09/02/16

Assim começa o mundo plástico da criança

J. - 1;5 (26) - Garatuja


"As garatujas são traçados espiralados e incontrolados que a criança executa apenas dominada pelos seus impulsos instintivos e segundo as suas possibilidades psicomotoras. É o prazer de riscar que ela experimenta sobre qualquer superfície lisa: parede, papel, chão ou mesa. Em regra, utiliza lápis, giz, carvão, lápis pastel ou de cera, o que encontra à mão. A folha de papel deve ser de grande formato, a fim de lhe permitir movimentos largos do braço e do antebraço. A criança terá assim uma maior sensação de liberdade, pois não pode executar com a mão movimentos mais curtos e minuciosos. Grandes e grossos pincéis redondos carregados de tinta, que deslizam facilmente sobre a folha de papel, são, por isso preferíveis aos lápis de cor que sendo mais duros podem romper o papel, além de dificultarem o movimento livre do braço, do antebraço e da mão. Assim, a criança traça turbilhões ou aglomerados de cor, sem se preocupar muito com a relação cromática, mas apenas movida pelo prazer que essa nova experiência representa para ela." 
Eurico Gonçalves, (1976), A Pintura das Crianças e Nós, Pais, Professores, Educadores, Porto Editora, p. 20

07/02/16

Hoje apetece-me ouvir: Debussy

La cathédrale engloutie, de Debussy


... e ler Jorge de Sena,

«La cathédrale engloutie, de Debussy»

Creio que nunca perdoarei o que me fez esta música.
Eu nada sabia de poesia, de literatura, e o piano
era, para mim, sem distinção entre a Viúva Alegre e Mozart,
o grande futuro paralelo a tudo o que eu seria
para satisfação dos meus parentes todos. Mesmo a Música,
eles achavam-na demais, imprópria de um rapaz
que era pretendido igual a todos eles: alto ou baixo funcionário público,
civil ou militar. Eu lia muito, é certo. Lera
o Ponson du Terrail, o Campos Júnior, o Verne e o Salgari,
e o Eça e o Pascoaes. E lera também
nuns caderninhos que me eram permitidos porque aperfeiçoavam o francês,
e a Livraria Larousse editava para crianças mais novas do que eu era,
a história da catedral de Ys submersa nas águas.

Um dia, no rádio Pilot da minha Avó, ouvi
uma série de acordes aquáticos, que os pedais faziam pensativos,
mas cujas dissonâncias eram a imagem tremulante
daquelas fendas ténues que na vida,
na minha e na dos outros, ou havia ou faltavam.
Foi como se as águas se me abrissem para ouvir os sinos,
os cânticos, e o eco das abóbadas, e ver as altas torres
sobre que as ondas glaucas se espumavam tranquilas.
Nas naves povoadas de limos e de anémonas, vi que perpassavam
almas penadas como as do Marão e que eu temia
em todos os estalidos e cantos escuros da casa.
 ...
31/12/1964

O poema completo está em
Arte de Música, 1968, Jorge de Sena, Obras completas, Antologia Poética, ed. Jorge Fazenda Lourenço, Guimarães, p. 155

06/02/16

Orçamento «tira do "lete" e põe no "caféi"»

Há várias formas de austeridade. Como já aqui escrevi, por diversas vezes, há uma austeridade virtuosa, a da sobriedade, a de um mundo sustentável, que devia ser a de todos, as famílias e países.
Se bem me lembro, num programa "prós e contras" sobre a austeridade foi perguntado a um pescador que estava na assistência o que pensava sobre austeridade, e a resposta resumiu aquilo que muitos portugueses pensam e praticam: "na minha casa sempre houve austeridade".

Aumentar impostos para sustentar, reverter, o consumismo, supondo que leva ao fim da austeridade, é mera ilusão alimentada pelo populismo que há-de dar votos. Essa palavra horrível - austeridade - por artes mágicas, tipo "bater o pé a Bruxelas", "exigir", "ser mau aluno", "não pagamos"... pode desaparecer com um orçamento que cumpra as promessas feitas a todos, aos assinantes da posição conjunta e ao conjunto da Comissão Europeia, aos que (con)correm por dentro e aos que olham de fora, desde que o mágico-chefe diga as palavras certas: "vamos mudar de página, acabou a austeridade".

Então, oh maravilha, os aumentos de impostos, as taxas, deixam de ser penalizadoras, e, com alegria, sentimos que, finalmente, o poder protege os mais fracos, mas ao sabor do seu gosto pessoal, chamado "recomposição fiscal": tira imposto de um lado e põe imposto no outro, tira o iva da restauração e põe no imposto de selo das transacções bancárias, tira o corte de salários da função pública e aumenta na gasolina, no iuc e no imposto automóvel, tira o iva de 23% do hamburger com batatas fritas mas deixa-o ficar na água com gás...

É, afinal, um orçamento clássico da dita esquerda, tirar a uns, os ricos, para dar a outros, os pobres? Nem por isso; agora dá a uns com uma mão e tira dos mesmos (a classe média, seja lá o que isso for) com a outra.

É o orçamento «tira do "lete" e põe no "caféi"». Como no tempo em que a Ana Faria "brincava aos clássicos" e os Queijinhos Frescos cantavam:
"Onde tás ó Zéi / Vem estudar p'raqui / Estou no balancéi / E a lição já liiii / E o que fizeste ao 'i'? / Tirei-o do 'lete' e 'púzio' no 'caféi'!"


03/02/16

Perdoar

Foi noticiado que um individuo de quarenta anos, começou a ser julgado nesta segunda-feira por violar, assassinar e atirar o corpo de uma idosa para o interior de um caixote do lixo público. 
Todos os crimes são horríveis. No entanto, poderíamos pensar que os seres humanos não seriam capazes de ultrapassar os limites da vida humana, com a agravante de as vítimas serem pessoas mais frágeis, como é o caso de crianças e idosos. Na realidade o ser humano, por ser humano, é capaz de cometer esses crimes quer agindo individualmente quer em grupo. 
Por outro lado, na mesma notícia confrontamo-nos, nesta situação e em muitas outras, com comportamentos verbalmente violentos dos que querem vingar a vítima.
Compreende-se a indignação  e o desejo de vingança dos familiares das vítimas e da opinião pública que, em geral, tem o sentimento de que não se faz justiça. Ficamos incomodados, em particular, nos casos de homicídio, quer porque as penas são demasiado leves, quer porque os criminosos muitas vezes têm antecedentes e continuam com padrões de comportamentos violentos, não se arrependem, não pedem desculpa, não fazem a restituição e reparação do que ainda pode ser reparado…
Tudo isso deve ser analisado, mas, na realidade, o que nos acontece é que nos fixamos “nas recordações negativas, em pensamentos negativos, frequentes e intensos sobre o passado … e estes pensamentos tornam impossível a serenidade e a paz. “ (Seligman, Felicidade autêntica, p.104)
Muitas pessoas agarram-se aos pensamentos amargos sobre o passado e isso pode levar ao caminho de vingança, de retaliação, do olho por olho… 
No entanto, o perdão tem vantagens positivas ao transformar a amargura em neutralidade e até em recordações de satisfação com a vida.

O fraco jamais perdoa: o perdão é uma das características do forte.... Frase de Mahatma Gandhi.É possível aprendermos a perdoar. 
O psicólogo Everett Worthington recebeu um telefonema do irmão a informar que a mãe tinha sido assassinada. A sua mãe já idosa fora espancada até à morte com uma barra de ferro e um bastão de basebol. Não vou referir mais pormenores. 
Após o assassinato de sua mãe, interessou-se pelo estudo da relação entre o perdão e outras virtudes, tais como justiça, misericórdia, humildade e auto-controle.
Para Everett, o "perdão emocional" substitui as emoções negativas por sentimentos positivos como a compaixão e empatia. O perdão emocional também nos impede de ruminar sobre o mal que nos foi feito, ruminação que pode ser prejudicial e desenvolver problemas de saúde mental, incluindo perturbação obsessivo-compulsiva, ansiedade e depressão. 
Everett desenvolveu um programa de cinco etapas chamado REACH que são as iniciais de recordação, empatia, altruísmo , comprometer-se e sustentar o perdão:
- recordar a dor que nos foi causada da forma mais objectiva possível;
- tentar compreender o ponto de vista do criminoso e porque é que essa pessoa nos magoou;
- pensar sobre alguma vez em que tenhamos sido perdoados por algo que fizemos errado;
 -comprometer-se consigo próprio e perdoar publicamente;
- perdoar não significa apagar a dor, mas lembrar-se de que fizemos a escolha de perdoar.

Perdoar é um processo psicológico difícil de conseguir mas, tal como foi testado neste programa, tem resultados positivos para a nossa vida, a nível físico e psicológico.
Perdoar, como dizia Gandhi, é característica dos fortes.

31/01/16

Equinácea

Echinacea purpurea Maxima.

Uma estuporada tosse tem-me marcado este Inverno e a muita gente. Comprimidos, xaropes, pastilhas, chás, infusões, expectorantes, antitússicos...   e farto disso tudo.
Parece que a equinácea me dá alguma esperança !
Atenção às contraindicações


Ver e ouvir: Olcay Bayir

Olcay Bayır - Durme, Durme
Oud por Nizar Rohana

Já não está disponível. Talvez aqui.

 

"O trabalho de Olkay Bayir incorpora elementos do folk, jazz e neo-clássico, com um trabalho vocal evocativo de ambientes orientais através de composições originais e arranjos de canções folclóricas do Mediterrâneo e Anatólia. A sua mestria vocal e capacidade de transmitir emoções, transporta-nos para uma leitura intensa da fusão entre música do sul da Europa e do Médio Oriente."

Ontem, fui ver e ouvir Olcay Bayir e gostei. Das letras das canções não percebi uma palavra, quando muito entendia o contexto pela explicação dada. A música correspondeu ao que estava escrito: emoções, uma pacificação interior, necessária, fluindo de sons que mostram o nosso lado de bondade, do que de melhor há em nós.
Como em qualquer cultura a liberdade é fundamental. O rouxinol não precisa de uma gaiola dourada, precisa de ser livre para cantar o amor.  




"Durme, Durme" é uma canção de embalar de que existem outras versões  como aqui:

Durme, durme, querido hijico / Sleep, sleep beloved son
durme sin ansia y dolor / sleep with no fretting
cerra tus chicos ojicos / close your tiny eyes
durme, durme con savor. / sleep, sleep restfully.
Cerra tus lindos ojicos / Close your beautiful eyes
durme, durme con savor. / sleep, sleep restfully.

De la cuna salirás / Out of the crib
a la escola tu entrarás / to enter school
y alli mi querido hijico / and there, my beloved son
a meldar te ambezarás. / you'll begin to read.

De la escola salirás / Out of school 
a las pachas te irás / to go to the pashas
a y tu mi querido hijico / and you my beloved son
al empiego entrarás. / to work you'll go.

29/01/16

Hoje apetece-me ouvir: Sarah McKenzie


Sarah McKenzie - You'd Be So Nice To Come Home To


"Uma lição de vida... 
"Nada neste mundo substitui a persistên­cia. O talento não a substitui; não há nada mais usual do que homens talentosos e mal sucedidos.O génio não a substitui; a genialidade sem reconhecimento é quase um provérbio. A educação não a substitui; o mundo está repleto de marginais educados. A persistência e a determinação são, por si só, omnipotentes." Calvin Coolidge
...
Na sua música That's it, I quit! fala de um amor que a faz desistir. De que é que nunca seria capaz de abdicar? 
Chocolate Negro Lindt 70 %!"
(Questionário Smooth Epicur, EPICUR, Inverno, 2015, p. 102)

Eu também não!

27/01/16

Ser avó

1. Parece que foi ela, a avó, que esteve grávida e deu à luz. Simplicidade e emoções genuínas perpassam pelas diversas situações relacionais com os netos, pela fragilidade dos netos acabados de nascer ou pela própria fragilidade em querer cuidar deles o melhor que sabe.
São momentos de puro encantamento em que as brincadeiras e parvoíces da avó parecem destrambelhar a postura do quotidiano mais ou menos circunspecto da sua profissão.
Será que as avós podem usar qualquer roupa ou "um par de ténis" (p.15) sem estarem a concorrer com as mães?
2. As avós, como já foram mães, podem achar que já sabem tudo sobre os filhos ou sabem mais do que as mães, mas não, as avós não nascem ensinadas para o seu papel de avós, "este papel difícil que exige autocontrole e diplomacia que nos permite estar próximo, mas nos obriga a guardar distância, a medir o envolvimento e o sentido de posse, para não magoarmos, nem nos deixarmos magoar…” 
3. As avós têm uma metodologia, vêem os netos como se estivessem no 1º balcão do teatro. Cada capítulo do desenvolvimento dos netos é como se fosse uma ficha de observação. Descritiva, muito impressiva, mais ou menos independente, devido à proximidade relacional, e documentada com as evidências (fotos) que mostra no telemóvel.
4. As avós dão importância às pequenas grandes coisas do desenvolvimento: A importância de uma bolacha que faz milagres face a uma birra;  A importância de dizer não pela primeira vez, que será o começo de muitas outras, torna-se no momento inicial da educação “quando por faro pressentimos que um não é fundamental, e instintivamente o dizemos, sem agressividade, nem raiva, estabelecendo uma regra ou um limite.” (p. 49)
5. Fica particularmente sensibilizada, com a lágrima ao canto do olho, quando ouve dizer pela primeira vez: “vovó”.
6. A avó aprende a lidar com a censura social, as chamadas "bocas" sobre o bebé. Quando os outros tem tendência a fazer comparações por tudo e por nada: “porque ainda usa chucha”, “porque não quer brincar com os outros”, porque ainda não fala muito, “porque é envergonhada”... (p.91), não lhes dá qualquer importância porque sabe que as crianças são diferentes em tudo, mesmo quando se trata de gémeos idênticos.
7. O avô, faz parte desta sociedade de relação e observação. Como o fotógrafo, que geralmente não fica nas fotografias, está presente, talvez mais discreto e menos interventivo, para isso já chega a avó, e aprecia extasiado e incrédulo aquela relação única da avó e do neto nas coisas mais simples e extraordinárias do dia a dia.
8. Os avós não fazem o papel de pais mas são os “anjos-da-guarda delegados.”(p. 89)
9. Os avós ligam, inscrevem, na genealogia, as gerações e os vários elementos da família extensa; " … enquanto pais, os laços que nos ligam aos filhos e, enquanto filhos, os laços que nos ligam aos pais tornam possível que uns e outros estejam absolutamente seguros do amor incondicional que os une. Essa segurança permite que tanto os adultos como as crianças sejam mais eles próprios quando estão uns com os outros.” (p. 64)
10. “Ser avó é uma bênção dos Céus.” (p. 91)