15/10/16

Silêncio e fala


Há muitas formas de silêncio, de silenciar e de auto-silenciar. A espiral do silêncio é uma dessas formas.
A espiral do silêncio "é uma teoria da ciência política e comunicação de massa"  proposta, em 1977, pela cientista alemã Elisabeth Noelle-Neumann.
"Neste modelo de opinião pública, a ideia central é que os indivíduos omitem sua opinião quando conflitantes com a opinião dominante devido ao medo do isolamento. Os agentes sociais analisam o ambiente ao seu redor, e ao identificar que pertencem à minoria, preferem se resguardar para evitar impasses. Esse comportamento gera uma tendência progressiva ao silêncio denominado espiral, visto que ao não expôr essa ideia, o indivíduo automaticamente compactua com a maioria, assim, outras pessoas que compartilham dessa opinião também não a verbalizam. Quanto menor o grupo que assume abertamente a opinião divergente, maior o ônus social em expressá-la." (Wikipedia)

Uma boa análise do que é a espiral do silêncio é feita por Olavo de Carvalho (ou aqui) que com propriedade diz que "da internet para cima reina o silêncio" e de como certas organizações como o "foro de S. Paulo" faz parte dessa espiral do silêncio mesmo que mude de nome: "o foro de S. Paulo muda de nome como a KGB mudou de nome mais de 20 vezes", sempre para pior. E também de como quebrar a espiral do silêncio.

Outra forma de silenciar é o apolitismo.  Francis Wolff  "alertou para o seguinte paradoxo: assim que o povo oprimido por um tirano conquista a liberdade, usa-a para não se envolver na política.
O professor distinguiu o egoísmo do individualismo, salientando que este é um produto da sociedade democrática que favorece a “subjetivização” dos indivíduos e os permite realizar-se sem relação de dependência à comunidade. Para ele, isso faz com que as pessoas se excluam da vida pública. Como “não há vácuos de poder”, segundo Wolff, os cidadãos entregam seu poder de decisão a políticos profissionais, o que gera incompreensão e antipatia à classe política e acaba favorecendo os corruptos."


13/10/16

Silêncio e fala




O silêncio e a sua gestão são elementos da comunicação e por isso mesmo podemos dizer que o silêncio fala através dos seus significados. "É impossível não comunicar” é um dos princípios da Escola de Palo Alto. E sabemos por experiência própria que é assim, como refere uma canção de P. Simon e  A. Garfunkel “o som do silêncio” ("sound of silence"): "As Pessoas conversam sem falar/As pessoas ouvem sem escutar/Escrevem canções que vozes jamais compartilham/E ninguém ousou/ Perturbar o som do silêncio... E o sinal disse: As palavras dos profetas estão escritas nas paredes do metro/ E nas salas das habitações colectivas/ E sussurraram no som do silêncio "
Se o silêncio tem som, como diz a canção, então o silêncio não é silêncio, é comunicação e tem muitos significados. O silêncio pode ser confortável e desconfortável, suportável ou insuportável. Há um silêncio virtuoso e um silêncio vicioso. Há um silêncio saudável e um silêncio doentio.
Assim, o silêncio pode significar prudência, cautela, respeito como o silêncio da pessoa que é discreta, humilde e até hábil quando sabe o que deve dizer, como deve dizer e quando deve dizer. Ser reservado, por exemplo, pode significar que não se pode nem deve dizer tudo o que se pensa para não magoarmos o outro.
O silêncio é o campo onde se expressam as emoções de forma mais autêntica e intensa através da comunicação não verbal: o gesto, a expressão do rosto, o corpo, a alegria, as preocupações, o sofrimento...”. 
O silêncio ajuda-nos a ponderar, a reflectir, a entrar em contacto com os desejos mais profundos do coração humano e do conhecimento da nossa mente. É o silêncio do sábio. 

Mas há um silêncio vicioso, violento e devastador.
O silêncio que encobre e mente, como também diz outra canção “o silêncio é de ouro" ("silence is golden"), mas os meus olhos vêem… ele enganou-a tão bem, ela será a última a saber”. É a contradição entre o não audível, um silêncio dourado, e a desocultação que os olhos me dão.
O silêncio também pode ser censura, rejeição e provoca preconceitos sociais e estereótipos.
O silêncio pode ser sintoma de uma perturbação do carácter (o que anda sempre aos segredinhos, o hipócrita, o velhaco…).”
O silêncio do psicopata e dos poderosos totalitários, tiranos e empedernidos emocionalmente, insensíveis à dor e ao sofrimento do outro. O que se passa em Aleppo, na Síria, é a insensibilidade dos poderosos.
O silêncio das associações políticas e das associações secretas. É um silêncio que se compra ou que se cumpre por força da submissão à organização e à ideologia.
Os sindicatos deixam de fazer manifestações de rua e as reivindicações são loas ao poder. Os sindicatos servem para aprovar as políticas do poder a que eles também pertencem e para sublinhar as grandes realizações sociais do poder. O desemprego dos professores pode esperar, as condições das escolas podem esperar, a saúde das pessoas já não é tão urgente, a melhoria das condições de vida passa a ser uma grande conquista deles.
O silêncio fala quando se é cúmplice. Ficou famosa a frase de Martin Luther King: "o que preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem carácter, dos sem ética… o que me preocupa é o silêncio dos bons".

07/10/16

Fantasia


No tempo de Cavaco havia "forças de bloqueio", no de Guterres havia "coligações negativas". Na Grécia, houve "tróica" mas com Tsipras/Varoufakis passou a haver "instituições". Em Portugal, de vez em quando havia um "perdão fiscal", com Costa/Centeno/Andrade passou a haver "PERES" (Programa Especial de Redução do Endividamento ao Estado) que, dizem eles, não é um perdão fiscal.
Claro! Porque desde que "as vacas começaram a voar" não há "incoerência" nenhuma, passou a haver "versatilidade de opiniões". Até onde os levará a fantasia?

06/10/16

Escolas de pequena dimensão


Desde que começou a política de encerrar as escolas de pequena dimensão (1) que, contra essa política, tenho defendido a continuação do seu funcionamento.
Essa política levou, inicialmente, a encerrar as escolas mais pequenas com menos de 10 alunos para, logo a seguir, passarem a encerrar as escolas com menos de 21 alunos e, espantoso, até com mais de 21 alunos, com base em critérios arbitrários do tipo os alunos aprendem melhor em "bons" equipamentos acabados de construir, normalmente nas sedes de concelho.
A maioria das escolas que encerraram fazem parte do mundo rural. Em consequência da desertificação humana que tem vindo a acontecer no interior do pais mas também por uma visão estratégica errada da educação. Não é, aliás, uma política exclusiva de Portugal.
Esta política coincidiu com a criação de agrupamentos de escolas e depois de mega-agrupamentos que  reúnem os alunos de uma determinada zona geográfica, como o agrupamento de escolas de Alcobaça e agrupamento de escolas de Belas-Queluz, em Sintra, com mais de 4000 alunos.

Os argumentos ocultos para fechar escolas são, essencialmente, de ordem economicista mas os argumentos expressos para fechar escolas são a socialização das crianças e melhores condições de instalações e equipamentos pedagógicos.
As crianças com problemas de socialização estarão em todo o tipo de escolas e não se devem à ruralidade. Nem as escolas "douradas" são mais eficazes do que as escolas com instalações mais modestas e sem luxos.
Provam isso os resultados dos exames, em que escolas rurais e de pequena dimensão atingem posições cimeiras nos rankings de resultados e  a integração e o êxito dos alunos nos níveis de ensino seguinte.
Os factores determinantes para o sucesso dos alunos não são certamente as instalações mas antes as capacidades dos alunos e a qualidade dos professores que poderão ser factores mais influentes do que os factores externos (2). O afastamento dos pais durante o dia por longos períodos, como as distâncias a percorrer superiores muitas vezes a 30 quilómetros (3) e sem condições, obrigando a levantar muito cedo e a regressar muito tarde, esses sim, são factores bem mais penalizadores do que as modestas instalações.
Devia ainda ser respeitada a vontade dos pais que também são cidadãos e contribuintes e querem, certamente, uma educação de qualidade para os filhos e dos autarcas que em alguns casos têm tido um comportamento merecedor de reconhecimento por se terem colocado do lado dos pais e acima de tudo do lado da educação das crianças.

O caso de Monsanto (4) parece-me merecer particular interesse por manifestar que os autarcas podem contribuir para o não encerramento destas escolas. Infelizmente, há outros que fizeram lindos e "dourados" parques ou centros escolares onde juntaram todos os alunos do concelho.
Em Monsanto, com o actual autarca de Idanha-a-Nova não foi assim (5). Aliás, como tem sido feito na autarquia de Castelo Branco com o actual presidente, e com o anterior, que apenas encerraram escolas quando já não era possível criar uma turma nessas escolas.
Não sei se a desertificação do interior começa com o enceramento das escolas mas creio que fechar escolas não significa desenvolvimento nem valorização do interior.
O que não deixa de ser paradoxal é que este governo tenha criado uma Unidade de Missão para a Valorização do Interior, "com o objectivo de promover a atracção e fixação de pessoas nestas regiões, a cooperação transfronteiriça e o intercâmbio de conhecimento aplicado entre centros de investigação e desenvolvimento e as comunidades rurais".
Era bom que governo e Unidade de Missão para Valorização do Interior se entendessem. (6)

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(1) "Desde 2002, deixaram de funcionar mais de 6500 antigas escolas primárias. A reorganização arrancou no Governo liderado por Durão Barroso (PSD-CDS) e incidiu, sobretudo, sobre as regiões norte e interior do país. No período José Sócrates (PS), com Maria de Lurdes Rodrigues como ministra, foram encerradas mais de 2500 e com Isabel Alçada outras 700 escolas. Nos dois primeiros anos de Governo Passos Coelho (PSD-CDS), o ministério da Educação, Nuno Crato, encerrou mais de 500 escolas."
(Ana Cristina Pereira, "Ministério da Educação fecha 311 escolas do 1.º ciclo no próximo ano lectivo, Público, 21/06/2014 )
(2) Christine Leroy, "L'effet-maître, l'effet-classe, l'effet-établissement", Sciences humaines, nº 285, pags 40-41.
(3) Mais relevante do que a distância é o tempo que demora o percurso.
(6) Neste momento, não sei sequer se a educação faz parte das 155 medidas anunciadas!

02/10/16

Flashback

Entras no centro cultural e de repente todo um programa te faz viver. Lembras-te ? Uma espécie de  Recantiga, a música, os locais, estivemos ali ? O coro ACRA, ali estavas tu com tantos amigos, tão novos, sou mesmo eu ? Era um rapaz tão jeitoso.
Não. Lembras-te antes disso? Quando os teus olhos batiam nos dela e lhe davas a mão numa dança de roda, éramos tantos...
Eu sei, de manhã tu ias para a tua escola e eu ia para a minha mas depois da escola tínhamos todo o tempo do mundo para brincar, jogar e ...a música estava lá sempre, e a ironia e o sarcasmo: "estrada nova,estrada nova, começada em Janeiro, ela não foi acabada pela falta de dinheiro".
Era a música a encontrar-nos e não sabíamos onde acabava e começava este gostar de estar contigo.
Na rua, fazíamos as nossas actividades extra-escolares e éramos tão felizes. Não, não  era uma grande chatice porque nunca nos chegava o tempo para jogar... até que a nossa mãe nos chamava para voltarmos para casa  e depois povoávamos os sonhos das brincadeiras, de sentidos, de namoros infantis, sempre com a música de fundo e dos malvados que corriam atrás de nós e nos queriam apanhar. "Ai, ai, ai, senhor Alfredo" e os perigos deste mundo, "não me bata o pé que eu não lhe tenho medo". Mas tinha. Das trovoadas, "bendito e louvado seja",  e quando se ouvia a "encomendação das almas" na torre da igreja. Era quando tu me vinhas salvar e trazias essa música dos teus olhos doces. Depois passei a sentir que precisava sempre de ti, "...põe-te amor onde t'eu veja, não me faças revirar".
Não. Lembras-te antes disso? Não sei, foi há tanto tempo mas sei que havia música. Era mais do pai, acho eu, que pensava que era um bom tenor e cantava a "igreja de santa cruz feita de pedra morena", e  havia os versos da avó Ana, poesia que ela sabia ou inventava. Havia canções de embalar "...vai-te côca do telhado"... Mas não me lembro.
Está na hora de entrar. Creio que não é apenas um concerto que vai acontecer mas um musical da nossa vida colectiva. Sentia a calma de um regresso aonde fui feliz. "Eras tu, até que enfim,  a voltar p'ra mim".



01/10/16

Do melhor que há no mundo

Johannes Brahms - Op.49 No.4 Wiegenlied (Lullaby)


True Love (de  Cole Porter) - George Harrison - 1976 - Thirty three & 1/3.


Apetece-me ouvir, neste dia mundial da música, músicos que me ligam a tudo o que o mundo tem de melhor.

30/09/16

Hoje apetece-me ouvir: Miguel Araújo

Miguel Araújo e Inês Viterbo - Balada astral

...
Eu que pensava
Que ia só comprar pão
Tu que pensavas
Que ias só passear o cão
A salvo da conspiração
Cruzámos caminhos,
Tropeçámos num olhar
E o pão nesse dia
Ficou por comprar

Ensarilharam-se
As trelas dos cães,
Os astros, os signos,
Os desígnios e as constelações
As estrelas, os trilhos
E as tralhas dos dois

29/09/16

Esferográfica

117º Aniversário de Ladislao José Biro
László József Bíró 
(Budapeste, 29/9/1899 — Buenos Aires, 24/10/1985)
Inventou a moderna caneta esferográfica. Nasceu há 117 anos. Apresentou a sua primeira versão da caneta esferográfica na Feira Internacional de Budapeste, em 1931, e patenteou a invenção em Paris, em 1938.

Debates: "nem me explico, nem me entendes"


Como sabemos um  debate é uma forma de comunicação  e exposição  de ideias diferentes sobre um  tema entre duas ou mais pessoas que tem como finalidade  directa conhecer as posturas, bases e argumentos das partes em  discussão e, indirectamente, pode ter  um papel de aprendizagem e enriquecimento, pode eventualmente mudar de posição ou aprofundar e enriquecer a própria pessoa, ainda que não seja essa a finalidade ou o principal motivo de um debate.
Normalmente o debate  é formal, com um formato pré-estabelecido, assim como o tema específico a discutir, e tem um moderador.
No  mundo de informação e comunicação  em que vivemos há debates para tudo. Mas aquilo a que assistimos frequentemente é ao reforço das posições que os interlocutores já tinham antes do debate, não como resultado da discussão, mas pelo que acontece no processo de comunicação
Entre Donald Trump e Hillary Clinton houve esta semana  um debate formal, no contexto da eleição para a presidência dos Estados Unidos
O que acontece é que como este muitos debates  são  mais  compatíveis com aquilo que se chama  descomunicação. São um teste  para afirmar as diferenças, fraquezas e falhas,  quem ataca e quem fica à defesa e  para saber quem ganha ou quem perde.
O debate é supostamente sobre os conteúdos da comunicação mas aquilo que releva é a comunicação não-verbal, as emoções, o tom da voz. Porque  a comunicação faz-se desses aspectos e são estas informações não verbais que interessam mais aos espectadores.
Como refere Xavier Guix, "A comunicação não é algo que aconteça na realidade mas a realidade constrói-se na comunicação".
A complexidade de cada interacção vai depender de uma enorme diversidade de processos: semânticos, neurológicos, psicológicos, sociais e culturais.
Nestas  diferenças surgem frequentemente os conflitos  e, por isso, é tão complicado que as pessoas se entendam.
Segundo Xavier Guix, na comunicação entre duas pessoas podemos considerar a presença de vários princípios.
Há sempre intencionalidade, não fazemos nada porque sim mas temos sempre alguma intenção.
Cada pessoa é única mas  mesmo essa pessoa pode mudar, hoje não é a mesma pessoa que conheci há tempos atrás.  
As pessoas tem diferentes estilos afectivos, todos temos emoções, a expressão das emoções é universal mas o que não é igual é a velocidade, a expressividade, a intensidade e a latência da emoção.
A relação entre as pessoas é sistémica, a pessoa tem todo um mundo de pessoas, de informações e de vivências que fazem parte dela. Tem uma família, tem filhos e vivenciou contextos diversificados que a tornam ainda mais diferente.
A nossas decisões  e escolhas são  de alguma forma condicionadas pelas experiências que tivemos e pelas aprendizagens que fizemos. Vivemos uma espécie de “liberdade condicionada” que, no entanto, não se pode confundir com determinismo.
A relação é construtivista, cada um constrói as suas próprias verdades. E também construcionista. Temos uma personalidade que nos faz como somos mas essa maneira de ser não vem apenas do interior mas da relação com os outros.
São então estas duas pessoas que estão em debate e não apenas as suas ideias e propostas. Daí a dificuldade de comunicação entre elas. Ou seja quando falo contigo “ nem me explico nem me entendes”.