18/02/16

Música da maré

Exploratorium - S. Francisco

Zadar - Croatia

"... A música pode vir das rochas, das raízes, das árvores, da chuva..." 
Diane Ackerman, Uma história natural dos sentidos.

14/02/16

Da alegria e da tristeza

A alegria, uma das cinco emoções básicas (E. Berne), é contagiante e aumenta quando compartilhada. "Quando estamos contentes, passamos esse contentamento para os outros em todos os momentos de nossa vida. É uma a dimensão espiritual da felicidade, que nos leva a compreender o nosso valor intrínseco e o papel que nos cabe neste universo. Portanto, ao aceitarmos a alegria, tomamos a decisão de "seguir com o fluxo" de sermos gratos pela vida e por todos os desafios e oportunidades que ela nos traz… (Osho)
Periodicamente, temos no calendário festas como o carnaval, supostamente um tempo de divertimento e alegria. E, estranhamente, ou talvez não, à mistura com a alegria vêm os excessos comportamentais que normalmente desembocam em violência. Como vemos/lemos na comunicação social, é, aliás, nestes acontecimentos festivos, desportivos, musicais, que há quem acabe por viver esses momentos com violência.

Não são diferentes, no entanto, de qualquer outro projecto humano: onde quer que estejam presentes as emoções que se encontram no nosso cérebro mais antigo, o cérebro reptiliano (Punset, p. 68).

Como sabemos, no campo das emoções, podemos ser facilmente presas de condicionamentos e reacções inconscientes ao medo, contaminando, assim, a multidão de comportamentos aparentemente racionais (p. 90)
As emoções, tomam caminhos muito directos quando se trata de comportamentos aditivos - tabaco, bebida, droga - mas percorrem um caminho mais tortuoso quando se trata das advertências “não fumes”, "não te drogues”, “não bebas demasiado" (p. 91).
De facto respondemos de forma automática quando tomamos decisões; e isto é difícil de reprimir, porque as emoções podem estar programadas com uma carga negativa que podem ser o resultado de emoções específicas da infância
As emoções são incontroláveis mas não podemos dizer que são irracionais e imprevisíveis. Elas estão ligadas à nossa mente cognitiva e participam das nossas decisões, outra coisa é a impossibilidade de evitar as emoções, a dificuldade de as controlar e de as reprogramar conscientemente (p.91-92). A dificuldade está em gerir a vida emocional, às vezes autêntico vendaval emocional.
“A felicidade é transitória e efémera, pelo que o primeiro a chegar à meta da infelicidade será aquele que pretende ser feliz continuamente.”(p. 101)
Sempre, em todas as sociedades, houve quem quisesse organizar a felicidade através dos mais diversos eventos: o carnaval * e todo o tipo de festas e festivais, onde se procura que as pessoas sejam felizes, seja a que preço for.
Estes atalhos para a felicidade (cap. 7, p. 201 e seg.) fazem-nos pensar que os factores determinantes da felicidade são as causas externas. Mas está claro que há muitos factores internos que levam a desbaratar a felicidade, como o medo, não aceitar o carácter efémero da felicidade, preconceitos enraizados que distorcem a realidade, a perda de controlo, os fluxos hormonais…
A felicidade e a alegria podem, afinal não estar nestes momentos organizados e, a nossa capacidade de resistência ao stress e às circunstancias desfavoráveis da vida tornar mais difícil a nossa capacidade de adaptação e entrarmos na espiral descendente de tristeza, fadiga e apatia. (Alex Korb).
Convém não esquecer que a felicidade é uma emoção transitória e que em grande parte depende de nós próprios.
_____________________
* A este propósito, muito interessante e contra a corrente, pelo menos de algum poder pródigo autárquico, o Editorial de Clara F. Alves, Expresso, «Pluma Caprichosa» - «Carnavais» - "A tradição da alegria obrigatória só contribui para a melancolia pecuniária. E não, o carnaval não é um direito dos trabalhadores".

11/02/16

As minhas serigrafias: Michael Barrett

Michael Barrett - O Palhaço

Técnica: Serigrafia
Suporte: Papel Fabriano D5 GF 300g; Dimensão da Mancha: 38x45,5 cm; Dimensão do Suporte: 50x70 cm; N.º de cores: 28;
Data: 2000
Nº de Exemplar: 105/200

"Michael Barrett (1926-2004), nasceu em Paris, contudo foi em Lisboa que se fixou, tendo aí descoberto o seu amor pela arte. Cascais, Figueira da Foz e Aveiro foram porventura os seus temas prediletos, a par com Fernando Pessoa. As influências impressionistas e expressionistas, a par da sua admiração por Matisse, definiram-lhe um estilo peculiar, revelado na excelência da sua obra... "


Trabalhar como se não houvesse ministro da educação



"Ouvimos o Conselho Nacional de Educação mas quem governa somos nós" . Dito de outra maneira: "quem manda aqui sou eu", que é a maneira mais fraca do poder ser autoridade.

O parecer do CNE de facto é apenas um parecer não vinculativo e tem o valor que tem. Face ao que estava em discussão e tinha que ser decidido mereceria mais ponderação. Mas isso é coisa que pouco interessa quando se tem uma agenda ideológica mesmo que profundamente errónea.

O mesmo se passa, agora, com o parecer do Conselho de Escolas.
Conselho das Escolas quer a continuação do exame do 6º ano e provas de aferição só nos 4º e 8º anos.
"Crítico e, afinal, com uma perspetiva contrária à defendida pelo ministro Tiago Brandão Rodrigues em relação ao fim dos exames. É este o tom do parecer do Conselho das Escolas (CE) em relação ao novo modelo de avaliação do ensino básico. O órgão consultivo do Ministério da Educação (ME) defende a manutenção dos exames do 6.º ano e provas de aferição só nos 4.º e 8.º anos. No parecer, feito a pedido da própria tutela e aprovado ontem, o órgão que representa as escolas mostra-se contra a aplicação das alterações já neste ano."

Costumava dizer, com a minha equipa de trabalho, quando ainda estava no activo: "vamos trabalhar como se não houvesse ministro da educação".  E foi assim durante muitos anos e passaram  dezenas de ministros da educação e secretários de estado da mesma, alguns de que, felizmente, nem sequer lembro do nome...
Nunca este moto teve tanta razão de ser. Já percebemos que o que aí vem não é bonito para quem tem da educação outra visão que não seja agradar às massas. 
Entradas de leão... vamos ver naquilo que dão.

09/02/16

Assim começa o mundo plástico da criança

J. - 1;5 (26) - Garatuja


"As garatujas são traçados espiralados e incontrolados que a criança executa apenas dominada pelos seus impulsos instintivos e segundo as suas possibilidades psicomotoras. É o prazer de riscar que ela experimenta sobre qualquer superfície lisa: parede, papel, chão ou mesa. Em regra, utiliza lápis, giz, carvão, lápis pastel ou de cera, o que encontra à mão. A folha de papel deve ser de grande formato, a fim de lhe permitir movimentos largos do braço e do antebraço. A criança terá assim uma maior sensação de liberdade, pois não pode executar com a mão movimentos mais curtos e minuciosos. Grandes e grossos pincéis redondos carregados de tinta, que deslizam facilmente sobre a folha de papel, são, por isso preferíveis aos lápis de cor que sendo mais duros podem romper o papel, além de dificultarem o movimento livre do braço, do antebraço e da mão. Assim, a criança traça turbilhões ou aglomerados de cor, sem se preocupar muito com a relação cromática, mas apenas movida pelo prazer que essa nova experiência representa para ela." 
Eurico Gonçalves, (1976), A Pintura das Crianças e Nós, Pais, Professores, Educadores, Porto Editora, p. 20

07/02/16

Hoje apetece-me ouvir: Debussy

La cathédrale engloutie, de Debussy


... e ler Jorge de Sena,

«La cathédrale engloutie, de Debussy»

Creio que nunca perdoarei o que me fez esta música.
Eu nada sabia de poesia, de literatura, e o piano
era, para mim, sem distinção entre a Viúva Alegre e Mozart,
o grande futuro paralelo a tudo o que eu seria
para satisfação dos meus parentes todos. Mesmo a Música,
eles achavam-na demais, imprópria de um rapaz
que era pretendido igual a todos eles: alto ou baixo funcionário público,
civil ou militar. Eu lia muito, é certo. Lera
o Ponson du Terrail, o Campos Júnior, o Verne e o Salgari,
e o Eça e o Pascoaes. E lera também
nuns caderninhos que me eram permitidos porque aperfeiçoavam o francês,
e a Livraria Larousse editava para crianças mais novas do que eu era,
a história da catedral de Ys submersa nas águas.

Um dia, no rádio Pilot da minha Avó, ouvi
uma série de acordes aquáticos, que os pedais faziam pensativos,
mas cujas dissonâncias eram a imagem tremulante
daquelas fendas ténues que na vida,
na minha e na dos outros, ou havia ou faltavam.
Foi como se as águas se me abrissem para ouvir os sinos,
os cânticos, e o eco das abóbadas, e ver as altas torres
sobre que as ondas glaucas se espumavam tranquilas.
Nas naves povoadas de limos e de anémonas, vi que perpassavam
almas penadas como as do Marão e que eu temia
em todos os estalidos e cantos escuros da casa.
 ...
31/12/1964

O poema completo está em
Arte de Música, 1968, Jorge de Sena, Obras completas, Antologia Poética, ed. Jorge Fazenda Lourenço, Guimarães, p. 155

06/02/16

Orçamento «tira do "lete" e põe no "caféi"»

Há várias formas de austeridade. Como já aqui escrevi, por diversas vezes, há uma austeridade virtuosa, a da sobriedade, a de um mundo sustentável, que devia ser a de todos, as famílias e países.
Se bem me lembro, num programa "prós e contras" sobre a austeridade foi perguntado a um pescador que estava na assistência o que pensava sobre austeridade, e a resposta resumiu aquilo que muitos portugueses pensam e praticam: "na minha casa sempre houve austeridade".

Aumentar impostos para sustentar, reverter, o consumismo, supondo que leva ao fim da austeridade, é mera ilusão alimentada pelo populismo que há-de dar votos. Essa palavra horrível - austeridade - por artes mágicas, tipo "bater o pé a Bruxelas", "exigir", "ser mau aluno", "não pagamos"... pode desaparecer com um orçamento que cumpra as promessas feitas a todos, aos assinantes da posição conjunta e ao conjunto da Comissão Europeia, aos que (con)correm por dentro e aos que olham de fora, desde que o mágico-chefe diga as palavras certas: "vamos mudar de página, acabou a austeridade".

Então, oh maravilha, os aumentos de impostos, as taxas, deixam de ser penalizadoras, e, com alegria, sentimos que, finalmente, o poder protege os mais fracos, mas ao sabor do seu gosto pessoal, chamado "recomposição fiscal": tira imposto de um lado e põe imposto no outro, tira o iva da restauração e põe no imposto de selo das transacções bancárias, tira o corte de salários da função pública e aumenta na gasolina, no iuc e no imposto automóvel, tira o iva de 23% do hamburger com batatas fritas mas deixa-o ficar na água com gás...

É, afinal, um orçamento clássico da dita esquerda, tirar a uns, os ricos, para dar a outros, os pobres? Nem por isso; agora dá a uns com uma mão e tira dos mesmos (a classe média, seja lá o que isso for) com a outra.

É o orçamento «tira do "lete" e põe no "caféi"». Como no tempo em que a Ana Faria "brincava aos clássicos" e os Queijinhos Frescos cantavam:
"Onde tás ó Zéi / Vem estudar p'raqui / Estou no balancéi / E a lição já liiii / E o que fizeste ao 'i'? / Tirei-o do 'lete' e 'púzio' no 'caféi'!"


03/02/16

Perdoar

Foi noticiado que um individuo de quarenta anos, começou a ser julgado nesta segunda-feira por violar, assassinar e atirar o corpo de uma idosa para o interior de um caixote do lixo público. 
Todos os crimes são horríveis. No entanto, poderíamos pensar que os seres humanos não seriam capazes de ultrapassar os limites da vida humana, com a agravante de as vítimas serem pessoas mais frágeis, como é o caso de crianças e idosos. Na realidade o ser humano, por ser humano, é capaz de cometer esses crimes quer agindo individualmente quer em grupo. 
Por outro lado, na mesma notícia confrontamo-nos, nesta situação e em muitas outras, com comportamentos verbalmente violentos dos que querem vingar a vítima.
Compreende-se a indignação  e o desejo de vingança dos familiares das vítimas e da opinião pública que, em geral, tem o sentimento de que não se faz justiça. Ficamos incomodados, em particular, nos casos de homicídio, quer porque as penas são demasiado leves, quer porque os criminosos muitas vezes têm antecedentes e continuam com padrões de comportamentos violentos, não se arrependem, não pedem desculpa, não fazem a restituição e reparação do que ainda pode ser reparado…
Tudo isso deve ser analisado, mas, na realidade, o que nos acontece é que nos fixamos “nas recordações negativas, em pensamentos negativos, frequentes e intensos sobre o passado … e estes pensamentos tornam impossível a serenidade e a paz. “ (Seligman, Felicidade autêntica, p.104)
Muitas pessoas agarram-se aos pensamentos amargos sobre o passado e isso pode levar ao caminho de vingança, de retaliação, do olho por olho… 
No entanto, o perdão tem vantagens positivas ao transformar a amargura em neutralidade e até em recordações de satisfação com a vida.

O fraco jamais perdoa: o perdão é uma das características do forte.... Frase de Mahatma Gandhi.É possível aprendermos a perdoar. 
O psicólogo Everett Worthington recebeu um telefonema do irmão a informar que a mãe tinha sido assassinada. A sua mãe já idosa fora espancada até à morte com uma barra de ferro e um bastão de basebol. Não vou referir mais pormenores. 
Após o assassinato de sua mãe, interessou-se pelo estudo da relação entre o perdão e outras virtudes, tais como justiça, misericórdia, humildade e auto-controle.
Para Everett, o "perdão emocional" substitui as emoções negativas por sentimentos positivos como a compaixão e empatia. O perdão emocional também nos impede de ruminar sobre o mal que nos foi feito, ruminação que pode ser prejudicial e desenvolver problemas de saúde mental, incluindo perturbação obsessivo-compulsiva, ansiedade e depressão. 
Everett desenvolveu um programa de cinco etapas chamado REACH que são as iniciais de recordação, empatia, altruísmo , comprometer-se e sustentar o perdão:
- recordar a dor que nos foi causada da forma mais objectiva possível;
- tentar compreender o ponto de vista do criminoso e porque é que essa pessoa nos magoou;
- pensar sobre alguma vez em que tenhamos sido perdoados por algo que fizemos errado;
 -comprometer-se consigo próprio e perdoar publicamente;
- perdoar não significa apagar a dor, mas lembrar-se de que fizemos a escolha de perdoar.

Perdoar é um processo psicológico difícil de conseguir mas, tal como foi testado neste programa, tem resultados positivos para a nossa vida, a nível físico e psicológico.
Perdoar, como dizia Gandhi, é característica dos fortes.

31/01/16

Equinácea

Echinacea purpurea Maxima.

Uma estuporada tosse tem-me marcado este Inverno e a muita gente. Comprimidos, xaropes, pastilhas, chás, infusões, expectorantes, antitússicos...   e farto disso tudo.
Parece que a equinácea me dá alguma esperança !
Atenção às contraindicações


Ver e ouvir: Olcay Bayir

Olcay Bayır - Durme, Durme
Oud por Nizar Rohana

Já não está disponível. Talvez aqui.

 

"O trabalho de Olkay Bayir incorpora elementos do folk, jazz e neo-clássico, com um trabalho vocal evocativo de ambientes orientais através de composições originais e arranjos de canções folclóricas do Mediterrâneo e Anatólia. A sua mestria vocal e capacidade de transmitir emoções, transporta-nos para uma leitura intensa da fusão entre música do sul da Europa e do Médio Oriente."

Ontem, fui ver e ouvir Olcay Bayir e gostei. Das letras das canções não percebi uma palavra, quando muito entendia o contexto pela explicação dada. A música correspondeu ao que estava escrito: emoções, uma pacificação interior, necessária, fluindo de sons que mostram o nosso lado de bondade, do que de melhor há em nós.
Como em qualquer cultura a liberdade é fundamental. O rouxinol não precisa de uma gaiola dourada, precisa de ser livre para cantar o amor.  




"Durme, Durme" é uma canção de embalar de que existem outras versões  como aqui:

Durme, durme, querido hijico / Sleep, sleep beloved son
durme sin ansia y dolor / sleep with no fretting
cerra tus chicos ojicos / close your tiny eyes
durme, durme con savor. / sleep, sleep restfully.
Cerra tus lindos ojicos / Close your beautiful eyes
durme, durme con savor. / sleep, sleep restfully.

De la cuna salirás / Out of the crib
a la escola tu entrarás / to enter school
y alli mi querido hijico / and there, my beloved son
a meldar te ambezarás. / you'll begin to read.

De la escola salirás / Out of school 
a las pachas te irás / to go to the pashas
a y tu mi querido hijico / and you my beloved son
al empiego entrarás. / to work you'll go.