30/07/16

Acção psicológica "online"


O mundo da desinformação, contra-informação e propaganda online atrai cada vez mais indivíduos, grupos e empresas falsas. O mundo dos trolls serve para desestabilizar qualquer informação que não agrade ou para criar informação falsa.
As motivações e as metodologias fazem-nos pensar que ainda não vimos nada. Qual "psícola"? Qual 5ª divisão ?
Serve para compreender o putinismo e muito mais. 
Será que a verdade ainda importa? (Katharine Viner em 19/07/2016. Texto publicado originalmente no The Guardian , em 12/07/2016 sob o títuloHow Technology Disrupted The Truth).
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O site http://observatoriodaimprensa.com.br/monitor-da-imprensa/sera-que-verdade-ainda-importa/ já não está disponível.

29/07/16

De desígnio nacional a inimigo principal


A CEE/UE foi-nos "vendida" como o grande desígnio nacional pelos avós dos que estão actualmente no poder.
"Os motivos que me levaram a requerer a adesão à CEE ‐ que muitos portugueses na altura contestaram, mas que partidos maioritários na Assembleia da República apoiaram – não foram, ao contrário do que alguns ainda hoje julgam, essencialmente, económicos. Foram políticos e tiveram a ver com um grande desígnio para Portugal: a consolidação da democracia pluralista e civil, liberta há pouco tempo da tutela militar; e também o reconhecimento de que o ciclo imperial tinha terminado com a descolonização." (Comemorações da adesão de Portugal à União Europeia, Mário Soares)

Não deixa de ser estranho que a vemos agora promovida a alvo de todos os ataques por ser responsável pelos insucessos que temos vindo a coleccionar. É com estranheza que, vemos, ouvimos e lemos, tem de se bater o pé, dizer não, ameaçar com processos e tribunais a essa desgraçada que nos rouba a capacidade de decisão e a  soberania económica.
A rábula das sanções parece que está a  chegar ao fim pelo menos por enquanto. Já a invenção do inimigo principal vai continuar em modo estival moderado, agora que a Europa saiu derrotada pela nossas forças e daqueles que sempre foram contra a Europa.

Por enquanto a batalha foi ganha e por isso há um jogo que vale a pena ser jogado. "Vale a pena jogar o jogo das regras" europeias, frisou o chefe da diplomacia portuguesa, insistindo que  o "mais importante" na decisão da Comissão foi o "dar razão a Portugal" e aos seus argumentos.

O quê? Não, não.  "O jogo da Comissão Europeia, o jogo da União Europeia, não é um jogo que valha a pena ser jogado, é a roleta russa, e por muito que tenhamos ganho desta vez, continua a ser a roleta russa em setembro, por isso nós sabemos que Portugal não ganha por jogar pelas regras, Portugal ganha por defender a dignidade de quem aqui vive e por não ceder à pressão." ("Notícias de catástrofe" até aprovação do OE",Catarina Martins)

O inimigo principal, portanto, é a União Europeia, nem sequer a Comissão Europeia ou a actual Comissão Europeia. Por isso,  tem-nos à perna, é preciso não jogar pelas regras ou como escrevia António Barreto, gritar  "Às armas!" ( DN, "Sem emenda",   de 17 de julho de 2016). A culpa é dos outros.Tem sido assim na história e ultimamente a culpa é da Europa. Os europeus “…São eles os responsáveis pelas nossas dívidas, os causadores das nossas perdas, os obreiros da nossa crise e os culpados das nossas dificuldades!"
"Em vez de procurar valorizar o que temos, de aproveitar o que sabemos e de organizar a economia; em vez de investir, de diminuir o desperdício e de fazer obra útil; em vez de apenas gastar o que temos, de atrair investimento externo e de trabalhar e poupar; em vez de estudar, de nos governarmos com mais sabedoria e de fazer com que o Estado respeite os cidadãos, em vez disso, procuram as autoridades comover os sentimentos, confundir os espíritos e mobilizar contra alguém, o inimigo, o adversário, a ficção dos que querem mandar em nós, a invenção dos que não respeitam os portugueses e a fantasia dos que não honram uma nação com oito séculos de história!”…

É confrangedor assistir à parceria "estratégica" Costa/Catarina que levantaram voo com a vaca e vivem cada um no seu mundo mas os dois igualmente virtuais: onde a Europa é a fonte de todo o mal.
E, afinal (oh inanidade!): "A correspondência do Governo português e a Comissão é isso mesmo: a correspondência do Governo português e a Comissão." (A. Costa, 5/7/2016).

10/07/16

Hoje apetece-me ouvir: Carl Orff

Carl Orff - 10/7/1895 - 29/3/1982
Carmina Burana - 18. Circa Mea Pectora

Circa mea pectora
multa sunt suspiria
de tua pulchritudine,
quae me laedunt misere.
Manda liet, manda liet,
min geselle
chumet niet.

Tui lucent oculi
sicut solis radii,
sicut splendor fulguris
lucem donat tenebris.
Manda liet, manda liet,
min geselle
chumet niet.

Vellet Deus,
vellent dii,
quod mente proposui,
ut eius virginea
reserassem vincula.
Manda liet,
manda liet,
min geselle
chumet niet.

In my heart there are many sighs for your beauty which torture me miserably.
Send a message, send a message, my beloved does not come.
Your eyes shine like the rays of the sun, like a flash of lightning which gives light to darkness.
Send a message, send a message, my beloved does not come.
May God grant, may the gods grant, what I have set myself to do, and that is, to unlock the bonds of her virginity.
Send a message, send a message, my beloved does not come.

07/07/16

XX - XY

155.º aniversário do nascimento de Nettie Stevens
Nettie Maria Stevens (7/7/1861- 4/5/1912) foi uma bióloga norte-americana de destaque no século XIX. Ela e Edmund Beecher Wilson foram os primeiros a descrever a base cromossómica de definição sexual nos organismos. (Wikipédia)

Ronaldo: asas nos pés

Clã - Asas delta




30/06/16

Foi por ela

 
Foi  por ela - Fausto

O resultado do referendo na Grã-Bertanha "disse" que a maioria dos cidadãos britânicos decidiram sair da União Europeia. Dito de outro modo, este resultado mostrou, de facto, que a maioria dos britânicos não está interessada num futuro comum.  Mais uma vez se prova que a falar nos desentendemos e voltamos aos tempos de Yalta e à primazia dos interesses, como se dizia aqui.
Seja qual a for a opinião que cada um tem sobre este acontecimento, uma coisa é certa, como escreve António Barreto:
"Não há quem possa compensar o que desaparece. Ninguém, nenhum país poderá preencher o vazio agora criado. O que a União europeia perdeu, de facto, não tem substituição. Perdeu uma das nações mais antigas e influentes do mundo e da história. Talvez o povo com o maior apego à liberdade que se possa imaginar. A mais antiga e experiente democracia do mundo. O único país que não conheceu, nos últimos séculos, a ditadura. A mais consolidada tradição de autonomia individual perante o Estado…"
Como referimos, Dorothy Tennov propõe três etapas para construção do futuro comum: a fusão, a construção do ninho, a negociação das margens respectivas de liberdade e intimidade individual. 
Como acontece no amor, parece-me que também as sociedades que querem construir um futuro comum vão encontrando maiores dificuldades nas etapas dessa construção. Certamente, a negociação das margens de liberdade será sempre difícil de concretizar à vontade de cada um. Mas esse é o caminho do amor.

Inicialmente, parecia uma coisa natural. Para quem viajava pela Europa ou ia apenas ali a Espanha. Fazia sentido que houvesse comunicações, liberdade de circulação, relações comerciais comuns, até uma moeda comum. 
Nesta fase de fusão não nos demos conta de que o processo era pouco democrático, mas era preciso entrar e assim foi, com pompa e circunstância, como nas grandes cerimónias. Lá estão as placas comemorativas na calçada em frente aos Jerónimos, em Lisboa. 
Foi por ela, uma canção de Fausto, exprime bem esta fase da fusão. 
“Foi por ela que amanhã me vou embora
ontem mesmo hoje e sempre ainda agora
sempre o mesmo em frente ao mar também me cansa
diz Madrid, Paris, Bruxelas quem me alcança
em Lisboa fica o Tejo a ver navios
dos rossios de guitarras à janela
foi por ela que eu já danço a valsa em pontas
que eu passei das minhas contas foi por ela 
Esta fase, a fusão, fica bem expressa nos últimos versos:
“foi por ela que eu deixei de ser quem era
sem saber o que me espera foi por ela” 
Pouco importava o desconhecido que, em todo o caso, parecia um mar de rosas. Na segunda fase, a construção do ninho, "devem assumir-se novos compromissos para garantir infraestruturas adequadas à vida em comum e se e necessário muda-se de local de trabalho, de lugar geográfico. O amor expressa-se menos com beijos e carícias e mais com cuidados, trabalho e contratos que cimentam uma plataforma comum sustentável." (E. Punset)
Os erros cometidos nesta fase têm consequências a longo prazo e foram talvez esses erros que fizeram com que seja tão difícil estabelecer os limites da terceira fase: a delimitação negociada dos campos respectivos de liberdade. 
Depressa nos esquecemos o que de bom se fez nos países após a adesão à União Europeia, os aspectos negativos tem sempre outro impacto . E são esses que sobressaem. 
É nessa perspectiva que estamos.
Mas mesmo com todos os defeitos desta União Europeia, este é um dos melhores sítios para se poder viver com dignidade, liberdade, democracia e justiça. 
Estamos quase a ir de férias esperemos que tudo fique mais claro com o repouso que merecemos. Boas férias. 

24/06/16

Yalta em alta: linguagem e emoções


Costumamos dizer que é a falar que a gente se entende. No entanto, o que acontece é, exactamente, o contrário: a linguagem serve para nos confundirmos. A linguagem é muitas vezes perversa no sentido de que corrompe, desmoraliza, deprava, ou seja, tira proveito do outro, manipulando-o, desmoralizando-o. Os perversos não torturam necessariamente as suas vítimas de forma física, mas subjugam-nas à sua visão de mundo. Cometem abusos de poder, coerção moral, chantagens e extorsões com muita facilidade.
Uma das circunstâncias em que esta linguagem é mais usada é nos encontros entre países para encontrarem a paz e acabam fazendo a guerra.
A conferência de Yalta, em 1945, foi um diálogo de surdos que, no entanto mudou o mundo, de acordo com as vantagens que cada país procurava tirar ou manter em relação aos outros. No fundo o que importava era defender os próprios interesses.
Foi assim que surgiu a guerra fria, o muro de Berlim e a corrida aos armamentos. Caiu o muro, porém a corrida armamentista mantém-se em alta.
O que se passa na Síria é bem a prova do que se passa nesse campo. Os vários países que aí intervêm para acabar com a guerra nem sequer são capazes de se entenderem quanto à questão essencial de pôr termo a esta catástrofe humanitária, a maior a seguir à segunda guerra mundial. Cada um procura defender os seus interesses.
Aliás, nas Nações Unidas e Conselho de Segurança, é difícil chegar a qualquer compromisso, por haver um real diálogo de surdos. Então, a linguagem não serve para as pessoas se entenderem 
Na vida quotidiana parece haver dificuldade em estabelecer um compromisso e isso é tanto mais evidente quanto a sociedade de consumo oferece novidades. O problema está na capacidade de atração da novidade. É estranho o que fazemos por um novo telemóvel, por uma tv último modelo...
A incessante novidade obriga-nos, constantemente, a alterar a ordem de prioridades da nossa vida.
A dificuldade está em fazer algum sacrifício, actualmente, para ter uma vida melhor no futuro.
E sabemos quais foram e são as consequências da opção pela escolha permanente da novidade: o endividamento das famílias e das empresas junto dos bancos, dos bancos junto de outros bancos, o crédito malparado, as bolhas imobiliárias, a corrupção...
A nível social e familiar a incapacidade para estabelecer compromissos mais ou menos duráveis mostra a perversidade da linguagem. A linguagem é traiçoeira. Seja escrito ou oral, o compromisso não tem qualquer validade passados uns momentos, umas horas, uns dias.
O que se passa com as famílias é a dificuldade em estabelecer prioridades face à forte atracção da novidade.
Estudos (Gottman) mostram que para um casamento durar, a relação entre as emoções positivas e negativas num dado encontro tem de ser pelo menos de 5 para 1. As emoções negativas mais significativas são: postura defensiva, reserva, censura e desprezo.
O desprezo é o contrário do amor. Quando ele domina a relação de casal significa que a relação chegou ao fim.
O que faz falta ao nosso mundo e à nossa vida são competências sociais e emocionais que relevam o amor e preterem o desprezo. *
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Texto inspirado no cap. 8, "Construir un futuro común" de El viaje al amor, de Eduardo Punset.
O resultado do referendo na GB sobre sair/ficar na União Europeia mostrou, de facto, que a maioria não está interessada num futuro comum.
Mais uma vez se prova que a falar nos desentendemos e voltamos aos tempos de Yalta e à primazia dos interesses.
Dorothy Tennov, citada por EP, propõe três etapas para construção do futuro comum: a fusão, a construção do ninho, a negociação das margens respectivas de liberdade e intimidade individual.
Como acontece no amor, parece-me que também as sociedades que querem construir um futuro comum vão encontrando maiores dificuldades nas etapas dessa construção. Certamente, a negociação das margens de liberdade será sempre difícil de concretizar à vontade de cada um. Mas esse é o caminho do amor.