04/10/15
02/10/15
O apelo da rua
Em 2011, o apelo da rua como a chamada "rua árabe". Em 2015, não há ruas... nem rumo, novo ou velho.
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Não podemos saudar democraticamente a chamada “rua árabe” e temer as nossas próprias ruas e praças. Até porque há muita gente aflita entre nós: os desempregados desamparados, a velhice digna ameaçada, os trabalhadores cada vez mais precários, a juventude sem perspectivas e empurrada para emigrar. Toda essa multidão de aflitos e de indignados espera uma alternativa inovadora que só a esquerda democrática pode oferecer.
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Signatários: Mário Soares , Isabel Moreira , Joana Amaral Dias, José Medeiros Ferreira, Mário Ruivo, Pedro Adão e Silva, Pedro Delgado Alves, Vasco Vieira de Almeida, Vitor Ramalho.
Lisboa, 23 de Novembro de 2011
google - Síria - 1-10-2015
Marsmallow, austeridade e eleições
Como vimos, a experiência de vida, realizada numa perspectiva temporal global, se foi baseada na confiança, vai ser uma variável importante na resposta ao teste marshmallow. Com um ambiente confiável vale a pena esperar pela recompensa. Walter Mischel já tinha colocado o problema das crenças das crianças a quem foram prometidas recompensas mais tarde, serem realmente postas como uma importante determinante da escolha, mas as suas experiências posteriores não levaram tais factores em conta...
Um estudo de 2012, da Universidade de Rochester, em Nova York, realizado por Celeste Kidd *, principal autora do estudo, questionava a capacidade de autocontrole como um único marcador inato e se não haveria relação com um ambiente estável ou não.
Para testar essa hipótese os participantes (28 crianças de 3 a 5 anos) foram divididos em dois grupos, um exposto a um ambiente não confiável (promessas feitas pelos investigadores que não eram cumpridas depois) e o outro, a um ambiente confiável (tudo que era prometido era entregue mais tarde).
O grupo de teste confiável esperou por um tempo quatro vezes maior (12 min) que o não confiável para que o segundo marshmallow aparecesse.
As crianças do ambiente não confiável esperaram uma média de três minutos e dois segundos. Apenas uma das 14 crianças deste grupo esperou o tempo combinado, em comparação com as nove crianças do grupo da condição de confiança.
Para os autores, os resultados foram surpreendentes. Em estudos anteriores o tempo de espera médio das crianças foi entre 6,08 e 5,71 minutos.
A manipulação do ambiente duplicou o tempo de espera no estado de confiança e reduziu metade no caso do grupo de ambiente não confiável.
Os autores concluem que este grande efeito da manipulação do ambiente fornece fortes evidências de que o tempo de espera das crianças reflecte a decisão racional sobre a probabilidade de recompensa.
Em conclusão ficou demonstrado que as decisões infantis de esperar por uma recompensa maior, ao invés de tomar rapidamente uma recompensa menor são fortemente influenciadas pela confiabilidade do ambiente (no caso, a fiabilidade das garantias verbais do pesquisador). Mais amplamente, mostramos que desempenho das crianças nas tarefas de atraso-de-gratificação pode ser fortemente influenciado por um processo de tomada de decisão racional implícito.(pag113)
Mesmo crianças de tenra idade e com o conhecimento do mundo limitado, são capazes de adaptar a tomada de decisão de forma muito eficiente, buscando a máxima recompensa. Elas apenas precisam de receber provas de que a decisão de facto pode maximizar o resultado.
Diferentemente do que era pensado e da conclusão a que chegou o Walter Mischel, nos anos 60, as crianças não estão totalmente à mercê de seus impulsos. “Isso demonstra que o processo de tomada de decisão é muito mais adaptável e flexível que tínhamos imaginado”.
As crianças, mesmo as muito jovens, eram capazes de esperar, quando munidas de evidência de que a paciência valeria a pena. E quando foram fornecidas evidências contrárias, elas aproveitaram o momento e fizeram o melhor dessa situação. O comportamento que parece impulsivo pode ser, na verdade, resultado de um processo muito sensível de tomada de decisão.
Como os adultos, as crianças usam experiências anteriores para formar suas decisões em situações novas. Então não é apenas a força de vontade, como na primeira experiência, que é o factor principal na decisão das crianças.
Como refere Filipe Nunes Vicente, vale a pena o esforço e vale a pena esperar. "O ódio à pequena burguesia". "Quem pagou estes anos foi essencialmente a classe média. A classe média foi sempre humilhada pela esquerda bem pensante: desde 1975 que é uma mole analfabruta e ígnara. Do gozo com a maison do emigrante ( agora têm muita pena deles) ao epíteto de mentalidade merceeira (entre dezenas de exemplos), este ódio esteve sempre bem presente na matriz da esquerda bem pensante.
Pois bem, o merceeiro, a rapariguinha do shopping, o emigrante, é que foram apertados, mas fazem umas contas simples. Durante estes anos penaram enquanto ouviram a esquerda bem pensante (e algumas aves de arribação) apregoar o caos e a inutilidade do seu esforço. Não gostaram e não querem ser, de novo, mulas de carga."
Num ambiente familiar confiável, é possível, entre pais e filhos, um diálogo mais eficaz e procrastinar um presente, uma recompensa não é tarefa difícil: "agora não te posso comprar o computador mas vamos ver se no Natal...". O mesmo não acontece com pais que não cumprem as promessas.
Um ambiente confiável é então fundamental para que um resultado seja aquilo que pretendemos.
Há, no entanto, ambientes políticos pouco confiáveis: aqueles que pedem dinheiro mas acham que "na realidade, as dívidas não são para ser pagas " (Sócrates), ou acham que "se alguém me emprestou dinheiro, esse alguém é que fica com o problema" (Carlos Carvalhas), ou, pura e simplesmente, ser caloteiro "não pagamos" e, finalmente, a solução do "rapaz da bomba atómica" que considera que a dívida pode ser usada como pressão sobre os credores que perante o "não pagamos" não têm outro remédio senão ficarem sem o dinheiro e só de ouvirem falar nisso ficam cheios de tremeliques.
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* Celeste Kidd , Holly Palmeri, Richard N. Aslin., " Rational snacking: Young children’s decision-making
on the marshmallow task is moderated by beliefs
about environmental reliability", Cognition, pag.109-114
29/09/15
Marshmallow, austeridade e eleições
Talvez aqui!
No final dos anos 60 e início dos anos 70, foi realizada uma experiência famosa, em psicologia, conhecida como Experiência Marshmallow de Stanford, liderada pelo psicólogo Walter Mischel, da Universidade de Stanford. Pretendia-se saber como era a capacidade das crianças se controlarem e de resistirem às suas invejas.
Resumidamente, a experiência consistia no seguinte: Era oferecido às crianças da experiência, com média de idades de 4 anos e meio, a escolha entre uma recompensa (normalmente um marshmallow) entregue imediatamente ou duas recompensas (dois marsmalows) se esperassem até que o investigador voltasse cerca de 15 minutos depois.
A verdade é que algumas crianças eram capazes de esperar esse tempo para receberem a segunda recompensa.
Em estudos de seguimento (follow-up) os investigadores descobriram que as crianças que foram capazes de esperar mais tempo pela possível recompensa apresentaram tendência de ter melhor êxito na vida: vistos pelos pais como adolescentes mais competentes, obtinham melhores resultados em testes padronizados, e tinham melhor tempo de reacção na realização das tarefas. *
Esta capacidade poderia vir da perspectiva temporal de cada um. As nossas decisões, juízos e comportamentos são fortemente afectados pela nossa maneira de ver o tempo. Esta perspectiva temporal seria construída num processo de representação, havendo uma origem social e cultural desta variável psicológica individual…
A perspectiva temporal passado, presente e futuro da criança que tem capacidade para esperar ou não define tipos de personalidade diferentes. **
Outras pesquisas (Zimbardo) mostraram também que o perfil temporal do indivíduo podia ajudar a fazer boas ou más escolhas na nossa vida. Uma perspectiva baseada num passado positivo, um forte élan para o futuro e uma ligação para viver o presente, pode ser uma combinação vencedora na nossa vida.
Podemos dizer que na nossa vida colectiva se passa a mesma situação, quando os partidos fazem promessas que se traduzem por recompensas imediatas, as pessoas , dada a sua experiência do passado, não acreditam.
Algumas governações desastrosas e temerárias levaram os respectivos países a programas de resgate dolorosos para alguns sectores da população, principalmente para a classe média.
Claro que muitos cidadãos perceberam e também ficaram com memória dessa situação. Uma cidadã grega, numa entrevista de rua, era questionada pela jornalista sobre o que pensava do situação no seu país (novo resgate). A sua resposta foi mais ou menos a de que deviam fazer alguns sacrifícios durante algum tempo para, no futuro, a vida do dia a dia ficar mais equilibrada.
Em particular, em Portugal, as pessoas também perceberam isso: Uma perspectiva de futuro melhor. Basicamente, trata-se de fazer alguns sacrifícios agora para depois os nosso filhos e os nossos netos, como costumamos dizer, poderem ter uma vida melhor ou sem sobressaltos como actualmente.
A passividade que alguns atribuem aos portugueses, devia antes ser vista como a sua grande capacidade de espera em tempos melhores e de entender a vida como uma perspectiva temporal global. E, acima de tudo, significa a sabedoria das pessoas de que é sempre preferível ter algum tempo de espera agora para poder ter, no futuro, um tempo melhor.
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* Foram também encontrados correlatos biológicos: Um estudo de imagens cerebrais de uma amostra de participantes da experiência original de Stanford, realizado quando eles alcançaram a meia idade mostrou diferenças fundamentais entre os que manifestaram alto ou baixo tempo de espera pela recompensa, em duas áreas: o córtex prefrontal (mais ativo nos grandes retardadores) e o striatum ventral (área relacionada a dependência de drogas) quando tentavam controlar suas respostas a sedutoras tentações.
**Morsa, Maxime, "Quelques choses à retenir du temps qui passe", le cercle psy, nº 15, Dec 2014, Jan/Fev 2015, pag. 84-87.
**Morsa, Maxime, "Quelques choses à retenir du temps qui passe", le cercle psy, nº 15, Dec 2014, Jan/Fev 2015, pag. 84-87.
28/09/15
25/09/15
Um mundo melhor: Sinais de esperança
As informações que nos chegam não são de forma a pensarmos que vivemos no melhor dos mundos. E mesmo algumas notícias positivas não nos deixam confortáveis com o que foram as realizações do ser humano até aos nossos dias.
Como vemos, há dados objectivos e positivos para pensarmos que o nosso trabalho e o das gerações anteriores não foi em vão.
Pelo contrário procuramos saber se não retrocedemos em todas as vertentes da nossa vida. Sendo o declínio aquilo que é mais perceptível não conseguimos ver o mundo com um olhar positivo, temos dificuldade em memorizar o nosso passado: as dificuldades do pós-guerra em que os nossos pais ou avós viveram, esses sim, foram verdadeiramente tempos difíceis.
Também verificamos que a par do progresso material na saúde e na vida social, o crescimento da riqueza no mundo desenvolvido devia ter maiores consequências no bem-estar da população.
As doenças psicológicas, principalmente depressão em pessoas cada vez mais novas, chamam a atenção para as questões das emoções positivas mas também do empenhamento em actividades com significado na conquista do bem-estar, da realização e da felicidade. (Seligman).
Mas se deixarmos um pouco o nosso umbigo e tivermos uma visão mais geral poderemos verificar que há muitos sinais de esperança porque o mundo está efectivamente melhor, como se refere aqui: 26 charts and maps that show the world is getting much, much better by Dylan Matthews (2015). Apenas um breve resumo:

- A extrema pobreza diminuiu. Houve um declínio enorme da parte da população mundial vivendo com menos de US $1,25 por dia, de 53% em 1981 para 17 %, em 2011. (Alguns especialistas em desenvolvimento consideram que se devia usar um nível de pobreza global de US $ 10-15 por dia).
- A fome diminuiu.
- O trabalho infantil está em declínio.
- As pessoas nos países desenvolvidos têm mais tempo livre .
- A parte do rendimento gasto em alimentação diminuiu nos EUA , em 1960 de 17,5 para 9,7 %, em 2007.
- Nos cuidados de saúde, a expectativa de vida está a crescer - globalmente, a expectativa de vida para homens e mulheres aumentou seis anos de 1990 a 2012, mas os ganhos foram mais altos em países de baixos rendimentos, que viram um aumento de cerca de nove anos para homens e mulheres.
- A mortalidade infantil está a cair. A taxa de mortalidade infantil em crianças até aos cinco anos no mundo desceu para metade em 25 anos, entre 1990 e 2015. Mas embora os progressos globais tenham sido substanciais, 16 mil crianças continuam a morrer diariamente antes de completarem cinco anos de idade. O número equivale a 11 mortes por minuto.
- A morte devida ao parto é mais rara, e caiu 45 % entre 1990 e 2013 (Organização Mundial de Saúde).
- A maternidade em mães adolescentes caiu nos Estados Unidos.
- Comportamentos pouco saudáveis como o consumo de tabaco tem vindo a diminuir desde 1955, quando 45% dos americanos fumavam para 21%, em 2014.
- Os crimes violentos nos Estados Unidos estão caindo (tal como em Portugal).
- Houve redução das armas nucleares.
- Cada vez mais países são democracias.
- Mais pessoas frequentam a escola durante mais tempo. A literacia está previsivelmente a subir.
- Nos EU a população dos sem-abrigo diminuiu cerca de 32 %, desde 2007.
No capítulo da paz e segurança: A guerra, embora possa não parecer, está em declínio. Taxas de homicídios estão caindo na Europa e nos E.Unidos. Como diz Steven Pinker (2011), acreditamos que o nosso mundo está cheio de terror e guerra, mas nós podemos estar vivendo na era mais pacífica da existência humana. Porque a brutalidade está em declínio e a empatia está em ascensão.
Mesmo não estando satisfeitos com os resultados, é necessário pensar que está nas nossas mãos contribuir para fazer um mundo melhor, desde logo sendo nós próprios melhores pessoas e depois aqueles que nos estão mais próximos.
Hoje apetece-me ouvir
Lila Downs - La cumbia del mole
Sophie Cruz conseguiu estar com Francisco. "Tengo miedo de que se lleven a mi familia". Os pais foram de Oaxaca, Mexico, para os EUA, onde trabalham, sem "papéis".
23/09/15
Vendavais
Em 2015, o início do Outono em Portugal ocorreu às 08h21 do dia 23 de Setembro.
Em "E tudo o vento levou", de Margaret Mitchell, nostalgia de uma vida de paz e bem-estar sobre os destroços da guerra de secessão dos EUA, Scarlett O'Hara, à vista de Tara, promete que nunca mais haverá aquela miséria. Um objectivo para uma vida e para um país.
Quando era pequeno havia uma cantiga assim: O vento de Outono/ tão triste a chorar /percorre campinas/e geme ao passar/vento de Outono/ contigo eu vou/ chora a beleza/ que o tempo levou.
Aparecem os primeiros frios, chuvas e ventos, as folhas das árvores mudam de cor, muitas acabam por cair. No nosso imaginário, vento e vendavais ocupam um lugar preferencial. Músicos e poetas não escapam a esta influência.
Aparecem os primeiros frios, chuvas e ventos, as folhas das árvores mudam de cor, muitas acabam por cair. No nosso imaginário, vento e vendavais ocupam um lugar preferencial. Músicos e poetas não escapam a esta influência.
Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.
...
Tu és folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...
Cecília Meireles, Canção de Outono
menos que as folhas do chão...
Cecília Meireles, Canção de Outono
Seja de que estação for, o vento é tema e pretexto para quase tudo o que se passa na nossa vida, paixões, política, o vento fala e o vento cala, pouco importam as contradições que coloca na nossa vida, sendo ao mesmo tempo destruidor e apaziguador, para uns ele leva para outros traz, para uns tem a resposta para outros não. O vento ameno do Outono é instável e agressivo no Inverno, mas leva os beijos dos amantes, que, mesmo que leve as cantigas, permanece o seu perfume manso, revivendo a saudade, no monte dos vendavais é a nossa vida que se joga, I hated you, I loved you too, podemos pintar com todas as cores do vento, e podemos sempre esperar pelo vento da mudança. Podemos? Que mudança?
Em "E tudo o vento levou", de Margaret Mitchell, nostalgia de uma vida de paz e bem-estar sobre os destroços da guerra de secessão dos EUA, Scarlett O'Hara, à vista de Tara, promete que nunca mais haverá aquela miséria. Um objectivo para uma vida e para um país.
E tudo o vento levou - Tema de Tara
É equivalente a "E nada o vento levou", de Helena Sacadura Cabral, ou seja, "apesar de toda a destruição da guerra, do vendaval das paixões, dos conflitos sociais e pessoais, nada pode tirar o que verdadeiramente importa na nossa vida. São, aliás, as adversidades que nos fortalecem, aquilo por que se luta e em que se acredita faz parte da nossa existência e marca-nos tanto como os genes que transportamos."
Bob Dylan - Blowing in the wind
The answer my friend is blowing in the wind
The answer my friend is blowing in the wind
The answer is blowing in the wind
Marlene Dietrich - Blowing in the wind
Adriano Correia de Oliveira - Trova do vento que passa
Amália - Trova do vento que passa
"pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
o vento cala a desgraça
o vento nada me diz"
Blowing Kisses In The Wind, Paula Abdul
"mandando beijos ao vento
Esperando, esperando, esperando
Esperando por você é
É como soprar, soprar beijos"
"A lembrança dos teus beijos
Inda na minh’alma existe,
Como um perfume perdido,
Nas folhas dum livro triste,
Perfume tão esquisito
E de tal suavidade,
Que mesmo desapar’cido
Revive numa saudade!"
Mariza - Alma de vento
Kate Bush - Monte dos vendavais (Wuthering Heights)
"Heathcliff, sou eu, sou Cathy, voltei p'ra casa
Estou com tanto frio, deixa-me entrar na sua janela
Estou com tanto frio."
Pharrell Williams - Gust of Wind
Como uma rajada de vento
Tu me atinges às vezes
Como uma rajada de vento
Empurras-me de vez em quando
Como uma rajada de vento
Lembras-me que há alguém lá em cima
Que move
O ar que preciso para me fortalecer
Jorge Palma - ser do vento
"como se o vento fosse todo o meu resguardo"
Pocahontas - Colors Of The Wind
"Já ouviu um lobo uivando para a lua azul
Será que já viu um lince sorrir,
E é capaz de ouvir as vozes da montanha
E com as cores do vento colorir...
E com as cores do vento colorir."
Scorpions - Wind Of Change
"Leve-me à magia do momento
Em uma noite de glória
Onde as crianças do amanhã ficam sonhando
No vento da mudança."
Chopin Etude Op.25 No.11 - winter wind
21/09/15
Crescimento - paraíso perdido
O crescimento tem vindo a ser visto por alguns, gurus da economia, políticos de todos os quadrantes, principalmente os responsáveis pelos programas de ajustamento, pedintes de troicas e pecs, como a panaceia para resolver os nossos problemas (e os de todo o mundo). É o crescimento mágico, paraíso, a solução "milagrosa"...
A solução do crescimento mágico, tornado realidade-pesadelo, entre outros males, tem rebentado com o equilíbrio ecológico, tem imposto um desnivelamento cada vez maior entre norte e sul, leste e oeste, entre pobreza e riqueza: deslocalização de empresas e consequente desemprego, degradação de ecossistemas, migrações (mediterrâneo, sudoeste asiático), nacionalismos exagerados, guerras...
Por exemplo, o caso do crescimento de Detroit, teve como consequência a insolvência de Detroit. "Veio mostrar como tudo isto é imprevisível e de como tudo se pode desmoronar quando não é sustentável.
O que se passou com Detroit? A cidade que se tornou no século XX o maior centro mundial da indústria automobilística, na década de 1970, entrou em recessão económica, por causa da crescente concorrência de companhias japonesas produtoras de automóveis, e em 18 de Julho de 2013 a cidade declarou bancarrota, tornando-se a maior cidade dos Estados Unidos a declarar bancarrota.
O valor da dívida, adianta por seu lado o New York Times, não é consensual, variando as estimativas "entre os 18 biliões e os 20 biliões de dólares".
O automóvel tornou-se objecto fetiche de consumo generalizado, o paraíso automóvel, tornou-se um pesadelo individual e social.
Automóvel - paraíso perdido é uma publicação já antiga (tr. port. de 1974), alertava para "as raízes de um fenómeno que, a nível individual, faz com que a generalidade das pessoas sintam que viver sem ter o direito reconhecido de coduzir um automóvel não é serem cicidadãos totais da sociedade industrial".
Em texto de Ricardo Abramovay, ninguém nega que "a conquista da mobilidade foi um ganho extraordinário, para as pessoas e para a sociedade. As cidades passaram a ser diferentes "e a sua influência exprime-se no próprio desenho das cidades. Entre 1950 e 1960, nada menos que 20 milhões de pessoas passaram a viver nos subúrbios norte-americanos, movendo-se diariamente para o trabalho em carros particulares. Há hoje mais de 1 bilião de veículos motorizados. Seiscentos milhões são automóveis."
"A produção global é de 70 milhões de unidades anuais e tende a crescer. Uma grande empresa petrolífera afirma em suas peças publicitárias: precisamos nos preparar, em 2020, para um mundo com mais de 2 biliões de veículos.
O realismo dessa previsão não a faz menos sinistra. O automóvel particular, ícone da mobilidade durante dois terços do século 20, tornou-se hoje o seu avesso."
Hoje existem mais de um bilião de veículos no mundo, e dentro de vinte anos, o número vai dobrar, em grande parte, consequência da China e do crescimento explosivo da Índia.
Os especialistas de transporte Daniel Sperling e Deborah Gordon explicam como chegamos a este estado, e o que podemos fazer sobre isso. Sperling e Gordon atribuem a culpa directamente à indústria automobilística, às políticas governamentais de visão curta e aos consumidores.
Alguns autores têm vindo a chamar a atenção para o problema do crescimento sustentável. Em vez disso, os políticos vêem/lêem empobrecimento, e em vez disso os economista do crescimento vituperam a austeridade. Quando passam à prática não têm alternativas: Hollande em França, Tsipras na Grécia nem sequer um compromisso conseguiu até esta data ...
No entanto, a austeridade continua a ser a má da fita. É assim que vários teóricos, gurus da economia e simpáticos crescimentistas (ver textos de Tavares Moreira no Quarta República) têm defendido a antiausteridade. De facto, são palavras doces para os ouvidos mas que a realidade desmente..
As universidades embandeiram em arco com esses representantes da antiausteridade que têm consigo a salvação. No meu pequeno país, mas grande em generosidade, Paul Krugman recebeu duma assentada, com grande pompa e circunstância, três galardões - Doutoramento Honoris Causa pelas Universidade de Lisboa,Universidade Técnica e Universidade Nova (2012).
"Reafirmou as suas posições de feroz adversário das políticas de austeridade, o que é simpático para os portugueses e nem tanto assim para o governo; mas reafirmou também que os salários deveriam descer entre 20 e 30%, o que inverte a ordem da simpatia. O que vale – e o que ele provavelmente não sabe - é que já não deve faltar muito para atingir esse desiderato. Valha-nos (mas pouco, porque dentro de poucos anos iremos querer muito ter salários como os deles) que também afirmou que Portugal não tem que reduzir os salários para os níveis chineses.
Ficava no ar um certo tom de contradição: como é que se pode ser contra as políticas de austeridade e defender reduções de salários?"
De facto, nem tudo o que parece, é. Os economistas não se entendem quanto às soluções para resolver este assunto e as falhas na investigação parece que não ajudam a credibilidade dos seus autores e das soluções propostas.
Por outro lado, Pickety "decretou" que "em Portugal a dívida vai ser reestruturada". Ora, ele é que sabe. E já agora, a folha de excel da troica não é melhor do que os palpites destes crescimentistas ? Isto não é meter-se onde não se é chamado ? A troica é que nos humilhava e os que dão palpites a torto e direito ?
O interessante disto tudo é que a austeridade iniciou-se em Portugal pelo governo PS mas esqueceram-se rapidamente. Em 30/09/2010: "O ministro da Economia, Vieira da Silva, defendeu hoje a importância das medidas de austeridade anunciadas pelo Governo, dizendo que são "fundamentais" para o crescimento económico do país. Julgo que é indiscutível para a maioria dos economistas, que a médio e longo prazo, estas medidas terão um feito positivo", declarou o governante, dizendo ter "a esperança" de que o aumento do IVA e o corte dos salários na Função Pública possam "gerar dinâmica na procura externa".
No final da sua intervenção, que marcou o início da conferência, Vieira da Silva abordou as medidas de austeridade anunciadas na quarta feira pelo Governo para reduzir a despesa pública, entre as quais se inclui a subida do IVA de 21 para 23 por cento e os cortes de 5 por cento na massa salarial da Função Pública.
"As metas que o Governo tem apontado para o crescimento económicos são muito prudentes, não fizemos estimativas baseadas na vontade, mas no realismo", afirmou o governante, justificando assim a convicção de que as previsões de crescimento económico serão concretizadas.
Sobre a contestação que as medidas anunciadas pelo Governo estão já a gerar entre os funcionários públicos e os sindicatos, Vieira da Silva declarou: "a contestação é algo que faz parte da vivência do regime democrático. Ao governo compete fazer o seu trabalho, que é tomar as medidas e chamar a tenção dos portugueses para os riscos que Portugal correria se não as tomasse".
De facto, há alternativas que não são as badaladas pelos simpáticos crescimentistas nem enredadas nas investigações dos peritos.
Aos países e às pessoas interessa a prosperidade, entendida como algo mais do que o crescimento económico, como refere Tim Jackson: “Definitivamente, não é apenas a capacidade económica de um país, medida pelo PIB”, diz. Segundo ele, quando buscam prosperidade, as pessoas almejam mais do que dinheiro: querem saúde, solidez na família, na comunidade em que vivem… “Todos propósitos que vêm sendo debilitados em nome do crescimento económico”, lamenta.
Um pequeno exercício sobre crescimento vs austeridade poderá indicar-nos como há crescimento virtuoso e austeridade virtuosa e crescimento vicioso e austeridade viciosa.
1. Mais crescimento e mais austeridade é o que conseguem fazer países com elevado crescimento mas onde a vida das pessoas continua cada vez mais difícil. A existência de matérias primas como o petróleo podia servir para levar mais bem-estar às pessoas e o que acontece é que, em muitos desses países, tudo mudou para pior, sendo a guerra com outros povos ou os conflitos internos que dominam este tipo de sociedades, normalmente não democráticas. Petróleo e paz dificilmente se conjugam.
2. Menos austeridade e mais crescimento é o que têm vindo a apregoar teóricos da economia e políticos crescimentistas de que na Europa os socialistas são um bom exemplo. E é o caminho que vai levar ao desastre: manter o "estado social" (quantas vezes simplesmente não passa de ostentação do estado: ppp rodoviárias, fundações, parque escolar...) com mais dívida.
3. Mais austeridade e menos crescimento tem sido o resultado das políticas aplicadas após a falência de alguns países como na Europa, que levam à necessidade de mais resgates.
4. Talvez reste a possibilidade de uma menor austeridade e de um crescimento menor desde que sustentados. Não vai ser possível continuarmos a viver neste mundo de recursos finitos do mesmo modo que o temos feito. A prosperidade é então uma coisa diferente de consumismo, de consumir para crescer, mas ter padrões de consumo ecológicos, produzir a preços acessíveis, regulados de forma equitativa para todos os países, sem trabalho infantil, sem trabalho sem regras, sem horários descontrolados... que levam à distorção de preços, a concorrência desleal, ao dumping, desemprego, ...
Pode haver "prosperidade sem crescimento".
"Prosperidade sem crescimento foi primeiro publicado em 2009 e colocou em linhas claras um debate de importância vital: para vivermos bem, para sermos «prósperos» e usufruirmos de bem-estar, será realmente necessário que haja crescimento económico? A resposta de Tim Jackson é taxativa: não."
"Mais do que crescimento interessa o florescimento e felicidade. Prosperidade quer dizer que as coisas vão bem para nós. Pergunte às pessoas o que isso significa na prática e elas falarão espontaneamente de sua família, relacionamentos, amigos, segurança. Ter um emprego decente. Sentir-se parte da comunidade. Participar de maneira significativa da sociedade. Prosperidade tem a ver com dar-se bem na vida. Significa florescer - no sentido amplo da palavra."
"O que quer que o futuro nos reserve, uma coisa está clara: a mudança é inevitável. Não existe um cenário confortador no qual simplesmente continuaremos do mesmo jeito. Os que esperam que a economia do crescimento conduza a uma utopia materialista vão se decepcionar. Simplesmente não temos a capacidade ecológica de realizar esse sonho. No final do século, deixaremos nossos filhos e netos com um clima hostil, os recursos naturais exauridos, a perda de habitats, a dizimação de espécies, a escassez maciça de alimentos, a migração em larga escala e a guerra quase inevitável.
"Porque, no fim das contas, a prosperidade vai além dos prazeres materiais. Ela transcende as preocupações materiais. Ela reside na qualidade de nossa vida e na saúde e felicidade de nossa família. Ela está presente na força de nossas relações e de nossa confiança na comunidade. Está evidente em nossa satisfação no trabalho e em nosso senso de significado e propósito compartilhados. Apoia-se em nosso potencial de participar plenamente da vida em sociedade."
"A prosperidade consiste em nossa capacidade de progredir como seres humanos - dentro dos limites ecológicos de um planeta finito. O desafio para nossa sociedade é criar as condições para que isso se torne possível. Essa é a tarefa mais urgente de nosso tempo."
20/09/15
Terapia cognitiva
Lamento saber que sofres frequentemente de gripe, e daquelas febres ligeiras e irritantes que as gripes prolongadas, e já quase ininterruptas, arrastam consigo. E lamento-o tanto mais quanto eu próprio também experimentei esse tipo de doença. A principio não me preocupei: a minha juventude era ainda capaz de aguentar as maleitas e de resistir bravamente aos ataques da doença! Mas por fim fui-me abaixo, e cheguei ao ponto de ficar quase tuberculoso e reduzido a uma extrema magreza. Muitas vezes senti vontade de pôr termo à vida. O que me reteve foi a avançada idade do meu muito querido pai. Em vez de pensar no ardor com que seria capaz de enfrentar a morte, decidi pensar antes como ele desejaria ardentemente que eu não morresse! Assim, impus a mim mesmo a obrigação de viver. E a verdade é que por vezes continuar vivo é dar mostras de coragem!
Antes de dizer-te como é que me consolava da doença, dir-te-ei apenas isto: o próprio facto de me resignar a estar doente já me servia de remédio. De facto, formas dignas de consolação acabam por tomar-se medicamentos; e tudo quanto nos fortalece a alma transforma-se em benefício para o corpo. Os meus estudos restituíram-me a saúde. É à filosofia que devo a minha convalescença, a minha recuperação; a ela devo a vida - aliás, a menor dívida de gratidão que tenho para com a filosofia. Também contribuíram para eu recuperar a saúde os meus amigos: nos seus conselhos, na sua companhia, na sua conversa encontrei uma grande consolação. Lucílio, meu excelente amigo, nada ajuda tanto um doente a recuperar como a afeição dos amigos, nada é mais eficaz para afastar de nós a expectativa e o medo da morte. Digo-te: eu imaginava que continuaria a viver, não já na companhia deles mas através da sua memória; dava-me a sensação de que não exalaria definitivamente a alma, mas sim que a confiaria nas suas mãos. Estes pensamentos deram-me a força de vontade para me ajudar a mim mesmo e para suportar todos os sofrimentos. O cúmulo da infelicidade seria, isso sim, ter perdido a vontade de morrer e, simultaneamente, não ter coragem para viver!
Recorre tu também a remédios idênticos a estes. O médico há-de indicar-te até que ponto podes andar a pé ou fazer exercícios, ele te dirá que não caias na indolência que é o que a falta de forças tem tendência a fazer; prescrever-te-á que leias em voz alta, como forma de exercícío para as tuas vias respiratórias bloqueadas; que andes de barco para o balanço ginasticar os teus pulmões; dir-te-á o que podes comer, quando é que deverás beber vinho para ganhar força ou quando o deves evitar para não provocar e aumentar a tosse. O remédio que eu, por minha parte, te receito é válido não apenas para a tua doença, mas para toda a tua vida: despreza a morte. Nenhum motivo de tristeza pode haver quando nos libertamos de morrer.
Em qualquer doença há três factores importantes a ter em conta: o medo de morrer, a dor física, a proibição temporária dos prazeres.
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Lúcio Aneu Séneca, Cartas a Lucílio, (Tr. J. A. Segurado e Campos), 2007, 3ª ed, Fundação Calouste Gulbenkian, Livro IX, Carta 78, pág 328-329. Sublinhados meus.
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