de dor e prazer,  Pulsões e motivações,  Emoções.
No topo das emoções estão as emoções sociais.
"Para além das emoções básicas tais como o medo ou a zanga, a tristeza ou alegria existem emoções sociais p. ex. a simpatia e a compaixão", Damásio fala de “estimulo emocionalmente competente” (EEC)  para desencadear essas emoções.  "No caso da simpatia e compaixão o EEC é  o sofrimento do outro individuo. O sentimento que se lhe segue  é o que tem como consequência o conforto e o re-equilíbrio do outro ou do grupo. (p. 34)
Para António Damásio aquilo que chamamos comportamento ético e aquilo que  é, de facto, o foco do debate de hoje, em relação ao Bem e ao Mal, é não só o resultado da riqueza que o genoma nos dá mas sim, também, o resultado da enorme capacidade  de termos sentimentos em relação às emoções.” (p. 36)
“É esta descoberta (que é a de que  de que outro individuo pode também sofrer)  que nos leva à verdadeira empatia aquilo que nos leva a pensar não só no nosso sofrimento e na nossa própria alegria mas também no sofrimento e na alegria do outro e dos outros e, gradualmente, alargar esse reconhecimento não só ao nosso grupo estrito, o próprio e o grupo familiar mas também a um grupo muito mais alargado que no seu ideal, atinge a humanidade inteira.” (p. 37)

Então os dados da investigação chamam a atenção para a forma como encaramos alguns comportamentos anti-sociais e cruéis mas também para a melhor forma de compreendermos as nossas emoções e expressarmos sentimentos resultantes. Ou seja sobre a melhor forma de nos comportarmos e educarmos as crianças.
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* O Suplemento Especial do Boletim OA (Ordem dos Advogados), nº 29, é dedicado à conferência  "O cérebro entre o bem e o mal" (28-10-2003). Dos artigos destaco as comunicações de Hanna Damásio: “O cérebro e as alterações do comportamento social” e António Damásio: “A neurobiologia da Ética: sob o signo de Espinosa”.

04/11/16

Humanização e empatia *


Deolinda - "Sem noção" ("Dois selos e um carimbo") 
Música e letra - Pedro Silva Martins; Voz - Ana Bacalhau

"Tu não tens a noção de mim
e perdeste a noção de ti"

Podemos dizer que temos duas maneiras de explicar os comportamentos humanos, e o mesmo acontece para a crueldade  humana: uma que se baseia na biologia e outra que relaciona esses comportamentos com a situação em que a pessoa esteve e está envolvida.
Então, se o comportamento for determinado por factores biológicos ou sociais, as pessoas cruéis  não são responsáveis pelos seus actos?
Têm sido feitos estudos e experiências psicológicas que podem ajudar nessa resposta compreensiva.
É bem conhecida a experiência de Stanley Milgram (1963)1, feita com voluntários. Na situação experimental, um voluntário desempenha o papel de professor que ensinava  determinadas respostas e outro voluntário o papel de  estudante (na verdade um ator disfarçado) que as devia aprender. O professor devia punir os erros com pequenos choques eléctricos, que deveriam aumentar a cada erro. Os resultados mostraram que  65% das pessoas chegaram a aplicar o nível máximo de choque, mesmo ouvindo as dores do aluno/actor.
Jerry Burger (2008) replicou o estudo e obteve  os mesmos resultados. 
Philip Zimbardo (1971)2 simulou as condições de uma prisão com voluntários (sem nenhum indicativo de empatia baixa) dividindo-os aleatoriamente entre guardas e presos. Os guardas eram livres para fazer o que fosse necessário para manter a ordem. O estudo, programado para durar 2 semanas, terminou depois de 6 dias, com prisioneiros com depressão e descontrole emocional após serem vítimas do sadismo dos guardas... 
Podia concluir-se que cada um de nós (e não apenas os que têm problema de empatia baixa) pode ser levado a cometer atrocidades. O ambiente pode levar as pessoas a serem cruéis.  "Não é então  uma questão de ser bom ou mau,  a situação é que exerce a maior influência nos casos de crueldade”,
Simon Baron-Cohen 3 fez a revisão de mais de 300 estudos sobre o assunto (Science of Evil). O que está por trás de um acto de crueldade é um mau funcionamento das partes do cérebro ligadas à empatia **.
As pessoas, então, cometeram actos cruéis não porque escolheram, mas porque têm empatia baixa, que pode ser resultado da biologia da pessoa ou da sua experiência de vida quando era criança, factores pelos quais ela não pode ser responsabilizada.
Isto é,  fazer o mal pode não ser uma questão de livre-arbítrio. As pessoas cometeram actos de crueldade não porque escolheram, mas porque apresentaram uma deficiência no cérebro”.
Bhismadev Chakrabarti descobriu que há genes relacionados com a empatia e achou uma área cerebral, o giro frontal inferior, sempre mais ativa em pessoas com alto Quociente Emocional.   Para ele, "o nível de empatia,  não é determinado no momento do nascimento. Há uma interação de fatores sociais com causas genéticas que ainda estão a ser  investigadas”. Mas pelo facto de ter estas característica biológicas e genéticas  "não significa automaticamente que a pessoa será empática.” 
Susan Fiske (desde 2006) 4 realizou estudos com  scanners cerebrais e mostra como o ambiente modifica a forma como as pessoas percebem as outras. “As pessoas naturalmente inibem a violência contra outros que categorizam como seres humanos. Então, é preciso que a outra pessoa seja ‘desumanizada’ dentro da cabeça para que isso ocorra”, explica Fiske.
"Quando os voluntários viram fotografias de indivíduos de baixo status social, como mendigos, viciados em drogas ou até imigrantes, ativaram padrões cerebrais relacionados à visão de objetos e não com aqueles padrões ativados quando vemos seres humanos. Ou seja, nesse caso, a empatia não funcionaria para prevenir uma agressão."
"... isso explica o que acontece dentro da cabeça de pessoas que agridem mendigos ou que se deixam levar por um preconceito estimulado pelo Estado para praticar torturas e genocídios. Os discursos e a opinião do grupo dominante podem ser influências importantes nesse caso."

Pode concluir-se que não se retira a culpa dos praticantes de atrocidades mas apenas se mostra que não é uma simples questão de ser mau.
E voltamos ao princípio:  “Os atos de crueldade são muito complexos. Há fatores biológicos, ambientais, genéticos, sociais e políticos. A nova teoria em meu livro sugere que um mau funcionamento das partes do cérebro ligadas à empatia, por razões biológicas ou sociais, é o que está por trás de um ato de crueldade." (B-C)
Portanto, o homem terá que aprender a ser humano. Não exclui a responsabilidade dos seus actos mas aprender é coisa de educação, de ajuda e de terapia.
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* Nota: Este texto é baseado em "De onde vem o mal?", de Tiago Mali e Guilherme Rosa, Galileu.
**Empatia (Carl Rogers) significa a capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela. Consiste em tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente outro indivíduo.
1 Experiência de Stanley Milgram - "The Milgram Experiment, Saul McLeod (2007)
2 Experiência de Ph Zimbardo - "Stanford Prison Experiment", Saul McLeod (2008, actualizado em 2016)
3 Conferência de Simon Baron-Cohen sobre empatia.
4 From Dehumanization and Objectification, to Rehumanization: Neuroimaging Studies on the Building Blocks of Empathy

30/10/16

"Tratantes"

As inlicenciaturas estão novamente na agenda. Um currículo "bem feito", é apenas um meio para atingir um fim: um iceberg de privilégios a que se julgam com direito.
Não havia necessidade! Nada disso é necessário para ir para o governo. Nem licenciatura. Nem mérito. Nem responsabilidade. Nem ética. Ou se têm ou não se adquirem por um "currículo à maneira".
Em 05/07/12, quando se discutia e se comparava a trapalhada da licenciatura de Sócrates com a trapalhada da licenciatura de Relvas, coloquei aqui este texto d' As farpas* sobre "os privilégios que a chamada carreira política permite àqueles que a seguem".
Ontem como hoje, só mudaram as ostras...
"Entre os privilégios que ainda existem em Portugal – e que seria bom que acabassem, uma vez que o país, como bem manifestou ainda a última questão das ostras*, começa a odiar todo o privilégio - contam-se em primeira linha os privilégios que a chamada carreira política permite àqueles que a seguem.
Para servir tais privilégios, a opinião pública obteve meios de dividir uma coisa essencialmente indivisível e una –a probidade – em probidade política e probidade individual.
Uma vez admitida esta casuística um tanto imoral, o indivíduo considera-se irresponsável perante a sociedade por todas as ignomínias, por todas as baixezas, por todas as infâmias que comete na política. É vulgar dizer-se: “Velhaquíssimo em política, mas de resto um perfeito cavalheiro!”
Ora nós não queremos defender o privilégio para a engorda da ostra. Notamos só que a política assim considerada fica sendo igualmente - uma ostreira de tratantes."

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*Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão (Coord. M. Filomena Mónica), As Farpas, Principia, pags. 157 e 158.
**Refere-se ao marquês de Nisa que teve o monopólio da cultura das ostras, em viveiro, ao longo de parte da costa portuguesa.